A MISSÃO DE UM NITEROIENSE NA FORÇA DE PAZ DA ONU
No dia 11 de janeiro de1957,o navio Custódio de Melo partia rumo ao Egito com cerca de 530 homens. A missão era da ONU e a despedida foi marcada por lágrimas dos familiares, muitos contrários à viagem; e pela presença do então presidente da República Juscelino Kubitschek. Até o destino, Port Saíd, os tripulantes enfrentaram furacão, derramamento de gasolina, que obrigou o navio a ficar à deriva por 70 horas; e um dos soldados perdeu a vida vítima de uma infecção que não pode ser controlada mesmo com modernos medicamentos. O corpo do solado foi sepultado no Mar Mediterrâneo e a cerimônia militar do sepultamento ficaria gravada na memória daqueles “passageiros”, inclusive de um jovem de 18 anos chamado Hélcio de Mello Soares. Hoje, quase 50 anos depois, Seu Hélcio relembra estes e outros episódios da juventude quando um grupo de brasileiros foi para o Egito com a missão, das Nações Unidas, de apaziguar os conflitos da região da Faixa de Gaza e descobrir e desarmar minas terrestres. As minas, que não eram detectadas pela aparelhagem antiminas, feriram e mataram muitas pessoas e animais. Soldados brasileiros foram mortos e alguns chegaram a perder partes do corpo. “Não tínhamos noção de coisa alguma. Quando chegamos lá, o Canal de Suez estava interditado por barcos e navios que haviam sido afundados. Lá percebemos que a situação estava feia”, diz o ex-cabo.
Deserto
O Batalhão Suez, como ficou conhecido, se instalou em Rafah
Camp, antigo posto inglês, e marchou junto às tropas israelenses que retiravam-se das terras egípcias. O Brasil foi a primeira tropa a entrar em Gaza e chegar à fronteira de Israel, vindo depois o Canadá, a Indonésia, a Colômbia, a Dinamarca e outros. Deslocados para outro local, o Batalhão de Suez se viu em precárias instalações onde os sistemas de água, luz e esgoto não funcionavam. Aliás, toda a região era precária na parte de saneamento básico, chegando a ser difícil a convivência com as moscas. A cidade de Gaza era mais um povoado, Totalmente diferente do que é hoje. “Era como uma vila muito pobre. A pobreza imperava lá”, recorda Hélcio que junto com o subcomandante Celso Bodstein ia aos finais de semana ao Cairo se divertir nas boates, única diversão naquele deserto.
“Atirar para matar”
Todo e qualquer material colocado fora das barracas era roubado o que obrigava aos soldados ficar de vigilância 24 horas, seja nas noites, que eram muito frias, ou no calor dos dias. Tiros para assustar os possíveis ladrões eram disparados mas, percebendo que a intenção dos soldados brasileiros não era matar, eles começaram a forçar entrada dentro do acampamento. Num almoço com o então General Chefe do Estado Egípcio, foi relatada a história e feito o pedido de homens para ajudar a conter a onda de assaltos. O General, com toda sua sensibilidade, avisou que a tropa devia atirar para matar. Eram refugiados de guerra e não egípcios. A sugestão não foi aceita.
Um avião da FAB chegava a cada três semanas com alimentação. Aliás os serviços de transporte e de manutenção de veículos era considerados os melhores da Força de Paz. Os médicos também, chegando mesmo a atender à população tão carente e sofrida da região. Até remédios foram doados para ajudar e dentaduras eram feitas no Rio de Janeiro e enviadas para Gaza. O sofrimentos dos egípcios era tremendo e a Força de Paz brasileira tentava diminuir ou mesmo mudar este quadro de degradação de um povo tão sofrido. Os soldados eram obrigados a ingerir doses de quinino diárias para se prevenir contra o tracoma, um tipo de conjuntivite barra pesada.
Nobel da Paz
Quase dois anos depois, o Batalhão de Suez se prepara para voltar para casa levando na bagagem histórias e mais histórias que ficaria difícil contá-las aqui por falta de espaço. O reconhecimento veio através do Prêmio Nobel da Paz, em 1988, concedido às Forças de Paz, civis e militares, que participaram de missões de paz em todo o mundo até aquela data. O General Iracílio Ivo Figueiredo Pessoa, responsável pela tropa brasileira em Suez, e que deixou seu depoimento no site
www.batalhaosuez.com.br/1contingente Depoimento.htm, faleceu em janeiro de 2004.
Quando voltou para o Brasil, Seu Hélcio deu baixa no Exército e voltou a trabalhar em uma loja de material de construção da Rua Dr.
March. Com uma família com mais quatro irmãos e uma mãe viúva, o rapaz precisava de dinheiro e passou a considerar Seu Francisco Blois Júnior, proprietário da loja, o pai que ele havia perdido quando tinha 10 anos de idade. A filha do comerciante virou, seis anos depois, sua esposa e do casamento nasceram quatro filhas. Todas e mais um sobrinho, considerado filho, hoje trabalham na loja Trianon ao lado do pai. Na memória muitas lembranças. Algumas boas e outras tristes mas sem dúvida, o pior de tudo é saber que em Gaza a população ainda continua morrendo por causa de um conflito que parece não ter fim.

Hélcio, hoje, em frente a Trianon
De: Theodoro da Silva Junior <theojunior@uol.com.br>
Data: Sat, 9 Apr 2005 15:28:38 -0300