SONHOS REALIZADOS
Muito tempo se passou daqueles dias felizes da minha infância querida, em que o mundo se descortinou no passar dos anos, sem jamais ter perdido a esperança de realizar aquele sonho de outrora.
Já homem feito, cumprindo meu dever de cidadania no Exército, numa tarde fria do inverno das Minas Gerais, sozinho em meu quarto, hora em que a saudades dos entes queridos faz o coração ficar apertado e as asas do pensamento alçam vôo para bem longe, fui acordado daquele sonho pela voz do repórter, em que noticiava a ida de um novo Contingente de tropas para o Oriente Médio, para compor as Forças de Emergência das Nações Unidas.
Coloquei-me de pronto em atenção redobrada, pois sentia que aquela era a oportunidade que eu esperava para realizar o meu velho sonho de criança. A noite ficou pequena para conter a ânsia de ver logo o raiar do dia seguinte, quando me inscreveria para aquela jornada.
O resto da noite foi consumido em devaneios, construindo em pensamentos todos os passos, sentindo-me como se estivesse nas terras de além mar. Muito embora tenha tentado uma vaga, para seguir em outros contingentes, não me fora dada a oportunidade. Entretanto, via naquele momento que a hora havia chegado, depois de ter servido por doze longos anos na Escola de Sargentos das Armas, como Monitor da armas de Infantaria, iniciado em Realengo no Rio de Janeiro, onde me formei e posteriormente transferido para Três Corações nas Minas Gerais.
No Dia seguinte procurei logo pela manhã no Regimento me inscrever para a seleção, pois a ordem já havia chegado via rádio e o ambiente estava tumultuado com os boatos comuns nessas ocasiões. Depois dos exames médicos realizados, fiquei feliz por ter sido julgado apto e estar em condições de fazer parte do 6ª contingente do Batalhão Suez. Foi no exame médico que fiquei conhecendo os outros candidatos, que eram muitos, trinta ao todo, entre Subtenentes e Sargentos. Depois dos resultados ficamos reluzidos a quinze 3º Sargentos e nove 2º Sargentos.
Seguiram-se os dias e a expectativa crescia a cada instante com os boatos, "onda", como se diz na gíria militar, até que chegou a ordem para serem apresentados na sede da 4ª Região Militar em Juiz de Fora, somente três 2º sargentos e cinco 3º sargentos. Fui escolhido, e então, seguimos para a sede da Região, onde a expectativa cresceu, quando encontrei, nada mais, que sessenta candidatos já selecionados, vindo de outras Unidades da 4ª Região. Fiquei muito feliz, por que tive a felicidade de rever meus velhos colegas que passaram pela EsSA e mesmo os vindo de Três Corações, onde servi por tanto tempo.
A par dessa alegria, a emoção da escolha dos candidatos, ia aos poucos modificando o semblante de cada um, vendo o descortinar de uma grande jornada, e ao mesmo tempo, a incerteza desse acontecimento, dava um ar de medo que todos deixavam transparecer. Os candidatos eram chamados para serem entrevistadas pela comissão, uma, duas, três vezes. A cada ida correspondia a uma nova esperança e a cada volta, para uns significava o adeus àquela oportunidade e para outros o início de uma nova chance. Assim se foi todo o dia, até que foi chamado a reunirmos para a decisão final. Foi um momento de grande alegria para mim, pois tinha sido escolhido para compor o Contingente e também de grande tristeza, pois que desejava ter comigo os colegas mais chegados, que não lograram aquela vitória. Fiquei deveras emocionado e logo passei um telegrama para casa, contando para os meus pais a novidade. Minha alegria era incontida, mas reservada, pois procurava dar ânimo aos colegas que não lograram êxito, principalmente ao Ademar que era amigo particular e também ao Miranda (que fora reprovado por motivo de saúde). Depois de alguns dias de preparação em Belo Horizonte, arrumando a bagagem, apresentei-me ao 10º Regimento de Infantaria em Juiz de Fora. Seguiu-se um período de intensa preparação em que ajudei na instrução dos Cabos e Soldados que iam se apresentando para formar o Contingente. Também aos poucos iam se apresentando os outros Sargentos que, como eu, haviam sido designados para o Batalhão. Inicialmente éramos o Subten. Rodrigues, Subten. Souza, 1º Sgt. Gunther, 1º Sgt. Salim, 2º Sgt. Orivaldo, 2º Sgt. Rodrigues Macedo, 2º Sgt. Nelson, 2º Sgt. Mendonça (enfermeiro), 3º Sgt. Walmiré, Sgt. Edir, Sgt. Delphim (Intérprete), Sgt. Ito, Campos, Salles, Gaspar, Leite, Frank, Sena Taxa etc.
Depois de um desfile de despedida na cidade, o qual muito me emocionou, pelo grande entusiasmo do povo de Juiz de Fora e dos Adeuses dos familiares dos integrantes do Batalhão, durante a despedida até a saída do trem, tive o pensamento voltado para casa e para a viagem, pois senti tristezas e também saudades.
Seguimos para o Rio de Janeiro, onde ficamos aquartelados no 2º Regimento de Infantaria, na Vila Militar. As instalações eram restritas e ficamos mal alojados, a comida era péssima, apesar de um cassino relativamente alinhado com televisão e vários passatempos.
Aos poucos ia conhecendo os vários oficiais e Sargentos que se juntaram a nós no Rio de Janeiro, para formar o 6º Contingente do Btl. Suez: Capitão Aníbal, Capitão Veneroso, Capitão Niaze (Tesoureiro), Ten. Brito, Ten. Guerra, Ten. Reis, Ten. Albano, Ten. Ferrari, Ten. Bayma, Sgt. Carlindo, Sgt. Silvério, Sgt. Parreira, Ten. Benedito, Maj. Arraes, Maj. Juscelino, Maj. Torres, Maj. Molinaro e Ten. Cel. Mendonça (Cmt. do Batalhão). Como disse, aos poucos ia conhecendo cada um deles: naturalmente pelas suas ações e atitudes, conversas, procedimentos iam formando o conceito de cada um, que se transformava em amizade ou naturalmente em precaução. Na expectativa da partida, passamos todo o mês de setembro nos preparando, até que amanhecera o dia 1º de outubro de 1959, o dia da partida do 6º Contingente do Batalhão Suez, do qual faço parte com muito orgulho e dedicação. Logo pela manhã embarcamos nas viaturas, que nos transportaram até o então Ministério da Guerra, onde Sua Excelência o Ministro da Guerra passou a tropa em revista. Foi um momento de grande solenidade, pois o Senhor Ministro em breves palavras nos incitou a um procedimento a altura de um Soldado que ia representar o país em terras estrangeiras. Para mim particularmente foi um dia de muitas alegrias, por que estavam presentes meu pai, tia Ídna, o meu irmão Mário que ficaram também emocionados. Depois de um pequeno lanche rumamos para o cais de embarque, onde muitas famílias nos esperavam para as despedidas. Entramos no Navio o N.T. SOARES DUTRA e colocamos nossa bagagem nos beliches respectivos e em seguida voltamos a terra, para uma despedida formal, ou melhor, inicialmente, para uma apresentação ao Cmt. Do Navio, que ia nos conduzir mar a fora. Foi nos dado uma hora e quinze minutos para despedirmos dos parentes e amigos. Os abraços se sucediam a cada instante, entrecortados de sorrisos e soluços com palavras de conforto na tristeza, comuns das despedidas. Em se descendo a terra me achava enlevado e na expectativa de encontrar os meus parentes em meio daquela multidão, subi numa caixa, a fim de poder vê-los, eis que, avistei o Mario que vinha todo apressado, abrindo caminho na multidão e logo mais atrás vinha o meu pai, meus sobrinhos Osmar e Renato. Inicialmente desci de onde estava, indo encontrá-los e nos deslocamos mais para a beira do mar a fim de sentir a brisa mais fresca, pois o calor estava muito forte. Recordo-me bem, nesse instante recebi um álbum de música do Mario, ficamos todos juntos até aos momentos finais. Recebemos a visita de vários colegas que vieram para a despedida principalmente a do Sgt. Azevedo, que viera de Três Corações. Despedi-me então do Mario e dos sobrinhos e finalmente do papai que abraçou e beijou-me; senti-me bastante comovido, pois papai estava com os olhos rasos d'água e tinha uma expressão de tristeza. Naquele momento procurei ser forte e dar-lhes um pouco de conforto, dizendo-lhes que o pensamento devia estar no dia da volta, que traria a recompensa da saudade da partida.
Enviei recomendações aos que não puderam vir no embarque e principalmente à minha mãe, que não compareceu porque estava fazendo um tratamento, o que me deixou muito sentido.
Segui então para bordo e todos nos pusemos na amurada do navio para que pudéssemos ver os parentes e amigos no cais do porto. Aos poucos o navio ia se desencostando, depois de uma série de apitos, os rostos amigos iam se distanciando, até que de longe só se avistavam os lenços brancos acenando num último adeus. O Rio de Janeiro ia se perdendo na distância e por momentos voltei meus pensamentos para os meus, descortinando-os, pensando na distância, que aos poucos aumentava, pensei nos amigos nas namoradas e principalmente em minha mãe que não pudera vir.
Logo depois o Navio já começava a balançar e o almoço que tínhamos saboreado, começava a querer voltar, então me senti enjoado com uma sensação estranha, pois estava no alojamento da proa, isto é na frente do Navio, onde fazia muito calor. Saí então para o convés, respirei bem fundo e logo tudo passou, estava então em pleno mar. Os dias, dois, três se sucederam maravilhosamente, pois, estava feliz e alegre, tudo para mim era novidade: os peixes que acompanhavam o Navio, os peixes voadores que vez em quando se alçavam em vôo, dando um espetáculo bonito de se ver.
Vi também duas baleias, que volta e meia, subiam a tona para respirar e esguichar um jato d’água bem alto. O movimento do Soares Dutra era quase que rítmico o que causava enjôo em grande parte da turma. Eu senti um leve enjôo pela manhã, antes do café, donde concluí que não se devia ficar de estomago vazio.
Na tarde de sexta-feira, assisti a uma missa, oficiada pelo nosso Capelão. Foi um espetáculo maravilhoso para mim. Rezei para todos os meus, o que me fez sentir saudades. Cantamos vários hinos, o que serviu para dar um aspecto mais solene à missa.
No sábado à noitinha avistamos o Farol dos Abrolhos, como uma sentinela, servindo de orientação para os navegantes. A viagem corria no seu ritmo normal, o céu sempre azul, muito claro e o mar escuro, divisava sempre no horizonte o encontro com o céu.
Muitos companheiros passaram mal, enjoavam constantemente, eu felizmente continuei sem chamar o "Hugo", como se dizia na gíria! No domingo houve missa, a qual assisti e cantei um pouco para amenizar um pouco da saudade, que já começava a aparecer.
Fiquei na expectativa da chegada a Recife. À tarde pelas 16,00 horas, fui ao banho e me preparei para descer na capital pernambucana. Logo depois do jantar, começamos divisar ao longe as ondulações da costa, que aos poucos iam ficando mais próximas.
As primeiras luzes foram avistadas, delineando o contorno do casario denso e irregular da cidade, o bairro de Olinda, a praia da Pina e também da Boa Viagem. Conduzido pelo prático, o Soares Dutra entrou garboso no porto do Recife, mais ou menos às 21,36 horas. Desembarquei e fui dar uma volta pela cidade, pois os dias no mar aumentaram essa vontade. Tive uma boa impressão da cidade.
Na segunda-feira cedo, a fim de aproveitar o tempo, sai para uma visita diurna. Andei pelas ruas principais e fui ao correio colocar umas cartas que havia escrito durante a viagem do Rio a Recife. Nas cercanias do porto a limpeza era pouca, atravessei o Capiberibe pela ponte Hagamenon Magalhães, também pela ponte Guararapes e também visitei a ponte giratória, já muito antiga; na cidade vi muitos prédios modernos, comuns a todas as cidades grandes.
Fiz uma visita à igreja do Divino Salvador, isto é Divino Espírito Santo, igreja muito velha em estilo barroco, muito conservada e muito bonita, toda talhada em rococó trabalhado em ornamentos dourados. O povo da Capital é muito cordial, não vi, porém, nenhuma moça que chamasse a atenção, de um modo geral são muito morenas puxadas ao índio, sem grandes atrativos. Tomei água de coco e comi a polpa, o que achei delicioso, pois no momento estava com fome e o calor era insuportável. O que mais me chamou a atenção, foi o grande numero de pessoas perambulando pelo cais, pedindo esmola e o que comer.
