15º Contingente - Breve Relato


HISTORIA DO 15º CONTINGENTE

Memórias do Cb. GERSON.                                       Colaboração Sd. JARBAS. 

            Breve histórico deste contingente formado no IV EXÉRCITO ( NORTE / NORDESTE ), com sede na cidade do Recife - Pernambuco, sendo a tropa à época, abrigada e treinada nas instalações do 14º RI ( Regimento de Infantaria ) no município de Jaboatão de Guararapes. A atipicidade do contingente ficou por conta de dois fatores a saber:
 
    1º - Sua formação composta quase que integralmente por militares que serviam (Oficiais e sargentos) ou serviram (cabos e soldados) naquela região militar, composta dos Estados de: Pernambuco,Paraíba, Rio Grande do Norte, Alagoas, Sergipe e Maranhão, tendo um complemento de 23 militares que serviam (Sargentos) ou serviram (Cabos e soldados) no I Exército - Rio de Janeiro, tendo em vista naquela oportunidade não haver no IV Exército, " VOLUNTÁRIOS  " aptos em algumas especialidades, o que gerou a oportunidade para : 
           04 sargentos (Braga; Nascimento; Petti e Severino) 
           03 cabos (Gerson; Joadir e Nogueira) e 
           16 soldados (Amaro;Amorim;Godoy; Hélio;Jarbas; João Antonio; Júnior; Marco Aurélio;Matos; Mengarda; Nilo; Paiva; Paranhos; Prazeres; Sila e Vale), se integrarem a tão prazeroso grupo.
 
    2º - Foi o primeiro contingente a retornar de avião de carreira  ( comercial ) de bandeira Iugoslava, uma vez que o usual era o transporte por navios da marinha. A tropa já treinava no 14º RI quando em 25/07/1964 chegaram ao Recife, os 23 componentes do Rio. Após 29 dias em treinamento naquela unidade, com direito a vacinas e outras coisas mais, chegou a hora de partir rumo a Port Said ( o que ocorreu no dia 23 de agosto de 1964 – Domingo ), aonde chegamos a 11 de setembro, às 09hs., desembarcando às 18horas para uma nova odisséia, desta feita, de trem, o qual chegou ao destino final ( Faixa de Gaza) no dia 12/09/64  às 09hs.           
A VIAGEM 23/08 a 12/09/1964
  
            Antes da partida, é digno registrar o grande número de solenidades, sendo destaque o desfile da tropa ante bandas de música do corpo da Marinha, Exército e  Fuzileiros Naval,  as quais entoavam canções, tais como: Canção do Soldado; Canção do Expedicionário; Cisne Branco e finalmente o Hino Nacional. Após as solenidades, passamos por um dos momentos mais triste da nossa vida, ou seja: a despedida dos familiares, e o embarque, este, bastante marcante até pelo fato de que a proporção que o navio se afastava do cais do porto os lenços brancos eram acenados e jogados ao mar, tanto pelos familiares quanto pelos militares que ora partiam. Toda esta cena tinha como pano de fundo o famoso e bonito hino da Marinha Brasileira o CISNE BRANCO.  Quantas lágrimas rolaram! 
 
            No dia 24 de agosto, 2ª feira, avistamos a ilha de Fernando de Noronha, sendo que às 10hs., passamos em frente  a  mesma  e   às 15hs., não mais a avistávamos. No dia 25 de agosto, cruzamos com 2 navios ainda em águas brasileira. Neste mesmo dia, passamos pela linha do Equador. Vale registrar que esse fato é comemorado com um batismo (com óleo de baleia) e posterior imersão em uma piscina improvisada no convés do navio, suprida com água do mar. Este procedimento, é tradição da nossa Marinha, inclusive originando um diploma assinado pelo Rei  dos Mares, Netuno!. Na noite desse dia, houve um grito de carnaval, improvisado com instrumentos que foram levados pelo pessoal (musicistas), para compor a banda de música do Batalhão Suez. 
 
            A propósito, é muito justo dizer que esses companheiros somaram muito com o pouco que existia lá na faixa de gaza em termos de percussão.  Muito ganhou os componentes do conjunto BRAZILIAN BOYS que lá  estavam, pois estes, eram em número reduzido. Registro, o José Araújo dos Santos Filho (mais conhecido como BRUCUTU – apelido posto por um Ten. do seu contingente, 14º), que além de Crooner, tinha intimidade com contra-baixo e bumbo. Quanto aos musicistas do 15º eram no seu todo, muito bons, tendo sido elogiados por gregos e troianos. 
 
            Do dia 26 a 30/08/64, a viagem prosseguiu normalmente ou seja: café, almoço, banho, jantar e dormir. Nos afazeres diário, quem não estava de plantão, passava os dias jogando cartas, dominó e outros jogos de salão, e ainda na enfermaria do navio devido a enjôo ou, no convés, literalmente a "VER NAVIOS". 
 
