1° CONTINGENTE- Darcy Duarte Rosa
HISTÓRIAS DE UM SOLDADO DA ONU - Ulisses Francheski

Sobre a Faixa de Gaza, seu Darcy com pé direito no Egito e o esquerdo em Israel
Assunto
recorrente nos noticiários, a Faixa de Gaza é o centro das atenções em todo
o mundo em razão dos constantes conflitos entre Árabes e Judeus, que não raro
redundam em centenas de mortos. Morador de Icaraí há 30 anos, Darcy Duarte
Rosa, o seu Darcy, 70 anos, foi testemunha ocular desses fatos como participante
da primeira missão da Organização das Nações Unidas na região.
Em 1957, seu Darcy viu a chance de conhecer outras
culturas e ao mesmo tempo contribuir para manutenção da paz mundial. Ele e
mais 549 militares brasileiros se juntaram aos cerca de 6 000 homens de outros
nove paises. Eles ficavam ao longo de uma vala Demarcation line(linha de
demarção)
- mais tarde conhecida como Faixa de Gaza - que demarcava a fronteira entre
Egito e Israel. “Nossa missão era de paz, tínhamos que evitar o trânsito de
pessoas entre os dois países. Ficávamos em um território neutro dentro do
Egito e não podíamos ir ao território Israelense, nem tomar partido”,
lembra seu Darcy.
A clima entre os dois paises ainda era tenso.
Segundo seu Darcy, os tiros disparados nos exercícios de guerra do exército
israelense rompia as noites silenciosas. As madrugadas geladas contrastavam com
o terrível calor durante o dia. A oscilação de temperatura fazia detonar
espontaneamente minas terrestres por todos os lados. “O Egito, apavorado,
distribuiu minas como água para a população. Essa se encarregou de
distribui-las indiscriminadamente em todo o país, o que era uma temeridade”,
destaca seu Darcy.

Primeira visita do Secretário Geral da ONU, Sr. Dag Hammarsjold (terno e chapéu), na Faixa de Gaza, acompanhado do Sr. Major General E.L.M. Burns e do comandante do Batalhão Brasileiro Tem. Cel. Iracílio Ivo de Figueiredo Pessoa (à esq.), em 1957.
Gamal
Nasser, ídolo do povo egípcio
Para piorar tinha as
tempestades de areia que duravam até três dias e chegavam como uma imensa
nuvem preta que tomava conta de tudo. “ emperrava armas, entrava nas roupas,
nos olhos e até na comida”, lembra.
Mas o clima de beligerância não impedia que os
soldados, de folga, conhecem, a já naquela época, eufórica noite da capital
egípcia. “A noite era agitadíssima. Você tinha boates lindas – no Brasil
não tinha isso naquela época. E tinha uma em especial, que ficava em um dos
braços do Nilo, que era encantadora. Mas a preferida dos brasileiros era a
Perroquet (Periquito), onde a grande atração era uma alemã, lidíssima, que
executava a dança do ventre de maneira excepcional, melhor até que as egípcias.
O mais interessante é que os instrumentos musicais eram réplicas dos usados na
época dos Faraós”, recorda.
De acordo com Seu Darcy, o árabes parecem com os
brasileiros. “È um povo sofrido e que, apesar das dificuldades, é muito
alegre e festivo”. Outra semelhança é que, como as cidades brasileiras, o
Cairo tem dois lados. O lado ocidental é próspero e recheado de arranha-céus.
E outro, mais tradicional, onde estão localizados bolsões de pobreza.
Apesar da tensão na linha de fronteira, foi num
dia de folga que seu Darcy viu a morte de perto. Aos domingos, às vezes, nós
íamos a Gaza, que era uma cidade a 50 quilômetros do nosso batalhão. Lá,
alguns soldados colombianos beberam demais e começaram a fazer arruaças, até
que um deles agrediu um guarda de trânsito árabe. Aí o povo se rebelou contra
todos nós. E Gaza era uma rua só – é como se tivesse uma rua de Icaraí até
São Gonçalo. Agora tinha uma vielas que saia gente de tudo quanto é lado. Eu
estava caminhando, quando vi aquele mundo de gente, gritando “no good, no good”.
Entramos, desesperados, num táxi, pequeno, tipo Inglês. A multidão viu e começou
a sacolejar o veículo, querendo virar. A gente sacolejando e vendo aquelas
expressões de ira. Pensei que fosse morrer. A nossa sorte que apareceu um Árabe
e começou a abrir fogo contra a multidão. Foi aí que eles abriram e o
motorista arrancou e saímos dali”, relembra Seu Darcy, hoje sorrindo com a
situação.
Seu Darcy só deixou o Egito em 20 de outubro
1958. “Só vim quando não me deixaram ficar mais. O meu objetivo era
permanecer o máximo de tempo possível”. No entanto, ele trouxe na bagagem
muito mais do que lembranças. “Lá nos aprendemos a dar valor ao povo
brasileiro. Nos somos criativos, inteligentes, um povo que não deixa nada a
dever a qualquer outro. Os batalhões de outros paises cansaram de copiar idéias
lançadas pelo nosso batalhão”, observa. A missão da Onu conseguiu manter a
paz entre Egito e Israel durante dez anos, até que explodiu a Guerra dos Seis
Dias, em 1967.