A DURA EXPERIÊNCIA
Dacilio
de Abreu Magalhães
Derrepente eu teria que viver num lugar, completamente
diferente de tudo que eu havia visto nos meus dezenove anos de vida, a
começar pelo deserto, pela casas destruídas, pelo acampamento com
algumas instalações precárias, com os funis cravados na areia para se urinar
publicamente e as privadas que podiam ser utilizadas por cinco pessoas ao mesmo
tempo, construídas dentro de um recinto de mais ou menos 4,00m X 2,00m, coberto
com zinco, sobre uma fossa negra de aproximadamente 3,00m de altura, onde enorme
ratos me assustava e até faziam com que eu evitasse a utilização daquele
recinto nojento. Em função do calor, teria que beber água salobra com gosto
de iodo, que era colocada em sacos lister(*), apoiados num tripé e expostos ao
sol. Teria que me acostumar com o calor superior a 50 graus, com a comida
temperada com banha rançosa,
ressecada e servida ao ar livre durante as tempestades de areia que eram
constantes naquela região e com as moscas que pareciam brotar do chão. A miséria
local e as crianças famintas que por fora da cerca de arame farpado, totalmente
minada, assistiam a nossa refeição e pediam comida, chocava-me e acabava por
tirar o meu apetite. Teria ainda que me adaptar ao
alojamento em barracas de lona de 40 praças que no frio, nos obrigava a
usar perigosamente aquecedores à gasolina e no calor espantava-nos, ficando
todo o pessoal que estava de folga, do lado de fora, conversando até alta
madrugada.
Eu
não poderia ser um fraco, se não, a saudade dos entes queridos, a terrível
solidão do deserto e os problemas que apareciam a cada minuto e que teria que
enfrentar, acabariam por me desequilibrar e levar-me a loucura; o que
infelizmente aconteceu com alguns dos nossos colegas, durante os dez anos de
missão. Decididamente, não era isso que eu esperava encontrar; não foi isso
que passaram para mim, aqui no Brasil, durante o período de treinamento.
Era
hora do almoço, a primeira refeição que iríamos fazer em solo egípcio.
Recebemos uma caixa de papelão com a inscrição "US ARMY", contendo
diversas latas, chamadas "Ração Fria", dentro das quais, um produto
diferente como feijão branco, almôndegas, cigarros, iodo para colocar na água,
papel higiênico, frutas em conserva e outros produtos; tudo com mais de cinco
anos de fabricação. Dificilmente, alguém
acostumado a
comida temperada,
conseguiria comer o conteúdo daquelas latas verdes. Como estávamos localizados
bem perto da cerca, jogávamos a comida enlatada para o outro lado, na tentativa
de matar a fome daquelas infelizes crianças; foi quando uma delas ao tentar
pegar uma das latas que caiu no meio da cerca, projetou-se para o seu
interior, tocando em uma das minas que explodiu. O corpinho daquela
infeliz criança, ficou com a parte superior totalmente destruído e eu que
assisti aquela cena dantesca, além de chorar assustado e de ficar com os nervos
a flor da pele, não me conformei com esse tipo de violência, principalmente
contra crianças.
Eu
não conseguia entender o porque daquelas minas na cerca; eu não sabia da
gravidade da missão, eu apenas tinha consciência de que para ali fora para
fazer a paz e na minha concepção, com os valores que me foram passados, matar
criança não é fazer paz. Eu estava me sentindo igual aos soldados de Israel
que colocam minas em locais determinados às Forças de Paz, aos Fedains e aos
terroristas que colocam minas nos pátios escolares. Tudo o que eu havia visto
até então, tudo o que me escandalizara naquele quartel e que me dava vontade
de sumir pelo deserto a fora, não poderiam ser comparados a cena que acabara de
presenciar. A terra que subiu foi tanta que por alguns segundos, nada se via e o
estampido foi tão forte que rompeu meu tímpano direito, tendo perdido, naquele
ouvido 70% da audição. Fiquei
apavorado e muito nervoso, mas a injeção que me foi dada e o tempo, fizeram
com que eu me acalmasse e voltasse a normalidade. Esse mesmo medo, esse mesmo
pavor tomaram conta dos colegas que estavam junto comigo, fazendo suas refeições
e que presenciaram o fato.