            Às 05hs. da manhã do dia 31/08/64, segunda-feira, avistamos TERRA!  Tratava-se da Ilha de Las Palmas, de possessão Espanhola, nas Gran Canárias. Atracamos às 10 hs. no cais MUELLE DE GENERALÍSSIMO, armazém, nº 4. Esta ilha é um dos principais centro de turismo da Espanha, onde foi fácil notarmos a presença de turistas: Noruegueses, Suecos, Iugoslavos, Holandeses, Ingleses, Americanos e até Brasileiros haja vista que conversamos com alguns durante nossa estadia em terra que foi de: Dia 31, de 13h  às 24hs e no dia  1º/09 de 08hs às 16hs; Às 19hs. deste dia, partimos rumo a Málaga, cidade litorânea nas margens do Mediterrâneo, situada a 105 km do Estreito de Gibraltar, já em território Espanhol. Em Las Palmas, fomos bem recebidos pela população local, embora tivesse havido um pequeno ¨qüiproquó¨ com um grupo de colegas o que é muito natural, em se tratando de militares jovens, solteiros em sua maioria, visitando locais às vezes perigosos quando em viagens longas por esse mundo afora. É uma grande ilha, bastante limpa, com traços conservadores, preços acessíveis e povo ordeiro. Permito-me registrar que no cumprimento ao horário estabelecido para retorno ao navio, somente um colega (Sd) não compareceu. Andou por locais perigosos, foi assaltado e machucou-se levemente, tendo sido rasgado (parcialmente) o seu uniforme, isto, após alguns ¨Birinaites¨ não poderia ser considerado como novidade. Ressalte-se a compreensão do nosso grande comandante, neste caso, o Capitão José FERREIRA da Silva, que deu conselhos ao seu comandado , aplicando-lhe a pena mais sensata: não desembarcaria em Málaga. 
 
            Em Málaga, aonde chegamos no dia 04 de setembro (sexta-feira) e atracamos no cais, (porto comparado ao da cidade de Barcelona) as 09h 30min. almoçamos no navio e somente fomos liberados para conhecer a cidade às 13hs. Nesta cidade, (à época) com cerca de 280.000 habitantes, região fértil em culturas de vinho, oliveira, figueiras etc... pudemos usufruir de bons restaurantes a beira-mar com jantares regado a bons vinhos, como exemplo, cito o Restaurante SÃO PEDRO, onde com colegas- Godoy, Junior, Paranhos etc... degustamos paelas e outras especiarias da região ouvindo belas musicas e assistindo a Shows FLAMINGOS.
Fizemos algumas compras e retornamos ao navio às 24hs. conforme determinação.     
 
            No dia 05, sábado, saímos novamente fazendo compras e conhecendo cidades circunvizinhas, retornando ao navio às 12 hs. uma vez que partiríamos às 15h30min. O que efetivamente ocorreu. O mais interessante na nossa partida de Málaga, foi o grande número de pessoas, principalmente mulheres, que estavam no cais, despedindo-se da tropa. Acredito que essa hospitalidade tenha sido decorrência de à época estarmos bem no futebol e ainda pela atenção dada pelos colegas ao povo da região, demonstrando carinho e fazendo doações; com distribuição de esmolas, brindes (dinheiro brasileiro)etc... 
 
            No dia 06, tentávamos a readaptação ao balanço do navio, o que, diga-se de passagem , era,  como não poderia deixar de ser, muito fácil para os marujos  e muito difícil para os soldados do Exército, sem sombra de dúvida. 
 
            Vários colegas, mais uma vez, baixaram enfermaria. Em 07 de Setembro, houve formação da tropa para comemorar / homenagear o dia da pátria em pleno convés, com participação dos componentes do navio G 16 (NAVIO DE TRANSPORTE BARROSO PEREIRA). 
 
            De 07 a 11 de setembro de 1964, tudo transcorreu como antes relatado, sem novidades, embora neste período tivéssemos a escolta de navios Norte Americano, devido à periculosidade, uma característica dos mares da área. Chegamos a Port Said as 09hs do dia 11 desembarcando às 18hs, e de imediato pegamos um trem com destino a Faixa de Gaza, aonde chegamos às 09hs., do dia 12/09/64, com direito a todas as gozações de praxe, ou seja: ser chamado de Capeta, Imagem do Cão, Slide do Diabo e outros adjetivos que faziam parte daqueles momentos de euforia e brincadeira cujo sentido maior era o que representava os novos companheiros que ora chegavam e que era da responsabilidade deles, os ANTIGOS ( 6 meses de faixa ), a transmissão dos conhecimentos afim de que os NOVOS/CAPETAS, aprendessem os macetes e conseqüentemente pudessem cumprir sua missão com representatividade, responsabilidade e acima de tudo honrando o nome da nossa querida Pátria, BRASIL. 
 
            Quero registrar que quando chegamos a Faixa de Gaza, o Sd. JARBAS foi o primeiro a receber uma carta. Lamentavelmente esta comunicava o falecimento do seu pai ocorrido em acidente no dia 12/08 na cidade de Miguel Pereira, tendo sido enterrado no dia 13. Não houve comunicação anterior ( quando o mesmo estava no 14º RI ) por falta de conhecimento do telefone da Unidade Militar  e ainda para que o fato não fosse motivo de desistência da viagem.  
 
Memórias do Cb. GERSON.
Colaboração Sd. JARBAS. 

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