No dia seis às 8,00 horas, levantamos ferro e zarpamos rumo a Dacar. Logo ao sair da barra, me senti com um leve enjôo, mais, foi coisa passageira. A viagem continuou no seu ritmo vagaroso e monótono, até que no dia sete, avistamos a ilha de Fernando de Noronha, bastante comprida, o que fazia salientar o Pico do Papagaio. A expectativa agora, se voltava para a Passagem do Equador, porque os comentários eram vários e cheios de estórias, fundadas nos rituais da tradição da Marinha. Eis, que houve ordens para entrarmos em forma e aos poucos o Navio foi parando suas máquinas até ficar balançando nas ondas, então o Sr. Major S1 explicou-nos, que iria ser prestada uma homenagem aos companheiros da Marinha, mortos no afundamento do Cruzador de Batalha "BAHIA", no finalzinho da 2ª. Guerra. Foram jogadas algumas coroas de flores “in memorian”. Dia oito pela manhã, na hora do café, ao passarmos pelos rochedos são Pedro e São Paulo, último pedacinho de terra do Brasil, senti-me, então bastante longe dos meus, senti um pouco de saudades em meio daquela imensidão do mar. Lá pelas 10,00 horas estávamos cruzando o Equador, quando foram preparadas várias brincadeiras para esse momento, todos que o atravessavam pela primeira vez, deveriam ser batizados pelo Rei Netuno, representado por um Marinheiro todo vestido a caráter, acompanhado por sua corte e guarda. Com uma brocha de pintura, a turma era batizada com cal e depois era feita uma cruz de óleo queimado, na testa e em seguida jogada numa piscina improvisada. Isso era novidade e objeto de muito riso e alegria, pois que, ainda havia o ritmo da batucada e os que iam a força para dentro d’água, mesmo de uniforme.
Toda essa alegoria valeu-me um bom banho de água salgada e um diploma pela passagem do Equador. Ontem dia nove, o mar esteve bem agitado pela manhã, o que valeu uma boa chuva, à noite o tempo melhorou, então tivemos um Show, programado e apresentado pela turma, o que ajudou a passar um pouco do tempo. Devemos aportar em Dacar (norte da África), amanhã dia 11, pelas 12,00 horas.
Há dois dias saiu-me uma irritação no pulso, proveniente da alergia ao nylon, pois, antes de embarcar no Rio, comprei uma pulseira de relógio, que usei nos dois pulsos, o que me causou a dita irritação.
Por volta das 11,00 horas, começamos a avistar terra, ao longe ia avistando os contornos dos edifícios, que aos poucos iam crescendo, até serem vistos por inteiro. Aportamos inicialmente no cais do petróleo, onde havia muitos navios e muitas instalações petrolíferas. O Soares Dutra completou seus tanques e duas horas depois mudamos para o ancoradouro militar da Marinha de Guerra Francesa. Fui a terra fazer uma visita à cidade com muitos prédios branquinhos e bonitos, jardins, praças ajardinadas, muitas lojas e um grande movimento de transeuntes. Em Dacar notei uma divisão do povo em duas raças distintas: a branca representada principalmente pelos franceses e pelos turistas e a negra, representada pelos nativos das várias camadas sociais, dede o negro granfino e letrado até o natural semi-selvagem, todos com suas indumentárias características de cores vivas constituídas geralmente de: um camisolão, sandálias e uma toga, o que achei particularmente muito interessante, por ser diferente do que eu conhecia. As ruas da cidade são geralmente estreitas e sujas, os carros quase na totalidade do tipo europeu, acanhados e sem linha, vi poucos carros americanos. O que mais me chamou a atenção, deixando-me bastante impressionado, foi à pobreza, a falta de higiene e principalmente a fedentina dos negros. A vida naquela Colônia Francesa é muitíssimo cara, o que mais me chamou a atenção, foi ter pagado 310 francos coloniais pelo envio de duas cartas para o Brasil, ou seja, 620 francos franceses, o que equivalia a, mais ou menos, 1.230,00 cruzeiros. O comércio como em todo lugar é dominado pelo árabe (Sírio Libanês). Achei interessantes os negros esculpindo vários bibelôs de madeira, ébano e marfim em plena rua, a vista dos turistas. Os vendilhões (camelôs) são muito espertos e ladrões, sabem facilmente converter os valores das moedas, e na venda de qualquer produto, sempre pedem mais do que o valor em si, de uma média de mil francos, acabam vendendo por cem francos. Uma coca-cola vale sessenta francos. O estrangeiro, que aporta em Dacar de um modo geral é muito explorado. Fiquei admirado, por ter encontrado muitas pessoas falando o português, mas a língua oficial é o Francês além da língua dos nativos.
Passamos o dia 12 também, embevecidos pelas novidades de Dacar, não se dava conta do calor insuportável, que aumentava ainda mais, por estarmos vestidos com a farda de gabardine, muito quente. No dia 13 pela manhã, lá pelas 08,00 horas, desatracamos e seguimos, rumo a Nápoles. A viagem seguiu o ritmo normal. O tempo esfriou um pouco, o que compensou o calor de Dacar.
No dia 17, pelas 19,00 horas, atravessamos o estreito de Gibraltar, onde o navio diminuiu a marcha, e pudemos ver os paredões de pedra de Gibraltar, que embora fiquem em território espanhol é administrado pelos ingleses. Avistamos, no lado direito, as luzes de Tanger no Marrocos, e a esquerda a cidade espanhola de Cádiz e também ao longe as luzes de Málaga na Espanha. Gibraltar, que domina a entrada do Mediterrâneo, foi muito castigado durante a última guerra, pelos alemães. Hoje é domínio dos ingleses, mas, já pertenceu aos franceses, espanhóis e também aos mouros.
A expectativa de estar navegando no mar Mediterrâneo era grande, era voz corrente dos marinheiros, que ali o mar era impetuoso, porém, só no dia 19, que o navio jogou um pouco mais, deixando grande parte do pessoal, enjoado. Devemos passar pelo Sul da Sardenha às 18,30 horas e aportar em Nápoles à meia noite do dia 20. A euforia da emoção de pisar em solo europeu era grande, principalmente em sendo Nápoles, onde os brasileiros são normalmente bem recebidos. Muitos colegas programaram ir conhecer Roma, que fica a quatro horas de ônibus, eu, porém, não pretendia ir, isto, é, não podia ir, por estar de serviço e não poderia me ausentar do navio. Soou a alvorada do dia 21 de outubro de 1959, grande dia para mim, ao sair do compartimento donde eslava alojado, deparei-me ao fundo da Baia de Nápoles, com a silhueta do conhecido Vesúvio, cartão postal da cidade. A temperatura muito baixa e um vento cortante foram a recepção que tivemos na chegada. Estávamos atracados no conhecido e famoso porto de Nápoles, histórico e muito importante para a Itália.
O porto de Nápoles é muito amplo e racionalmente dividido em muitos "piers", muito bonito e bem organizado. A estação (edifico hoje da administração portuária), muito imponente e artisticamente reconstruído, pois que, fora arrasado durante a 2ª. guerra mundial.
No porto estavam atracados vários navios dos mais diversos países, todos muito bonitos e luxuosos. Depois das formalidades de atracação (atracamos de popa, isto é, de ré), para economia de espaço, tive o orgulho de ser o primeiro do contingente a pisar em solo italiano. Saí com um colega goiano (Sgt. Orivaldo), que é alcunhado de “mão-de-vaca”, por ser muito seguro nas questões de dinheiro, mas bom colega. Saímos a passear, percorrendo as ruas de Nápoles, com grandes edifícios, percorrendo as praças, visitamos as igrejas, túneis que atravessam os cruzamentos das ruas, todos muitos bem cuidados, com passadeiras e quadros nas paredes retratando toda a vida da cidade, muito original e novidade para mim. A cada passo éramos cercados por verdadeiras ondas de vendedores ambulantes, vigaristas oferecendo quinquilharias, as mais variadas e de maneiras por demais interessantes. Andamos por toda Nápoles, visitamos os logradores públicos, casas comerciais, até tomamos "um biquerine de vino tropo bene" com muita azeitona numa cantina típica, onde os tonéis de vinho ficam amontoados a vista dos fregueses e o vinho vai direto para as torneiras no balcão. Tive uma visão geral de tudo, constatando que o custo de vida era bem mais caro do que no Brasil.
Não tive muita dificuldade no entendimento com os locais, pois havia estudado um pequeno vocabulário e foi muito fácil o entendimento. Aproveitei para comprar um acordeom Scandalli de 120 baixos por 90 dólares (muito barato), uma Bereta por 19 dólares, um blusão de nylon (americano) por quatro dólares, um par de luvas de couro por dois dólares e uma camisa por três dólares. Fiz boas compras no parecer do meu amigo Orivaldo. No entorno do caís, os comerciantes são muito vivos e espertos, aplicam todos os tipos de golpes possíveis, em se tratando de estrageiros. Um quilo de café vale de 2.700 liras a 3.500 liras, muitos companheiros já sabiam e trouxeram alguns quilos de café do Brasil e fizeram a América aqui em Nápoles. Vários colegas foram a Roma e a Pompéia também, eu preferi ficar somente em Nápoles, pois pretendia, nas férias, voltar e viajar por toda a Europa. Nos três dias que passei em Nápoles pude ver e sentir a grandeza da civilização européia, adquirida através de muitos e muitos anos, a poder de trabalho, dominações e guerras. O povo italiano é muito bom, porém de pouco conhecimento geral, entretanto muito educado e respeitoso, pois os carros param nos cruzamentos para os pedestres passarem, mesmo estando com o sinal fechado. Notei no geral certas particularidades no povo italiano, muito interessantes; a mulher italiana é muito bonita, como se vê no cinema, mas o tipo comum é atarracada, geralmente gorda e pouco esbelta, com exceções, é claro. Gostei muito de Nápoles, a impressão foi boa, não vi nenhum elemento de cor, nem sequer moreno pardo. Partimos de Nápoles às 23,00 horas do dia 23, com muito frio e cerração. Pela manhã do dia 24 passamos bem perto da ilha onde se encontra o famoso vulcão Stromboli.
A viagem seguiu calma e sem contratempos rumo a Porto Said no Egito, logo depois passamos pelo Estreito de Messina, entre a Sicília e o Continente na lendária Calábria (Régio Calábria), palco de grandes batalhas na última guerra. De ambos os lados do canal, se avistava grande aglomerado de imponentes edifícios, todos muito brancos e homogêneos.
Ao sair de canal de Messina, entramos novamente no Mediterrâneo. Notei uma perturbação no mar, pois as ondas se agitavam com bastante impetuosidade, continuando assim o resto do dia, vindo a piorar no cair da noite, aí, o mar tornou-se violento, fazendo o navio balançar de todo jeito. Quase toda a turma ficou indisposta, enjoada, chamando o "Hugo" a toda hora, fiquei também mareado e fui me deitar. O dia 25 amanheceu com boas perspectivas, pois o mar se apresentava mais calmo, porém o dia, sem sol, bastante escuro, até que, em dado momento o mar se enfureceu, sacudindo o Navio como até então não havia visto, entramos pela noite adentro em plena tempestade. Quem até então não tinha enjoado, não teve alternativa, se não acompanhar os outros, pois, muita gente foi parar na enfermaria, dado ao tamanho mal estar causado pelo agito do mar. A apreensão foi grande, por que o Navio pinoteava de todo jeito. É impressionante de se ver, a água subia até os mastros, varrendo o tombadilho de proa a popa, sinceramente passamos uns maus bocados.
O telegrafista de bordo recebeu dois pedidos de socorro de embarcações em perigo, rumamos para um dos pontos indicados, mas não tivemos nem vestígio da embarcação sinistrada. Posteriormente soubemos que era um Navio menor e que tinha ido a pique. Passamos a noite toda com grande apreensão. A cada balanço do Navio, correspondia a uma série de alterações a bordo, pois se quebravam mesas, caíam latas; louças se quebravam, as malas do compartimento corriam de um lado para outro, foi o maior sufoco. Uns vomitavam outros rezavam, até havia os que brincavam para dissimular o nervosismo; o temporal foi tão violento, que foi necessário mudar de rota para contornar a tempestade. E como, sempre depois da tempestade, vem a bonança, tivemos o amanhecer do dia 26, bem calmo. Como sempre houve alguém que dissesse, que "o mar é como a mulher orgulhosa, a cada dia se apresenta de um jeito”.
No dia 27, entramos em Porto Said , bem no Canal de Suez, ancorando no píer destinado a ONU. Achei muito interessante a entrada do Canal, bem estreita e sem grande sofisticação, muito simples por sinal. Haviam muitos navios fundeados ao longo do canal, na maioria, petroleiros. A impressão que tive daquela primeira cidade do mundo árabe, que eu conhecera, me pareceu bastante simples e sem vida, com pouco movimento para uma cidade daquela importância. Chamou-me atenção, o que achei muito interessante, os barquinhos de camelôs, acompanhando os navios, oferecendo bugigangas, principalmente tapetes. A nossa chegada foi simples, tivemos a visita do Embaixador e do Cmt. Do Btl. Brasileiro de Gaza. O que me comoveu foi ver um pracinha chorando no cais, ao nos avistar, pois, ficou muito contente e comovido. No dia seguinte, dia 28, às 09,00 horas, formamos na plataforma do cais, para seguirmos rumo a Gaza, onde fica o Quartel General da UNEF (Força de Emergência das Nações Unidas).