Passada
a fase do primeiro contato com o desconhecido e do incidente que me provocou um
estado de angústia, até certo ponto compreensível, passei a tomar
conhecimento de tudo o que estava a meu redor e fui dar umas volta e fazer um
reconhecimento daquele pedaço de terra brasileira
em solo egípcio. Comecei pelo Corpo-da-Guarda; um portão tipo cancela
com um vão de aproximadamente cinco mastros, onde estavam permanentemente
hasteadas em cada uma das colunas, as bandeiras do Brasil e da ONU. Continuei e
vi a casa do Coronel Comandante, a oficina de manutenção de veículos, o
chuveiro, o campo de basquete, o comando, a tesouraria, a
seqüência de barracas de lona de 40 praças, as barracas dos oficiais e
uma área grande, cimentada que servia de
cinema ao ar livre, cujos filmes eram projetados pelo Sargento Nelson Veiga que
os conseguia no Quartel-General da Unef, em Gaza. Na seqüência, conheci a
cozinha, o gerador de luz, a torre de madeira que era utilizada como posto de
observação, a estação de rádio PTA-2, a privada coletiva, uma cisterna de
concreto muito grande e a cerca de
arame farpado totalmente minada e que serviu de palco para àquela cena horrível
que recordo como se fosse hoje.
Não
sei se por coincidência ou se foi escolhida propositadamente, mas a área
ocupada pela 8a Companhia, tinha uma pequena vegetação e umas três árvores
em meio aquele desolador deserto e foi debaixo de algumas dessas árvores que eu
me reunia com o Bomfim, com o Edson e com Deanete para recordar, ler, escrever
cartas e até cantar algumas músicas como "Cigana" que nos fazia
esquecer os contratempos e recordar com saudade o nosso querido Brasil.
Lembro-me como se fosse hoje; debaixo dessa mesma árvore o Bomfim escreveu uma
carta a sua namorada, como se fosse um desabafo a uma possível traição, o
que ele acreditava existir, considerando a falta de correspondência por
parte dela. É muito natural que tenhamos as mais estranhas reações quando
estamos muito longe das pessoas que amamos, principalmente quando ficamos
um longo tempo sem notícia. Aquela árvore, não estava ali apenas para acolher
sob sua copa, os saudosos e os traídos; eu por exemplo me distraia bastante com
minhas trinta madrinhas de campanha que consegui através de uma solicitação
que fiz ao Jornal Feminino do Rio de Janeiro. Eu tinha carta para escrever todo
o dia e não era somente respondendo as cartas das madrinhas, mas também dos
meus familiares que me escreviam regularmente e ficavam ansiosos a espera da
resposta para escrever novas cartas. Graças a eficiência do Correio Aéreo
Nacional que levava e trazia nossas cartas e encomendas, a minha passagem pelo
Oriente Médio, nessa árdua missão, se tornou mais amena. Além das minhas
cartas, eu escrevia para alguns colegas que não estavam acostumados a essa prática;
o Mário Fraga Ribeiro, por exemplo, foi um dos meus protegidos, a ponto de
sugerir a minha irmã Daise que
mantivesse com ele, correspondência regular e o curioso é que o Fraga só
conheceu a Daise na reunião que fizemos no pátio do Comando Militar do
Sudeste, quando da entrega simbólica do prêmio Nobel da Paz, em 1988. Dentre
as madrinhas, destacou-se a Srta Lais Bassi, moradora de São João Del Rei,
Minas Gerais, pessoa que pela sua
cultura, escrevia lindas cartas e preenchia, sobremaneira,
o vazio que existia em mim; posso garantir que foram mais de 20 cartas,
esperadas ansiosamente e que eram lidas em minutos, sempre na expectativa de
receber uma foto dela e detalhes de sua vida. Eram muitas páginas por carta,
parecendo destacadas de um romance, onde a figura central era eu e ao terminar,
reservava pelo menos uma página, para alguns conselhos que normalmente
terminavam assim:
-
“Te cuida Magalhães, não se arrisque sem necessidade, olha por onde pisa, não
se deixe levar por provocações desse povo e muito cuidado com o manuseio de
armas. Reze, reze muito e lembre-se
que o Deus dos islamitas, embora com outro nome, é o mesmo Deus que reina no
nosso Brasil. Peça para ele te livrar dos males e te proteger. Eu, sua mãe,
seu pai e todos os seus familiares estaremos rezando;
pedindo ao todo poderoso que te proteja e o traga são e salvo para o
nosso convívio”. Nunca recebi uma fotografia dela e nunca nos conhecemos.
