COMEMORAÇÃO DA CRIAÇÃO DO BTL.SUEZ - 50 ANOS


" NO ANO QUE MARCA O 50º ANIVERSÁRIO DE CRIAÇÃO DO BATALHÃO SUEZ, VALE A PENA RELEMBRAR DE COMO TUDO COMEÇOU " - Theodoro

A Crise de Suez - Uma Crise Que Mudou o Equilíbrio de Poder no Oriente Médio
Peter L. Hahn

Este ano marca o 50º aniversário da Crise de Suez, quando quase foi deflagrada uma grande guerra regional entre Egito, Israel, Grã-Bretanha e França que poderia ter arrastado a União Soviética e os Estados Unidos. Por meio de diplomacia determinada, no entanto, o presidente Dwight D. Eisenhower evitou um conflito maior. Mas a crise também afetou o futuro equilíbrio de poder no Oriente Médio.

Peter L. Hahn é professor de História Diplomática na Universidade do Estado de Ohio e atualmente diretor executivo da Sociedade dos Historiadores das Relações Exteriores Americanas. Hahn é especialista em História Diplomática dos EUA no Oriente Médio desde 1940.


Vista aérea de navios afundados na entrada do Canal de Suez para bloquear a passagem durante o ataque ao Egito por Israel, França e Grã-Bretanha em 1956
(Getty Images/© Central Press)

A crise do Canal de Suez de 1956 foi um caso complexo com origens complicadas e conseqüências cruciais para a história internacional do Oriente Médio. As origens da crise podem remontar ao conflito árabe-israelense que assolou a região no final dos anos 1940 e à onda de descolonização que tomou conta do mundo em meados do século 20, abrindo o conflito entre as potências imperialistas e as nações emergentes. Antes de terminada, a Crise de Suez agravou o conflito árabe-israelense, quase provocou confronto entre os Estados Unidos e a União Soviética, deflagrou um golpe mortal nas pretensões imperialistas britânicas e francesas no Oriente Médio e forneceu oportunidade para que os Estados Unidos assumissem uma posição política proeminente na região.

Origens do conflito 

A Crise de Suez teve origens complexas. Egito e Israel permaneceram tecnicamente em estado de guerra após um acordo de armistício que terminou com as hostilidades entre os dois países de 1948 a 1949. Esforços das Nações Unidas e de vários Estados para conseguir um tratado de paz definitivo – sobretudo o chamado plano de paz Alpha promovido pelos Estados Unidos e a Grã-Bretanha em 1954-1955 – não conseguiram garantir um acordo. Em clima de tensão, choques violentos ao longo da fronteira egípcio-israelense, em agosto de 1955 e abril de 1956, quase desencadearam a retomada das hostilidades em grande escala. Quando o Egito comprou armas soviéticas no final de 1955, aumentou a pressão em Israel para que fosse realizado um ataque preventivo com o fim de minar a autoridade do primeiro-ministro egípcio, Gamal Abdel Nasser, e desmantelar a capacidade militar do país antes que a nação recebesse os armamentos soviéticos.

Enquanto isso, a Grã-Bretanha e a França cansaram-se das dificuldades impostas por Nasser a seus interesses imperialistas na bacia mediterrânea. A Grã-Bretanha considerou a campanha de Nasser para expulsar as forças militares britânicas do Egito – conseguida por meio de um tratado em 1954 – um golpe ao seu prestígio e capacidade militar. A campanha de Nasser para estender sua área de influência para Jordânia, Síria e Iraque convenceu os britânicos de que ele queria expurgar a influência britânica da região. Autoridades francesas ficaram irritadas perante a evidência de que Nasser endossara a luta dos rebeldes argelinos para se tornarem independentes da França. No início de 1956, autoridades americanas e britânicas concordaram em adotar uma política altamente secreta, de codinome Omega, para isolar e confinar Nasser por meio de uma série de medidas políticas e econômicas sutis.

A Crise de Suez eclodiu em julho de 1956, quando Nasser, a quem os Estados Unidos e a Grã-Bretanha negaram ajuda econômica, retaliou com a nacionalização da Companhia do Canal de Suez. Nasser confiscou a empresa de propriedade britânica e francesa para demonstrar sua independência das potências colonialistas européias, bem como para vingar-se da recusa anglo-americana de lhe conceder ajuda econômica, e também para ficar com os lucros obtidos pela companhia no país. O fato levou a uma crise internacional de quatro meses na qual a Grã-Bretanha e a França concentraram gradativamente suas forças militares na região e alertaram Nasser de que estavam prontos a usar a força para recuperar a posse da empresa, a menos que ele se retratasse. Autoridades britânicas e francesas esperavam secretamente que a pressão acabasse provocando a queda de Nasser, com ou sem ação militar da parte delas.