O dia 28 foi cheio de apreensões e movimento, pois, embarcamos numa composição formada no pátio, de bitola larga e relativamente boa. O trem apitou, anunciando a partida, seguindo inicialmente por uma planície desértica, com alagadiços e depois de algum tempo só se via areia, pois era o início do deserto de Sinai. Viajamos por 7 horas, costeando o mediterrâneo, pela direita e a esquerda, só se viam as dunas de areia e as tendas de Beduínos, raramente se via algumas casas de aspecto bastante rústico (muitas palmeiras tamareiras), deixando transparecer muita miséria. A paisagem foi muito interessante de se ver, pitoresca e nova para todos nós, por isso tornou a viagem cheia de lindas surpresas, a mim tudo me pareceu muito triste. Durante a viagem, tivemos uma refeição fria, somente enlatada, comida de campanha, o que particularmente, gostei. Depois de algum tempo vendo somente areia, passamos por El Hariche e depois de mais algum tempo chegamos em Rafah, onde se localiza o P.C. do nosso Batalhão.
Fomos recepcionados pelos colegas brasileiros, com muita alegria, fiquei feliz por que encontrei muitos Sargentos ex-alunos meus, mas a maior alegria, mesmo, foi encontrar duas cartas da minha família me esperando.
A minha primeira impressão foi boa, ao sentir o contacto com as pessoas e a sede do Batalhão em Rafah. O dia 29 foi cheio, pois, tivemos algumas instruções sobre vários assuntos, o que despertou uma fome voraz. Gostei do almoço, pois estava bem temperado e farto, aproveitei para escrever para casa. No dia 30 tivemos mais instruções e fizemos um reconhecimento na Linha de Demarcação do Armistício (LDA), onde iríamos operar. A tarde houve a classificação do novo Contingente, nas diversas Companhias do Batalhão. Eu fui classificado na 9ª Companhia na fronteira com Israel, segundo os antigos o pior lugar, pois está localizado no ponto crítico da LDA. No dia 31, logo pela manhã, rumamos para o PC. da 9a Cia., onde foi feita a indicação para os Pelotões da Cia. Fui designado para auxiliar do 2º. Pelotão junto ao PC. da Cia., com mais três Sargentos, Cabos e Soldados. O Cmt. do Pelotão nos recebeu com muita cortesia, dando-nos as boas vindas. O Ten. Lécia Dias, Cmt. do Pelotão, nos reuniu, a mim e aos demais Sargentos, em sua barraca e nos deu alguns conselhos com respeito ao serviço, nos exortando ao bom cumprimento da missão, ao que respondi com algumas palavras em nome da turma, hipotecando nossa solidariedade e nossa vontade de bem cumprir a missão a que nos propusemos.
Como sempre, logo depois fui receber o serviço do Pelotão, escalas, horários, armamento, munições, material rádio e ordens particulares, bem como as senhas para as Patrulhas. Como sempre no Exército, a primeira escala de serviço, cabe ao mais moderno, que no caso era o Sgt. Ito, assim sucessivamente, Salles, Élcio, Fernandes e por último eu. A primeira patrulha junto a LDA foi cheia de preocupações, precauções e expectativa, observando todas as ordens vigentes e os ensinamentos recebidos desde a muito, os quais ministrei a muitos e muitos Sargentos, que passaram pela EsSA.
Foram seis horas intermináveis, patrulhando a Linha de Demarcação do Armistício, me senti como nunca, orgulhoso, comandando àquela pequena Patrulha, realmente em missão de verdade. Muitos pensamentos passaram pela minha mente, naquela imensidão do deserto do Sinai, palco de muitas guerras, cheias de história, desde o tempo de Cristo. Senti por certo, um estado de emoção, jamais sentido, pois, tinha medo de sentir medo, atento a todos os movimentos e ruídos, até que a caminhada chegou ao fim, completando o percurso do patrulhamento de 24 km feito em 6 horas, as quais passaram como, que por encanto. Mais tarde, já repousando, dei graças a Deus, pelo cumprimento da minha primeira missão a serviço da paz no Oriente Médio. Muitas seis horas, como aquelas se passaram comigo, patrulhando a LDA, duas três, dez, vinte e cinco, e se seguiam o número de patrulhas, cada qual com seus imprevistos e com um fato novo a registrar. A vida no acampamento era suportável, mas, monótona e irritante, pois, se perdia a noção dos dias, todos procuravam um modo de fazer passar o tempo. Uns se dedicavam à leitura, outros a escrever cartas, inventavam jogos de toda sorte a fim de amenizar a solidão, principalmente nas horas de folga, pois, a instrução durante o dia, era um bom sistema para que o tempo passasse.
O dia cinco de dezembro foi um dia cheio de alterações. Logo de manhã o Ten. Cmt. do Pelotão, mais o Sd. Gualberto, prenderam um Fedaín (Soldado observador do Ex. Egípcio), que se aproximara muito da nossa área de estacionamento, foi um reboliço. Mais tarde, levamos o intruso para o PC. do Btl. No dia oito o Boletim publicou a substituição do Tenente Cmt. Chegou então o Ten. Muller, que por sorte nossa era um grande sujeito. No dia da substituição nós, os Sargentos do Pelotão, nos reunimos e oferecemos uma bebida aos Tenentes, de boas vindas e de despedidas, quando estiveram presentes, o Cap. Cmt. da Cia. e os demais tenentes Cmts. dos outros Pelotões. Na oportunidade, dirigi algumas palavras ao Ten. Dias, que estava nos deixando, agradecendo o seu comando e ao Ten. Muller que estava chegando, uma saudação, hipotecando nossa solidariedade.
O frio que chegava, ia aos poucos exigindo de cada um, quantas peças de roupas possuía, pois às noites a temperatura baixava para três graus. Durante as Patrulhas, o tempo exigia de nós, um grande esforço, pois, o vento cortante, fazia o frio chegar aos ossos. O dia 16 chegou, fiz uma pequena reunião dos colegas do meu e dos outros Pelotões, para festejarmos o meu aniversário. Houve alguns discursos e alguns números improvisados de música, fiquei feliz, pois, o ambiente correu com muita alegria, regado naturalmente ao uísque que havia ganhado de presente do Capitão e do Tenente.
O Natal chegara, estávamos muito contentes e alegres, pois iríamos festejar a data, exatamente na região dos acontecimentos Bíblicos, também por que os Indianos viriam fazer as nossas Patrulhas, para que pudéssemos esperar a chegado do Natal, reunidos, isto por que, os Indianos são mulçumanos ou hindus e não comemoram o Natal.
Foi uma noite de muita alegria, muita comida, muita bebida e muita música. O nosso Cmt. de Batalhão veio se juntar a nós com o seu Estado Maior. Muito embora, em meio a toda aquela alegria, todos conservavam um semblante triste, naturalmente lembrando os entes queridos, que estavam na pátria distante. O fim do ano chegou, foi programado um churrasco de galinha para esse dia, eu estava escalado para a 2ª. Patrulha, das 24,00 às 06,00 horas da manhã, pois iniciaria o ano de 1960, patrulhando a LDA. Não me importei com a programação da passagem do ano, pois não estava disposto para o churrasco, numa noite de frio muito intenso. O mês de janeiro passou tão depressa, que não vi o fevereiro chegar, pois o frio, a essa altura, estava no máximo.
Fui ao Batalhão cortar o cabelo e aproveitei para me inscrever para uma viagem ao Cairo, isto é, para conduzir a mala diplomática à Embaixada Brasileira na capital do Egito, prática essa realizada mensalmente. Fui escalado para o trabalho no dia 20 de fevereiro. A expectativa foi muito grande, nos dias que antecederam a partida. De 19 para 20, dormi na sede do Btl. porque sairíamos as 03,30 horas da manhã, em vista dos 400 quilômetros a serem percorridos. Saímos de jipe rumo ao Cairo, cidade em cujas redondezas encontram-se as lendárias e milenares pirâmides de Gizé. O Ten. Gazal, Ten. Nozer, eu e o Sd. Niara (motorista), bons companheiros de viagem. O dia 20 amanhecera muito frio e nebuloso e na hora prevista nos pusemos em marcha passando por Rafah Camp, El Arish e várias outras povoações, isto é, aglomerado de tendas de beduínos, dispostas ao longo da rodovia que liga Gaza ao Cairo.
Depois de viajarmos por entre as tamareiras, que nessa época estavam todas carregadas e por entre as dunas intermináveis de branca areia, avistamos ao longe os mastros dos navios, que pareciam estar navegando pelas areias do deserto. Aos poucos íamos vencendo a distância, até que chegamos no Cheque Post, isto é ao Posto de Policiamento Alfandegário Egípcio, onde exibimos o Moviment Order, ou seja, o passaporte coletivo das Forças de Emergência das Nações Unidas. Ficamos esperando a beira do canal de Suez, por aproximadamente 50 minutos, porque os navios petroleiros se sucediam, um após outro, numa fila interminável, todos deslizando garbosos pelo estreito canal, ostentando as bandeiras de seus respectivos países, Ingleses, Franceses, Italianos, Turcos, Gregos. E qual a nossa surpresa, ao vermos tremulando ao longe, no mastro de um Petroleiro, o Auriverde pendão de nossa Pátria, o que nos fez vibrar de orgulho e felicidade. Entramos na balsa para atravessar o famoso Canal de Suez, construído pelo francês Ferdinand de Leceps. Minha emoção foi muito grande, pois, jamais pensei fazê-lo, principalmente naquelas condições. Na margem oposta do Canal, fica situada a cidade de EL Cantara, cujas edificações comuns dos vilarejos árabes, não fazia muita figura.
Tomamos a estrada à esquerda do Canal, onde muitos navios estavam ancorados. Seguimos a estrada rumo ao Cairo, continuando através do deserto, cujo panorama não me inspirava em nada. Aos poucos fomos divisando um amontoado de casas, muito branquinhas, que foi se avolumando na medida em que íamos chegando mais perto. Então, em meio daquele deserto árido e escaldante, uma bela cidade surgiu com suas residências muito amplas, quase todas com imensos jardins bem planejados e floridos, circundados por um regato artificial muito sugestivo. Ao longo das ruas, as filas de palmeiras se sucediam, como que perfiladas. Enfim, era a primeira vez, que via no oriente, uma cidade bonita encravada naquela imensidão do deserto. A cidade, era Ismailía, soube mais tarde, que fora a cidade onde outrora residia a administração do Canal, Ingleses e Franceses. Fizemos então uma pequena parada e largamos para a última etapa rumo ao Cairo. Após termos passados Ismailía, o panorama se modificou, pois já se via alguma vegetação, muitos povoados e logo mais adiante, avistamos um dos braços do lendário Nilo, que paralelo ao eixo da estrada, ia irrigando as terras marginais. O que mais me chamou a atenção, foi o grande número de tomadores de água, dos mais variados tipos, que se viam por todo o trajeto, como, que enfeitando as margens ribeirinhas, notando grandes extensões de terra cultivada, quase se perdia de vista de ambos os lados da estrada. Nessas alturas, a quase duzentos quilômetros do Cairo, notamos uma grande movimentação do Exército Egípcio, muitas patrulhas, fortificações, posições antiaéreas, uns postos de checagem e também mais atrás, toda uma Divisão de Blindados. Aos poucos íamos aproximando dos arredores do Cairo e sem nos darmos conta, chegamos na grande metrópole Egípcia.
Cairo, com seus três e meio milhões de habitantes, cortado ao meio pelo importante Rio Nilo, com seus dois braços, Roseta e Mieta, batizados por Champolion, quando decifrou as escritas egípcias, cujas pontes artisticamente construídas, formavam um espetáculo bonito de se ver. Em se chegando ao Cairo, fomos diretamente à Embaixada Brasileira, onde nos apresentamos e entregamos a Mala diplomática (Missão cumprida). Hospedamo-nos no Nacional Hotel, com instalações amplas e atapetadas, e todo o requinte do esplendor oriental, o que me caiu muitíssimo bem. Logo depois saí para algumas compras e a noite fui ao Show, oferecido pela UNEF ao pessoal em "leave", não apreciei muito, pois o cansaço era bastante e queria aproveitar bem o dia seguinte. No dia 21 de fevereiro, encontrei com alguns colegas, que estavam no "leave" e fomos visitar as lendárias Pirâmides de Kefren, Keopes e Miquerinos, a Esfinge e muitas outras escavações adjacentes, túmulos de Reis e Rainhas etc.