Além
da árvore, tinha um local que era o meu preferido, a estação de rádio; ali,
nas horas de folga eu ficava por longo tempo assistindo a perícia de um
Sargento que, com um fone ao ouvido, uma máquina de escrever a sua frente e um
manipulador de CW (telegrafia), à direita,
fazia verdadeira acrobacia. Ouvia os sinais eletrônicos do código Morse
vindos do Brasil, respondia manipulando o
aparelho de telegrafia e registrava a mensagem recebida, datilografando com dois
dedos, numa velha máquina de escrever. Que espetáculo ! Eu nunca tinha visto
nada igual.
A
estação PTA-2, era composta de um arcaico transmissor receptor de ondas
curtas, RAD 200-400, ligado a uma antena direcional de três elementos que
transmitia e recebia fonia e telegrafia, de ponto-a-ponto com a estação PTA-1
no Rio de Janeiro, sem satélites e sem as tecnologias de hoje e as vezes para
conseguir sintonizar o Rio, levavam mais de uma hora e dependendo da propagação,
não conseguiam manter contato por muito tempo. Era um aparelho muito parecido
com os usados pelos radioamadores, que operavam nas faixas de 20, 40, 60 e 80
metros. Não demorou um mês e fui avisado que falaria com
meus familiares no Brasil, em um determinado dia, através daquele
equipamento e quando chegou a hora, senti uma emoção muito forte, indiscritível;
eu não sabia se falava, se chorava, se gaguejava e do outro lado, minha mãe,
meu pai, meu irmão, minha irmã, minha prima Lucy, minha tia Maria,
emocionados, se revezavam nos cinco minutos que
me eram permitido falar.
Derrepente, para minha tristeza, aquele Sargento que eu admirava tanto, colocou
a minha frente o desenho do "Amigo da Onça" (*), com os seguintes dizeres:
-
"Seu tempo acabou"!!!
Eu
já estava me acostumando ao calor, a água quente para beber, ao tipo de
comida, a saudade e a solidão e após falar na fonia com meus familiares no
Brasil, tudo aflorou novamente e eu voltei a ficar triste, curtindo a saudade
que tomava conta de mim.. Eu não calculava que em meio a tanta confusão,
aquele setor do Exército poderia estar tão organizado, a ponto selecionar o
pessoal que ia falar, avisar os familiares no Rio de Janeiro através de
telegrama, com dia e hora para o
contato e ter no antigo Ministério da Guerra, uma sala equipada com um telefone
que ligado ao transmissor-receptor, possibilitava o familiar a falar com seu
parente no Egito.
Fica
muito difícil nos dias de hoje, passar aos nossos jovens, acostumados a
transmissões de televisão via satélite, as comunicações telefônicas com
Astronautas no espaço a milhares
de quilômetros de distância e aos computadores que via Internet, vasculham o
mundo e comandam veículos robôs no solo de Marte, as dificuldades de uma
transmissão sem satélites com um
rádio transmissor-receptor, cuja a capacidade estava, pelo menos, 10 vezes
menor que a mais simples das emissora de rádio brasileira, agravado com utilização
de uma antena construída de tubos de alumínio, de três elementos, elevada a
uma altura aproximada de 5 metros do solo.
