9º Contingente - 3º Sargento Luiz Antônio Darli


QUEM SOU EU?

 

           Um brasileiro. Só isto? Não. Trafeguei por muitos caminhos até chegar aqui e meter-me dentro de um site da internet, expor-me, desnudar-me. Com que intenção? Aparecer, ser visto, ser glorificado? Também não. Apenas pensando em ser útil. Vou ganhar dinheiro com isto? Também não. O que meu trabalho me proporciona é suficiente para tocar a vida.
Há alunos – no meu caso particular – que me cobram às vezes o passado. Querem saber de mim. Só que não há tempo para conversar porque terminam duas aulas e começam outras duas.

 

          Pois bem, nasci há 74 anos em Nova Trento-SC (terra da atual Santa Paulina). Aos 10 anos fui para o Colégio Jesuíta São Francisco Xavier, no Ipiranga-SP. Lá, próximo ao colégio, estava o Museu do Ipiranga. Aos sábados e domingos ajudava na Portaria, ganhando uns trocados, cujo porteiro era também de Nova Trento e conhecido da família.
           Terminado o Primário fiz o Exame de Admissão e me mandaram para o Seminário Santo Inácio de Loyola, no município de Montenegro-RS. Lá afinei meu gosto pela leitura, lendo todos os livros – em torno de 20 – de Karl May, autor alemão, que descobri mais tarde, ser o preferido de Hitler. Baseado nesses livros, o cinema americano aproveitou para celebrizar os faroestes que encantaram gerações. Lá, também, tomei gosto pela Língua Latina. Participei de uma peça teatral ligada à vida do padre Inácio de Loyola, fundador da Companhia de Jesus, os chamados jesuítas, os homens mais cultos dessa época, porque estudavam 33 anos para ser ordenados.


           Abandonei o seminário, depois de uma passagem pelo Colégio Anchieta de Porto Alegre e pelo de São Leopoldo-RS.
De volta a Nova Trento – como em terra de cego quem tem um olho é rei – meus conhecimentos adquiridos fora da cidade me deram uma cátedra de professor de história e geografia no Fundamental daquela época. Depois participei de campanhas políticas, cujo prefeito era meu primo, discursando em todos os comícios. Continuei ligado à igreja, em que era Congregado Mariano e, na vinda ao Brasil de Nossa Senhora de Fátima, cuja imagem passou por Nova Trento, eu fui o orador principal, perante grande multidão, representando os Congregados, movimento que reunia todos os jovens.
 
           Trabalhei na Prefeitura como escriturário, subordinado a um grande cacique político, que me convidou, mais tarde, a candidatar-me a prefeito. Saudades, agora, de Oswaldo de Souza.

 

Em 1955 nos colocaram num ônibus – vários jovens de 18 anos – nos levaram ao porto de São Francisco-SC, nos colocaram num navio da Marinha e zarpamos para o Rio de Janeiro. Fomos incorporados ao 1º Batalhão de Polícia do Exército, na Tijuca, onde só eram recrutados soldados do PR, SC e RS.
 

Essa tropa de elite havia sido criada na Itália, durante a Segunda Guerra Mundial, com participação do Brasil. Características: ter acima de 1,70cm, dispor-se a qualquer empreitada, obediência cega aos regulamentos e morar no quartel. Sempre prontos para cumprir missões. Éramos responsáveis pela segurança de toda e qualquer autoridade federal. Como, aliás, é até hoje. Dentro do quartel fiz cursos e fui alcançando promoções. À época, como a maioria dos recrutas eram analfabetos, porque geralmente vindos da lavoura, havia o Curso de Alfabetização, do qual participei como professor.

 

          Em 1960 casei com uma carioca. Em 1961 fui designado para o 9º Contingente do Batalhão Suez, para servir na Faixa de Gaza, já como sargento. O Brasil esteve lá, com mais 11 países, de 1956 a 1967, quando iniciou a Guerra dos Seis Dias. Durante essa missão, que durou 16 meses, conheci 21 países. Nossa travessia, embarcados no Barroso Pereira, da Marinha, durou 45 dias, com escalas em Recife, Natal, Casablanca(Marrocos), Marselha(França) e terminando em Port Said, onde de trem fomos levados para Gaza.

 

            Período de grandes conhecimentos culturais, geográficos, históricos e de vida. Interessante que quando era bem criança, aprendendo a ler, tive contato, não lembro como, com um livro que mostrava as pirâmides do Egito. Encantei-me com elas e passei a sonhar em conhecê-las um dia. E esse dia veio mais rápido que o esperado. Conheci o Vale dos Reis, Memphis, Luxor, Assuan, Tebas, Karnak, Sakara, naveguei pelo Rio Nilo, subi ao topo da Pirâmide de Quéops, a maior. Trouxe água do Rio Jordão para batizar minha primeira filha. Nadei e não afundei no Mar Morto, porque possui 25% de salinidade, onde não existe vida de nenhuma espécie. Fui da Military Police em Beiruth-Líbano. Conheci todos os lugares bíblicos – Jerusalém e adjacências – naveguei pelos rios Tigre e Eufrates – no Iraque.

 

            Nesse período escrevi muito porque havia feito o Curso de Jornalismo no O Globo e depois participei da fundação do jornal feminino O Espelho, que publicava os textos que mandava de lá. Alguns guardo até hoje, outros deixei que se perdessem, o que hoje lamento.