Passamos toda a manhã, tomada pelas belezas encerradas naquelas relíquias milenares. Depois de um bom almoço, regado a vinho fomos para o Museu do Cairo, onde passamos todas as horas da tarde, embevecidos pela grandiosidade das artes antigas, encerrando a vida e a história dos Faraós de outrora. A fabulosa riqueza encerrada naquelas peças de ouro, prata, pedrarias e marfim, cujo valor histórico, ultrapassa de muito o valor intrínseco das peças, dá ao Museu um destaque universal. Os sarcófagos de ouro maciço, encerrados em redomas de vidro com suas múmias milenares, dão um destaque especial aos olhos dos turistas.
O impressionante de tudo, é que ali está ou se encontram todas as peças do grande quebra-cabeça, que demarcam toda uma civilizarão grandiosa, que fora o reino dos Faraós, desde um simples adorno pessoal até as sementes de cereais e flores.
Mais dois dias passei rodando pelas ruas e logradouros da cidade, a fim de senti-la mais de perto, nos seus menores detalhes.
Nessas andanças, encontramos um casal de brasileiros em trânsito pelo Cairo, foi um encontro de muita alegria para todos.
Encontrei também uma garota muito inteligente e distinta, que se propôs a mostrar-me um pouco mais da cidade, ela era cristã Kópta, falava seis idiomas, e era oriunda da Armênia; levou-me a visitar os seus familiares, onde tomei um delicioso chá.
Assim passei quatro dias vivenciando o dia-a-dia do Cairo, tirei muitas fotografias para documentar a minha estada naquela lendária cidade. E como num sonho, passaram as horas, que estivemos ali e então regressamos a Rafah. Depois de me ver novamente em minha morada de lona, com meus companheiros de labuta na Fronteira, vendo os dias e noites se consumirem, horas, após horas, o Cairo com sua fabulosa historia e o lendário Nilo, só ficaram na lembrança. Depois desse arejamento da mente e do espírito, voltei à atenção para uma peregrinação a Jerusalém, pois que a muito desejava conhecer os lugares santos. Candidatei-me então para realizar a peregrinação, considerando, que minha ida ao Cairo foi a serviço, então tinha direito a um "leave" de uma semana por já ter passado três meses na fronteira, o que ficou marcado para fins de março.
Os dias continuavam tristes e muito frios, tanto que, precisávamos de muitos agasalhos: com quatro mudas de roupas, dois pares de meias de lã, luvas, capuz, cachecol e ainda dava para sentir frio, principalmente por sermos de um continente essencialmente tropical. Mas, os dias se sucediam uns após outro, até que chegou o dia previsto para a ida a Jerusalém.
À noite quase não consegui dormir, dado a arrumação da mala, o que levar e mais ainda a emoção da viagem que iríamos empreender.
Logo de manhã, rumamos para Rafah, onde fica o PC. do Btl. para juntarmos aos outros, que também iriam de “leave” para a Terra Santa. Depois das formalidades administrativas, tomamos a condução e zarpamos para o aeroporto de Gaza, no caminho, pela estrada, margeando o Mediterrâneo, se sucediam as paisagens mais pitorescas com muitas tamareiras e tendas de Beduínos, aproveitei para tirar algumas fotos registrando a minha passagem por ali.
Viajamos quarenta e cinco minutos até ao aeroporto, aonde iríamos nos juntar aos Suecos, Dinamarqueses, Noruegueses e Canadenses. Depois de esperarmos alguns momentos, com algumas poses para registrar o momento e a lembrança do grupo, alçamos vôo para a histórica e milenar Jerusalém. Costeamos o Mediterrâneo ate a altura da capital de Israel, quando dobramos para a direita, passando por cima de Tel Aviv, que se avistava muitos metros abaixo.
Finalmente chegamos ao aeroporto de Jerusalém, de linhas modernas, muito bonitas por sinal, onde fomos recebidos pelo conhecido guia turístico "Maurício", que logo nos conduziu para o hotel em carros de último tipo. Para depois do almoço, já estava programado o início da visita aos Santos lugares. Dominus Flevit, Santuário moderno, localizado no sopé do Monte das Oliveiras, donde se avista Jerusalém por inteiro, é o lugar onde se passou e se comemora a amargura de Jesus - quando pensava na terrível sorte que iriam passar em Jerusalém e no meio das glórias do Domingo de Ramos, quando na chegada a Jerusalém, Jesus não pode conter as lágrimas amargas, antevendo o seu sofrimento.
Chegamos então a "Getsimani" (lugar onde se espreme as azeitonas para extrair o azeite), segundo consta foi o lugar onde Jesus passou a noite orando, meditando sobre a sorte que lhe estava reservada. 3º- Horto das Oliveiras: lugar onde se encantam os nodosos troncos das seculares oliveiras (árvore que produz azeitonas), conservadas desde os tempos idos da agonia de Jesus. 4º- Basílica da Agonia, onde encerra a rocha em que Jesus orou, representando todo o Seu estado d’alma. Prosseguindo na peregrinação pelos lugares santos, de um ponto para outro. O transporte era sempre feito em carros novos e sempre acompanhado pelo Sr. Maurício, que não se descuidava nem por um momento da turma, pois havia muita restrição por parte dos árabes.
Em seguida visitamos: 5º- Rocha dos Apóstolos, 6º- Gruta de Getsimani, 7º-Tumba da SS. Virgem, 8º- Apedrejamento de Santo Estevão, 9º-Igreja de Santa Ana e São Joaquim, 10º- Piscina Probática, 11º- Pretório, l2º- Capela da Flagelação, 13º- Capela da Condenação, 14º -Via Dolorosa, 1ª Estação: Jesus Condenado, 2ª Estação: Carregando a Cruz, 3ª Estação: Jesus cai pela primeira vez, 4ª Estação: Encontro de Maria e Jesus, 5ª Estação: Simão Sirineu ajuda a Jesus, 6ª Estação: Encontro com Verônica, 7ª Estação: Jesus cai pela segunda vez, 8ª Estação: Encontro com as Filhas de Jerusalém, 9º Estação: Jesus caiu pela terceira vez, 10ª, 11ª, 12ª e 13ª Estações: Calvário e Santo Sepulcro.
Em continuação visitamos: 15º-Pedra da Unção, 16º- As Piedosas Mulheres, 17º- Igreja do Santo Sepulcro, 18º- Capela de Madalena, 19º -Capela de Santa Helena, 20º - Capela de Santa Cruz, 21º - Templo de Herodes, 22º- Mesquita de Omar, 23º- Mesquita de El Acsa, 24º- Pórtico de Salomão, 25º - Porta Especiosa, 26º - Igreja do Padre Nosso, 27º- Pedra da Ascensão, 28º- Tumba de Raquel, 29º- Cidade de Belém, 30º- Basílica da Maternidade, 3lº-Gruta da Natividade, 32º- Campo dos Pastores, 33º- Betânia, 34º- Sepulcro de Lázaro, 35º- Casa de Marta e Maria, 36º- Fonte' dos Apóstolos, 37º- Pousada do Bom Samaritano, 38º-Cidade de Jericó, 39º- Monte da Tentação, 40º- Rio Jordão, 41º- Mar Morto, 42º- Samaria, 43º - Poço de Jacó, 44º- Amam Capital da Jordânia.
O passeio a Amam foi realizado na tarde do domingo, quando tivemos folga, isto por que, todo tempo foi cheio de atividades, não tínhamos tempo nem sequer para fazer algumas compras de "souvenires"; chegando a noite, estávamos cansadíssimos, pedindo mesmo uma boa cama. O clima em Jerusalém, durante a nossa peregrinação estava ameno durante o dia e muito frio à noite. Jerusalém foi toda construída em pedra, perpetuando através dos tempos, toda uma história, as casas em estilo mediterrâneo todas muito branquinhas, parecendo um presépio igual aos reproduzidos nas igrejas por ocasião do Natal.
Suas construções, muito juntas, o traçado das ruas, os montes ao redor, as oliveiras, sua gente e seus costumes, dão a Jerusalém um encanto todo especial, o que, nos dá a impressão de um mundo diferente daquele que conhecemos no Ocidente. O que me chamou a atenção foi existir moradias em grutas e em cavernas e também uma só igreja (como a do Santo Sepulcro), servindo a várias religiões, ou seja, vários seguimentos da fé cristã. Visitando Amam, capital da Jordânia, apreciei muitíssimo o belo panorama que a viagem nos ofereceu, pois que, a cidade propriamente, não é lá grandes coisas, podendo salientar os antigos monumentos romanos existente, bem assim como o Palácio Real, cujos jardins são belíssimos.
A peregrinação a Terra Santa me encheu de viva emoção, contribuindo para reafirmar minha convicção nos princípios da fé, dando-me melhores condições para avaliar os diversos aspectos da vida. Na capela da Santa Cruz, assistiu a u’a missa, quando agradeci a dádiva daquela viagem.
Na igreja do Santo Sepulcro, acendi umas velas em intenção da família distante. Após ter empreendido essa humilde peregrinação pelos caminhos percorridos pelo mártir Jesus Cristo, voltamos para a Faixa de Gaza, com uma visão diferente do mundo e do modo de encarar os percalços da vida, com mais esperanças para o amanhã. Depois, já na fronteira, cercado de areia por todos os lados e as fisionomias de sempre, me encontrei como se tivesse acordado de um longo e belíssimo sonho. A vida na fronteira entre Egito e Israel, continuou monótona e triste, muito embora fazendo de tudo para se distrair, o tempo demorava a passar e assim os dias iam passando, até que a notícia da chegada de um novo contingente modificou a fisionomia de toda a turma. Os gaúchos se apressavam para arrumar a bagagem para o regresso à pátria e os mineiros por que iriam para o PC do Batalhão, onde a vida seria mais calma e com mais conforto, pois ficaríamos na Companhia de reserva, cuidando da vida administrativa do Batalhão.
E essa febre de alegria chegou ao seu ápice, quando soubemos que o “Gato" (apelido dado pela turma ao navio) havia chegado em Porto Said com um novo contingente de Cariocas. Um dia depois a nova turma estaria no Btl., depois mais uns três dias, os gaúchos voltariam ao Brasil e nós os mineiros que estávamos há nove meses na Fronteira, viríamos para a sede do Btl. e os novatos cariocas iriam para a Fronteira e assim estava concluída a rotação como era chamada essa manobra. Dia 27 de junho chegara, envolvendo intensamente a todos impregnando os semblantes num misto de alegria e de tristeza, pois várias reuniões foram feitas de boas vindas e de despedidas, quando por várias vezes falei, procurando superar a alegria e a tristeza que se misturavam deixando um amargor de saudades no coração.
Finalmente uns foram para o Brasil, outros para o PC do Btl. e os que chegaram foram para a Fronteira, iniciando um novo ciclo de trabalho.
Já no PC do Btl., com novos ambientes e novos trabalhos e com os pensamentos voltados para a viagem a Europa, pois estava marcada para o dia 10 de julho, quando empreenderia a grande viagem de meus sonhos. Chegou o tão esperado dia, então seguimos para o Aeroporto de El Arish, distante do Btl., uns quarenta quilômetros. Depois de esperar umas duas horas, entramos para o avião, um quadrimotor da R.C.A.F., até que rodamos pela pista e em poucos instantes estávamos no ar. Dez minutos já eram passados e estávamos sobre o mediterrâneo, quando o motor número um da direita esfumaçou e parou e logo em seguida o número dois, o avião deu uma sacudidela e se equilibrou de novo, fazendo uma grande curva para retornar a Base. Felizmente fizemos uma boa aterrissagem, sem incidentes, graças à perícia do comandante. Em terra ficou constatado que o concerto demoraria uns dois dias, então voltamos para o Btl., ficando a espera de uma nova chamada. Depois de três dias de espera, recebemos ordens para embarcarmos no dia treze às 14,00 horas. Fomos informados que o avião sairia no dia treze pela manhã, fomos ate lá, mas só saiu mesmo no dia seguinte dia 14 de julho de 1960, devido uma pane de última hora. Tentando pela terceira vez a viagem, enfim conseguimos. O avião partiria às 10,00 horas, tínhamos levantado às cinco e o nosso café foi muito simples. Enfim, às dez horas levantamos vôo diretamente para a cidade de Pizza no norte da Itália. O quadrimotor rolou mais uma vez pela pista e em poucos minutos, estávamos no ar. Dentro do avião, o calor era intenso e abafado, mas em pleno vôo, felizmente melhorou. Aos poucos íamos distanciando da terra e do Mediterrâneo, inicialmente com suas águas muito verdes, e logo depois um belíssimo azul escuro ficava muito lá embaixo, pois já estávamos a dez mil pés. Num vôo de sete horas, atravessamos o Mediterrâneo, Peloponeso, Sicília, sul da Itália, depois costeamos a costa italiana até Pizza, onde aterrissamos a 16,00 horas local, com diferença de duas horas do Egito. Tive uma impressão muito boa, pois avistei do alto a famosa torre inclinada que marcou a história como o símbolo da cidade de Pizza. Fomos levados até o Hotel Términos que era muito bom por sinal, mas muito caro, só para dormir, pagamos duas mil e duzentas liras. Em seguida, depois de um banho, saímos para uma refeição (spaguetti, pane e vinho), estávamos famintos, pois havia passado do café matinal doze horas. A viagem foi muito cansativa, o barulho dos motores do avião me deixou completamente afônico, quase surdo e o avião sairia às três horas da manhã. À noite não pudemos ver nada da cidade, fomos direto para a cama, além de cansado estava com a cabeça em pandarecos. Pela manhã estava bastante frio, tomamos então o quadrimotor da Royal Canadian Air Force e fomos para a Base Aérea de Langar no centro da Inglaterra. Sobrevoamos a França, e atravessamos o Canal da Mancha, logo avistamos Londres, que do alto me pareceu maravilhosa.
