PESQUISA HISTÓRICA


Estou encaminhando uma cópia das minhas respostas ao Questionário Pesquisa, ao Estudioso RICARDO ARRAES, que elaborou sua TESE de DOUTORADO, e cujo tema central é sobre a História do Batalhão Suez naquela Missão no Oriente Médio.

Evidentemente que as minhas respostas pessoais não exprime a total realidade sobre o 10º contingente, longe disso, e muito menos, nem é nada oficial, mas como se afirma é minha opinião pessoal, com a intenção de colaborar com aquele estudante, bem como uma oportunidade a mais para a maior divulgação das Histórias que envolveram o Batalhão Suez.

=================================================================================

From: Theodoro 
To: RICARDO ARRAES
Sent: Wednesday, December, 03,2003 12:16 PM
Subject: QUESTIONÁRIO
Prezado RICARDO ARRAES
Espero e desejo que essas minhas opiniões possam trazer alguma luz às suas pesquisas, e também possa ser de alguma utilidade para as suas pesquisas, e sempre me disponho a colaborar com o amigo, na medida das minhas limitações. Deixo aqui meus respeitos, minha admiração e ainda meus votos de pleno sucesso no encerramento dos seus trabalhos de defesa e apresentação final de sua tese.
Um cordial abraço - Theodoro.

 =================================================================================

 O QUESTIONÁRIO

1)- Conte como foi a sua trajetória antes e depois de entrar no Exército Brasileiro?

Resposta:  Procedência de família pobre, meu pai era Ferroviário e tinha oito filhos para criar, eu era um deles, mesmo com dificuldades meus pais queriam que seus filhos continuassem estudando.

Tentei fazer minha parte,  com 13 anos já era aluno da Escola Profissional Ferroviária que além de garantir  o curso de 1º Grau (Curso Ginasial de antigamente), ainda formava alunos aptos a ingressar na vida Profissional em alguma profissão, onde preferencialmente, éramos admitidos na própria empresa Rede Ferroviária Federal, logo após conclusão do Curso de Formação.

Naqueles tempos o serviço militar obrigatório era mais rígido no sistema de recrutamento do que agora, uma vez que poucos jovens eram dispensados do serviço militar temporário, e eu quis adentrar na vida militar abandonando a idéia de ser ferroviário.  Nem cheguei a ser admitido na Ferrovia, e com pouco mais de 18 anos fui ser recruta no Quartel do Exército (na época 13º Regimento de Infantaria- hoje 13º BIB), aqui mesmo em minha cidade - Ponta Grossa - PR.

Passei então, a ser um Militar temporário, fui aprovado no Curso de Cabo, e tive que "dar baixa" 14 meses depois que havia adentrado ao Exército. Fiquei desempregado por cerca de 2 meses, quando então abriram-se as inscrições para ingressar no Batalhão Suez

Fui aprovado e reincorporando às fileiras do Exército, nas mesmas funções de Cabo da Infantaria.  Na seqüência submetido ao treinamento super-intensivo, no quartel da Vila Militar no Rio de Janeiro- "o 2º RI - Regimento Avaí".

Após quase três meses de treinamento embarcamos, no dia 06/12/1961, no Navio Transportes de Tropas  "ARY PARREIRAS" da Marinha de Guerra do Brasil, que transportou o 10º Contingente até Port Saíd no Egito.  30 dias foi a duração da viagem até o Oriente Médio, onde, enfim, integrei a Missão de Paz da ONU durante todo o ano de 1962 no III/2ºRI "Terceiro Batalhão do Segundo Regimento de Infantaria " essa é a denominação oficial do BATALHÃO SUEZ , onde o nome Btl.Suez é um nome fantasia, porém assim ficou conhecido devido a área de atuação da tropa brasileira no Oriente Médio, que ficava próximo a área do Canal de Suez.  

Cumprida a Missão, a viagem de retorno ao Brasil iniciou em 7 de janeiro de 1963, e desembarcamos no Rio de Janeiro no dia 12 de Fevereiro de 1963. Em seguida dei baixa do Exército e fui dispensado definitivamente em 26 de Fevereiro de 1963.

Adentrei à vida civil, reintegrando-me ao me dispor a trabalhar com a experiência adquirida nas areias do deserto da Faixa de Gaza, primeiramente na condição de Vendedor Viajante ( Caixeiro Viajante de antigamente). Voltei a Estudar e consegui graduar-me em Curso Superior. Mais tarde prestei concurso público e fui aprovado adentrando então na carreira de funcionário Público Federal, por onde consegui me aposentar nessa carreira.

2)- Diga como era feita a seleção para participar daquela missão de paz.

Resposta:  Para o meu ingresso na Missão de Paz, o Exército anunciou pela imprensa regional, que estaria recrutando voluntários para formar o 10º Contingente pelo Estado do Paraná. 

Inicialmente o 10º Contingente deveria ser formado apenas por soldados do Paraná e de Santa Catarina (da mesma forma como foi formado o 4º Contingente), os aprovados deveriam, numa data pré estabelecida, se apresentar em Curitiba, no quartel 20º Regimento de Infantaria (hoje 20º BIB - Batalhão de Infantaria Blindada).

Inicialmente, nos primeiros passo para o objetivo, os candidatos deveriam se inscrever na sua própria cidade de origem e em seguida submetidos a um rigoroso exame-médico e de aptidões físicas e moral, por uma Banca Médica do próprio Exército, na Unidade Militar mais próxima da sua cidade.

A cada dia e em blocos,  uma turma de 20 elementos submetiam-se aqueles exames iniciais, e aqueles que iam sendo aprovados, deveriam fazer exames clínicos e de laboratório complementares no Hospital do Exército em Curitiba. 

Ficamos adidos e a disposição do 20º RI em Curitiba, por alguns dias,  até que fomos embarcados numa composição ferroviária especial, que nos transportou até o Rio de Janeiro, e finalmente na Vila Militar do RJ, participando dos exercícios e instruções militares de toda ordem, no período desde meados do mês de setembro de 1961, até final de novembro de 1961, como parte integrante dos treinamentos e instruções para a grande Missão que nos aguardava no Oriente Médio.

O nosso 10º Contingente foi surpreendido há menos de 20 dias para o embarque ao Egito às exigências de um novo Exame Médico de caráter eliminatório. Por determinação do Comando do Exército, fomos  submetidos, por outra Banca Médica, a uma nova avaliação Física - Médicas  e condições de cada elemento, sendo que muitos companheiros sofreram o duro golpe de eliminação sumária, por critérios absurdos de última hora. 

Um dos itens mais determinantes foi a comparação Peso/Altura compatíveis, Altura mínima passou a ser de 1,70 m, quando até então era 1, 65m

Os desaprovados de última hora, imediatamente foram substituídos por candidatos de vários outros Estados, que também participavam dos treinamentos e instruções, na condição de reservas, e razão porque ao nosso 10º contingente incorporou soldados de quase todos os Estados do Brasil, o que acredito ter sido uma ótima representatividade, dando oportunidade para que cada Região do País estivesse representada naquela seleção. 

As condições primeiras para adentrar ao efetivo do Btl.Suez, como Cabos e Soldados, eram:

-    Ser Reservista da Infantaria, ou em alguns casos, estar muito próximo de         término do serviço militar, gozar de plenas condições físicas e mentais e bons antecedentes. Submeter-se ao intenso treinamento, recebendo as inúmeras vacinas no decorrer do período preparatório, e finalmente ser aprovado no número de vagas e/ou funções..

Salvo melhor juízo, nosso 10º Contingente agrupou 275 elementos, entre Oficiais e Praças. 

