Para
ser lido quando DEUS o permitir
São
15:37 horas do dia 7 de junho de 1967.
Pela
primeira vez posso escrever alguma coisa depois que eu saí do inferno . Eram
9:30 do dia 5 de junho quando eu, de serviço em uma casa ao lado do Fort
Worthington, assisti aos inícios desta sangrenta guerra . Alguns aviões
israelenses começaram o bombardeio de posições egípcias localizadas a poucos
metros do Rafah Camp. Pensei inicialmente tratar-se de movimento isolado de
represália, talvez. Mas pelo barulho o bombardeio não se restringia apenas
aquelas posições e sim começou a alastrar-se por toda a área em volta .
Alguns,
inclusive oficiais, disseram que se tratava apenas de exercício . Eram
aproximadamente 12:00 horas quando o bombardeio aumentou agora não só por aviões
mas reforçada por artilharia terrestre.
Como
membros da ONU ficamos crentes que nada nos aconteceria,pois os contendores
deveriam saber onde nos localizávamos. Qual não foi o meu espanto quando a uns
duzentos metros do Campo eu vi cair uma granada de morteiro e depois outra . Só
aí compreendi que a guerra explodira mesmo e o grande perigo que corríamos.
Continuei
parado no meio do parque de estacionamento por um instante vendo as explosões
ao longe. Uma violenta explosão fez com que eu fosse lançado ao solo
violentamente. Um obus havia explodido a poucos metros de mim. Corri para a
primeira trincheira que eu vi. Ela não passava de um buraco com capacidade para
3 homens. Ao chegar nela atirei-me para dentro sem olhar. Lá já estavam cinco
homens e eu caí em cima deles.
Devido
ao medo que fomos tomados conseguimos nos arranjar os seis no fundo do buraco .
Aí pela primeira vez na vida eu senti o medo verdadeiro . Nenhuma palavra
existe realmente grandiosa para exprimir o terror que tomou conta de todos.
Como
estávamos entre os dois fogos, fomos vítimas de um tremendo bombardeio com
armas de todos os calibres. As granadas explodiam perto e além do estrondo
ensurdecedor, deixava um cheiro acre de explosivo e uma grande nuvem de fumaça
As balas de metralhadora .50 passavam zunindo sobre as nossas cabeças e algumas
acertavam as bordas do buraco enchendo-nos de terra .
Comigo
no buraco estavam o Ten Wagner, Sgt Tiburí, Cb Mesquita e os Sds Kerber e
Augusto . Alguns começaram a rezar em voz alta e parecia que eles iam cair em
uma crise nervosa . Eu, que sentia um medo tão grande quando os deles, fiz um
esforço sobre humano para não fraquejar e não dar demonstrações de fraqueza
moral naquela hora tão dramática .
Entre
o ruído tétrico do canhoneiro nós ouvíamos o barulho dos tanques e carros de
combate que passavam perto .
Naquele
momento de suprema provação nós os seis fizemos a promessa para, se por acaso
voltássemos a Pôrto Alegre, nos reuniríamos para agradecer a DEUS pela graça
alcançada . Eu, particularmente, achava pouco provável que nós saíssemos com
vida daquele buraco pois choviam granadas e obuses.
Ficamos
naquela trincheira por três horas e meia e parecia um milagre que afinal pudéssemos
sair daquele quase túmulo . Eram 16 horas e o canhoneiro continuava nas
proximidades. ´
Às
17 horas eu, havendo deixado em uma casa próxima ao Forte (depósito de
material médico) alguns objetos,
resolvi ir buscá-los e como não havia nenhuma explosão por perto achei que
podia correr o risco . Atravessei o portão das armas e com grande imprudência
caminhei através do campo .Estava quase chegando na edificação quando, ao
longe, ouvi o matraquear de uma metralhadora pesada .Sem sentir o perigo parei e
olhei para trás. Ouvi neste momento o zumbido das balas sobre minha cabeça e só
vi que estava deitado quando senti o gosto da terra . O medo fez com que eu me
atirasse ao solo imediatamente.
As
rajadas cessaram e ao examinar a parede da casa que estava a poucos metros,
encontrei-a com enormes rombos das balas .50.
Apanhei
os objetos e voltei correndo para o Forte. Mais uma vez o milagre acontecera .