Então completamos cinco horas de vôo, quando descemos na Base Aérea de Langar. Aproveitei ainda do alto e tirei várias fotografias da paisagem lá em baixo que era uma verdadeira pintura.
A minha primeira impressão em solo inglês foi muito boa, pela educação e cortesia com que fui tratado pelas autoridades. Depois de legalizar os papéis e visar o passaporte, fui acompanhado de um soldado canadense, que também ia para Londres, cujo nome era Juice, que durante esse tempo nos tornamos bons amigos. Tomamos um carro que nos conduziu até a cidade de Nottingham distante da Base uns quarenta minutos de viagem, percurso esse, que me deixou maravilhado pela homogeneidade dos sítios e fazendas, tudo verdinho e florido, muito limpo.
As casas todas obedecendo a um mesmo padrão, dava um tom de austeridade e porque não dizer um tanto frio e triste. As estradas todas asfaltadas, estreitas, mas muito boas e conservadas. Depois de esperar um pouco na estação ferroviária de Nottingham e trocar uns dólares por libras a razão de $3,80 por uma libra, tomamos um trem exatamente às 16,14 horas rumo a Londres. Preferimos as acomodações de 2a classe, por indicação do amigo Juice, porque eram bem estofadas, em se tratando de uma composição de madeira e puxada a fogo, aliás, na Inglaterra a maioria dos trens é puxada por locomotivas a carvão, além de tudo, por ser mais barato. Rodamos por quase três horas, apreciando o panorama campestre e as muitas cidades por que passamos, achei tudo muito bonito e bem cuidado, ainda mais, que estava vindo do deserto onde passei nove meses, vendo somente areia, é natural que achasse tudo muito bonito. Aproveitei, durante a viagem para praticar o meu inglês da Inglaterra, pois estava acostumado ao inglês canadense que era usado na Faixa de Gaza pelo fato do Comando da UNEF na área, ser canadense.
Em Londres, tomamos um táxi e hospedamos no Frobisher Court Hotel, por indicação do nosso amigo canadense, que se despediu e seguiu seu caminho. O Hotel muitíssimo confortável e bonito todinho acarpetado estofado, mas pagamos três libras pela diária de um quarto para duas pessoas, eu e o Sgt. Salles, meu companheiro. A minha opinião sobre Londres foi a melhor possível, pela distinção e limpeza da cidade, os edifícios quase todos do estilo antigo, todos de aspecto austero e sóbrio, fazendo parecer um mundo à parte da arte e arquitetura medieval. Depois de tomar um bom banho de água quente de banheira, por que, embora estivéssemos no verão, fazia muito frio, então saímos para uma refeição. Depois do jantar, fizemos uma caminhada para fazer a digestão, e achei muito interessante, as ruas conservarem tradicionalmente a iluminação a lampião de gás, que tinha conhecimento somente através da literatura. Outra coisa que me chamou a atenção foi que as 22,00 horas, ainda estava claro. No dia seguinte, saímos logo pela manhã, visitamos vários museus, tirei muitas fotos nos Parques e logradouros públicos, Garden Park, Hide Park, Rio Thamisa: Ponte da Torre, Abadia de Westminster, Big Ben, Casa do Parlamento Inglês e finalmente fomos assistir a rendição da guarda real no Palácio de Buckingham, o que achei muito bonito, pela correção dos uniformes e pela marcialidade tradicionalmente conhecida, quando terminou o cerimonial, voltamos ao hotel, indo almoçar em seguida. À tarde fomos ao Terminal Aéreo, comprar passagem com destino a Paris, cujo vôo sairia às 18,00 horas e aproveitamos para fazer algumas compras.
Depois de esperar algum tempo, o que é comum nos Aeroportos, tomamos um quadrimotor turbo hélice da B.E.A., que nos conduziu tranqüilamente à cidade Luz. Em se chegando a Paris, não tive àquela boa impressão que esperava, isto por que no percurso do aeroporto à estação rodoviária, vi muita coisa relaxada, como ruas esburacadas e sujas, carros velhos, dando um aspecto de desleixo e abandono. Na rodoviária tomamos um táxi e fomos para o hotel Beyris, que como tudo ali, era velho, felizmente gostei pela limpeza e cortesia da casa, principalmente por falarem o português. No caminho para o hotel passamos pela Praça Concórdia, Praça do Obelisco, ocasião em que ao longe pude avistar a imponente Torre Eiffel. Ficamos num quarto muito confortável e asseado, após um banho relaxante, fomos jantar num restaurante próximo ao hotel, onde comemos frango regado a vinho, principal bebida da França, demos uma voltinha e fomos dormir mais cedo, por causa do cansaço. Dia 17, domingo, levantamos e depois do café, fomos conhecer Paris, começamos pela Catedral de Notre Dame, onde assisti a u’a missa, tirei muitas fotos e admirei muito a arquitetura da Catedral, aproveitei também para ver o Rio Sena que passa bem ao lado da Catedral. Depois fomos à Torre Eiffel e nela subimos para avistar toda a cidade de Paris, a subida é feita por um plano inclinado, passando por três estágios: fiquei bastante motivado, admirando a engenharia da construção arquitetada pelo engenheiro alemão Gustavo Eiffel e mais ainda pelo panorama que se descortina lá de cima. Não fomos muito felizes, o dia amanhecera chuvoso e nublado, e quando estávamos no topo da Torres desabou uma tremenda chuva, mas mesmo assim conseguimos tirar muitas fotos. Logo depois fomos passear nos Campos Elíseos e também ao Arco do Triunfo, monumental marco da grandeza da França, onde estão os restos mortais dos heróis da França e gravados os nomes de muitos personagens celebres da história francesa, honrados pelo fogo eterno da pira acesa em suas homenagens.
Tínhamos programado percorrer o Sena de lancha, mas, em razão da chuva, resolvemos almoçar e descansar. Para a noite do Domingo, reservamos uma mesa no Lido, o mais famoso teatro de revista conhecido em toda a Europa. Depois do jantar fomos passear pelos Campos Elíseos, apreciando as luzes de Paris e também as vitrines do comércio parisiense com seus preços muito altos, altíssimos. As 22,00 horas rumamos para o Teatro, onde fomos recebidos com toda a finesse, fiquei encantado com toda a beleza e esplendor das cores que se harmonizavam com os mais variados dos matizes num ambiente deveras digno de sua fama. A entrada do Teatro muito iluminado era atapetada até ao salão principal, as paredes eram decoradas com pinturas famosas dando ao ambiente um ar de contos de fadas. O ambiente seleto nos dava um ar de importância, pisando naqueles grossos e lindíssimos tapetes, particularmente, me senti por alguns instantes como um lorde, cercado por tanta etiqueta e luxo. Fomos conduzidos a uma mesa, contígua a de dois casais ingleses, que se apresentaram para um bate-papo. Por todos os lados, as mesas estavam repletas por gentes dos mais diversos aspectos, visto pelas suas indumentárias e suas aparências, parecendo todo um mundo cosmopolita. Nos foi servido um Champanhe bem gelado, que fomos sorvendo com calma a espera do Show, o mais famoso da Europa. Poucos minutos depois se romperam as músicas e foi dado início ao espetáculo cujas belezas apresentadas não tenho palavras para descrever, traduzindo a importância e elegância dos artistas, as cenas, os jogos de luzes em belíssimas cores.
O espetáculo muito variado com a apresentação de mais de duzentos artistas, confesso que foi o melhor que vi em toda a minha vida, fiquei encantado. As três horas de espetáculo voaram sem que nos déssemos conta. Embalados nas borbulhas do Champanhe, voltamos então para o hotel, satisfeitos e muito alegres.
Levantamos pela manhã bem cedo e fomos fazer umas compras, visitamos várias lojas e fomos à mais famosa casa de perfumes de Paris, conhecida pelo mundo todo. Fomos muitos bem recebidos, ganhamos algumas lembrancinhas da casa e também assinamos o livro de ouro, tornando-nos correspondentes e naturalmente fizemos uma boa compra de perfumes para toda família. Depois de um almoço de despedida, regado a vinho francês, rumamos para a Estação do Leste, a fim de tomarmos condução (trem) para Frankfurt, na Alemanha. O trem resfolegou, saindo, se arrastando pelos trilhos a fora, cortando os lendários campos de França, cuja história se perpetua através dos tempos. Os verdejantes campos se perdiam a distância, todos cultivados e caprichosamente repartidos e alinhados, com muitas casas de cores avermelhadas, contrastando com o verde dos campos, mostrando um panorama bonito de se ver. Rodamos por quatro horas e meia pelo leste da França, passando por muitas cidades e vilas, principalmente Nancy que é uma importante cidade. Como em todos os trens da Europa em que viajamos, as cabines são para seis pessoas, e na que estávamos viajando, encontramos duas senhoras alsacianas muito distintas e sabidas, isto por que, conversamos bastante em inglês, francês e espanhol, um pouco em cada idioma e assim íamos nos entendendo. Nessas alturas já estávamos perto da Fronteira, pois logo passamos pela famosa Linha Maginot e logo depois, pela Siegrifield, por onde os alemães invadiram a França na 2a Grande Guerra, em ambas podiam se ver muitas casamatas e fortificações semi-destruídas e algumas intactas. E assim entramos na Alemanha, pela qual viajamos aproximadamente cinco horas, passando por muitas cidades, cujo nome complicado não me recordo, contudo a primeira cidade alemã que conheci, foi logo na Fronteira foi Saarbrücken, também Hamburgo e Kaiserslautern. A mais importante cidade alemã por que passei, foi Mainz, muito grande e com muitas indústrias.
Depois de Mainz ainda viajamos um pouco mais para chegarmos a Frankfurt. Tive uma ótima impressão, pois ao desembarcarmos na estação, fiquei maravilhado com a imponência da construção metálica, abrigando vinte e três linhas paralelas, construída em três arcos, constituindo uma verdadeira obra de arte e engenharia, além disso, muito limpa e organizada. Depois de procurarmos acomodações, hospedamo-nos num hotel muito chique, por ser o único com vagas disponíveis. Ficamos num apartamento todo cheio de tapetes e cortinas rendadas, lençóis de linho e belíssimo acolchoado, só vendo para contar. Já era noite e fomos logo dormir, pois o cansaço era demais. Dia 19, logo pela manhã fomos dar uma volta e fazer algumas compras. Fomos ao Piex Americano, que é uma organização das Forças Armadas dos Estados Unidos, de apoio às tropas de ocupação, cujos preços são de 50% mais barato que nas lojas da cidade. Fiquei atônito com tanta coisa bonita e boa, querendo comprar tudo que via, pois os preços eram convidativos, porém o transporte era impossível por causa da alfândega nas fronteiras. Lá tinha de tudo, desde alfinetes até carros e lanchas. Só comprei mesmo algumas lembranças de pequeno volume. Andei pela cidade, que por sinal era muito bonita e organizada tirei algumas fotos aproveitando o bonito sol do momento.
Almoçamos num restaurante muito aconchegante, regado ao vinho da Bavária. Depois do almoço fomos à estação comprar passagem para Milão, Itália, pois queríamos aproveitar o precioso tempo disponível. O trem partiu as 16,15 horas apesar de ser na 2ª classe, era muito confortável, onde iríamos viajar por treze horas. Antes da partida aproveitei para registrar nossa passagem por ali tirando algumas fotos e comprar algum alimento para passar a noite. A viagem seguiu seu curso normal passando por várias cidades importantes todas bem iluminadas retratando a importância e o desenvolvimento do pós-guerra, até chegar em Basle já na divisa da Suíça. Nessa viagem, tivemos a satisfação de encontrar um casal de brasileiros de S. Paulo, com o qual muito conversamos, pois é sempre uma imensa alegria encontrar em terra estranha, um patrício, se tem uma sensação bem agradável e logo a conversa se volta para a Pátria distante.
Em se atravessando a Suíça, passamos por um sem número de cidades cuja principal foi Lucerne e depois de viajarmos a noite toda, chegamos em Milão na Itália. Milão é uma grande cidade em tamanho e em importância, se não me engano é a segunda cidade da Itália. Possui muitas indústrias, muitos jardins e praças belíssimas, além de ser uma cidade moderna. Visitei a grandiosa e importante Catedral de Milão, cujas inúmeras torres apontando para o alto, dão um requinte de raro esplendor.