No dia 26 de novembro de 1961 fomos considerados prontos e aptos para representar o Brasil na Missão. Ganhamos uma Dispensa de 4 dias para as despedidas finais aos familiares.   Embarcamos para o Egito em 06 de dezembro de 1961.

3)- Conte como foi sua disposição de participar do BTL.SUEZ ?

Resposta:  Foi uma vontade de  firme propósito, um sonho inspirado no espírito militar adquirido dentro da própria caserna e tendo como principal fonte incentivadora outros soldados, que já tinham servidos em Suez nos Contingentes anteriores. 

Muitos dos soldados do 4º Contingente, quando voltaram da Missão do Egito, foram participar de uma formatura matinal no Quartel onde eu já era Cabo. Foi uma novidade inusitada que despertou a curiosidade dentro daquele Quartel.

Então vendo e admirando aqueles ex-soldados falantes, garbosos, apresentando aquela bonita e moderna farda, diferente ao que  usávamos na ativa, com aquela bonita Boina Azul de cor celeste quando ainda não se conhecia os novos costumes, pois até então usava-se aquele antigo uniforme "gandola", todos esses fatores encantaram a muitos. Em mim, desde aquele momento, bateu uma inexplicável vontade de um dia ser um Soldado da Paz e também ir servir no Egito, até que um dia acabou acontecendo, para minha total felicidade.

4) Fale sobre os preparativos para a Viagem...

Resposta:  O mais difícil foi dominar a ansiedade, e a necessidade de ajustar todos os mínimos detalhes, ademais, nos finalmentes, tudo se transformou em acontecimentos de absoluta normalidade tendo em vista a vivacidade tão normal nos jovens, uma vez que estávamos dentro do próprio Quartel, e onde  fomos recebendo os equipamentos, aprovisionamentos de campanha,  já previamente determinados pela Experiência dos contingentes anteriores. De forma que íamos acondicionando todo material de uso pessoal recebido, dentro daqueles sacos de viagem padronizados. Era enfim, nossa bagagem.

Nossa indumentária nunca fugiu dos padrões do Exército Nacional. O Fardamento especial, com seus modelos diferenciado eram fabricados nas Unidades específicas do próprio Exército, no Rio de Janeiro, incluindo-se os calçados, roupas para dormir, estojos e material de higiene pessoal, etc.

Cada soldado ganhou dois sacos enormes de lona - para a bagagem pessoal - onde deveríamos acondicionar, individualmente, todos  os nossos pertences

Fomos aprendendo a dobrar e guardar devidamente cada utilidade, cada peça de vestuário militar,  e na noite que antecedeu o embarque fizemos uma checagem geral, obedecendo os padrões para o momento, por ordem do comando Geral do Contingente. 

Quando finalmente chegou o momento do embarque o serviço de logística deu toda cobertura, segurança e garantias de total confiança, e tudo obedecendo ao cronograma pré-estabelecido foi cumprido.

Quatorze meses depois,  voltamos do Oriente Médio com a mesma confiança inicial, porém com muita experiência pessoal adquirida, e tudo em ordem.

 

5) - Fale sobre a sua expectativa de viagem para o exterior e para outro país.

Resposta: Um natural  estado de ansiedade em quase todos os elementos durante os preparativos, pois afinal de contas, todos éramos ainda muito jovens e inexperientes, estávamos na faixa etária em torno dos 20 a 22 anos de idade. Sentíamos o peso da grande responsabilidade, embora confiantes, mas o sentimentalismo de uma saudade familiar antecipada era notório, todos tristes em deixar o lar e a Pátria, rumo ao desconhecido.  

Tínhamos poucas e inexpressivas informações sobre a Missão que iríamos encarar, nem sabíamos devidamente o que nos aguardava, quase nada sabíamos sobre o Egito e sobre a vida no deserto, era difícil acreditar que no deserto fazia frio, uma vez que estávamos saindo do Brasil num dia de verão, com um intenso calor.

Nunca tinha viajado em navio, e nem esperava os enjôos do balanço do navio que castigou a todo mundo no inicio, aos poucos fomos melhorando e se adaptando e vencendo o primeiro desafio, não obstante tenhamos enfrentados uma tempestade, nas vésperas do Natal de 61, em pleno Mar do Mediterrâneo.  

Então, por cima de todos os sentimentos, predominava o espírito de aventura, tão natural em todo ser humano, e nesse clima guardávamos o sentimento e a certeza de que tudo iria dar certo. Sempre contávamos com a possibilidade de algum imprevisto, um  incidente e/ou contratempo, mas no fundo guardávamos uma grande dose de confiança e firmeza, aliados a muita disposição e vontade de vencer. Estávamos preparados  fisicamente e militarmente para a Missão.

6)Diga o que o Sr. conhecia e quais eram suas impressões anteriores a viagem a cerca do Oriente Médio (povo, cidades, histórias e cultura).

Resposta:  Naqueles tempos as informações eram precárias, lentas  e limitadíssimas, não se conhecia ainda o sistema de Televisão, que apenas estava engatinhando no Brasil. Os conhecimentos sobre história e cultura dos povos Árabes, e também europeus, se limitavam ao que se aprendia nos bancos escolares. 

Lembro que no Livro de História Geral, do então 3º ano ginasial, a capa daquele livro era estampada com uma foto, em tons amarelos, da Esfinge do Egito, pois naquela série estudava-se História antiga., e a capa do livro já era uma grande motivação para uma iniciação de conhecimentos daqueles povos. 

Sem dúvidas o Egito e as Histórias antigas da humanidade despertavam muito a atenção entre os alunos. Aquela figura da Esfinge fascinava a todos, aliás, o Egito e seus Faraós,  evocam  a um enigma e se transforma numa eterna atração, um eterno ícone da história antiga.  Oriente Médio considerado como berço da civilização ocidental estaria sendo o palco de atuação da maior experiência da vida daqueles jovens Soldados da Paz.

 

7)- Diga qual foi seu primeiro contato com uma maquina fotográfica, e fale da sua experiência anterior com fotografias

Resposta:  Os costumes e as experiências em cidade do interior, com fotografias, eram quase nulos. Algumas poucas famílias possuíam uma daquelas máquinas antigas, uma espécie de caixa, com um filme que não ultrapassava a capacidade para dez fotos. Era um sistema muito rústico. Não se conhecia a enorme diferença de qualidade em relação às máquinas fotográficas com filmes de 35 mm.

Ao chegar na Faixa de Gaza, na convivência com os soldados mais antigos que lá já se encontravam, e com os quais tivemos uma vivência de pouco mais de seis meses, fomos aprendendo aos poucos todos os "macetes" a lidar com as novas e modernas máquinas de tirar fotografias.  

Desde os primeiros dias de deserto, ficamos sabendo das possibilidades, que cada soldado tinha direitos de efetuar compras na cantina existente na base maior do Btl.Suez, dentro das limitações de cada elemento.

Era o chamado Sistema de Cantina "GOODS AND ATTRACTIVES" para toda a tropa, era um dos objetos mais desejados, desde o inicio, sempre foram as máquinas de fotografias. Estava a nossa disposição para aquisição através desconto no pagamento, as mais variadas marcas de fama internacional. Evidentemente havia uma variedade de oferta de outros objetos como rádios, toca-discos, relógios, canetas, e muitas outras "bugigangas" e bem como, toda linha de produtos para uma boa foto, nosso maior objeto de desejo.

Graças ao conhecimento dos soldados mais antigos, e aos poucos, fomos aprendendo a lidar e a manusear a máquina, as primeiras fotos eram feitas com câmeras emprestadas dos soldados antigos, o grande sonho de cada soldado era muito logo adquirir sua própria máquina. 