Continuamos a ouvir os disparos pelo resto da tarde.
Às
19:00 horas daquele 5 de junho, dia fatídico, ouvimos alguns disparos perto do
campo e avistamos na estrada que dá acesso ao mesmo, alguns carros de combate
tomando posição . Não sabíamos qual seria a bandeira deles e ficamos
aguardando abrigados.
Os
carros, subitamente abriram fogo contra o Forte com todas as armas. Mais tarde
identificamo-los como israelenses e que já haviam tomado quase toda a Faixa de
Gaza, numa das vitórias, provavelmente, mais rápidas da história .
Êles
não sabiam, conforme disseram mais tarde, que ali havia ainda tropas da ONU.
Por isso eles nos atacaram. Nós imediatamente atiramo-nos ao chão das
barracas. O ruído das balas batendo no teto e nas paredes era terrível. Os
nossos alojamentos foram de tal forma varridos pela metralha que parecia
impossível que alguém escapasse daquela com vida .
Mais
uma vez, entretanto, a interferência divina fez com que nenhum inocente
sucumbisse . O maior perigo era quando as balas ricocheteavam nas paredes e
saiam em qualquer direção . Dois dos meus colegas saíram levemente feridos
com estilhaços no rosto e nas costas . Os israelenses vendo que o seu fogo não
era respondido depois de quinze minutos de completo metralhamento, resolveram
cessar o fogo e entrar no Forte. Isso foi feito por cinco carros de combate.
Foram os piores minutos de minha vida com as balas zunindo em cima de nós em
todas as direções . Haviam projeteis encravados por todo o lado . Felizmente
um de nossos colegas usando de sangue frio e estando em um alojamento perto do
local onde parou um dos carros, saiu e falou com o Capitão Comandante da Força
. Explicou que éramos brasileiros e estávamos ali por acidente. Foi dado ordem
para que saíssemos e reuníssemos no pátio . Isso narrado parece muito simples
mas no momento em que aconteceu, não sabendo ainda a intenção dos atacantes,
o nosso primeiro pensamento foi que seríamos, provavelmente, passados pelas
armas. Isso devido a emoção do momento em que havíamos nascidos de novo .
A
primeira impressão do exército israelense é que eram muito disciplinados e
muito jovens.
Fizeram-nos
entrar em uma coluna por três e caminhar até
um campo situado ao lado do Forte. Lá foi o ponto de reunião de todos
os prisioneiros do Rafah Camp. Logo depois chegaram dez noruegueses e doze
indianos que seriam os nossos companheiros de infortúnio . Alem disso haviam
alguns civis de varias nacionalidades que eram funcionários da ONU e estavam
fazendo um levantamento do material do Rafah Camp. Depois de todos reunidos
fomos levados para fora do portão
do campo e ali mandaram que sentássemos no chão
em um local não muito apropriado pois estava cheio de pedras. Eram
aproximadamente 20 horas e ficamos ao relento sentados ou deitados até o dia 6
às sete horas. Tínhamos ate esse momento
por milagre apenas um ferido que era o sd BARROS atingido por estilhaços
de uma granada de morteiro que caiu ao seu lado enquanto ele fazia um
deslocamento dentro do Forte. Felizmente o ferimento não era grave e ele foi
prontamente medicado .
Dia
6 pela manhã fomos deslocados novamente para dentro do campo mais
especificamente para o Hospital da UNEF. Ficamos sentados dentro do refeitório
do Hospital até que por volta do meio dia foi servida uma refeição . Fazia
aproximadamente 24 horas que não comíamos.
Passamos
a tarde esperando uma solução para o nosso caso . Ao entardecer fomos
deslocados novamente desta vez de retorno ao Forte.
Lá
chegando tomamos conhecimento do saque que o exército israelense havia feito em
nossos haveres. Não havia nenhuma mala ou sacola que não houvesse sido
revistados. Levaram os gravadores de todos os sargentos e oficiais e que valiam
por volta de 2000 cruzeiros novos cada um. Máquinas fotográficas, rádios, relógios
e toda sorte de valores. De mim, particularmente, e fui um dos menos atingidos, levaram um projetor de slides e varias canetas Parker. Além
da medalha de prata que eu ganhei nas Olimpíadas da UNEF na modalidade de 4x100
metros rasos. Arrumamos o que sobrou rapidamente e carregamos nos caminhões
para rumarmos em seguida ao Campo Brasil, sede do Batalhão .No caminho passamos
por um local onde havia se desenrolado uma batalha .
