TEXTO DO LIVRO DE FERNANDO CORRÊA DE BARROS
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"As misérias que eu conto e que contei, |
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a princípio olhaste-me aturdido e tonto. |
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Depois choraste mais do que chorei, |
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ao passá-las na vida que passei. |
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Então eu fico imaginando até que ponto, |
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tu chorarias e ficarias tonto, |
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se eu te contasse com palavras sérias, |
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as misérias que eu não conto ..." |
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O texto abaixo foi o discurso preparado pelo autor, no dia 19 de outubro de 1994, por ocasião de solenidade de comemoração dos trinta anos do retorno dos integrantes do 13º Contingente do III/2º RI, o Batalhão Suez. |
"Senhoras
e Senhores, meus colegas:
Extremamente
honrado com a distinção que me foi conferida
pelos organizadores deste encontro, a de
ser o responsável pela palavra oficial dos
integrantes do 13º Contingente do III/2º RI, o
nosso Batalhão Suez, trato de desincumbir-me da
melhor forma, embora certo de que outros colegas o
fariam com mais brilho.
Comemoramos,
hoje, dia 19 de outubro de 1994, no ambiente e
hospitaleiro deste quartel do Exército
Brasileiro, o decurso de trinta anos do retorno de
nossa missão de paz, como membros do segundo
contingente que partiu desta terra gaúcha para o
acantonamento de Rafah, no Egito, no remoto e
inesquecível ano de 1963.
Fomos
felizes. Poucos, como nós, podem jactar-se de
terem sido tão exitosos em suas missões. A nossa
presença na zona litigiosa da Faixa de Gaza, cenário
de tantos sangrentos combates entre aqueles
ancestrais contendores, não raro produziu baixas
entre nós. Lá não estávamos para lutar, mas
para mostrar a presença física ostensiva dos países
de todo o mundo, sob a bandeira azul celeste da
ONU - Organização das Nações Unidas e, daquela
forma inibir os conflitos, a serviço da paz, lema
que recebemos cunhado em nossa condecoração;
"In The Service of Peace". A história
da humanidade tem mostrado que os exércitos têm
cometido enganos que o tempo se encarregou de
demonstrar. Mas, neste caso, o Exército
Brasileiro, incorporado à Força Internacional da
ONU, foi um exemplo de acerto. Hoje, há
probabilidades de paz no Oriente Médio. E nós,
queridos colegas missionários, podemos dizer que
atuamos com êxito naquele palco. A missão não
terminou quando retornamos, mas vem sendo cumprida
até os dias atuais. O que terminou foi a nossa
tarefa. O esforço pela conquista da paz continua
nos dias atuais, quando vemos Israel negociar com
seus ancestrais adversários, Palestina, Líbano,
Síria, Egito e Jordânia. Embora os atores sejam
outros, o enredo e o palco são os mesmos. Nunca
nossa atuação naquelas terras esteve tão atual,
tão viva.
A
névoa do tempo que a tudo encobre, passadas três
décadas - quase um terço de século - não
impediu que fôssemos reconhecidos pelas inteligências
do Exterior, pois, em 1989 a Fundação Nobel
conferiu à UNEF, extensivamente a cada um de nós,
o Prêmio Nobel da Paz. Nada pode ser maior, neste
Planeta, do que este reconhecimento público
mundial.
Enquanto
isto, aqui, em nosso próprio país, fomos
ignorados. A mídia divulga feitos de Romário,
Hortência e Tande, sem fazer qualquer referência
às razões pelas quais estes bravos companheiros
fizeram jus a mais alta premiação da Humanidade.
Quase ninguém sabe quem fomos, o que fizemos e o
que representou para a Raça Humana a nossa
contribuição. Até aqueles que, por dever cívico,
deveriam estar informados. Outro dia, votava-se na
Assembléia Legislativa do Estado do Rio Grande do