Enquanto isso, a brincadeira que se fazia com os novatos, era chamá-los de "gravateiro", a cada péssima foto tirada era reconhecida como uma "gravatada", e depois de tanto errar e cometer suas "gravatadas" cada elemento foi aprendendo, razão primeira de que se tiravam muitas fotos compulsivamente, pois  queríamos estar devidamente e definitivamente preparados e conhecendo bem o manuseio e a todos os demais "macetes" de uma boa foto, e manealibilidade com a  moderna e nova máquina fotográfica, para quando então, estivéssemos a passeio em cidades e locais como Cairo, Líbano e/ou Jerusalém, que eram ofertadas pela própria ONU, tirar nossas próprias fotos  e evitar as "gravatadas."

A cada três meses de bons serviços prestados no deserto, ganhávamos o direito a 5 dias de folga para os determinados passeios e programados e ofertados pela ONU. Momentos em que todos sonhávamos com essa grande oportunidade de conhecer cidades e lugares importantes e famosos. E assim fomos adquirido, vagarosamente, certos conhecimentos sobre a arte de fotografar. 

Muitos aprenderam ao nível profissional, tanto é que ao retornarem ao  Brasil  criaram lojas e passaram a se dedicar na comercialização e nas atividades de fotógrafos profissionais, graças aos conhecimentos adquiridos no deserto.

Era ainda mais comum praticar fotografia nos nossos passeios de finais de semana à cidade de Gaza, desde que estivessem em dia de folga e o seu comandante direto o permitissem. 

A cidade de Gaza foi para muitos o local ideal para o aprendizado fotográfico.

 

8) Comente o porquê da necessidade de fotografar os passeios, os momentos de descontração, as cidades, os colegas, operações militares, feiras, a população e prédios em geral.

Resposta:  Era fundamental testemunhar todos os fatos vividos naquela nova experiência de vida, estávamos longe da Pátria e do lar. Um euforismo incontrolado diante do inusitado e das paisagens ou costumes diferentes,  que nunca imaginávamos ver, onde nada melhor do que eternizar alguns momentos que pudessem relembrar a grande oportunidade, ademais era uma um "luxo" e uma paixão humana do momento a arte de fotografar.

Pessoas famosas e conhecidas publicamente, sempre estavam portando uma máquina fotográfica, então era natural aquele desejo consumista daqueles jovens brasileiros que se comportavam como verdadeiros turistas nos locais mais famosos do mundo. 

O Oriente Médio sempre foram o alvo das atenções de toda humanidade, e nós estávamos bem ali reunindo o chamado útil ao agradável. O desempenho de cada fotógrafo amador estava condicionado ao domínio de bem fotografar então a cada momento e tudo ou qualquer tema serviria de inspiração compulsiva, para registrar o momento da emoção momentânea. 

Os filmes para SLIDES, eram uma grandiosa novidade, mas nem sempre se confiava na boa qualidade, ou até havia a possibilidade de se perder aquela foto pretendida, e então repetiam-se exaustivamente e a todo instante o ato de clicar segundo a cada intuição.

Sempre nos reuníamos para mostrar como ficaram as nossas fotos, da mesma forma era um orgulho próprio comprovar que também estivemos marcando presença nos mais variados e importantes locais de turismo e das atividades de caserna.

Na verdade a grande maioria das fotos foram longe da caserna, pouquíssimas fotos nas unidades de ação militar, sem que se saiba ao certo qual o motivo determinante desse procedimento compulsivo.

 

9)- Diga porque fotografou compulsivamente?

Resposta:  Explicações respondidas nas perguntas anteriores.

 

10)- Fale, se o Exército teve interesse pelo material fotográfico?

Resposta:  É totalmente desconhecido essa intenção superior, o que é lamentável, pois perdeu-se a grande oportunidade de uma melhor seleção e arquivo da experiência internacional. Nunca tomei conhecimento de que o Exército, naquele período, estivesse interessado no material fotográfico da Missão de Paz. Acredito que foi uma grande falha esse desinteresse para formação de um melhor acervo histórico da Missão.

Evidentemente que algumas fotos fizeram parte dos relatórios sigilosos dos Senhores Comandantes, porém continuo acreditando que foram  inexpressivas a quantidade de boas fotos. Mesmo por ocasião da Guerra dos Seis Dias poucas narrativas e poucas fotos dos dramas dos brasileiros se tornaram públicas. 

A imprensa fez a parte que lhe cabia, acho muito pouco e insignificante divulgação, diante da grandeza do envolvimento dos soldados Brasileiros do 20º Contingente que lá se encontravam. Aliás eles têm revelados, ultimamente, atos inusitados e impressionantes que somente depois de 35, 36 anos depois do ocorrido estão se tornando de conhecimento público, muita coisa ainda está para ser revelada. Está faltando alguém que integrou o 20º contingente expor aquela magnífica e emocionante experiência de Guerra num livro e com várias fotos. Eu torço muito por isso e tenho solicitado para que se faça isso.

 

11)- Fale se você exibiu publicamente ou mesmo para seus companheiros o material?

Resposta:  Tive sim a ousadia de exibir as fotos a medida que despertavam o interesse, tanto dos companheiros de missão, como familiares e amigos. Sempre fazíamos a demonstração das fotos e dos Slides, alias, os Slides eram uma grande novidade da época, então tive várias oportunidades de apresentar publicamente, inclusive em salas de aula. Porém o interesse maior sempre era predominantemente sobre o Egito, enquanto que sobre a Missão em si poucas pessoas demonstravam maior interesse, então acredito que competia e ainda compete a nós mesmos desenvolver atitudes que possam despertar maior interesse na nossa história de caserna e menos sobre os nossos passeios. É o que se vem tentando somente a partir dos últimos anos recentes.

Porém eu, com muito orgulho, comunico que fiz um enorme esforço e andei promovendo por conta própria algo mais abrangente e mais didático, que foi concretizar uma Exposição da nossa História Militar na Missão de Paz. E aqui em minha cidade natal de Ponta Grossa - PR., por duas vezes, em anos alternados, aproveitei o espaço cultural da Prefeitura Municipal, e reuni alguns objetos, fardas, bandeiras, fotos, documentos, jornais e revistas etc... e na CASA DA MEMÓRIA DA CIDADE, ficou em amostra a nossa história por 30 dias consecutivos cada exposição. É obvio que contei com o apoio da Administração Municipal e Secretariado, e graças também ao apoio e participação de alguns colegas e companheiros de Missão, conseguimos realizar a oportunidade de externar publicamente aquela página da história do Exército Brasileiro. 

Posso garantir que a nível local, obtivemos uma ótima repercussão na comunidade local, e especialmente na comunidade estudantil, registrados pelo enorme afluxo de pessoas. Vários colégios, em caravanas, visitavam a Exposição diariamente e  seus alunos promoviam entrevistas solicitando maiores esclarecimentos dos Boinas Azuis na Participação Brasileira no Oriente Médio.

Pudemos verificar o total desconhecimento estudantil, até então, daquela passagem histórica de brasileiros que colaboraram com a paz mundial. Tivemos um avanço e nos dias de hoje já somos mais conhecidos, e nossa história passou a ser mais divulgada, sendo que até foi criada uma Praça com a denominação de "Praça Batalhão Suez", e um bonito monumento foi recentemente inaugurado, deixando todos os Boinas Azuis lisonjeados com a belíssima homenagem do Município.

Assim a nossa história agora está eternizada na região, pois o Paraná tem agora o "Quinto Monumento aos Boinas Azuis" existentes. Bom seria se em outros Estados e Municípios algo parecido, ou melhor, pudesse ser concretizado.

