18º Contingente - Cb.Francisco de Paula Leão


BATALHÃO SUEZ


        UMA PÁGINA DA HISTÓRIA COM LÁGRIMAS SUOR E SANGUE

        Foi no ensolarado 12 de junho de 1967, que acabou a luta dos pracinhas brasileiros contra a morte e as adversidades. 

        Foram dez anos, tempo que passaram em território egípcio, compondo a Força de Emergência das Nações Unidas, para patrulhar a fronteira entre Israel e Egito, os quais se hostilizavam desde 26 de julho de 1956, data em que o presidente egípcio Gamal Abdel Nasser nacionalizou o Canal de Suez, provocando a imediata reação de Israel, logo seguida pela França e pela Inglaterra, culminando com a tomada do Canal de Suez por estas nações em 29 de outubro de 1956.

        O Canal foi inaugurado em 1869, projetado pelo engenheiro Francês Ferdinand Lesseps e construído por um consorcio franco – britânico, o controle acionário foi passado para a Inglaterra em 1875.

        Com a intervenção da ONU, houve o cessar fogo e os países invasores retornaram às suas posições originárias. O presidente egípcio, temendo nova invasão, solicitou à ONU a criação de uma Força de Emergência para defender não só o Canal de Suez como também a Fronteira.

        Foi criada então a Força de Emergência das Nações Unidas, composta inicialmente por dez países: Canadá, Colômbia, Dinamarca, Finlândia, Índia, Indonésia, Iugoslávia, Noruega, Suécia e pelo Brasil, que através do Decreto Legislativo n* 061, de 22 de novembro de 1956, criou o seu contingente militar dos quadros do Exército.

        O contingente brasileiro, após breve treinamento no Campo de Instrução de Gericinó, no Estado do Rio de Janeiro, embarcou no navio de transporte de tropa Custódio de Melo, no dia 11 de janeiro de 1957. Em 02 de fevereiro, chegou ao Porto Said no Egito, depois de muitos dias de expectativa, enjôo e diarréias. Deste porto foram para o Campo Omar, para um período de adaptação. Depois, já com a bandeira das Nações Unidas, rumaram de trem cruzando toda a Palestina e vendo os horrores da guerra travada pela criação do Estado de Israel e pela posse do Canal de Suez.

        DESOLAÇÃO

        Era a primeira vez que a maioria dos soldados brasileiros tinha contato com um teatro de operações de guerra. Por todo lado que se olhasse, era uma desolação total; pessoas mutiladas, com fome e sem perspectiva de vida e de paz, por temerem que eclodissem novos conflitos. Suas cidades estavam destruídas, doenças como lepra, tuberculose, pneumonia dizimavam a população local, principalmente as crianças subnutridas.

        Contavam os antigos pracinhas que o espírito aventureiro com que saíram, começou a se esvair, por verem tanta amargura, desolação, desgraça e miséria. Não bastasse também o calor sufocante de quase 50ºC., que tinham de suportar durante o dia e as temperaturas quase negativas durante a noite, já que dormiam em barracas de lona. Muitos componentes de outras nações morreram em contato com as minas deixadas pela guerra e com as picadas de cobras do deserto, escondidas na areia e prontas para atacar ao sentirem-se ameaçadas.

        O contingente brasileiro não sofreu baixa fatal neste período em razão das minas, mas teve dois veículos destroçados, sendo rara a semana em que um ser humano ou um veículo não sofresse as conseqüências daquelas explosões, já que os campos minados não estavam demarcados, mapeados ou identificados.

        Nada adiantavam os sofisticados (à época) detectores de metais, simplesmente porque as minas, na sua maioria, eram de plástico. Restava ao contingente que estivesse no local mais próximo, cercá-las com arame farpado, retirá-las e explodi-las em local seguro. Muitos soldados perderam a vida ou ficaram feridos na tentativa de desarma-las. 

        A água que bebíamos, retirada de poços artesianos do Batalhão Canadense, era insalubre e denominada de “a coisa” devido aos produtos químicos nela colocados, ficava armazenada em sacos de lona, dotados de uma torneira localizada na parte inferior. As refeições eram frias devido à distância do chamado “rancho” onde eram preparadas, basicamente constavam de arroz e feijão preto levados de navio para a faixa de gaza, complementadas por enlatados.

