1º Contingente 1956 - Cb.Geraldo Luiz da Silva

 

Setembro,1956

O Gen. Amauri Cruel comandante do 1ºExército e o Gen.Denni, comandante da 1º D.I., foram para o 1ºR.I.(Regimento Sampaio), escolher parte do 1ºContingente do Brasil para representar as Forças de Emergência das Nações Unidas no Egito.

Prioridade para as escolhas:
Ø Soldados e Cabos com mais de 1,70 m.
Ø 1º grau completo e se possível tendo conhecimento ou falando algum idioma.

Todos escolhidos, fomos para os cansativos treinamentos no campo do Gericinó nesta altura, juntou-se a nós o 2º Regimento ( 2 de ouro ), o 3ºde Niterói e um Pelotão de Caçadores de Petrópolis. Assim formamos o 3º batalhão do 2º regimento de infantaria (Batalhão Suez).

O mês de dezembro de 1956, foi um mês de muito temor e muita expectativa, pois o Egito ,estava em guerra e toda semana saia no noticiário o nosso embarque. Assim foi até Janeiro quando o Custódio de Mello, se preparou para partiu com destino a Suez.
Embarcamos ás 15:00 Hs., quanta tristeza e quantas lágrimas derramadas. As 22:00Hs., a Banda dos Fuzileiros Naval tocava, anunciando que estava chegando a hora e vamos chorar. 

O Jornal da manhã do Rio de Janeiro, publicava, "Partiram os pracinhas escolhidos para representar a nossa pátria em plagas distantes sob o comando do Cel. Iracilio Ivo Pessoa,deixando seus familiares , esposas , noivas e namoradas em prantos no cais do porto, uma delas gritava Geraldo...Geraldo... Geraldo... Desmaiando em seguida"

No primeiro porto da escala foi nas ilhas de Grand Canária em Lãs Palmas.Até aí a viagem foi ótima, o pior estava para vir. 

Entramos no estreito de Gibraltar, sob um tremendo temporal. Próximo a Ilha de Pantelaria um destrói americano aconselhou ao nosso comandante para aportar na ilha, pois tínhamos mais a frente um maremoto muito forte e que poderíamos correr grande perigo. O que não foi aceito pelo comando alegando estarmos em missão de guerra e sem permissão da frota brasileira para a devida abordagem.. 

Dito e acontecido, nas primeiras horas manhã tudo escureceu, as ondas mais altas que o velho Custódio de Mello, faziam ele bater a proa e polpa com muita força no mar vindo por isto empenar a hélice, fazendo assim um terrível barulho, a radio do navio entrou em pane, ficando sem contato com o Brasil, por ter perdido total visibilidade e comunicação foi dada à ordem para que de 30 em 30 segundos o navio apitasse.Foi um pânico total essa nossa primeira viajem, uma balsa de salvamento saiu das amaras e caiu encima dos tambores de gasolina que levávamos para o abastecimento dos nossos carros por mais ou menos seis meses. Ficamos quatro dias comendo ração fria e frutas sem poder acender os fogões pois a gasolina se espalhou por todo o navio trazendo grande risco de explosão.

Enquanto tudo isso acontecia, lá dentro tínhamos um problema muito pior, o falecimento de um companheiro o Soldado João da Silva João , após passar mal com o balanço do navio, teve pneumonia dupla e faleceu. E agora o que fazer do corpo ? A lei dos mares responde: a morte de um tripulante ou passageiro de um navio, leva-se o corpo para o porto e tripulantes e passageiros do navio ficam de quarentena ou lança-se o corpo ao mar. Após reunião do comandante no navio e comando da nossa tropa .Ficou decidido que o corpo seria lançado ao mar pois nossa missão era de guerra é não podíamos ficar de quarentena. Foi posto uma barra de chumbo nas costas do colega, envolvemos o corpo com lençóis, o colocamos em uma prancha,e ouvimos o mais triste toque de silêncio de nossas vidas e o corpo foi lançado ao mar.

Com a hélice empenada fazendo barulho ensurdecedor, sem comunicação com o Brasil e apitando de segundo em segundo, após 22 dias de viajem chegamos a Port Said.

Nosso batismo: tremenda chuva de granizo, cidade totalmente destruída, corpos decompostos, comércio saqueado, passamos a primeira noite no cais e o que aconteceu na 2ªGuerra em 1945 se repetiu, não tínhamos roupas apropriadas para o frio e iriámos sofrer.

Contarei o restante da Missão de Paz em outra pagina. ( Missão de Paz, codinome dado pelo nosso Exercito para que nós não pudéssemos reivindicar a missão de guerra que é o nome certo ).

Hoje, muitos com mais de setenta anos, alguns aposentados pelo I.N.S.S. e outros, estão pedindo esmolas. Acredito que do 1ºContingente, resta somente uns 200 integrantes é bom lembrarmos que não fomos voluntários, fomos sim escolhidos ä dedos pelos Generais Comandantes do 1º Exercito e da 1º D.I. por isto deveríamos ter os mesmos direitos dos ex-combatentes, pois, pelo que nós passamos, somos ex-combatentes sim.

 

osnipisani <osnipisani@uol.com.br> 
Data: 18/07/2006 (15:07:21) 
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