O pioneirismo nesse sentido foi verificado em Curitiba, onde desde 1989 existe o Monumento aos Soldados da Paz em Praça pública, local onde se realizam solenidades cívica/militar, alusiva ao Dia da ONU, 24 de outubro de todos os anos. Portanto já é uma tradição esse evento do qual participam varias Autoridades e companheiros da Missão.

De certa forma, estamos razoavelmente organizados em Associações de Boinas Azuis, em vários Estados, cujas associações promovem encontros em várias datas específicas e ligas a nossa missão. As principais associações são as dos Estados do Rio de Janeiro, São Paulo, Minas Gerais, Paraná e Espírito Santo, Sabemos da existência de associações na Paraíba, em Recife e no Mato Grosso recentemente criadas. Através desse espírito coorporativo vimos tentando promover uma maior divulgação do que foi a Missão de Paz do Btl.Suez. Em Curitiba há 4 anos existe um "Museu Boina Azul" com um farto e invejável acervo, onde estão a exposição permanente vários objetos, Bandeiras de todos os Países que compuseram a UNEF, Fardamentos, equipamentos, utensílios e armamentos usados na campanha, muitas fotos, revistas jornais, alguns livros publicados, souvenires, etc.Enfim tudo que um Museu possa ter como acervo. Esse Museu está aberto a visitação Pública no interior do Quartel do 20º BIB., no Bairro Bacacheri em Curitiba, qualquer pessoa poderá ter acesso livre.

 

12)- Que lembranças do evento em que as fotografias lhe trazem a sua vida?

Resposta:  Primeiramente um forte sentimento de orgulho por ter sido um dos integrantes da Missão de Paz, e ter tido o privilégio de conhecer vários países, em que reuniu o útil ao agradável,  tendo em vista que naquela época era uma novidade inusitada, um soldado que sempre fora preparado para uma Guerra, fosse lutar pela Paz. Poucos entendiam qual o verdadeiro objetivo de uma tropa de paz, e justamente servir na região mais conturbado do planeta. Em segundo plano  comparo o empenho que todo ser humano tem em tentar contar, divulgar e  eternizar sua história, sua maior experiência de vida,  e para isso é fundamental e deveras importante a ilustração fotográfica, pois no seu próprio trabalho de doutorado você muito bem esclarece sobre o valor histórico de cada fotografia, que ilustra o momento congelado de um momento muito importante na visão de quem fotografa.

Então as nossas já eternas lembranças de Suez são reavivadas toda vez que contemplamos e reverenciamos as velhas fotografias, não importando a qualidade técnica do produto, e sim o fator histórico e de sentimento estimativo, pois cada foto nos transporta no ATEMPORAL e passamos a reviver as mesmas emoções, como se ainda estivéssemos na faixa etária dos 21 anos e na Missão da Faixa de Gaza. Nesse aspecto ninguém  dos que foram a Suez envelheceu, nossos físicos estão marcados pelos estragos dos muitos anos de vida, porém emocionalmente nos recusamos a envelhecer e por isso estamos sempre nos reunindo e cada vez vez mais dando gargalhadas das nossas trapalhadas e das nossa "gravatadas" antigas, como se tudo tivesse acontecido ontem. Sempre que podemos estamos revivendo nossas fotos juntos aos companheiros, até presenteamos alguns com cópias.

13)- Quais os sentimentos que as imagens despertam hoje no senhor, 35, 36- 40 anos depois?

Resposta:  Sem dúvida alguma o sentimento de solidariedade, da mais pura amizade. Ainda desejamos ser útil aos amigos e a toda humanidade, então viramos contadores de histórias e buscamos as boas recordações, sem se desligar das angustias e de até alguns sofrimentos que o deserto e a Missão nos impunham. Nos tornamos homens na Missão, pois não passávamos de crianças quando para lá fomos, e o sentimento de pura amizade e solidariedade adquiridos nos  momentos mais difíceis, foi fundamental para nosso desenvolvimento e compreensão das coisa. A União e o sentimentalismo que um tinha pelo outro supria a ausência da família no Brasil e essa amizade está cada vez mais forte entre nós, hoje somos uma grande família onde soubemos perdoar os erros do passado e estamos sempre em estado de confraternização sempre torcendo e contribuindo para o sucesso e vida com qualidade dos companheiros. Temos ainda, apenas, a vergonha de dizer publicamente que nos amamos reciprocamente.

 

14) Qual era a impressão(reação) dos vizinhos sobre o evento e sobre o Oriente Médio, ao verem as fotografias ?

Resposta:  A fotografia foi realmente um fator muito importante e decisivo para despertar maior atenção sobre a Missão, sobre o porque da permanência num deserto por um determinado tempo. Em várias fotos estamos fardados e os mais jovens queriam saber como era servir na Força de Paz?-  A pergunta que mais chateava, mas que porém, muito contribuía para que pudéssemos falar mais sobre a Missão, era ..."Quantas pessoas você matou na Guerra"? - ou..."Você matou muito na Guerra"? Então explicava que não estava em guerra com ninguém, nós os Soldados das UNEF não tínhamos inimigos políticos e/ou militar, usávamos armas apenas com o intuito de auto-defesa,e também para impor uma moral na atividade -  e que não poderíamos atacar ninguém nem a soberania de qualquer país.Estávamos lá, com armas leves na mão, justamente na tentativa de se evitar uma Guerra. 

Para muitas pessoas era um assunto que não se compreendia perfeitamente e várias pessoas ficavam boquiabertas com algumas revelações, muitos queriam saber como viviam aquele povo, queriam saber da nossa convivência e  do nosso contato direto com a população, e qual era enfim o nosso serviço, o nosso trabalho, como éramos entendidos pois a nossa língua era totalmente diferente, se aprendemos a falar algumas palavras em árabe, como eram nossas refeições, sobre a água, se ganhamos muito dinheiro, se fazia muito calor, mas não sabiam que também faz muito frio no deserto.Quais países que conhecemos, sobre a viagem de navio, como eram as pirâmides, as mulheres árabes, porque os povos árabes usam aquela indumentária diferente dos nossos costumes, a religião deles, como eram nossos passeios, pediam para falar de Jerusalém, muitos queriam ganhar alguma lembrancinha e não tínhamos para todos. E tudo isso as fotografias em muito contribuíram para uma melhor divulgação, pois quando nada tínhamos para presentear dávamos uma daquelas fotos com lembranças, alguns mais afoitos nos roubavam algumas das nossas fotos, não sei pra quê!. Afinal, as fotografias era o objeto que mais tínhamos e ainda trazíamos à tira-colo aquela máquina fotográfica adquirida na Cantina dos Goods and attractives.

Eu, enfim ,saí de casa como um tímido cidadão de interior, e voltei um falante e desavergonhado brasileiro cheio de gírias e muita experiência para contar.

 

15) Conte como foi e qual foi sua primeira impressão ao desembarcar  em solo do Oriente Médio?

Resposta: Chegamos numa noite, inicio do mês de janeiro, fazia frio, e todos estávamos usando a farda de lã, verde oliva, uniforme apropriado para o inverno do Oriente Médio. E somente no início da outra noite desembarcamos do Navio, e em seguida fomos conduzidos até uma estação de trem, muito próximo onde estava atracado o Navio.

Viajamos de trem a noite toda para, finalmente, chegarmos a Rafah, ultima etapa e final da viagem, agora era conosco, chegou a nossa vez de guarnecer e policiar a Faixa de Gaza.

Foi um choque emocional olhar as coisas e em volta, as saudades de casa não desgrudavam do pensamento, e saber que deveria enfrentar aquela situação por todo um ano, ao mínimo.