        A higiene pessoal era precária porque a água era racionada. As instalações sanitárias compunham-se de um funil cravado na areia e de uma fossa negra coberta por uma barraca de lona; esse tipo de instalação ainda havia nos pelotões de fronteiras, Fortes Rio de Janeiro, Robinson, Saunders e outros, a época em que servi nessas unidades, algumas vezes ficávamos um ao lado do outro nestes sanitários arcaicos, não havia divisórias e nos equilibrávamos sobre duas tábuas; não sei se por falta de empenho do Comando ou por falta de condições materiais.

        Contavam os antigos pracinhas que devido a criação do Estado de Israel, os palestinos faziam incursões suicidas pelas fronteiras protegidas pela ONU, e muitas vezes, a noite, tentavam furtar armas leves dos contingentes da Força de Paz, para praticarem atentados. Também não se tinha certeza de que tais fatos não seriam praticados também pelos israelenses.

        LAZER

A distração do 1º Contingente consistia de, uma vez por mês, manter contato com os familiares no Brasil que morassem ou estivessem na cidade do Rio de Janeiro, através de um velho rádio transmissor da Estação PTA-2 com tempo de cinco minutos no máximo.

        Muitos soldados da Força de Paz, tiveram problemas emocionais, denominados “KAFAH”, relacionados à sua permanência em Suez devido à brutalidade do local, à miséria ou à morte de um colega. A UNEF, para melhorar um pouco a situação que estava se tornado insustentável, organizou excursões como forma de descanso ou lazer, a cada três meses de trabalho era dado sete dias de descanso, que era aproveitado pela maioria para fazer passeios pelos países do Oriente Médio principalmente ao Egito, Líbano, Síria e a Jordânia.

        Com o passar do tempo, as barracas de lona foram sendo substituídas por pequenas casas de alvenaria; construídos campos de futebol e quadras desportivas. E criados os jogos da Força de Paz, dos quais participei e fui campeão nas modalidades de Atletismo e Futebol de Campo. 

        RETIRADA DA FORÇA DE PAZ

        O Comando da Força de Emergência das Nações Unidas que ficava situado na cidade de Gaza, determinou que as Nações começassem a retirada de seus contingentes. O contingente brasileiro deveria retirar-se no início de junho de 1967, mas com as garantias dadas pelo Governo da República Árabe Unida, marcou a sua saída para 18 de junho de 1967, porém, em 05 de junho de 1967, um avião Mirage de Israel, passou em vôo rasante pelo acampamento do Brasil, assustando aos novos pracinhas chamados de “CAPETAS” em vez de “RECOS” , como se usa no Brasil, era o 20º Contingente, chegado há pouco tempo na faixa de Gaza. Aquele vôo do Mirage foi um aviso de que a Guerra estava começando.

        INÍCIO DA GUERRA DOS 06 DIAS

        Pouco depois das nove horas do dia 05 de junho de 1967, estourou a guerra. Aviões de Israel cruzaram a fronteira e atacaram as bases do Egito em El Arish e no Cairo, destruindo quase toda a força aérea daquele país, que ainda encontrava-se em terra. Por volta das dez horas, duas baterias egípcias atacavam a fronteira israelense e foram destruídas trinta minutos depois. Às onze horas, passaram próximo ao Batalhão Brasileiro, duas colunas de tanques e de carros blindados Israelenses, ocorrendo ainda nas proximidades uma violenta troca de tiros com a tropa de infantaria do Egito.

        Por dois dias seguidos, a tropa brasileira viu-se obrigada a rastejar de um lado à outro para não ser atingida pelos disparos das tropas de Israel e Egito. Num desses dias ocorreu a última baixa do Batalhão Suez, o CABO CARLOS ADALBERTO ILHA DE MACEDO foi atingido no peito por um projétil, e faleceu, apesar dos esforços médicos. 

        Em 01 de agosto de 1967, o navio de transporte de tropas Soares Dutra atracava em Porto Alegre, e os pracinhas recebidos como heróis, no retorno de uma guerra, apesar de ser uma Força de Paz. 

        MINHA PARTICIPAÇÃO

        Quanto à minha participação, foi igual à de tantos outros. Como Cabo do Exército, além das funções de sub-comandante da Guarda do Batalhão, quando em exercício nas companhias ou nos pelotões de fronteira, eram-me atribuídos os serviços de comandante de patrulha, sendo estas as responsáveis pela guarda da fronteira. 