Sul um artigo da nova Constituição Estadual, que
traria um pouco de tranqüilidade aos colegas mais
necessitados, assegurando-lhes acesso à
seguridade social do IPE - Instituto de Previdência
do Estado. Estive presente aos trabalhos e, com
profundo desgosto, ouvi a manifestação de um
deputado do PMDB, líder do governo na Casa, que
ali, portanto, representava os interesses do
governador, que era contrário às nossas pretensões,
dizer: "- ... para
que dar benefícios aos membros do Batalhão Suez,
se eles nem viajaram ao local do conflito, tendo
ficado no Brasil à disposição de um chamado que
nunca veio ..". Pobre povo que
dispõe de um tão infeliz parlamentar. Não seria
"para lamentar"? Ignorante,
confundiu a Missão de Suez com aspectos da
"Lei Praieira", da Segunda Guerra
Mundial. Ou seria um mal-intencionado? Deus fez
justiça, depois. Não se reelegeu. Não lhe darei
a honra de mencionar-lhe o nome.
Quando
fomos para Suez, tínhamos todos aproximadamente
vinte anos de idade. Éramos muito jovens. Quando
voltamos é que nossas vidas profissionais e
familiares realmente começaram. Alguns de nós
tiveram melhor sorte. Não muitos. Houve um grupo
que enfrentou revezes que foram definitivos;
comprometeram as suas saúdes, seus empregos, sua
própria alimentação e, principalmente, a sua
auto-estima e a compreensão do seu real valor
social.
Por
Deus, o que significa isto? Como pode uma Nação
dar as costas aos seus filhos mais pródigos,
quando a comunidade internacional os homenageia
com o mais reconhecido dos louvores?
O
que teria ocasionado este esquecimento? Será que
foi por não termos morrido? Ou será porque não
houve combates? Não era, afinal, uma "missão
de paz"? Seriam mais afortunados os nossos
colegas `boinas azuis' que morrem na Iugoslávia,
na Somália ou em Angola? Teria sido esta a sórdida
razão do desamor; a morte não ocorrida?!
Dizem
os estudiosos, psiquiatras, psicólogos e
militares, que mais grave que os próprios
combates de uma guerra são os momentos que os
antecedem. Durante o conflito, as tensões vão
para a ponta do sabre, liberadas na agressividade.
Na espera, tais tensões são reabsorvidas e ficam
circulando, circulando, danificando o psiquismo do
combatente. Nossa missão foi, toda ela, - quase
quinhentos dias e noites -, no aguardo de um
iminente conflito que nos rondava, soturno, junto
às valas da ADL - Armistice Demarkation Line, que
patrulhávamos. Junto a ela, encontrávamos freqüentemente
os cadáveres dos "fedains" palestinos
mortos pelos israelitas após suas incursões
suicidas aos `kibutz' fronteiriços, enquanto
aguardávamos o contato iminente dos litigantes.
Até que, um dia, a roleta da vida escolheu aos
nossos colegas do 20º Contingente, produzindo
baixas em seu efetivo, ao detonar aquela que ficou
conhecida como a "Guerra dos Seis Dias".
Que
prejuízos teríamos sofrido em nossas estruturas
psíquicas de jovens de vinte anos, tenros,
inexperientes, alegres e sonhadores? Em plena
formação! O que, realmente, em nós produziu a
angústia, a ansiedade, o medo, a impotência e o
moderno "stress"? De que forma foram
nossos destinos influenciados pela grave situação
vivida? Estou certo de que, embora fisicamente íntegros,
sofremos alterações psíquicas cujos graus
variaram de indivíduo para indivíduo. Não
podemos exibi-las, pois, afinal, estão em nosso
interior ...
Visíveis
serão os resultados para alguns de nós, quando
chegar nossa hora final. Indigente, numa maca de
um corredor de um hospital qualquer, será muito
duro compreender que o seu enterro se dará,
anonimamente, em uma cova rasa. E que seu corpo,
olvidado altar de tantas lutas, servirá para os
estudos de estudantes de medicina. Herói da Paz,
Menção Honrosa, Honra ao Mérito, Condecorado
pela ONU, Partícipe do Prêmio Nobel da Paz ...
de que te vale isto tudo se os teus próprios
conterrâneos negaram o valor, com a condenação
à indiferença, ao esquecimento... Que triste é