Impressionou-me estranhamente o modo de ser e o  comportamento das primeiras pessoas Árabes que vi, podia sentir uma  expressão de tristeza, de sofrimento, naquela gente. Quando avistei o deserto fiquei desesperado, e ansioso para recompor-me, pensava! Como é que eu deveria me comportar para também conviver naquele clima, naquele relevo esquisito,  num ecossistema muito diferente, era quase tudo areia, camelo e tamareiras e muito vento frio. Vi poucas casas, que muito lembrava nossas favelas, apenas que lá no Oriente eram construídas rusticamente com tijolos de barro cru, a maioria das casas eram pequenas e denotavam uma enorme pobreza daquela gente. 

Acabávamos de completar  a nossa primeira travessia pelo deserto num trem, que nos conduzia de Port Saíd, até Rafah, cidade onde ficava nosso Quartel General, quando o trem parou para nosso desembarque faltavam poucos minutos para as sete horas da manhã, e adentramos em marcha ao Quartel Brasileiro no Deserto, era o chamado Campo Brasil, da onde mais tarde, e após nossa primeira refeição, o café matinal, seríamos deslocados em grupos diferentes, para os mais diferentes locais da Missão, cada grupo de soldados seriam encaminhados para seus respectivos Pelotões  ou para as  suas determinadas funções ali mesmo no Campo Brasil. Foi uma separação e a partir daí ficava mais difícil reencontrar determinados amigos, em compensação ganhávamos outros amigos. Um breve reconhecimento da região e já estávamos instalados no deserto, cada grupo com  suas tarefas que no dia seguinte seriam iniciadas.

Percebi de imediato, que iria necessitar de muito esforço para superar tudo aquilo, ainda tivemos que suportar as brincadeiras e os trotes dos mais antigos, que tiravam " o maior sarro" das nossa chegada, com  brincadeiras e gozações de toda espécie.

 

16)- Comente quais eram as suas impressões de viver  uma realidade de um possível confronto  eminente entre os  países beligerantes?

Resposta:  Desde os primeiros momentos sentíamos na própria pele essa grande possibilidade, tendo em vista  que a aviação israelense efetuava constantes e perigosas incursões e manobras aéreas, as quais nos causavam inquietações e desconforto pelo enorme barulho no ar,  era comum os aviões de Israel violarem o espaço aéreo dos árabes de acordo com a Linha do Armistício em vigor. Havia uma expectativa de tensão em determinadas horas.

Por outro lado tínhamos que estar sempre alerta com os "FEDAINS" uma entidade de Guerrilheiros  suicidas Palestinos, os quais recebiam treinamento militar e armamentos diretamente do governo do Egito, com o apoio irrestrito da então U.R.S.S ( a Rússia).

Seguidamente os Fedains causavam problemas no deserto e nossos relacionamentos não eram muito afetuosos com esses Fedains. Eles se gabavam da sua valentia e rebeldia, e recebiam incentivos para praticar atos de terrorismo contra Israel.

Eles quando burlavam a vigilância dos soldados da ONU invadiam o lado de Israel e praticavam suas sabotagens, muitas vezes eram repelidos pelos militares de Israel, e raras vezes pelos soldados da ONU.

Enfim, os Fedains eram uma pedrinha em nosso sapato. viviam incomodando. Um dos seus Quartéis ficavam a menos de trezentos metros de uma das nossas Unidades, mais propriamente um Pelotão Brasileiro ( o 3º Pelotão da 9ª Cia.).

Todo cuidado era pouco, não era permitido a aproximação deles e constantemente tínhamos que solicitar o afastamento dos seus elementos para mais longe. Nossos soldados os interpelavam com educação, porém agiam com firmeza afastando aqueles elementos suspeitos para os seu canto.  Assim se tornou estressante a luta para manter a ordem e a neutralidade da ONU no conflito entre eles e os judeus, naquele região especialmente.

Ninguém queria admitir que por um eventual descuido ou vacilo fosse possível a Guerra o início de uma Guerra, justamente por ali.

Conseguimos manter a ordem.

A noite era maior a vulnerabilidade, porém em nosso Pelotão alimentávamos alguns cachorros vira-latas que se tornaram amigos dos soldados brasileiros, e eram eles quem denunciavam alguma aproximação qualquer, amenizando os perigos. 

Em nossas Unidades de Fronteira sabíamos do perigo iminente e por isso sempre estávamos preparados para qualquer eventualidade. Vivíamos em estado de prontidão e atentos ao Comando do nosso Oficial Superior.

 

17)- Fale como era o seu relacionamento com os colegas de outros estados e com os nativos palestinos.

Resposta:  O relacionamento entre todos os colegas, inclusive com os de outros estados, era o mais camarada e amigável possível, Haviam as brincadeiras, que na verdade se transformavam em algazarras inofensivas. Todos tinham o maior respeito um por outro, e tivemos uma perfeita harmonia de relacionamento, ninguém se julgava superior a ninguém. e todos se ajudavam mutuamente, e quando possível dividindo tarefas e muita colaboração. Daí nasceu uma forte amizade entre todos e um eterno espírito solidário e fraterno, já disse anteriormente, formamos uma Grande e Unida Família.

Com os elementos árabes, nativos palestinos,  tínhamos a responsabilidade de tratá-los com respeito, dentro das normas da ONU, sendo que alguns árabes se tornaram nossos amigos (a todos nos os chamávamos de Habib e vice-versa, eles também nos chamavam de habib - palavra em árabe que não tem uma tradução exata, mas que quer dizer - amigo ou em algumas situações querido).  Existiam os bons e os maus HABIBS palestinos, os "safados" eram desprezados e ninguém dava chance para eles. Outros nos enganavam e perdiam nossa confiança, quando eram descobertos aprontando suas safadezas para os Brasileiros.

Era MESMO comum muitos deles se aproveitarem dos nossos descuidos e roubavam tudo o que podiam. Mas não eram todos ladrões. Existiam os Habibs que contavam suas histórias de sofrimento e muitos deles eram extremamente honestos, que amavam suas famílias e até choravam diante do infortúnio e da condição de REFUGIADOS, Muitos deles perderam suas casas e seus bens por causa da Guerra com Israel e viviam perambulando sem Pátria e sem lar definitivo pelo deserto, em condições de extrema pobreza.  Muitos deles trabalham, como civil, em muitas tarefas e davam conta de  suas tarefas. Muitos deles conviviam felizes durante o expediente diurno e iam para suas casas logo ao entardecer, retornando na manhã seguinte.  Com muitos deles ficamos  amigos e até recebíamos convites para visitarmos suas casas e suas famílias. Raramente cumpríamos a promessa de visitá-los. Esses nossos amigos choravam quando chegava o momento das nossas despedidas, para nós somente restava ficar rezando e torcendo pela vida deles.

Alguns desses Habibs deixaram saudades e exemplos de vida.  Quase todos eles aprendiam com facilidade nossa língua portuguesa, alguns falavam muito bem e quase sem sotaques, com eles tínhamos nossas aulas da légua árabe, mas o brasileiro se dedicava intencionalmente, em aprender somente as bobagens e palavrões. 

Felizes os que aproveitaram e aprenderam algo mais, de minha parte posso assegurar que aprendi tanto as bobagens como muitas palavras sérias, às vezes até esnobava quando tinha oportunidade. Cheguei inclusive a aprender a escrever muitas palavras em árabe.  Por isso afirmo que tive um ótimo relacionamento com a maioria das pessoas árabes que conheci.

 

18)- Fale como era o seu dia-a-dia dentro da Unidade Militar, Como foi sua primeira semana.

