EMINISCÊNCIAS DE UM SAPADOR
Gen. Luiz G. S. Lessa (artigo publicado em 1990)
Faz tempo. Mais exatamente 32 anos. Uma vida.
Todavia, apesar dos detalhes um tanto esmaecido, as lembranças são ainda fortes, vivas, vibrantes. Um quase ontem.
Entardecia. Lentamente, o trem que nos trazia de Port Said, estaciona.
É deserto. Quase tudo.
É Rafah, cidade milenar. Bíblica.
É o Acantonamento. Sede do Batalhão Suez, antiga instalação britânica, reminiscência do grande império onde uma vez o sol nunca se punha. Era o dia 20 de março de 1958, 147 horas e cinqüenta minutos.
Confraternização, abraços afetuosos.
Novos e velhos, como fraternos amigos trocam boas vindas e notícias, de lá e de cá.
A ânsia, a alegria dos velhos em voltar para o Brasil, se contrapõe com a insegurança dos novos que chegam.
Tudo é surpresa, incerteza, ansiedade.
Amanhã ... Não é apenas um novo dia. É também o dia em que receberemos nossas funções.
“Tenente Lessa,... Você será o comandante do Pelotão de Sapadores (Pelotão de Minas). A ordem é taxativa e peremptória. Do Comandante do Batalhão, o nosso sempre lembrado e querido Tenente Coronel Iracílio. A partir de então, quantas lembranças...!
...“O Tenente Valter lhe passará as funções. – Procure-o”. Então começa minha vida de Sapador-mineiro.
Sem dúvida, o melhor período profissional, quiçá, de toda a minha carreira militar.
O Pelotão de minas brasileiro era a maior fração dentre as suas outras duas congêneres existente na UNEF – as Seções de Minas canadense e indiana. O inglês macarrônico e a necessidade constante de contatos com outros contingentes da Força.
Que sacrifício para entender!
Quase que por milagre o linguajar da missão era compreendida. E passam a ser freqüentes as aberturas de brechas, as neutralizações de minas isoladas, o levantamento de extensos campos minados.
Ao final, o acervo conquistado com laurel, a encher de satisfação todos nós, sapadores-mineiros, de justificado orgulho. Aproximadamente mil minas levantadas e, sei lá... quantas outras lançadas.
Levantadas no mais preciso dos termos. A mão. Centímetro por centímetro. Na base do bastão de sondagem. Da faca de trincheira, com os próprios dedos. E com a graça de Deus, sem nenhum acidente sério a lastimar.
As lembranças afloram mais fortes.
Tristes.
São quadros da miséria humana entre os refugiados, impostos pela natureza de nossa missão. Quase paz, quase guerra.
O menino caído junto à cerca. Dez. Talvez doze anos. – “Habib, Habib, o seu chamado de socorro”. Rosto em chagas! mãos mutiladas !, olhos arrancados das órbitas. Peito perfurado por dezenas de estilhaços. Obra de uma “shumine” egípcia que arrebentou suas mãos, no louco afã de abrir uma brecha na cerca que protegia as instalações do Batalhão. A primeira explosão.
Exemplo marcante para nós que iniciávamos nesta palpitante atividade. A certeza, ao vivo de que com mina só se erra uma vez.
Lembranças doidas
Não é possível, também, esquecer aquele quadro vivido permanentemente em minha memória.
Era um Sábado. Quase noite. Eu, o oficial de dia ao Batalhão.
Na curva da estrada que conduzia ao portão das armas, diviso um homem empurrando um carrinho de mão. Idoso. Barba e cabelos longos, grisalho, em desalinho. Traje típico de beduíno. Olhos brilhantes. Figura bíblica.
No carro uma criança. Peito aberto. Por agasalho, sangue e areia a cobrir os órgãos expostos. Obra de mina do deserto.
O Batalhão brasileiro, sua derradeira esperança de socorro. De um impossível salvamento.
Enfim, são apenas lembranças.
Estórias que povoam minha mente.
Algumas tristes!
A maioria, porém, de enorme satisfação íntima.
Lembranças de homens. Feitas de sacrifícios honra e devotamento.
De um grupo pequeno de soldados. Pouco mais de uma dezena de sapadores.
De nomes, como... Benedito..., Edson, Pereira e muitos outros, simples mineiros de primeira linha que me ajudaram no exercício das minhas funções e, mais do que isso possibilitaram ao efetivo do 1º Contingente e dos demais integrantes do III/ do 2º RI (Btl. Suez), a bem cumprir sua missão.
Não mais os vi. Pelo menos, a maioria. Perdi o contato com eles.
Mas tenho uma certeza. Ora, se tenho!
Sei que no íntimo dos seus seres, guarda a plena consciência, a mais viva e forte convicção do dever cumprido.
A certeza de que foram co-participantes de uma das mais vibrantes epopéias da moderna história do Exército brasileiro, aquela de lutar e preserva, por longo tempo, a paz quase impossível entre árabes e judeus.
A todo esse grupo de jovens dos anos de 1958/1959 (alguns do 1º, outros do 2ºContingente), o meu mais profundo e sincero muito obrigado.
(Colaboração do Cabo Theodoro 10ºContingente – Ponta Grossa.)