20° CONTINGENTE - SD. JOÃO CARLOS MARTINS


Martins ficou marcado pela experiência de dias de guerra em meio à missão de paz

CARTAS DE SUEZ --- 01 de setembro de 2008 | N° 15713Alerta

CARTAS DO FRONT 2

Uma ferida aberta

Para o administrador de empresas João Carlos Martins, 61 anos, Suez ainda é uma ferida aberta. Quarenta e um anos não apagaram da memória os dias de guerra vividos por quem tinha ido até a Faixa de Gaza justamente garantir a paz.

Martins era um dos 427 brasileiros que fizeram parte do 20º – e último – contingente do batalhão. O jovem de 20 anos viajou com o sonho de conhecer o mundo. Voltou com a amarga lembrança de um dos mais traumáticos conflitos entre árabes e israelenses – a Guerra dos Seis Dias.

– Sabíamos que enfrentaríamos tempestades de areia, calor intenso, frio, pobreza. Fomos preparados para passar por momentos ruins, mas não para uma guerra – conta.

Quando decidiu se tornar voluntário, o jovem de Novo Hamburgo estava motivado:

– Naqueles questionários de colégio, sempre respondia que queria conhecer o mundo. Sair do Brasil à época era uma aventura. Eu via na seleção para o Batalhão de Suez uma oportunidade para realizar meu sonho.

Com a aprovação no teste, veio o embarque para Gaza, em fevereiro de 1967 – desta vez, em um avião, não em navio como nos contingentes anteriores. O gaúcho foi designado para a companhia localizada na fronteira com o Egito – onde havia uma linha de demarcação de armistício. Do local que seria o seu lar por seis meses, Martins escreveu, em 17 de abril de 1967:

“(...) De dia é quente, de noite é frio, mas frio mesmo. Estamos entre a África e a Ásia, estamos na Palestina (territórios palestinos), e no outro lado é Israel. Os animais típicos daqui são o dromedário o burrico (...) Esta hora em que estou escrevendo está tendo uma tempestade de areia, uma coisa de louco (...)”

Martins também contava detalhes do trabalho:

“Minha função aqui é a de motorista, passo o dia todo viajando, levo o tenente a Rafah, a Gaza e assim passo o dia. De três em três dias, faço patrulhas, guarnecendo a fronteira entre Israel e Palestina (territórios palestinos).”

A iminência de uma guerra veio em maio de 1967 – no dia 14 daquele mês, o governo de Gamal Abdel Nasser, do Egito, pediu que as forças de paz deixassem suas posições. Quatro dias depois, o então secretário da Nações Unidas tornou extinta a missão, responsabilizando o governo de cada país pela retirada das tropas.

– Minha companhia saiu da divisa e veio para o comando em Rafah. A gente tinha certeza de que não iriam nos abandonar – afirma o gaúcho.

Com a possibilidade de o conflito explodir, veio a preocupação da família, como se vê na carta enviada pelo irmão de Martins em 24 de maio de 1967:

“(...) Acho que essas guerras do Oriente poderão afetar vocês, mas há rumores aqui pelo Brasil de que não se pretende deixar que vocês entrem nesse conflito.”

Contrariando a expectativa dos familiares e dos próprios militares, os boinas azuis ficaram no meio do confronto entre Egito e Israel – não foram retirados a tempo de escapar do ataque israelense. No primeiro dia do conflito, 5 de junho de 1967, os brasileiros choraram uma baixa e a captura de integrantes do batalhão. Depois de muitas negociações, o navio Soares Dutra, atracou para a retirada da tropa. Cinqüenta e oito dias mais tarde, Martins retornava a Porto Alegre:

– Minha maior lembrança foi a guerra. Quando o Ilha (Carlos Adalberto Ilha de Macedo) morreu, senti um pouco de inveja. Pensei: quanto tempo vamos ter de guerra? E eu ainda tenho que ver muita coisa.

OS PAÍSES NA MISSÃO DE PAZ
Além do Brasil, também integravam a missão de paz no Oriente Médio Canadá, Colômbia, Dinamarca, Finlândia, Índia, Indonésia, Iugoslávia, Noruega, e Suécia.

A GUERRA DOS SEIS DIAS
Conflito travado entre Israel e uma liga árabe formada por Egito, Jordânia e Síria. Teve início em 5 de junho de 1967, quando os israelenses lançaram um ataque preventivo, antecipando-se a uma ação árabe. Neste curto período, Israel invadiu e ocupou a Faixa de Gaza, a Península de Sinai, no Egito, a Cisjordânia, Jerusalém Leste, na Jordânia, e as Colinas de Golan, na Síria.

CABO ILHA
O cabo Carlos Adalberto Ilha de Macedo fez parte do 20º Contingente do Batalhão de Suez. Acabou morto quando eclodiu a Guerra dos Seis Dias. Em sua homenagem existe uma rua, no bairro Camaquã, na zona sul de Porto Alegre.

NOBEL DA PAZ
Em 1988, as Forças de Paz da ONU receberam o Prêmio Nobel da Paz. Os integrantes do Batalhão de Suez se sentem reconhecidos, também, por meio desta conquista.

  

de Theodoro da Silva Junior <theojr@terra.com.br>
data 14/09/2008 21:19
assunto REPORTAGEM DO JORNAL ZERO HORA PORTO ALEGRE
CARTAS DE SUEZ-Martins - missão de paz.doc


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