Rodando pela cidade, visitamos a Galeria Victorio Emanuelle, por sinal muito bonita e sofisticada, depois visitamos o famoso Escala de Milão, porém fomos infelizes, pois estava em conserto, ou melhor em reparações. A estação ferroviária é muito bonita, ampla e organizada, bem limpa e bem policiada, como quase todas as estações ferroviárias da Europa, os trens chegam de frente. Milão tem uma estação muito imponente com vinte e quatro linhas paralelas chegando no terminal, de onde parte composições para quase toda a Europa. Notei, e achei a cidade bem movimentada o comércio é muito diversificado e bastante caro não atrai muito os turistas. Depois de conhecer os pontos essenciais da cidade nos dois dias disponíveis; já era dia vinte e um, então seguimos por trem para Veneza, viagem que durou quatro horas e meia, passando por muitas cidades importantes como Bréscia e Pádova, chegando finalmente a Veneza, que é ligada ao Continente por uma extensa ponte metálica. Tão logo chegamos, tomamos uma lancha, que nos conduziu através dos canais, ao hotel que ficava no Rialto, muito bom por sinal, lotado de turistas de todo o mundo. No pequeno trecho, da Estação Ferroviária até ao hotel, pelo Canal principal, chamado de Canal Grande, fiquei admirado pelo intenso tráfego de embarcações de todas os tipos e tamanhos, principalmente as gôndolas (embarcação típica de Veneza). Depois de nos acomodar, saímos para reconhecer o itinerário até a Estação Marítima de Rialto, pois dessa Estação ao hotel que fica próximo a praça de São Marcos, passamos por um verdadeiro labirinto de ruelas, pontes e becos, que achei muito complicado. Depois de familiarizarmos com os itinerários, fomos conhecer a famosa Praça de São Marcos, onde tem a Catedral do mesmo nome, com suas torres imponentes e os pombinhos que dão um toque todo especial à Praça. Nas cercanias da Basílica, tomando toda a Praça de S. Marcos e adjacências, os turistas se aglomeram para ver e sentir as belezas do local.
A praça é toda rodeada de mesas e cadeiras apinhadas de turistas, onde várias orquestras típicas dão um toque especial, deleitando a todos com a romântica música italiana. Fiquei encantado e muito feliz, pela singularidade do ambiente, onde a Basílica de S. Marcos com seus altares de mármore, folheados a ouro e muita arte completam a beleza da praça. Depois de conhecer melhor, achei maravilhosa a Venezia como dizem os italianos, cidade por demais romântica, que com sua música e gondoleiros, convidam a todos para um momento de lazer. O que muito me impressionou, foi a grande variedade de produtos de burano (uma espécie de cristal colorido), com os artesãos trabalhando ao vivo nos fornos, dando a Veneza um toque todo especial, e considerado um dos pontos de maior atração turística.
À noite saímos até a praça, ver o movimento e tomar um refresco, pois o calor ali era intenso, e principalmente para ouvir as orquestras típicas ao ar livre, constituindo um verdadeiro espetáculo. O dia seguinte foi cheio, pois logo bem cedo começamos a rodar, visitando tudo e fotografando, pois tinha grande interesse em fazê-lo, porque ali, fora o berço natal de minha avó materna e desejava mostrar um numero maior de fotografias para minha mãe. Num desses passeios encontramos um brasileiro de S. Paulo, um químico industrial de nome José Americano, que logo se juntou a nós, continuando a conhecer o melhor da cidade. Aproveitamos para visitar a ilha de Burano, a viagem pelos canais foi maravilhosa, muito interessante, pois passamos sob a ponte do Rialto e também sob a ponte do Suspiro já minha conhecida das histórias de minha avó Carlota. Rodamos durante três horas pelos canais, visitando as estações dos bairros de quase toda Veneza, inclusive fomos ao cemitério, que achei interessante por ter água por todos os lados, uma verdadeira ilha. O comércio é muito bom e variado, convidativo mesmo, mas muito caro, onde apenas comprei algumas lembrancinhas. À tarde fomos a estação para marcar as passagens para Roma, o nosso trem sairia às doze horas e oito minutos, os horários são respeitados a risca. Seguimos então para Roma, deixando atrás a romântica Veneza com todas suas belezas e suas características que a tornam única. Depois de viajarmos por sete horas, chegamos a Roma, cidade eterna. Roma possui uma belíssima estação ferroviária, moderna e muito bonita, seguimos para o hotel, onde sem perda de tempo, marcamos uma excursão pelos pontos mais interessantes de Roma, pela manhã e também à tarde, fui também ver passagem para Portugal, marcando para segunda-feira de manhã. Fiquei horrorizado com os preços das passagens, para Lisboa, ida e volta, custou a bagatela de trinta e duas mil liras.
Ainda na mesma noite fomos ver a Fontana de Trevi, onde encontramos muitos brasileiros em excursão, encontros esses, sempre muito gratificantes e alegres.
Depois de andarmos um pouco, voltamos exaustos para dormir. Pela manhã do dia vinte e quatro, fomos tomar o ônibus, que nos levaria a excursão, cujo ponto principal era o Vaticano. Passamos umas horas agradáveis visitando os jardins da Galeria Borguese e seus museus, onde se encerram muitas obras de arte. Finalmente chegamos a Basí1ica de São Pedro, bem na hora da Bença Papal. A praça em frente a Basílica estava toda tomada por turistas e também por romanos, aguardando a chegada do Papa João XXIII, quando foram inicialmente rezadas alguma orações e logo em seguida o Papa apareceu numa das janelas e nos abençoou a todos. Em seguida, assistimos a uma missa e fomos visitar as belezas lá encerradas, que são uma verdadeira obra prima. Depois do almoço, em continuação a excursão, fomos visitar a Roma antiga, achei muito interessante e também cansativa: visitamos a Fontana de Trevi, Basílica de são Paulo extra muros, igreja de São Pedro Advínculo, ruínas do Foro Romano e finalmente fomos conhecer o Coliseu. Gostei imensamente da jornada, quando pude rememorar muitas passagens da história romana, tirei muitas fotografias para testemunhar minha passagem por aquelas paragens e também para mostrar aos meus familiares e amigos. De volta ao hotel passei na agência para confirmar minha passagem para Portugal, cujo vôo sairia as 09,20 horas da manhã.
No dia 25 de julho, levantei-me bastante animado e feliz, por que estava preste a realizar o sonho de minha infância, logo rumei para o Terminal aéreo, registrei a passagem e tomei um auto-pulman da própria Alitália para o Aeroporto de Chiapino, distante uns quarenta quilômetros. O avião, um jato Caravelle, alçou vôo rumo a Madri. Sobrevoamos o mediterrâneo e logo depois estávamos passando pela Sardenha, voando um bom trecho por cima da Espanha, até avistarmos a capital espanhola. O aeroporto que onde descemos, me pareceu um pouco acanhado, muito pequeno e sem movimento, porém entendi, pois um outro aeroporto estava sendo construído, bem mais amplo e moderno. Aproveitei para comprar alguns postais, lembrancinhas e também tirei algumas fotografias. Vi-me novamente na pista e o gigante do espaço, levantou vôo, desta vez rumo a Lisboa, pois a cada instante me assaltava uma grande emoção em pensar que muito em breve estaria na terra dos meus ancestrais paternos, como contado e vivido pelo meu saudoso pai. Uma hora depois, comecei a divisar os primeiros contornos da capital portuguesa, o que fez meu coração bater mais forte. Sobrevoamos Lisboa, cujas casas e ruas vistas do ar, me deram uma ótima impressão, principalmente pelo momento de emoção que vivia. Vi também o caudaloso Tejo tão contado pelo meu pai, se arrastando em direção ao mar. Mais uns instantes, já estava no Aeroporto de Lisboa, e mesmo antes de aterrizar, começava a tirar fotos de todos os ângulos, sentindo-me muito contente por estar realizando aquela viagem, a muito sonhada, pois naquele momento pensei em meu pai e me senti muito feliz por ele.
Depois de desembaraçar os papéis, tomei um táxi rumo a cidade, não perdendo um só ângulo das ruas e praças, todas bem cuidadas e limpas, e que me causaram uma ótima impressão. Passei pela Avenida Brasil e depois pela da Liberdade, passei também pelo monumento do Marquês de Pombal e do Almirante Saldanha. Hospedei-me no Avenida Pálace Hotel, situado bem próximo a Estação ferroviária do Rocio, por sinal um hotel muito “chic”. Tomei um bom banho e sai a procura dos parentes, indo primeiramente a casa de uma prima. Passamos pela Fonte luminosa, Terreiro dos Passos, Rocio, Cassino do Estoril e finalmente a Baía e praia dos Cascais, que a noite se apresentava muito iluminada e movimentada. Visitamos o mercado do peixe, lugar aonde chegam os pescadores, para vender os lotes aos peixeiros varejistas. Achei muito interessante, por que o peixe era vendido através de leilão com lances aplicados de maneira “sui generis”.
Quando regressamos, já passavam das duas horas da manhã e eu teria que tomar um trem às 08,00 horas para o Carregal. No hotel dormi um pouco para tirar o cansaço e antes da oito horas, já estava na Estação de Santa Apolônia, onde me encontrei com a prima, que havia se dignado a acompanhar-me à terra do meu pai, Vila Mean. Na viagem ia me lembrando daqueles lugares, cujos nomes estavam no meu subconsciente de tanto ouvir meu pai em suas prédicas a Portugal, se referindo vez por outra a esses lugares: Fátima, Pombal, Coimbra com o famoso rio Mondego, Pampilhosa, entroncamento ferroviário, onde vi um comboio de partida para Figueira da Foz (lugar muito falado por meu pai), Santa Comba Dão e finalmente o Carregal, em todas essas estações, aproveitei para fotografar, a fim de mostrar ao meu pai. Tomamos um táxi e cruzamos toda a cidade, que não é muito grande, mas achei muito bonitinha, com suas casas em estilo antigo, bem conservadas dando um ar sóbrio todo característico do mundo português. Na saída para Vila Mean, foi edificado um moderníssimo Colégio muito grande e de linhas modernas, contratando com as demais edificações. Entramos por uma estrada de areias toda branquinha, ladeada por um maravilhoso bosque de Pinheiros, que recendia um aroma bastante agradável. Ao nos aproximarmos da Vila, meu coração disparou de emoção, pois parecia que já a conhecia e que há muito não a via. Depois de atravessar o Bosque, as primeiras casas de pedras apareciam, como que dando as boas vindas. Seguimos mais adiante para a casa de uma outra prima.
Senti-me cativo, vendo-me ali na terra natal do meu velho pai, a sempre lembrada Vila Mean, rodeado por crianças, moços e velhos, todos perguntando sobre nossa família e de outras pessoas que se foram dali. Aproveitei para tirar muitas fotos do pessoal, casas e ruas e também do lagar (local onde se pisa a uva para fazer o vinho). Logo depois, fui ver a casa onde nasceu e se criou meu pai, onde viveram meus avós e tios. Embora muito velha e vencida pelo tempo, entrei por ela, vivenciando em pensamentos, pois desde muito eu a conhecia, através das eloqüentes narrações do meu querido pai. Tirei algumas fotos ao pé dela (portuguesamente falando), estive também na casa ao lado, onde fora a oficina do meu avô, ainda bem conservada. Senti-me muito feliz por mim e pelo meu saudoso pai, agradecendo a Deus pela dádiva daquela oportunidade.
Voltamos, então, a casa onde fora a morada de meu pai, onde minha prima, nos esperava com um suculento repasto, igual ao que meu pai nos contava quando pequenos. Foi aí que tive a maior emoção de minha vida, pois a mesa estava arrumada da mesma maneira em que via na minha lembrança: pão de milho, sardinhas assadas, azeitonas, queijo fresco e a jarra de vinho, quando me fora dada a honra de partir o pão com minhas próprias mãos, como de costume. Então, banhado em lágrimas, dei graças a Deus per ter realizado aquele meu sonho de criança. Depois dei uma voltinha pelos arredores, indo até ao cemitério, que fica no meio de bosques de pinheiros, cujo aroma eu sinto até hoje quando me lembro. Fomos então para a estação ferroviária, a fim de tomarmos o comboio, com se diz lá em Portugal, que sairia às 18,30 horas.
Fiquei muito feliz por ter realizado aquele sonho, ter conhecido a inesquecível Vila Mean, meus parentes e todos, então amigos de meus ancestrais, os quais me trataram com muita deferência e carinho. Chegamos de volta a Lisboa por volta das 01,30 horas da manhã, deixei a prima em sua casa e fui para o hotel repousar. Dia 26, levantei-me com o corpo doido e um pouco resfriado indo logo tratar das passagens de volta e comprar algumas lembranças no aeroporto, despedi-me dos parentes, os quais foram gentilíssimos, me acompanhando até a hora da partida.