ver a Nação curvar-se aos seus heróis do vôlei,
do futebol e do basquete, cujo merecimento também
louvamos, enquanto deixam esvair-se as vidas dos
seus verdadeiros heróis. Aqueles de nós que
ainda não tombaram pelo trajeto, encaminham-se
rapidamente para a velhice. Mas, se a Nação nos
deu as costas, resta-nos o conforto mútuo. Aqui
estamos, unidos e amigos. Neste quartel onde nos
sentimos como em nossas casas, no carinho da sua
hospitalidade.
O
reconhecimento público e material que nos é
devido neste País, é nosso por justo
merecimento! Esta seguirá sendo a bandeira pela
qual lutará sempre a nossa Associação dos
Ex-Integrantes do Batalhão Suez, em todos os
estados deste País. Hoje, a Nação Brasileira
busca identificar os seus corruptos entre os
parlamentares, os funcionários públicos, os
empresários e os cidadãos, numa conscientização
que se materializa em uma nova era de ética e
moralidade. Quem sabe ela se volte, um dia, para
os seus verdadeiros heróis. Aqueles sem mídia e
sem tênis. Oxalá tal descoberta não venha ao
nosso encontro quando for demasiadamente tarde.
Enquanto
isto, devemos continuar a defrontar-nos com os
ignorantes, os mal-intencionados e os
oportunistas, pedindo-lhes desculpas por ter
cumprido uma missão de paz e "PERDÃO POR
NÃO TER MORRIDO" !
Tenho
dito."
O AUTOR
Foi, no Oriente Médio, em Suez, nos anos de 1963 e 1964, o cabo 8057, fuzileiro, QMP 007, QMG 001. Serviu, primeiramente, no Terceiro Pelotão da 9ª Companhia, para depois transitar por diversas frações como a Companhia de Comando e Serviço, a Military Police e a Oitava Companhia. Antes, em 1961, ano do evento político conhecido como "A Legalidade", havia cumprido o serviço militar obrigatório na 1a. Companhia de Guardas em Porto Alegre. Lá foi o cabo 205, do Segundo Pelotão, que venceu um disputado concurso interno; o "Bronze Eficiência". De volta ao Brasil, Barros freqüentou as faculdades de Direito e Ciências Políticas e Econômicas. Após, concluiu três pós-graduações, tornando-se professor universitário.
Foi Delegado de Polícia e, após ter atingido o grau mais alto da carreira, passou para a inatividade quando ocupava a função de Diretor Geral do Departamento de Administração Policial. Como policial mereceu medalhas por serviços prestados; a do Serviço Policial e a do Mérito Policial. Desta experiência escreveu o livro "Salve-se Quem Puder".
Recentemente, decidiu disponibilizar seus relatos de viagem, elaborados naquela época, para auxiliar financeiramente seus colegas ex-pracinhas menos afortunados, através da Associação Gaúcha dos Ex-Integrantes do Batalhão Suez.
Fernando Corrêa de Barros foi Delegado da Polícia Civil do Rio Grande do Sul, de 1967 até 1993. Depois de dirigir delegacias do interior do Estado do Rio Grande do Sul, foi titular das delegacias especializadas de Capturas, de Registros Policiais e de Tóxicos. Passou para a inatividade quando ocupava a função de Diretor Geral do Departamento de Administração Policial, após ter atingido o grau mais alto da carreira. Como policial, mereceu louvores e as medalhas por serviços prestados; a do Serviço Policial e a do Mérito Policial. Freqüentou as faculdades de Ciências Políticas e Econômicas e Direito, tendo concluído três pós-graduações. Em 1976 tornou-se professor universitário, das faculdades de Direito, Economia, Engenharia e Administração da PUC do Rio Grande do Sul. Antes disso, em 1964, foi chefe do "Military Police Rafah Detachment" do Batalhão Suez da ONU, em Gaza/Egito, quando escreveu o livro "Na Fronteira das Ilusões", que foi destacado pela imprensa na Feira do Livro de Porto alegre em 1998. Além deste livro, é o autor das obras
De: Theodoro da Silva Junior <theojunior@uol.com.br>
Data: Sat, 12 Mar 2005 21:08:21 -0300

BOINA AZUL

BRAÇADEIRA

NO ALOJAMENTO AO VIOLÃO

EM PASSEIO NO CAIRO - REMANDO NO RIO NILO

EM PASSEIO NO CAIRO - PIRÂMIDES DE QUEÓPS - VALE DO GIZÉ