Resposta:  O meu dia-a-dia onde servia, foi tranqüilo o máximo possível, pois, quando eu não estava de serviço vivia escrevendo cartas, ou lendo alguma coisa que chegava em minhas mãos, ou ainda procurava os amigos Habibs para treinar meu árabe e tentar conversar um pouco com aquela gente.  Havia a poucos metros da nossa Unidade uma Cantina de Habib, ele vendia biscoitos refrigerantes -SEVEN-UP- (de tantas lembranças), algumas frutas e trazia as "bugigangas" que as vezes encomendávamos.  Ele tinha a permissão do comando para continuar atendendo sua cantina e conseguiu sobreviver enquanto lá estivemos. Era com o MOHAMED, da Cantina habib, que aprendi algumas palavras em árabe, eu o visitava quase todos os dias que estava de folga.  Nosso expediente era apenas no período da manhã, e a tarde como era muito calor no verão, tínhamos a liberdade de ficar um pouco à vontade, e cada brasileiro aproveitava como podia. O pessoal em serviço cumpriam suas escalas sem interrupção

De todas as atividade militares que exercíamos a mais incômoda eram as Patrulhas. Naqueles tempos a Patrulha era realizada à pé. Sempre ao comando de um sargento, e era composta por  um cabo e mais, dois a quatro soldados. Patrulhávamos a ADL (ARMISTICE DEMARCATION LINE)  durante o período noturno. Serviço muito cansativo e onde corríamos perigo, pois nos transformávamos em alvo ambulante e muito vulnerável. Mesmo assim mantínhamos o serviço em andamento e cumprimos todas as ordens.  Cada patrulha andava por cerca de seis horas, e cada Pelotão mantinha sua Patrulha a serviço pela ADL, uma turma das  dezoito horas até a Meia Noite, e a outra turma das Zero Hora até as Seis Horas, depois entrava em funcionamento o Serviço de Observação, em postos alocados ao longo da ADL e dispostos espaçadamente. Em cada Posto de Observação dois soldados ficavam de plantão, se revezavam durante as seis horas consecutivas de serviço em cada PO.

As outras funções eram praticadas por elementos especializados, como motorista, serviço de burocracia, comunicações, enfermagem, alimentos, armeiros, abastecimentos de água e controle de combustíveis, etc...Ainda esporadicamente sobrava tempo e disposição para pratica esportiva e ordem unida, educação física, e ainda manutenção das instalações de cada pelotão - serviços de pintura, faxina combate aos mosquitos etc.

 

19)- Diga qual era o seu conceito entre a Guerra do Egito e Israel?

Resposta:  Nunca se soube ao certo as verdadeiras razões desse conflito, o pouco que se sabe está restrito na não aceitação e tolerância, por parte dos árabes, da criação do Estado de Israel pela ONU em 1948, e que foi promulgada oficialmente no Dia 16 de Maio de 1949. Não havia transcorrido nem 24 horas da criação oficial  de Israel e os árabes invadiram o novo território de Israel e começaram aquela que seria a primeira guerra entre eles.

Para que se possa entender sobre o interminável conflito entre árabes/palestinos e israelenses, exige dos interessados o esforço e uma tentativa de recuperar parte da história das origens dos povos e procurar saber então, a origem dos conflitos.

Qualquer que seja a idade de uma pessoa no mundo, interessada na história, certamente já ouviu falar, ou assistiu imagens pela TV, ou ao menos alguma notícia, enfim sobre esse interminável conflito entre árabes e israelenses..

Sabemos que é difícil para povos ocidentais, como nós, entender porque processo de paz entre esses dois povos é tão frágil e porque ele é tão difícil de acontecer, onde não se consegue uma maneira, ou um meio de terminar de vez essa guerra a qual se arrasta há milênios, ao longo da história da humanidade.

A questão desse conflito na Palestina, segundo alguns especialistas, não é religiosa, apenas o aspecto religioso dá um certo tempero mais explosivo à questão.

Ao que se resume o fato de que dois povos estão tentando quebrar a Lei da Relatividade, isto é, os dois povos estão tentando ocupar o mesmo espaço físico ao mesmo tempo. No entanto para a questão ser resolvida há que se determinar quem ocupará qual espaço.

Isso deveria ser o principio da pauta das discussões e acordos mútuos, ou então a determinação da delimitação de uma das partes, e cada qual ficando com seu espaço físico geográfico soberano.

 

20)- Fale como foi sua sensação de vivenciar uma outra cultura, tão distante e diferente da sua. Comer, beber, e experimentar outra cultura?

Resposta:  A priori foi um choque, tudo era diferente razão porque ficávamos restritos ao grupo de brasileiros na Unidade Militar, e somente depois ao passar dos primeiros dias começamos a compreender que tudo tinha sua razão de ser. Aquelas figuras humanas de costumes diferentes começaram a ser familiar e dava inicio uma aproximação, a curiosidade sempre fala mais alto, então não foi mais difícil uma melhor aclimatação e adaptação na região desértica com aquele povo sofrido sobrevivendo às duras penas, e necessitando da muita ajuda. A partir de uns dias já despertava uma vontade muito grande de experimentar a comida deles, sentíamos um aroma convidativo. Não demorou tive minha primeira experiência da culinária árabe, de imediato gostei e sempre que podia saboreava algum prato árabe em Gaza.  Eu comecei comendo aquele pão gostoso com aqueles cremes saborosos misturados as muitas ervas típicas do árabe. Mais tarde na cidade do Cairo tive a oportunidade de almoçar na casa de uma família árabe, confesso que foi o acontecimento mais marcante da missão, em termos de alimentação. A família árabe é amorosa onde existe muito respeito e obediência aos Pais, não obstante a disciplina e palavra de ordem pertencer ao Homem Chefe da família.  A bebida alcoólica é proibida na casa de árabe, por questões religiosas. Eles são muito religiosos, então a bebida preferida é um gostoso e aromático chá, de coloração vermelha, com uma misturas de ervas e flores.  Uma verdadeira delícia. Como sobremesa é costume comer fruta, as tâmaras são uma outra delícia. O Egito produz muitas frutas, como laranja, melancia e melões, figos, tâmaras, principalmente.  Também é habito da família árabe degustar uma boa qualhada após a refeição, imperdível.  Foi uma ótima experiência e engrandecimento sentir de perto e viver diariamente ao lado da cultura milenar dos árabes.  Em nossos refeitórios eram servidos nossas tradicionais comidas, com pouca influência dos nórdicos e dos canadenses que eram os responsáveis pela logística da UNEF. Era muito difícil o dia em que não tínhamos o feijão com arroz em nossa mesa, e nossas refeições eram de muito boa qualidade. O nosso maior problema foi a água. Era difícil mesmo acostumar com aquele gosto horrível de água salobra extraída de poços artesianos, perfurados no deserto porém com muita influência marítima. Os poços perfurados ficavam não muito distantes do Mediterrâneo. Mas era essa água que utilizamos para as nossa necessidades e não existia outra qualidade. Pois naquele tempo água mineral era muito difícil a comercialização.

Nos Pelotões de Fronteira, a água, via de regra, era racionada, em várias oportunidade os estoques ficaram a zero, pois dependíamos da chegada do Caminhão Pipa que abastecia toda fronteira, porém as vezes o caminhão quebrava e atrasava o serviço de entrega e por algumas horas ficávamos, eventualmente, sem nada de água. Aprendemos a não desperdiçar o precioso líquido.

 

21)- Qual foi sua primeira impressão e sensação ao conhecer Jerusalém, Faixa de Gaza, Líbano - Cairo?

