Terra santa

Márcio Moreira Alves do Globo - RJ


            Cobrir para o "Correio da Manhã" a participação do primeiro Batalhão Suez no contingente da ONU foi a minha estréia como repórter internacional. Tinha 21 anos e me achava o rei da cocada preta. O motivo da guerra foi a nacionalização pelo general Gamal Nasser do Canal de Suez, que pertencia a uma empresa franco-inglesa. A ação combinada das forças aéreas de Inglaterra, França e Israel destruíra a força aérea do Egito num ataque fulminante, que deixou o aeroporto do Cairo cheio de crateras. Esperei um par de dias em Atenas que o consertassem, mas, quando finalmente pude pousar, meteram-me nas barracas da quarentena, por não estar ainda válida minha vacina contra a febre amarela. A idéia que as autoridades do Egito tinham do Brasil era ainda pré-Oswaldo Cruz. Não estavam muito longe da verdade, como prova a epidemia de dengue deste verão, provocada pelo mesmo Aedes aegypti que transmite a febre amarela.

        A quarentena foi ótima. Tive como companheiros os sobreviventes da tripulação de uma fragata que ousara atacar um cruzador inglês no Mar Vermelho. Foi posta a pique com uma salva de canhões e os sobreviventes recolhidos e levados para Djibouti e de lá devolvidos ao Egito. Fiquei logo amigo de alguns oficiais, que me ensinaram algumas palavras de árabe e me levavam nas incursões que faziam pela noite do Cairo. Heróis nacionais, tinham os privilégios de desrespeitar as regras da quarentena.

        Recobrando a liberdade, fui incorporar-me ao QG das Nações Unidas, em Port Said, no meio do Canal de Suez, que estava bloqueado pelos navios afundados no leito. O Batalhão Suez, depois de desembarcar, ficou umas semanas à espera da ordem de marcha para um oásis no Deserto do Sinai. Gaza estava ainda ocupada pelos israelenses, mas, pelo tratado de armistício, deveria ser devolvida ao Egito. Consegui uma carona com o batalhão dinamarquês, vanguarda das tropas da ONU, e fui o primeiro jornalista a entrar na cidade. Era noite e chovia. Os jipes e os caminhões da ONU foram acompanhados por um coro dos gritos rituais das mulheres árabes, que expressam alegria com gritos sincopados pelo movimento da língua.

        O general canadense que chefiava as tropas de capacetes azuis recebeu a cidade das mãos de Moshe Dayan, o general caolho, que usava um tapa-olho negro e se tornaria lendário como ministro da Defesa de Ben Gurion e arquiteto, com Yitzhak Rabin, da vitória israelense na Guerra dos Seis Dias, em 1967.

        Fiquei em Gaza três meses, relatando a implantação da base do Batalhão Suez nas proximidades da cidade, base que serviu muitos anos aos sucessivos batalhões que para lá mandamos. Durante esse tempo, tive bastante contato com a população palestina, que vivia, como ainda hoje, confinada em campos de refugiados sustentados pelas Nações Unidas. O ideal de alguns dos jovens que conheci era conseguir uma bolsa de estudos para sair dos campos de refugiados e, uma vez formados, trabalhar nos Emirados Árabes ou na Arábia Saudita. A educação era a saída que buscavam. Corta-me o coração ver, pela TV, que o ideal dos jovens de hoje é o martírio. Não há nada mais desesperador do que uma juventude que vê no suicídio sua realização.

        O ataque do Exército de Israel ao quartel-general de Yasser Arafat e a ocupação da Faixa de Gaza e de povoações palestinas na Cisjordânia anunciam uma continuidade por tempo indefinido da alternância entre ataques suicidas a Israel e chacinas israelitas na Palestina.

        A exigência que fazem o presidente Bush e o primeiro-ministro Sharon a Arafat, para que prenda os terroristas de seu campo e tome providências para controlar os ataques a Israel, é de um cinismo revoltante. Como exigir alguma coisa de um dirigente confinado numa aldeia e, agora, tendo como domínio apenas duas salas de seu quartel invadido, sem luz, água e telefone? Mesmo antes, que autoridade tinha Arafat para prender alguém, se a sua polícia era bombardeada todas as noites e as suas prisões destruídas pelas bombas?

        O Conselho de Segurança da ONU adotou uma resolução unânime exigindo a imediata retirada das tropas de Israel da Faixa de Gaza. O governo de Israel não deu a mínima importância a essa resolução. Os Estados Unidos o apoiaram na desobediência. Não tarda que Arafat seja morto, eliminando-se o único interlocutor palestino reconhecido por seu povo.

        A terra que deveria ser santa continuará banhada em sangue até que surjam políticos interessados no estabelecimento da paz.

        O presidente Fernando Henrique, do seu retiro pascoal de Fernando de Noronha, declarou ser o Brasil favorável à proposta da Arábia Saudita de troca de terra por paz para resolver o conflito do Oriente Médio. Disse, ainda, que o país se disporia a contribuir com tropas, caso a ONU organizasse um contingente de capacetes azuis para apartar os inimigos, como em 1958. 

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