 

            No nosso regresso, também dentro de um navio da Marinha, paramos em Cartagena-España, ocasião em que o navio carregou melões, porque aqui ainda não se produzia esse fruto. Próxima parada em Nápoles-Itália, de onde guardo uma lembrança que nos tocou a todos. Quando aportamos no porto militar, onde estava ancorada a 6ª Frota Americana, que atendia a qualquer conflito dos continentes europeu, africano e asiático, era o dia 6 de setembro de 1962. Na manhã seguinte, quando atendemos ao toque de alvorada e subimos ao passadiço, vimos que todo o poderio americano aí representado havia arriado a bandeira deles e colocado a nossa em todos os mastros dos navios, como homenagem pelo dia de nossa independência. Paramos, olhamos, sentimos e choramos. A cor de nossa bandeira era superior a nossa fibra de soldados embrutecidos pelas areias do deserto do Saara. Desmontamos.

 

            Regressados ao Brasil, voltei a meu quartel de origem. Mais tarde fui transferido para o Quartel General. Um belo dia me aparece na seção em que trabalhava um coronel alto, moreno, uniforme de selva e uma boina vermelha, de paraquedista. Estava recrutando voluntários para organizar o Colégio Militar de Manaus. (Te guardo com carinho JORGE TEIXEIRA DE OLIVEIRA).

 

            Aventureiro, como todo bom sagitariano que sou, me candidatei, convenci a esposa (já tínhamos três filhos), que topou, e parti para uma nova missão: ajudar a desbravar e a povoar a Amazônia. Do Colégio Militar fui convencido a ir a Itaituba-PA, para fundar o 53º Batalhão de Infantaria de Selva. Fui, comandei por um bom período uma Companhia de Fuzileiros, porque não havia oficiais para essa missão. Em Itaituba, além dos afazeres da caserna, era professor à noite – 2º grau. Língua Portuguesa.

 

Em 1975 estive em Três Corações-MG, na Escola de Sargentos das Armas, para fazer um curso de aperfeiçoamento. Regressei a Itaituba após o curso. Poderia, pelas normas vigentes à época, escolher qualquer lugar do Brasil para trabalhar, porque meu batalhão era considerado de fronteira. Escolhi o 20º Batalhão de Infantaria Blindado – Curitiba-PR. Isso por volta de 1977. Em 1985 fui promovido a tenente e transferido para Pato Branco-PR, onde permaneci até 1990, quando me aposentei, com 35 anos de serviço. Nessa cidade terminei o Curso de Letras, que começara na Gama Filho do Rio em 1969, com continuação na Universidade Federal de Manaus. Exerci minha tarefa como Delegado do Serviço Militar na região e nas horas vagas dava aula num curso preparatório para o vestibular e, mais tarde, 1987, já terminado o Curso de Letras e a Especialização, fui contratado como professor de Latim, Língua Portuguesa e Literatura.

 
          1995 marca minha vinda à Paraíba. Havia, lá no âmago, uma pontinha de curiosidade de conhecer o Nordeste, uma vez que a nave que nos levou a Suez fez escalas em Recife e Natal. Me agradava a imagem dos coqueirais balançando com a brisa do mar. Alguns meses sem trabalhar. Veio o tédio, a falta de convivência com o mundo acadêmico. E aí começou a nova saga, a etapa nordestina no Unipe.  

          Aqui já fui professor de Língua Espanhola no interior do Estado, pelo projeto Pró-Formação, ideado pelo governo Fernando Henrique, visando a uma formação de nível superior – Pedagogia ou Letras – para as professoras primárias. Mas mudou o governo e o projeto foi sepultado, como, infelizmente sempre ocorre quando há troca de governo.

 

          Agora me dei conta: estou me expondo, como se fora uma autobiografia. E então, devo parar? Tenham paciência, meus jovens leitores, há que voltar um pouco.

           
           Tenho vivo o movimento de 31 de março de 1964. Amanhecemos com os portões fechados, nossos tanques guarnecendo todo o quartel, ninguém saía, ninguém entrava, mistério no ar. De repente fomos mobilizados, em torno de mil homens, armados até os dentes, e partimos para garantir a segurança de João Goulart, demais políticos e autoridades estrangeiras. O Rio era, ainda, na prática, a capital da República. Estava começando o chamado regime militar.

 

            De onde veio tudo isso? Da chamada Guerra Fria, tendo o comunismo como culpado de tudo. Instruções nos quartéis sobre as ideologias que queriam nos esmagar, sobressaindo o bloco soviético. Interesses americanos, econômicos e militares, Fidel Castro liderando um movimento em Cuba. Período conturbado não só no Brasil, mas no mundo. Muito patrulhamento, até nas obras literárias.

 

            Levarei para o túmulo a lembrança de um capitão na PE, nos primeiros dias do movimento, que me pilhou sentado sob uma escada, lendo Crime e Castigo, de Dostoiévski. Tomou-me o livro e disse-me que não poderia lê-lo porque fora escrito por um russo. Tempos depois devolveu o livro. Morreu há muitos anos. 

 

 

          Antes desse movimento fomos, uns 500 militares do meu  quartel, inaugurar Brasília, no dia 21 de abril de 1960. Tive o prazer de ser cumprimentado por Kubitschek,  apresentado pela diretora de O Espelho, pelos dois artigos que havia escrito sobre a nova capital (Brasil – capital Brasília e Brasília – uma esperança). Ambos estão no teleduc.

           
            Em 1996 descobri a Língua Espanhola e em 1998 fiz um curso de um mês na Universidad de Salamanca-España, onde me tornei Máster na língua. Hoje a pratico diuturnamente, como pratico o italiano, minha língua de origem, com predominância do dialeto de Trento-Itália; me defendo em Inglês e Francês.

 

            Uma dica aos jovens que me leem, que convivem comigo: busquem uma segunda língua. Fiquem atentos a este site, que vou sempre referir-me ao aprendizado autodidático de idiomas. É fácil e simples.

 

            Mas acabou esta história ou tem mais? Nem eu sei. Do principal já falei. Se isto servir para alguém como modelo, para sonhar, que faça bom proveito.

 

 

 


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