Resposta:  Gaza na Faixa de Gaza era sempre a primeira e imediata cidade que conhecíamos e onde muitas vezes passamos nosso domingo de folga. A cidade era relativamente pequena, o principal ponto de atração era a praia, nunca tinha mulheres, porém ficávamos a vontade e bebericando ou alimentando-se nos restaurantes à beira-mar, Pouco atrativo o comércio, mas haviam dois estúdio fotográficos muito procurados pelos brasileiros. O passeio ao Cairo tinha como maior atração as Pirâmides e Esfinge, o famoso e grandioso Museu do Cairo, o Rio Nilo com alguns espetáculos artísticos. Poucos companheiros se arriscavam aos passeios a Luxor - Karnac - e represa de Assuã, na época em Construção. Mas a noite a turma gostava muito das Boates para assistir a Dança do Ventre. Consegui ir três vezes ao Cairo e gostava muito daquela cidade, onde conheci uma família árabe que tinha morado em São Paulo por muitos anos.

Ao Líbano as boas lembranças das montanhas, de belas praias, de ótimo comercio. Era onde nosso dinheiro ficava depositado, naquela época os Brasileiros chamavam a capital Beirute de Suíça dos árabes. Os brasileiros sempre se deram bem naquele País, onde existia um belíssimo passeio passando por Balbeck, e terminando na Capital da Síria, a cidade Damasco. Acredito que todos os brasileiros conheceram Damasco, que foi um gancho a mais nas experiências positivas.

Jerusalém era o momento de muita reflexão. Era uma sensação de muita emoção visitar os lugares sagrados e Bíblicos, verdadeiramente sentíamos a presença de Deus em nossos comportamentos. Momentos de verdadeira paz e muitas orações. Nesses passeios já tínhamos que estar dominando com perfeição nossas máquinas de fotografias. Quase todo mundo gastava mais de cinco filmes de fotografias em cada passeio desses. Dizíamos que estava documentada a nossa passagem por todos esses lugares.

 

22)- como foi a sensação de vestir a roupa dos árabe?

Resposta:  Nada mais era do que uma simples e rápida brincadeira em forma de homenagem aquele povo. Vestíamos aquela roupa tirávamos as nossas fotos e pronto, tudo voltava ao normal. Nunca vi nenhum brasileiro ou outro elemento da UNEF, dos outros países, usando aquela roupa árabe pelas ruas de Gaza ou nas Unidades Militares. Normalmente ninguém ficava mais do que 10 minutos vestidos de árabe. Na bagagem de volta ao Brasil trouxemos algumas peças do vestuário árabe, mais como curiosidade e exibição, do que qualquer outro pensamento. Tínhamos a impressão que eles poderiam se ofender, uma vez que não éramos muçulmanos.

 

23)- Qual o sentido, qual o significado de usar roupas cenográficas? e o bigode postiço? ambos elementos árabes tradicionais. e depois se deixar fotografar? 

Resposta: Como disse acima era mais para registrar como uma homenagem ou uma pura brincadeira vestir aquela indumentária e se deixar fotografar. Os bigodes postiços ficavam por conta e a cargo da arte do fotógrafo, muitas vezes  criada no próprio estúdio na hora de revelar o filme. 

Acredito que nosso comando não iria permitir algum soldado usar, de verdade, aquele tipo de bigode com cavanhaque. Muito menos sair vestindo aquela roupa. Na verdade era coisa de estúdio fotográfico. Nada mais.

 

24)- Que explicação poderia dar para ter trazido tantos souvenires e fotos ou lembranças materiais do Oriente?

Resposta:  O artesanato do Oriente era uma grande atração, não existia essa pratica no Brasil, ademais cada soldado inicialmente pensava presentear os familiares e amigos, algumas namoradas, com o máximo de lembranças possíveis. Na época aqueles tapetes de parede eram muito cobiçados por brasileiros, e muitas peças foram vendidas, não faltava interessados. Alguns dos souvenir também foram vendidos. Acredito, porém que o principal motivo estava incrustado no sentimento de consumismo, uma vez que somente depois de algum tempo fazíamos os passeios, no deserto não havia aquele sentimento de turista consumidor compulsivo. Mas também foi a nossa maneira de entra em contato com aquele povo. As visitas nas mais deferentes lojas e a boa conversa de vendedor árabe nos atraia e nos encantava. Muitas vezes se entrava numa loja somente para observar e sempre acabava comprando alguma coisa devido a habilidade do comerciante árabe. Nós sempre queríamos bater uma ou outra fotografia dentro das lojas, especialmente se havia alguma mulher, mesmo sendo proibido fotografar mulheres por motivos de religião e costume daquele povo. 

 

25)- A sua percepção em relação a cultura, ao povo e as cidades se modificou, depois de experimentar, in loco, a vida e o dia-a-dia no Oriente Médio?

Resposta:  Obviamente que modificou sim, antes nem tinha idéia formada de como era a cultura do povo árabe, aliás, nem sabia nada a respeito deles. As  cidades do Oriente Médio e os seus costumes, são totalmente diferente do que estamos habituados a ver no mundo ocidental. Na cidade do Cairo, por exemplo, o comportamento do povo no trânsito é uma calamidade, que no Brasil jamais funcionária. Lá, na nossa visão, é um verdadeiro "caos", é um turbilhão de confusões, os motoristas se xingam mutuamente, há muito congestionamento de veículos no centro da cidade. Sem sombra de dúvidas o dia-a-dia no Oriente Médio vividos no período em que durou a participação de cada soldado brasileiro deu uma nova visão de vida, onde aprendemos uma grande lição de compreensão no tratamento com as pessoas. Ficamos mais solidários e mais participativos socialmente.

 

26)- O Sr. acredita que se tivesse conhecido o Oriente Médio na condição de civil poderia ter uma outra percepção daquela Região.

Resposta:  Se tivéssemos conhecido aquela região como turista apenas, muito pouca coisa teríamos aprendido, agora se na condição de civil tivéssemos à serviço, ou trabalhando, em algum projeto, aí sim teríamos aprendido muito e assimilado maiores conhecimento, uma vez que estaríamos vivendo diretamente todos os problemas e angustias ou anseios daquela sociedade.

Trabalhar como civil teria sido mais proveitoso, como lição de aprendizado, do que como militar.

 

27)- Fale sobre sua sensação quando soube que teria que retornar ao Brasil?

Resposta:  Nada melhor do que a satisfação do dever cumprido com louvor. A exceção do pessoal do 20º Contingente, todos sabíamos, mais ou menos, qual seria o prazo ou o período de duração da nossa Missão. Então quando se aproximava o término do nosso período despertava uma enorme ansiedade pelo momento de entregar a nossa parte aos companheiros que viriam nos substituir, uma vez que havia sido implantado o sistema de rodízio. E cada Contingente estava determinado a ficar no Oriente Médio por um período de 12 meses aproximadamente, em alguns poucos casos  a missão durou alguns meses a mais, apenas alguns elementos do 8º Contingente ficou menos de doze meses, e o 20º Contingente, que ficou no Oriente Médio, cerca de três meses apenas, pois foram vítimas da Guerra dos Seis Dias, quando aconteceu o término da Missão de Paz da UNEF.

 

28) Tendo participado de uma Missão de Paz e constatado que a região ainda não alcançou o Armistício e a Paz permanente, tão desejado por muitos, diga qual a sensação que o Sr. sente enquanto militar e cidadão?

Resposta:  O grande erro cabe ao ato da aceitação, sem negociação, da retirada das Forças de Paz da ONU da área de conflito. O então Secretário Geral da ONU - Sr. U-THANT, que foi traído pela sua formação Muçulmana, acatou simplesmente o pedido do presidente Egípcio da época, Gamal Abdel Nasser de retirar a UNEF da região.  Não houve nenhuma contestação, nenhuma reunião extraordinária na Assembléia geral da ONU, nem nada. O Sr U-Thant simplesmente emitiu um comunicado solicitando que os países que mantinham seus batalhões na Faixa de Gaza a serviço da UNEF, se retirassem e retornassem aos seus países, e decretou o fim da Missão de Paz, repito, sem nenhuma discussão, ou esboço de reação. Foi uma atitude unilateral do então Sr. Secretário Geral da ONU, que acabou considerado culpado direto pela eclosão da Guerra dos Seis Dias. E a Paz definitiva, tão almejada, ainda não foi conseguida.