Havia
muitos mortos na beira da estrada, veículos incendiados e praticamente não
havia casas que não houvesse sido esburacada pelas balas.
Rapidamente
chegamos ao Batalhão e estavam todos escondidos nos seus alojamentos em virtude
de que na cidade de Rafah, ao lado, a guerra ainda continuava . Ouvia-se o
matraquear das metralhadoras e as explosões dos morteiros .
Alojamo-nos no prédio do comando onde ficamos razoavelmente instalados .
Soubemos
imediatamente que a CCS não havia tido a mesma sorte da 7ª Companhia e um de
seus homens havia sucumbido . Tratava-se do Cabo Carlos Adalberto Ilha de Macedo
que por volta das 14 horas quando o combate ia acirrado e o exército israelense
tentava tomar algumas posições ao lado do Campo, saiu de sua barraca e foi a
lavanderia buscar a sua roupa civil. Estando ainda lá e vendo que aquele prédio
não oferecia suficiente segurança, tentou correr até o corpo da guarda que
tinha paredes mais resistentes. De uma porta a outra não havia mais que quatro
metros mas ele não foi feliz e tombou ao meio do caminho . Duas balas, de uma
rajada de um dos digladiantes, atingiu-o no pescoço seccionando a carótida e
saindo na cabeça . Faleceu em
poucos instantes. Seu túmulo acha-se na sala da antiga biblioteca do Batalhão
. O Cabo Ilha era um particular amigo e muito querido por todos
em virtude de ser muito brincalhão e alegre. A sua morte foi chorada com
amargura .
Nos
dias sete e oito ficamos esperando o momento da retirada pois a ONU estava
providenciando o transporte. Enquanto
isso em Rafah, ao lado, o combate tornava-se mais violente com bombardeios
constantes. Enormes rolos de fumaça levantavam de incêndios na cidade
castigada, e o cheiro fétido das centenas de cadáveres insepultos fazia-se
sentir intensamente.
Dia
nove pela manhã recebemos ordens para arrumar um comboio com dezenas de
viaturas para levar o pessoal e o material até Gaza nossa primeira escala .
A viagem até esta cidade foram quarenta kilometros de horror pois a
outrora bela rodovia havia se transformado em uma via da morte e destruição .
Corpos em decomposição jaziam nas trincheiras cavadas às pressas. Tanques e
carros de combate com suas esteiras destroçadas eram uma constante. Parecia que
havia passado um furacão pela zona pois todos os automóveis que passavam no
momento foram atingidos pela ofensiva relâmpago israelense. Vi, inclusive, uma
menina que deveria ter uns oito anos morta ao lado de sua casa crivada de balas.
A cidade de Gaza não estava melhor. Muitas casas destruídas e metralhadas e,
como sempre, cadáveres malcheirosos, centenas deles.
Estamos
alojados em Gaza numa colônia de férias à beira mar onde se descortina a
nossa frente o imenso Mediterrâneo . Hoje dia 10, depois que saímos do
inferno, estamos aguardando a viagem para Haifa em Israel onde
nos espera o navio que nos levará de volta a pátria querida .
Passamos a manhã e a tarde dentro dagua ou deitados na areia em bem
merecidas férias.
Dia
11: Acordei-me às 6,00 horas e preparei-me para o café. O dia amanheceu
violentamente lindo . Aliás o clima desta região, nesta época, é maravilhoso
. O Mediterrâneo hoje esta mais belo do que nunca . Quase não esta ventando e
portanto não existem ondas apenas o marulhar das águas lambendo os seixos. Na
imensidão que se descortina até o horizonte um verdadeiro festival de
tonalidades de azul exibindo uma beleza plástica incomparável. É difícil de
se conceber tantas coisas lindas misturadas com o horror de uma guerra sangrenta
. Passei o domingo sem novidades guardando energias para a segunda feira que
seria o dia da partida .
Dia
12: A alvorada foi as 4,30 horas e o dia já estava completamente claro .
A agitação foi intensa nos prenúncios da partida Finalmente a ordem de
embarque veio e o enorme comboio pôs-se em movimento .