O avião rolou pela pista, galgando as alturas deixando o Portugal dos meus entes queridos, rumando para Madri e depois para Roma.
Tudo correu bem na viagem de volta a Roma, só que a alfândega encrencou com minhas lembrancinhas de ouro, que havia comprado em Lisboa, mas com jeitinho, conversei com o inspetor, identificando-me, como militar a serviço da ONU, pois que estava à paisana, só assim consegui ficar com as lembrancinhas. Depois de desembarcar, fui para o hotel encontrar-me com meu colega Salles, que havia ficado em Roma.
Preparamos então as malas, pois embarcaríamos na manhã seguinte e como estava cansadíssimo, da viagem a Lisboa, fui logo para a cama. No dia 28 de manhã, fomos para a estação, onde tomamos o trem para Pizza, desta feita subimos pelo litoral, passando por diversas cidades importantes, principalmente Livorno e logo depois já estávamos em Pisa onde hospedamos no Hotel La Torre e logo após o almoço, seguimos de ônibus, a fim de visitar Pistóia, onde se localiza o Cemitério brasileiro com as vitimas da ultima guerra. No caminho passamos por Lucas e Monte Cassino. Achei muito interessante a cidade de Lucas, fica sitiada dentro, de uma fortaleza medieval, cercada de altas muralhas com portões de entrada e rodeada por um fosso cheio de água. Em Pistoia, visitamos o Cemitério Militar Brasileiro, muito bonitinho e bem cuidado, onde tirei muitas fotografias, inclusive hasteando o Pavilhão Nacional Brasileiro. Às 18,30 horas, tomamos o ônibus de volta a Pisa. Dia 29, levantamos cedo e rumamos para a Torre inclinada, que fica ao lado da Basílica Duomo, muito linda, toda trabalhada a ouro e muito imponente. Subimos na famosa torre inclinada, quando tiramos muitas fotografias de todos os ângulos desde a base até aos carrilhões, de onde nos oferecia uma bela visão panorâmica. Comprei algumas lembranças e após o almoço, fomos a Base Aérea, a fim de marcar a nossa volta para o Egito, porém ficamos surpresos e decepcionados, pois o avião já vinha da Inglaterra, lotado e não teria vaga para nós. No dia seguinte, tentamos novamente, definitivamente não conseguimos, mas deixamos nossas malas para seguirem posteriormente. Tomamos um trem de volta a Roma, onde compramos passagem para o Cairo, pela Cia. Misrrail Egipcia, passando por Athenas. No hotel encontramos uma turma de brasileiros e portugueses em excursão, ficamos amigos e fomos passear. No dia seguinte fomos assistir a missa na Basílica de São Pedro, por ser domingo, voltamos então para o almoço e em seguida fomos para o aeroporto. Voamos para Athenas, capital da Grécia. Os gregos são muito parecidos com os árabes, na sua fisionomia e também nos costumes, naturalmente um pouco mais evoluídos.
Nas proximidades de Athenas, avistamos a 7ª. Esquadra Americana, fundeada ao largo com um grande Porta-aviões e muitos Cruzadores e Destroiers, eu achei muito bonita aquela vista aérea, naturalmente a máquina fotográfica funcionou por várias vezes. A 7ª Esquadra é que apóia as tropas das Nações Unidas no Oriente médio.
A capital da Grécia, Athenas é muito espalhada, mas muito bonita, com suas edificações mediterrânea e suas construções antigas, milenares e históricas. Visitamos o Monte Olimpo, onde outrora estava erigido o imponente Paternon, só restando hoje os vestígios daquele templo, que é conservado com todo zelo e carinho. Como em todas as ocasiões, aproveitei pata comprar algumas lembranças e tomar uma laranjada, considerando que o calor estava bem quente. Tomamos, então o avião para o Cairo, Capital do Egito, onde chegamos as 22,30 horas. Fomos para Policia alfandegária, muito rígida na época, por causa da guerra com Israel, em seguida fomos para o hotel onde passamos a noite. No dia seguinte logo pela manhã fomos para a estação ferroviária, tomar um trem que nos levaria a Rafah num percurso de oito horas de viagem. Em se chegando, fomos logo para o Batalhão, onde encontrei muitas novidades, pois que, em vista de os Suecos terem seguido as pressas para o Congo, a minha Companhia tinha seguido para Rafah Camp para substituí-los. Como eu estava bastante gripado, fiquei na sede do Btl. para me restabelecer. Passei uma semana sob cuidados médicos, quando fui juntar-me a minha Companhia em Rafah Camp. Dois meses se passaram, em intensa atividade no serviço de segurança da área de Manutenção e logística da UNEF.
Os dias e as noites eram cheios de trabalho, o que nos fazia amenizar a cansaço, era o banho de mar, pela tardinha no Mediterrâneo que ficava próximo, até que no dia 23 de setembro, começaram chegar os suecos para nos substituir. No dia 25 rumamos todos de volta para a sede do Btl. Brasileiro. Como havíamos ficado em intenso serviço em Rafah Camp., ganhamos um “leave” extra em Beiruth no Líbano, onde passei uma semana de descanso. Tomamos o avião na Base aérea egípcia, que servia também as tropas da UNEF, quando fiz uma ótima viagem, bem curta, dado a distância, hospedando- me em Broumana no hotel com o mesmo nome. Gostei muito do Líbano, da cidade e principalmente do povo. Broumana é como Petrópolis e Rio de Janeiro, quanto ao clima, Beiruth fica a beira do mar, Broumana, no alto da serra, por sinal tem um clima agradabilíssimo. Beiruth é uma cidade moderna e muito bonita, numa das excursões, visitei a Gruta de Juta com sete quilômetros de extensão, dos quais uma boa parte é navegável, servida por barquinhos para o turismo, as águas são limpíssimas e iluminadas, dando as formações de cristal de rocha a aparência de elefantes crocodilos, cavalos, flores, cascatas, pessoas e muito mais, na gruta sente-se como se estivesse numa geladeira.
Estive em Bíblos, que é considerada a cidade mais antiga do mundo, com quatro mil anos AC, hoje só restando ruínas das casas e dos templos, que eram edificados todos em pedras.
Fui também a Balbek, ruínas dos templos dedicados a Júpiter, Baco e Vênus, construídos pelos romanos na época do seu domínio, demonstrando a grandiosidade das construções executadas com granito de Assuan (Egito), destacando as belíssimas colunas de Balbeck, cidade chamada por Alexandre, O Grande, de cidade do sol, Heliópolis.
Rumei, depois para a Síria, quando visitei sua Capital Damasco, parando na capela na beira da estrada, onde outrora se dera a conversão de São Paulo e também iniciou suas pregações da palavra de Cristo. Damasco é uma cidade tipicamente Oriental, com características modernas, muito bonita e ativa, com um comércio movimentado e intenso, principalmente de brocados, tecidos em teares bastante rudimentares, praticamente feitos à mão. Nessas andanças, gostei muito de conhecer a região dos cedros, no Líbano, lendária dos tempos dos Fenícios, que cortavam a madeira para construírem suas embarcações em demanda ao comércio de todo o mundo conhecido. Cedros fica a dois mil metros de altitude, os montes do Líbano, formando nos seus baixios, o famoso vale dos Lordes, de fertilidade incomparável, onde no inverno os turistas acorrem para esquiar pela abundância de neves ali existentes. Segui depois para Trípoli, palco de grandes conquistas, desde os tempos remotos até aos nossos dias na 2a Guerra Mundial. Vi nas cercanias de Beirute, placas alusivas às conquistas dos vários povos em diversas épocas (Alexandre, Napoleão, turcos, franceses, egípcios, indianos, ingleses etc...).
De um modo geral as estradas no Líbano e na Síria, são asfaltadas, porém, estreitas. Dos paises árabes, pode-se dizer que o Líbano está na dianteira, em questão de educação, higiene, é um povo dotado de muito tino comercial, sobressaindo-se nas relações de amizade e de cortesia, granjeando um movimento turístico intenso. Depois de sete dias conhecendo a região do Líbano e da Síria, retornei à Faixa de Gaza. No Btl., a vida continuou sem novidade, o trabalho é ameno e o conforto das barracas é bem maior: pela manhã, temos formatura geral do Btl.; depois temos uma hora de instrução, joga-se vôlei ou futebol, consumindo o tempo até a hora do almoço que é servido às doze horas. À tarde tem formatura para leitura do boletim, que determina as diversas escalas de serviço, “leaves”, punições e ordens em geral, duas vezes por semana vamos a praia e depois do jantar tem cinema com comentário em inglês para aprendizagem e finalmente cama. Assim a turma vai levando a vida, sempre com o pensamento voltado para casa e para a Pátria distante, pois que são a razão do sacrifício nessa terra inóspita e triste.
No momento estamos empenhados na preparação de um grupamento que irá representar o Batalhão Brasileiro na parada militar, no dia das Nações Unidas, dia 24 de outubro. Depois de um mês de intenso preparativo, fomos para o Aeroporto de Gaza, onde um grande número de pessoas, militares de diversos países, bem assim, como populares egípcios e palestinos, estavam presentes. Brasileiros, canadenses, dinamarqueses, indianos, iugoslavos, noruegueses e suecos, todos formamos um só contingente, mas separados, naturalmente com suas Bandeiras, comandado por um canadense, cujos comandos eram dados em inglês. No desfile, os brasileiros se saíram muitíssimo bem, com muitos elogios por parte de todos.
O ponto alto da solenidade foi a banda de música indiana com seus trajes típicos, encimados com aventais de pele de tigre e suas gaitas de fole, costumes esses herdados dos ingleses, quando de sua colonização. Depois da formatura, fomos convivas do Batalhão sueco, onde fizemos uma refeição, um tanto diferente para os nossos gostos, finalmente regressamos a nossa sede em Rafah. A vida no Btl. continuou sem novidades, as mesmas tarefas, as mesmas pessoas, enfim a rotina de sempre. Cada dia que passava era o raiar de novas esperanças, brotadas em nossos corações, pois lá bem longe, no Brasil, um outro grupo de rapazes, ávidos de aventuras e esperançosos, se preparava para nos substituir. Novembro chegou e passou também sem novidades. Chegou dezembro espalhando um pouco de alegria, pois as festas de Natal, e dia primeiro, sempre são para nós cristãos, motivos de alegria, mesmo distante dos parentes e dos amigos, da Pátria, todos nos sentimos felizes e alegres. O dia de Natal foi comemorado com simplicidade, sem aquela beleza, como quando junto da família, mas todos compartilhavam da mesma alegria e esperança. Fomos à Missa do Galo, quando o nosso Capelão, fez um bonito sermão rememorando o nascimento do Menino Deus e de agradecimento pela dádiva de podermos estar tão perto dos acontecimentos de então.
Depois, houve uma ceia, embora fosse bem farta, não tinha muito entusiasmo, pois, todos deixavam transparecer no semblante, um coração saudoso. As comemorações do dia primeiro foram, como no Natal, muito simples, mas sempre nos dando novas perspectivas e esperanças redobradas. Nos primeiros dias de janeiro fui ao Cairo, conduzindo a mala Diplomática, para a Embaixada Brasileira, com isso, quatro dias se passaram. No Btl. todos estavam contando os dias, animados com a notícia da vinda de uma novo Contingente, e já se movimentavam, preparando os caixotes dos bagulhos (souvenires). No dia 08 segui novamente para o Cairo, mas, em gozo de dispensa, concedido pela FENU. Tomamos o trem especial às 20,00 horas, na estação de Rafah, cujos carros, levavam separadamente os integrantes de cada Batalhão em serviço na Faixa de Gaza: brasileiros, canadenses, suecos, iugoslavos, dinamarqueses, indianos e noruegueses. Em cada vagão era uma festa só, com mui ta alegria, muita folia, mais perecia uma BabeI. A noite passou rapidamente, às quatro horas da manhã estávamos chegando à estação do Cairo, onde o encarregado de cada Contingente, esperava para conduzir o pessoal para os respectivos hotéis. Os brasileiros ficaram no hotel Kapsis, fiquei num apartamento com mais dois colegas, por sinal muito bom.