Realmente
o Cel. Iracílio tinha razão quando afirmou que o pessoal de comunicação,
causava inveja aos Comandantes das outras forças. No meu tempo, em 1958, não tínhamos
a felicidade de ouvir o Brasil, através de emissoras de rádio; o Português
que ouvíamos era dos próprios colegas que já falavam uma mistura de Português,
Árabe e Inglês (Portuarles), mas graças a PTA-2, tomávamos conhecimento do
cotidiano e principalmente do desenrolar da Copa de 58, onde os finalistas eram
o Brasil e Suécia, dois países que mantinham tropa na Faixa de Gaza e que
gozavam de um bom relacionamento. A
PTA-2 recebeu através da telegrafia, a informação da vitória da seleção
Canarinho e o conseqüente título de CAMPEÃO MUNDIAL DE 1958;
o Sargento responsável pelo serviço de rádio, fez questão de mandar
avisar a todo o Batalhão, as Companhias de fronteira pelo sistema de rádio
(Rede (A) Afir (B) Bala que entrava no ar a cada hora cheia e aos Pelotões de
fronteira pelo sistema de telefone magneto, cuja a linha corria de
ponto-a-ponto, pelas areias do deserto. Foi uma alegria sem par
durante aquele resto de dia, parte da noite e até por alguns dias,
principalmente após a chegada das cartas que enriqueciam ainda mais as precárias
informações; os pracinhas ficaram eufóricos e houve até quem
colocasse os posters da Seleção e os retratos de seus ídolos, ao lado de suas camas. Para nossa surpresa, poucas horas após
a vitória do Brasil, apontou na estrada, vindo em direção ao batalhão
brasileiro, um jeep com alguns suecos que acenando uma bandeira brasileira,
gritavam eufóricos, como se fossem eles, os Campeões Mundiais:
-
"Brazil! Brazil! Brazil"!
Vieram
comemorar o título mundial levantado pelo Brasil, junto com os brasileiros e trouxeram uma carretinha, engatada
no jeep, cheia de cerveja. Que elegância!, que povo civilizado!
David
Rosas, Sargento de Comunicações do 7o Contingente,
contou-me em Fortaleza, durante uma visita que fiz àquela cidade que,
quando esteve no Batalhão Suez, foi o
responsável pela operação, manutenção e substituição da arcaica
estação de rádio PTA-2, pelos equipamentos de última geração, da época
e com eles, conseguiu a
proeza de ligar a PRH-8 Radio Nacional do Rio de Janeiro com a estação PTA-2
Egito, para transmitir pela primeira vez, em ondas curtas, de ponto-a-ponto,
ainda sem satélites, uma partida de futebol entre as equipes do Flamengo e
Fluminense, que foi ouvida através de alguns alto-falantes colocados em pontos
estratégicos do Batalhão. Esse feito, teve repercussão nas demais forças,
sendo o David Rosas e equipe, convidados a fazer milagre igual no Batalhão
sueco. Como podemos notar, as equipes de comunicação que por lá passaram e a
própria estação de rádio PTA-2, tiveram papeis importantíssimos
na missão Suez.
Estava
muito frio e eu teria que enfrentar o banheiro
que, como tantas outras coisas naquele quartel improvisado, parecia uma
piada; o recinto pouco maior que um boxe normal, tinha na parte superior um latão
com água, ligado a um sistema de aquecimento a diesel. Dentro do recinto, um
chuveiro medindo aproximadamente 30 centímetros de diâmetros, cuja vazão era
suficiente para esvaziar rapidamente o latão de aproximadamente 100 litros e o
banho tinha que ser rápido, se não o banhista teria que sair do banheiro para
encher novamente o latão, o que era terminantemente proibido. Nem sempre o
sistema de aquecimento funcionava e nesse caso, tínhamos que encarar aquela água
fria, armazenada ao ar livre, em contato com os ventos que eram constantes
naquela região; mas, com uma ou duas voltas correndo em torno do batalhão, o
corpo ficava preparado para receber aquele choque térmico.. Depois do banho, o
jantar e em seguida a melancolia da noite,
transformando o deserto numa escuridão tenebrosa, ficando apenas iluminados, as
áreas externas de circulação, os interiores dos alojamentos e as dependências
utilizadas. É ai que a saudade
aperta; é nessa hora que se formam os grupinhos para conversar e matar um pouco
das saudades. O pessoal antigo, do 2o. contingente, que já vinham recebendo
cartas a algum tempo, ficavam em seus cantos lendo e relendo; vendo fotografias,
recortes de jornais, de revistas e tudo aquilo que lhes era enviado. O sono
chega, vamos dormir e apenas
o ronco do gerador
permanecia, como num trabalho programado de auto hipnose, tornando o sono
daqueles jovens, reparador para que não sentissem em toda a plenitude, o mau
que essa experiência iria lhes causar. No dia seguinte, "Alvorada" às
7:00 hs da manhã, café ou chá com pão de forma dormido por diversas noites e
em seguida o embarque no caminhão FNM, de fabricação brasileira, que ia
distribuindo pessoal nos diversos postos, inclusive nos de observação, em
torres de madeira com faróis de longo alcance e nos de escuta, na Linha de
Demarcação do Armistício (*), que eram compostos de sacos de areia a toda
volta e de um mastro fino, entortado pelo vento, com a bandeira azul da ONU.