        A fronteira era dividida em duas partes, a primeira denominada Linha Demarcatória de Armistício – ADL, a segunda de Fronteira Internacional - IF. A primeira consistia de uma valeta feita pelas tropas da ONU, medindo um metro e meio de profundidade por um metro de largura. A Segunda era formada pela própria topografia local, ou seja, as próprias dunas, já que não era possível manter-se uma valeta no deserto do Sinai em razão das tempestades de areia. Esta fronteira media cem quilômetros de extensão por dez quilômetros de largura. Na ADL, o patrulhamento era executado a pé ou de jipe e a cada mil metros havia um posto de observação, onde o homem em serviço deveria obrigatoriamente fazer contato com o Batalhão. Na IF, o patrulhamento só poderia ser executado com jipes especiais, a cautela redobrada em razão, dos campos minados e das tempestades de areia que mudavam as dunas de posição. Essas patrulhas eram realizadas diuturnamente. 

        Nesta vida, COMENDO AREIA, como dizíamos , permaneci com meus companheiros por longos dezesseis meses. Só deixei a faixa, menos de dois meses do início da guerra dos seis dias, cheguei em janeiro de 1966 e retornei ao Brasil em abril de 1967.

        HONRARIAS

        Ter recebido a Medalha da Paz, concedida pelas Nações Unidas e a Medalha Guardianus S. Montis Sion et SS. Sepulcri D.A.II.C.Totius Terrae Sanctae Custus et humilis in Domino Servus , que fora instituída pelo Papa Leão XIII e concedida pela Ordem dos Franciscanos, em razão dos serviços prestados em prol da paz mundial e da defesa dos lugares sagrados da Terra Santa. 

        O Prêmio Nobel da Paz, concedido as Tropas de Paz das Nações Unidas –1988.

        EMOÇÕES

        Além de ter contribuído com as Forças de Paz, de ter dado um pouco de minha existência ... , foi minha vida enriquecida não só pela experiência inigualável que pude compartilhar, mas também pelos inesquecíveis lugares que conheci: os sagrados de Belém, Jerusalém, Jericó e Sinai; as Pirâmides do Egito, o Templo de Luxor e o Oásis Ghout em Damasco ( que os Sírios diziam ser o Jardim do Paraíso, onde viveram Adão e Eva.

        Ter visitado o túmulo de Sansão (Dalila) que ficava no cemitério velho da cidade de Gaza, era acinzentado e tinha paredes grossas, muito visitado por turistas do mundo todo. O mais intrigante era que corria uma versão de que seu corpo fora levado depois de sua morte por seus parentes para ser sepultado numa localidade próxima a Saraá e Estol, no túmulo pertencente a seu pai que era juiz em Israel.

        Visitado a cidade de Gaza, antiga sede da Ordem dos Templários em 1152, ao tempo dos Cruzados.

        Caminhado pela estrada que Nossa Senhora e São José fugiram de Jerusalém para o Egito, levando o menino Jesus, escapando da fúria do Rei Herodes. 

        De ter escrito e colocado uma placa no cemitério dos Soldados mortos na 2ª Guerra Mundial, que ficava a margem esquerda da estrada que ligava as cidades de Rafah e Gaza, cujos dizeres cito de memória:

“ Ao pisar com suas botas neste solo tenha muito respeito, ele foi palco de sangrentas batalhas, onde milhares de homens perderam a vida e a noite quando ouvir o vento, ouça também com o coração, porque então irá entender que ainda hoje ele lamenta e chora pelos que morreram nesta terra desde os tempos dos Faraós. “ 

        REALIZAÇÃO PESSOAL

        Ter voltado vivo e com saúde.

        Cumprido com honra a missão que me foi atribuída de defender a Paz e a Humanidade, na Força de Paz das Nações Unidas, acantonada no Oriente Médio.

        O reconhecimento da Comunidade Internacional, que nos outorgou o prêmio Nobel da Paz-1988.

        Delegado de Polícia de classe especial.

        Boina azul das Nações Unidas.

 

Colaboração de FVargas <fvargas@infolink.com.br> 
Data: Sat, 16 Oct 2004 11:24:24 -0300 


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