Nesse primeiro dia não houve programação, foi livre para passear, a noite houve um baile de recepção para a turma. Houve muitas apresentações artísticas, muito interessante. Fiz várias excursões programadas pela ONU, dentre elas a visita a Menfis (antiga capital nos tempos dos Faraós, Pirâmides de Saacara (túmulos de reis e animais), Pirâmides de Gizé e Eslinge (pela segunda vez, pois já conhecia), Museu de Agricultura (muito interessante), Delta do Nilo, Barragem e jardim de Aláh. Achei tudo muito bonito e diferente, donde se tira muitos ensinamentos vendo a vida que levavam outrora os povos da região. Já havia observado em outras ocasiões, o povo egípcio, não perde a oportunidade para mostrar todas as realizações, fazendo das mais insignificantes obras, uma grande propaganda. Outro ponto que salta aos olhos dos visitantes é a militarização que está presente em todos os pontos do território egípcio. Nas menores coisas: no turismo, na produção, nas ruas, nas portas dos edifícios públicos, nos Bancos, enfim, por todos os quatro cantos se vê o dedo do Estado, através dos milicianos armados até os dentes e do retrato de Nasser. O Cairo, com seus três milhões de habitantes e com muitos edifícios modernos, não é uma cidade bonita, pois vez por outra, se encontra o contraste berrante do atrasado com o evoluído. São dois mundos que se confundem num só ambiente. O povo, sujo e mal vestido, e suas tradições, emaranhados com os gostos ocidentais, dão aos olhos dos turistas, uma visão muito interessante, principalmente agora que o Governo Nasser está empenhado numa transformação radical, principalmente na educação. De volta ao PC do Btl., em Rafah, entramos numa fase alegre e de expectativa, pois, o Navio que há tanto esperávamos, conforme informações vindas do Brasil, sairia do Porto Rio de Janeiro no dia dezenove de janeiro, escalando no Recife, Casablanca, Marselha e Porto Said e de volta levando o nosso Contingente, passaria por Nápoles e Las Palmas.
Todos nós nos sentimos felizes, pois teríamos a oportunidade de fazer mais algumas compras, nesses dois lugares, e principalmente, felizes por regressar ao Brasil, depois da ausência de quase dois anos. A tônica de todos, era a arrumação da bagagem, que consta de um ou mais caixotes de madeira, ainda podendo levar um objeto de porão (geladeira, eletrola ou TV). Foi anunciada a programação para o dia oito, constando de uma formatura em uniforme de passeio, para a entrega das medalhas e dos certificados de honra ao mérito para os que fizeram jus. Na véspera, caiu um temporal de areia e vento que durou toda a noite e aí sobreveio uma chuva gelada, cujo vento fazia assobiar as lonas das barracas. Em conseqüência, toda programação foi realizada no interior do nosso cinema (Cine Brasília), porque o temporal não havia parado. A cerimônia foi simples, com discurso do Cel. Mendonça, Cmt. do Btl. e do Gen. Giani, Cmt. da UNEF, seguido da entrega das medalhas e diplomas, bem assim como as Menções Honrosas. Os dia 8 e 9, passamos preparando os alojamentos para receber o pessoal do 8º. Contingente. No dia 10, fizemos um suculento churrasco com farofa e bastante molho, naturalmente regado a cerveja e refrigerantes, ainda com aguardente brasileira, servida somente nos dias especiais. E assim os dias foram passando, aumentando a cada minuto a alegria da volta, até que, o dia 16 amanheceu chuvoso e frio, bastante nublado, todos esperávamos a chegada do trem com o 8º. Contingente, que vinha nos substituir. Angustiosos momentos se passaram na espera. Eis que um apito rouco e abafado da máquina se fez ouvir e igual som ecoou pelos quatro cantos do Batalhão Brasileiro do alarido emocionante dos pracinhas vendo se aproximar o comboio com toda a turma. E assim o 8º. Contingente foi recebido, entre o riso histérico de uns e as lágrimas de alegria de outros. Foi um momento muito feliz para todos, os recém chegados, os que iam partir e os que iam permanecer. Logo depois do café houve uma formatura geral onde foram oficialmente apresentadas as boas vindas aos cariocas. Particularmente para mim, foi de muita satisfação, encontrei no 8º. Contingente recém chegado, muitos colegas, ex-alunos da EsSA, meus conhecidos. Os dias se sucederam rapidamente com várias festinhas de despedida e tão logo foi completada a rotação, no dia 20, houve uma formatura geral para a passagem de Comando, que contou com a presença do Gen. Giani, Cmt. da UNEF, bem assim, como outros Cmts. de Unidades estrangeiras sediadas na Faixa de Gaza. Dia 21, pela manhã, o nosso Capelão oficiou uma missa de Ação de Graças pelo bom êxito do cumprimento da missão no Oriente Médio. Às 13,00 horas, os integrantes da 8ª. Companhia, a que eu pertencia, foram convivas de um almoço festivo, oferecido pelo novo Cmt. da 8ª. Cia., com muita alegria e efusivas palavras de despedidas e de boas vindas.
Logo após o almoço, começaram as despedidas particulares dos amigos com muitas lágrimas e suspiros de alegria. Às 18,00 horas, depois do jantar, entramos em forma já com as malas prontas, quando seguimos para a estação ferroviária, a fim de ocupar os vagões que estavam a nossa espera. As despedidas continuaram, muito comoventes, muitos choravam e todos se mostravam tristes, mesmo nós que estávamos de regresso para o Brasil. O Gen. Giani, Cmt. da UNEF teve um gesto carinhoso para com o nosso Contingente, comparecendo com seu Estado Maior no nosso "Bota-fora", bem assim como outras autoridades palestina e Egípcias. Saímos de Rafah às 20,00 horas do dia 21, numa noite de muito frio. Com um saudoso e demorado apito o comboio, começou a movimentar-se, arrastando pelos trilhos serpenteando ao longo da orla marítima do Mediterrâneo, levando algumas centenas de homens exultantes de alegria e também de saudades. Às 04,00 horas do dia 22 chegamos a Porto Saia onde divisamos a silhueta garbosa do Ary Parreiras, que ia nos levar de volta ao Brasil, fazendo transparecer no olhar de todos, um semblante de felicidades. Depois de embarcados e alojados, fomos apresentados ao Cmt. do Navio, que em seguida, determinou o desatracamento, deslizando suavemente. Aos poucos o Navio se afastava do Cais, hasteando as várias Bandeiras convencionais e em poucos instantes, Porto Said ia ficando para trás. Todos estávamos felizes, ainda mais, que os altos falantes de bordo iam tocando o Cisne Branco. A viagem correu bem, fazendo a todos muito felizes. Passamos perto da ilha de Creta, que a mim lembrou as estórias do Minotauro e do rei Minos. Depois passamos pelo Peloponeso, costeando uma grande porção da costa da Cecília, a fim de que pudéssemos ver o Étna, o que infelizmente não aconteceu, em razão da serração muito espessa, quando pudemos ver somente a silhueta do famoso vulcão. Continuamos a navegar pela costa da Cecília, pelo mar Jônio desde que passamos pelo Peloponeso, até encontrar o estreito de Messina, que atravessamos entrando no mar Tirreno. O Tirreno, bastante calmo, nos proporcionou uma boa viagem, passamos pelo Stromboli, circundando toda sua volta, o que nos proporcionou a tirada de muitas fotos. Amanhecemos o dia 26 na Baia de Nápoles toda cheia de Navios, principalmente de uma grande parte da 7ª. Esquadra Norte Americana, liderada pelo Porta Aviões Shangrilá. A Baía, mesmo empanada por uma densa neblina, se mostrava muito calma e bonita, tendo como fundo o altivo Vesúvio e o casario da bela Nápoles. Nesse mesmo dia visitei vários pontos da cidade, fui a Fortaleza de são Martinho no alto do morro, dominando toda cidade e a Baía. Para se chegar a essa Fortaleza, tomamos um trem (plano inclinado), chamado pelos italianos de “forniculare”. Visitei o aquário e o laboratório marítimo, por sinal muito interessante. À noite fui ao restaurante Zi-Thereza, típico napolitano, onde me fartei com um belo canelone e vinho chianti.
No dia seguinte, percorri o comércio local, onde fiz várias compras. No dia 28 viajei numa excursão para Roma, num ônibus muito confortável, passando por Formia e Therezinha, onde começa a via Ápia, até Roma, hoje toda asfaltada e moderna, onde outrora fora o caminho dos cristãos, para o suplício do Coliseu e onde se dera o florescimento do cajado de São Pedro. Em Roma visitei vários pontos interessantes (muitos, já conhecidos). Visitamos o Museu do Vaticano, a Capela Cistina, fiquei maravilhado com a beleza das pinturas e com os quadros representativos, tendo como expoente máximo, os quadros de Rafael e Miguel Ângelo e finalmente fomos mais uma vez a Basílica de São Pedro. O ponto alto da excursão foi a dedicação da Sra. Maria Pia, cicerone e intérprete, dando uma verdadeira e valiosíssima aula de história. Aproveitei, uma oportunidade em que a turma visitava lugares já conhecidos por mim, para fazer umas compras ainda em falta. Na volta jantamos em Formia e chegamos a Nápoles a meia hora da manhã, e para surpresa nossa, ao lado do Ary Parreiras, estava ancorado o Cruzador de Batalha N.A. Little Rock, armado com catapultas para lançamento de foguetes balísticos (muito interessante), tirei várias fotografias. No dia 1º pela manha, dei uma volta pelo comercio e a tarde fui a Pompéia (cidade destruída pelas lavas e pelas cinzas do Vesúvio), quando visitei todas as ruínas da cidade, onde outrora fora a cidade do pecado. À noite fui a Zi-Thereza, para um jantar de massas e vinho, quando me fartei como despedida da Itália.
Às 22,00 horas zarpamos, rumo a Las Palmas, sob intensa chuva, o que nos valeu um mar muito agitado, que continuou no dia seguinte e a noite também. O navio jogou tanto que fiquei bastante enjoado, mas foi por pouco tempo, como sempre, depois da tempestade vem a bonança. O dia três amanheceu bonito e ensolarado e o mar como um imenso lago azul. Passamos pela Sardenha e à tardinha do dia quatro, passamos em frente ao rochedo de Gibraltar, entrando no Atlântico rumo a Las Palmas, ilha do Arquipélago das Canárias pertencente a Espanha. O dia 5 passou sem novidades e no dia seguinte pela manhã, todos se preparavam para ir a terra, quando se via os contornos da cidade com suas elevações e casas muito branquinhas. Depois das formalidades de praxe do atracamento, descemos em terra da ilha que é muito grande, conhecida por Gran Canária, a cidade também é muito grande e bonita, é uma cidade essencialmente de turistas, nós os brasileiros nos sentimos bem a vontade no entrosamento com os locais, pois a língua facilitou bastante o entrelaçamento. Em Las Palmas existe muita coisa interessante, porém, como toda cidade turística é muito cara. Lembrei-me de comprar algumas lembranças para os sobrinhos que já tinha me esquecido.
Las Palmas é a capital do Arquipélago das Canárias, onde ficamos os dias 6 e 7; no dia 8 à tarde saímos para a travessia do Atlântico. O contentamento era geral, pois seria a última etapa a vencer para chegarmos de volta ao Brasil. Na saída de Las Palmas, pegamos um mar bastante revolto, mas felizmente por pouco tempo e logo no dia seguinte o Atlântico estava bem sereno. No dia 10, todos nós tivemos momentos de muita alegria, os rádios começavam a captar as estações do Brasil, quando pudemos ouvir bem claro, as notícias e as músicas da nossa Pátria, que estava cada vez mais próxima. Depois de quase dois anos de ausência, ouvir claramente aqueles sons bem brasileiros, nos causou a todos, grande emoção, nem mesmo ter deixado de ganhar em dólares, desde o dia anterior, empanou aqueles momentos de alegria. A travessia do Atlântico foi monótona e aborrecida, pois sete dias vendo somente céu e água, mais ainda um calor que aumentava tornando quase insuportável aqueles dias. Aos poucos íamos vencendo a longa e morosa distancia, até que no dia 13 à tarde passamos pelos rochedo São Pedro e São Paulo, plantados no meio do oceano, como sentinelas avançadas do Brasil.
No dia 14 de manhãzinha, avistamos o Arquipélago de Fernando de Noronha, que me pareceu maravilhoso, marco do Brasil, todo verdinho na sua paisagem, contrastando com o branco e vermelho das casas.
Todos nós nos sentimos felizes, pois a Pátria, ali estava estendendo seus braços para nos receber. Finalmente no dia 16, aportamos em Recife, que desta feita me pareceu um tanto melhor do que, quando há quase dois anos, passamos por ali. Havia muitos Navios carregando e descarregando mercadorias com um movimento muito ativo das pessoas no seu ir e vir naturalmente trabalhando. Embora estivesse fazendo muito calor, não empanou a minha alegria e satisfação de estar novamente no Brasil e ver um Recife mais dinâmico. No dia 17 de manhãzinha, zarpamos para cumprir a última etapa de nossa viagem, rumo ao Rio de Janeiro, onde por certo nossas famílias estariam nos esperando. A alegria era geral e incontida, pois todos se preparavam para o grande acontecimento da volta a Pátria, de onde partimos há quase dois anos rumo ao desconhecido. E agora, depois de termos passado por mil e uma peripécias, conhecendo vários povos, línguas, costumes e religiões diferentes dos até então conhecidos, quero crer, que muitas transformações se verificaram em nosso caráter, em nosso espírito e na fisionomia também, principalmente por que voltamos mais velhos e experientes.
Carlos Menezes Pedro