Permanecer seis horas durante o dia num posto desses, com frio ou com o sol de
50 graus sobre a cabeça, dava até para suportar, mas a noite era terrível,
principalmente por sabermos que o colega mais próximo, estava a mais de seis
quilômetros e que nesse período, os árabes habitantes do deserto, vinham
rastejando para não serem vistos e atacavam o pessoal dos postos avançados,
com a finalidade de roubar-lhes as armas. Nós
soldados, morríamos de medo; rodávamos a toda volta do posto, na tentativa de
localizar quem estivesse se aproximando. No inverno era pior, pois caia no
deserto, uma neblina tão densa que os ladrões
daquela região, não precisavam nem de rastejar.
Os
postos de escuta (no chão) e os de observação (nas torres), as patrulhas
noturnas ao longo da fronteira, o Pie (armazém onde eram
estocado suprimentos, munição e material bélico de toda a operação)
e os depósitos cilíndricos onde eram armazenado milhares de litros de combustível
utilizados por toda a UNEF, eram postos de serviços atribuídos ao batalhão
brasileiro. Nossos soldados, que não foram devidamente treinados e que, durante
a missão não receberam qualquer tipo de informação, sobre suas tarefas e do
perigo a que estavam expostos, iam
para os postos como robôs e mal comparando agiam idênticos aos guarda-freios
ferroviários que batem com seus martelos de bola, nas rodas
dos trens, sem saberem o que estão fazendo. Se perguntado porque agem
dessa maneira todas as vezes que os trens param nas estações principais, eles
certamente responderiam:
-Meu
avô batia, meu pai batia e é por isso que eu também bato.
É
claro que o exemplo é exagerado e todos nós sabemos que as batidas nas rodas
dos trens é para identificar possível rachadura que é constatado quando o som
é curto. Nossos soldados estavam nos postos sem
saberem realmente a estratégia da missão; o que um exército ameaçado
poderia fazer para conseguir aniquilar seu inimigo; aliás, em 1967 com a Guerra
dos Seis Dias, nós passamos a saber. Essa desinformação e a conseqüente
participação dos nossos pessoal numa missão, para a qual não foram
treinados, fazia nossos soldados viverem sob forte tensão, agindo em alguns
casos, até precipitadamente, em face do medo que tomava conta de seus seres. Eu
que servi ao Exército no Brasil e via a participação ativa dos oficiais, na
formação do Soldado, ao longo de um ano de serviço, não conseguia entender o
porque dessa omissão, numa missão tão importante que acima do compromisso de
um militar para com sua pátria, estava em jogo o nome do Brasil junto a ONU,
aos países que estávamos protegendo e a Comunidade Internacional. Assim era a
rotina da 8a Companhia sediada em Rafah Camp e que, por sua natureza de
Companhia de Comando, tinha um efetivo de mais de 300 homens, sendo os demais,
distribuídos na 7a e 9a Companhias e nos diversos pelotões de fronteira. Se
viver na 8a Cia. já era um tormento, uma terrível solidão, calcule o que
seria estar acampado com um Tenente, um Sargento, um Cabo e dezessete colegas,
distante uns 15 Km. da Companhia mais próxima, tendo apenas o rádio da rede
Afir / Bala que entrava no ar, apenas nas horas cheias e o telefone magneto,
cujo o fio, corria pelas areias do
deserto. Os árabes sabiam de tudo que acontecia na operação do Batalhão
brasileiro, inclusive desse sistema de comunicação e numa madrugada fria, com
neblina forte, cortaram a linha telefônica e atacaram o Pelotão no intervalo
entre uma hora cheia e outra; roubando todo o armamento do pessoal e felizmente
nada de mal nos aconteceu. Utilizar mão-de-obra
do povo local, num verdadeiro teatro de guerra, onde os dois países
se odiavam e não viam a hora de se digladiarem e onde as forças de paz
das Nações Unidas não eram bem aceitas por dificultar a ação dos mais fanáticos,
não poderia ser uma estratégia própria de oficiais capacitados, de
comandantes experientes, numa importante missão internacional; a prova disso
eram os constantes incidentes que aconteciam com esse pessoal, em todas as
dependências da força brasileira.