As
dezenas de viaturas serpentearam através da cidade e do campo rumo a fronteira
com o Estado de Israel. Passamos, nos arredores de Gaza, por grandes concentrações
de tropas israelenses que se
dirigiam para o campo de batalha . Todos pareciam confiantes e nos abanavam
desejando-nos boa viagem. Ao cruzarmos a Linha de Demarcação Internacional
logo notamos a diferença gritante entre os dois paises pois enquanto do lado egípcio
tudo era areia, do lado israelense as plantações desdobravam-se pelos campos
irrigados até o horizonte. E enquanto aprofundávamos na terra dos judeus começamos
a ter uma impressão maravilhosa desse povo que transformou um pedaço de
deserto em um pais progressista e uma futura potencia mundial num amanhã que não
esta muito longe.
É
difícil de se acreditar que em uma região inóspita como essa tenhamos
encontrado um país próspero e que desponta para um futuro grandioso pois a
determinação deste povo está estampado em seus rostos risonhos . A mecanização
da agricultura aqui é um fato tanto no plantio e colheita como na irrigação .
Viajamos por rodovias, as mais belas que tenho encontrado . São uma maravilha
que se desenrolam atravessando planícies plantadas e colinas cobertas de
espessa floresta .
Em
Israel são muito comuns os “kibutz” que são uma espécie de fazendas
coletivas onde o trabalhador tem todas as regalias podendo morar com a sua família
ou constituí-la se for o caso . Dispõem esses “kibutz” de vida própria
formando uma pequena comunidade onde existem piscinas, canchas para esportes e
toda sorte de divertimentos para que os trabalhadores tenham uma existência de
trabalho porem tranqüila . Enquanto estávamos em Gaza, um grupo de oficiais,
sargentos e soldados foram escalados para tomar parte em uma representação que
foi convidada para visitar um dos “kibutz”. Este era genuinamente brasileiro
pois era formado por judeus vindos do Brasil na sua maioria e chamava-se
Instituto Cultural Osvaldo Aranha em memória do grande brasileiro que teve
muita influencia na criação do Estado de Israel.
Ao
retornarem voltaram contando maravilhas da receptividade que tiveram ao
encontrar os patrícios que lá fixaram residência . Os prédios são moderníssimos
e um ânimo de progresso invade a todos que o visitam. Encontraram lá rapazes e
meninos que chegaram de São Paulo e Porto Alegre há apenas dois meses. Podemos
chamar de um pedaço do Brasil incrustado em vibrante país que ganhou uma
guerra em seis dias .
Por
volta do meio dia chegamos a cidade de ASHDOD as margens do Mediterrâneo . Esta
cidade de apenas 3 anos de vida, tem um porto que faz inveja a muitas cidades
que se dizem evoluídas. Lá encontramos a bandeira verde-amarela tremulando no
alto do mastro do Navio Transporte Soares Dutra que estava nos esperando .
Depois de varias solenidades fomos embarcados.
Ás
21 horas, finalmente, o navio desatracou iniciando uma viagem de quatro dias até
a cidade de Bari, Itália .
Dia
13: O mar amanheceu calmo e a superfície parecia um espelho . O primeiro dia a
bordo foi sem novidades. A adaptação foi rápida e tudo está correndo bem.
Inicialmente
vamos a Bari pegar combustível depois vamos a Trieste, ainda na Italia, para
descarregar 45000 sacas de café que superlotam os nossos porões
Dia
14: O mar estava encapelado pela manhã e o balanço do navio acentuou-se
fazendo com que muitos enjoassem. A partir das nove horas da manhã até a noite
enxergamos a ilha de Creta a poucos kilometros. A sua costa escarpada e
montanhosa fazia-se notar em fundo, água e céu azuis.
Veio-me
a lembrança os nomes de Teseu, o minotauro, o rei Minos e seu palácio e todos
os fatos da mitologia grega que se desenrolaram nesta ilha .
Fui
dormir sonhando com deuses, cidades guerreiras, etc.
(
manuscrito de 7 a 14 de junho de 1967 na Faixa de Gaza, Egito, e à bordo do
Navio Transporte Soares Dutra por FERNANDO VARGAS NETO cabo do 3º pelotão da 7ª
companhia do 20º contingente - Batalhão SUEZ)