Evidenciou-se que o Egito e os árabes usaram a UNEF como escudo protetor contra Israel, enquanto estavam sendo armados e treinados pelos soviéticos, e quando suspeitaram que eram superiores aos Israelenses desejaram a Guerra numa tentativa de retomar os territórios perdidos da Guerra de 1956. O Sr. Secretário Geral da ONU denotou fraqueza nas negociações, ou quem sabe nem se importou em dificultar a vontade dos árabes. Da parte dos elementos que um dia serviram naquela Força de Paz estamos conscientes de que nossa parte foi cumprida, pois enquanto lá estivemos representados nenhum conflito aconteceu e a Paz teve sua duração por dez anos consecutivos, prova incontestável de que as Forças de Paz da ONU foram eficientes. Então a Guerra dos Seis Dias somente aconteceu pelo afastamento e encerramento da UNEF, na minha opinião, por pura falta de capacidade de negociação do Sr. U-Thant.

                             COMO FOI O FIM DA UNEF

O tradicional ódio e o desejo de vingança dos árabes contra Israel chegava ao seu clímax, em meados do mês de maio de 1967, após os discursos inflamados e ameaçadores do Sr. Presidente do Egito GAMAL ABDEL NASSER, bem como por ações do grupo guerrilheiro  da  JIHAD,  pregada pelos religiosos fanáticos MUÇULMANOS.

 

Ousadamente a partir de 16 de maio , daquele ano de 1967 (dia da independência de Israel), as Forças militares dos egípcios começaram a ocupar o Sinai e se colocar em posicionamento de combate e ataque, ficaram muito próximos e perigosamente ao longo da Fronteira com Israel, Os soldados da ONU  percebiam a movimentação e comunicavam às autoridades da ONU a manobra, porém nada se fazia para intermediar e evitar aquelas ações militares. E no prosseguimento das ações árabes, via-se dia após dia aumentar o nº de material bélico e de soldados egípcios, que passavam bem a frente das unidades da ONU, quer por via férrea, quer pelas estradas, numa quantidade que impressionava.

Ficava fácil entender que que os árabes queriam  a UNEF apenas protegendo suas fronteiras, apenas enquanto eles estavam se armando e comprando coisas imensas quantidades de material bélico dos soviéticos, para uso militar de  última geração.

Sabe-se que no dia 18 de maio 1967, as Forças Sírias já estavam prontas para um grande combate, nas montanhas de Golan.

Em 22 de maio, ainda daquele ano de 1967, o governo Egípcio, num ato ilegal e unilateral, segundo os Direitos Internacionais, fechou o Estreito de Tiran, impedindo Israel de utilizá-lo em suas comunicações com a África e a Ásia por onde exportava potassa e fosfatos e também importava petróleo do Irã. O fechamento do Estreito de Tiran, tornou o "casus belli".

Ainda nesse mesmo dia 22 de maio de 1967, no Boletim Interno do Batalhão Suez, contou o ADITAMENTO DO BOLETIM INTERNO Nº 111, que transcreveu, na sua 3ª Parte - ASSUNTOS DIVERSOS - a Mensagem do Sr. SECRETÁRIO GERAL DA ONU, a seguinte transcrição (Mensagem recebida pelo Sr. Comandante Geral da UNEF na Faixa de Gaza - General INDER JIT RIKHYE - de U-Thant Secretário Geral da ONU):-

" Hoje, 19 de maio de 1967, vós tereis recebido ordens de iniciar a retirada da Força de Emergência das Nações Unidas das suas áreas de ocupação em Gaza e no Sinai. Isto significa que dentro de um espaço relativamente pequeno, vós estareis retornando às vossas Pátrias, e a UNEF, a primeira Força Mantenedora da Paz das Nações Unidas, não mais existe.

Antes de mais nada, desejo deixar bem claro que a retirada da UNEF, nesta hora, para sobrepujar razões políticas, de maneira alguma diminuiu a importância do desempenho e o comportamento da Força. Ao contrário, a Força tem operado com absoluto sucesso desde o tempo de sua criação, há mais de dez anos passados, e os meses recentes não foram exceção a esse magnífico desempenho.

Em meu relatório especial de 18 de maio de 1967, endereço à Assembléia Geral, sobre a decisão da retirada da UNEF, disse o seguinte:

"Finalmente, devo expressar a alta apreciação aos governos de todos os países membros das Nações Unidas que apoiaram a UNEF, e, especialmente àqueles que proporcionaram os Contingentes Militares que formaram a Força. O agradecimento das Nações Unidas também extensivos aos muitos milhares de Oficiais e Praças que serviram tão leal e distintamente na UNEF.

A Força, em seus princípios, representou uma extraordinária inovação no esforço das comunidades mundiais, no sentido de encontrarem um método de manutenção da Paz.

Por mais de dez anos, ela cumpriu suas missões com um sucesso tão grande como jamais se poderia esperar.. ´E na realidade, o MODELO no qual todas as futuras tentativas das Nações Unidas - na efetiva manutenção da paz - deverão se basear".

A grande ansiedade que nasceu em todos os povos do mundo pela extinção da UNEF, nesta ocasião, é por si só uma medida do valor do trabalho que a UNEF executou. 

A UNEF, por sua conduta no bem sucedido cumprimento das difíceis missões, certamente provou que a Missão Pioneira de Manutenção da Paz, levada a efeito pelas Nações Unidas em 1956, nunca se privou de competentes, corajosos, disciplinados e devotados "Soldados da Paz".

Desejo expressar a todos vós, e também aos milhares de Oficiais e Praças que outrora serviram na UNEF, meus calorosos agradecimentos e admiração pelos seus leais e distintos serviços às Nações Unidas. Desejo a todos os meus melhores votos de felicidades no futuro.

                                      U-THANT - Secretário Geral da ONU                                  (Transc. do NEFCO 53/67, de 20 mai 67)

 

 

COMENTÁRIO FINAL:

Os militares brasileiros, dos Contingentes de Suez, cumpriram sem medo, sua nobre missão de defesa da HUMANIDADE e passaram e vivenciaram as mais arriscadas situações, em especial os militares do 20º Contingente na Guerra dos Seis Dias.

Em reconhecimento, a Assembléia Geral da ONU, homenageou a todos os nossos soldados, pelo relevante serviços, concedendo a Condecoração da Medalha UNEF, em nome de todas as Nações do Mundo, e mais tarde a Comunidade Internacional concedeu a todos os integrantes da Missão de Paz, o mais cobiçado de todos os Prêmios do Mundo:- O PRÊMIO NOBEL DA PAZ.

Nós somos os únicos brasileiros, que até os dias de hoje, receberam essa altíssima distinção.

Falta ainda a manifestação da Pátria e o seu devido reconhecimento. esperamos que um gesto digno do Governo Brasileiro, no cumprimento de um dever de consciência, declare-se a favor desses heróicos pracinhas brasileiros, e que não demore mais, pois muitos já morreram e outros deixaram suas famílias na penúria.

Mesmo assim continuaremos amando e servindo à nossa querida Pátria, com a mesma dedicação e amor de sempre, porém continuamos na esperança que nossos feitos nunca sejam negados pela História. 

Theodoro da Silva Junior
Integrante do 10º Contingente Btl.Suez

VOLTAR