O
Israel sempre manteve laços diplomáticos muito estreitos com o Brasil,
primeiro por Oswaldo Aranha que na ONU, votou a favor da criação do Estado de
Israel; segundo por Oscar Niemaier
que teve sua participação na arquitetura daquele país e finalmente pelo
Presidente Juscelino Kubscheck de Oliveira, um grande estadista de origem
judaica que estava na época, a frente do governo brasileiro.
Em função desse relacionamento, os brasileiros estavam sempre em
contato com as israelenses, nos Kibbutzins, ao longo da fronteira, embora
sabendo que essa prática era proibida pela ONU e que tinha como conseqüência,
o repatriamento, como já havia acontecido com 11 soldados do 6o Contingente e
com outros, ao longo de toda a missão. Na noite de Natal, os israelenses
lotados nos kibbutzins ofereceram ao pessoal
da 7a companhia de fronteira, uma mesa farta, em pleno deserto,
totalmente iluminada, com produtos natalinos que estávamos acostumados a comer
no Brasil; naquele dia, não
sabemos por quem, os integrantes da 7a Cia, foram autorizados a comparecer a
ceia em Israel. Não precisaria ser militar para sentir que aquela recepção
tinha um objetivo maior, o de conseguir algumas informações preciosas para o
Exército de Israel, depois de alguns copos de vinho, servidos por lindas
soldadas com seus uniformes de verão, considerando que os brasileiros ocupavam
território egípcio e estavam estrategicamente
próximo bases militares egípcias. Era uma situação de guerra e não
se justificava atitudes infantis como essa que se chegassem ao conhecimento dos
egípcios, certamente o Brasil iria enfrentar sérios problemas diplomáticos
com o governo local, com o comando da Operação, e conseqüentemente com
repercussão negativa na
ONU. Se a missão fosse encarada com mais seriedade, fatos como esses não
aconteceriam e o Batalhão brasileiro não precisaria depender da sorte para ter
a missão considerada cumprida e poder estar incluído no Prêmio Nobel da Paz
1988 que o Comitê Nobel do Parlamento Norueguês, outorgou às Forças de Paz
das Nações Unidas, em setembro do mesmo ano.
Para os brasileiros acostumados com topografia de terreno para efeito de localização, o deserto era um serio problema, dado ao deslocamento das areais finas que ao encontrarem um obstáculo, por menor que fosse, faziam crescer da noite para o dia, enormes dunas, mudando por completo o cenário local. Do mesmo modo que as areias se acumulavam ao longo de duas, três ou quatro horas, formando dunas em um determinado local elas iam sendo transportadas pelos ventos para outro ponto, deixando aquela área completamente plana. Era o que eu costumava chamar de "o balet das areias", cujo fundo musical era o vento e o palco, o Sinai. A iluminação era feita pela luz prateada da lua cheia que tocava as partes planas, deixando um tom escuro nas partes côncavas. Essa curiosa e magnífica movimentação das areias, nos dava a sensação de estarmos em diversos locais, num curto espaço de tempo; de ter dormido num lugar e acordado em outro. Eu não me lembro de ter lido nada que descrevesse essa obra magnífica do Grande Arquiteto do Universo.
De: Dacilio Magalhaes <dacilio@yahoo.com.br>
Data: 28/11/2004 (21:04:31)