Reunião entre o presidente Dwight D. Eisenhower (à esquerda) e seu secretário de Estado John Foster Dulles em 1956
(Foto: © National Park Service, cortesia: Biblioteca Dwight D. Eisenhower)

Resposta dos EUA

O presidente Dwight D. Eisenhower abordou a crise do canal considerando três premissas básicas e inter-relacionadas. Primeira, embora simpatizasse com o desejo da Grã-Bretanha e da França de recuperar a Companhia do Canal, não contestou o direito do Egito de confiscar a empresa, desde que fosse feito o pagamento adequado como determinava a legislação internacional. Desse modo, Eisenhower procurou impedir um conflito militar e solucionar a disputa sobre o canal usando a diplomacia, antes que a União Soviética se aproveitasse da situação para obter ganhos políticos. Ele orientou o secretário de Estado, John Foster Dulles, a neutralizar a crise em termos aceitáveis para a Grã-Bretanha e a França com declarações públicas, negociações, duas conferências internacionais em Londres, criação da Associação dos Usuários do Canal de Suez (SCUA) e deliberações nas Nações Unidas. No final de outubro, porém, esses esforços se mostraram improdutivos, e as preparações anglo-francesas para a guerra continuaram.

Segunda, Eisenhower pretendia evitar o isolamento dos nacionalistas árabes e incluiu estadistas árabes em sua diplomacia para acabar com a crise. Sua recusa em endossar as forças anglo-francesas contra o Egito, foi em parte resultado do reconhecimento de que o confisco do canal por Nasser contava com amplo apoio popular entre os egípcios e entre outros povos árabes. De fato, o aumento da popularidade de Nasser nos Estados árabes entrou em curto-circuito com os esforços de Eisenhower para resolver a crise do canal em parceria com líderes árabes. Os líderes sauditas e iraquianos recusaram a sugestão americana para que criticassem a ação de Nasser ou desafiassem seu prestigio.

Terceira, Eisenhower tentou isolar Israel da controvérsia sobre o canal temendo que a combinação dos conflitos voláteis egípcio-israelense e anglo-franco-egípicio incendiassem o Oriente Médio. Conseqüentemente, Dulles negou voz a Israel nas conferências diplomáticas convocadas para solucionar a crise e evitou discussões sobre os ressentimentos de Israel com a política egípcia durante os procedimentos nas Nações Unidas. Percebendo uma fagulha de belicosidade de Israel contra o Egito em agosto e setembro, Eisenhower providenciou suprimentos limitados de armas de Estados Unidos, França e Canadá na esperança de diminuir a insegurança dos israelenses e assim evitar uma Guerra entre Egito e Israel.

Eclosão das hostilidades


Memorando da Casa Branca, divulgado em 29 de outubro de 1956, discute informações de que os israelenses teriam invadido a Península do Sinai e especula como reagir
(Arquivos Nacionais)

Em outubro, a crise tomou um novo rumo que os Estados Unidos não esperavam. Sem o conhecimento das autoridades americanas, França e Grã-Bretanha conspiraram com Israel na elaboração de um plano para deflagrar uma guerra contra o Egito coordenada secretamente. Segundo o estratagema, Israel invadiria a península do Sinai, Grã-Bretanha e França emitiriam um ultimato para que as tropas egípcias e israelenses se retirassem da Zona do Canal de Suez e, quando Nasser (como era esperado) se recusasse a atender, em 48 horas as potências européias bombardeariam as bases aéreas egípcias, ocupariam a Zona do Canal e deporiam Nasser. As autoridades americanas não conseguiram prever a conspiração, em parte porque estavam ocupadas com o temor de uma guerra entre Israel e Jordânia e com os levantes anti-soviéticos na Hungria, em parte porque estavam preocupadas com a próxima eleição presidencial nos EUA e em parte porque acreditavam nas negativas de amigos dos governos conspiradores que lhes asseguravam não haver iminência de ataque. No entanto, a guerra irrompeu em 29 de outubro quando Israel lançou um ataque frontal contra as forças egípcias no Sinai. Em poucos dias as forças israelenses se aproximaram do Canal de Suez.

Pegos de surpresa pelo início das hostilidades, Eisenhower e Dulles adotaram uma série de medidas para pôr fim à guerra rapidamente. Irritado com seus aliados em Londres e Paris que o enganaram com o plano conspiratório, Eisenhower também temia que a guerra colocasse os Estados árabes sob dependência soviética. Para debelar a guerra, mesmo enquanto aviões britânicos e franceses bombardeavam alvos egípcios, o presidente americano impôs sanções contra as potências conspiradoras, conseguiu uma resolução de cessar-fogo na ONU e organizou a Força de Emergência das Nações Unidas (Unef) para desmobilizar os combatentes. Contudo, antes que a Unef pudesse se deslocar, em 5 de novembro a Grã-Bretanha e a França desembarcaram tropas de pára-quedistas ao longo do Canal de Suez.

O desembarque de britânicos e franceses empurrou a crise para sua fase mais perigosa. A União Soviética, em manobra para desviar a atenção de sua brutal repressão contra o movimento revolucionário na Hungria, ameaçou intervir no conflito e talvez até retaliar com ataques de armas atômicas contra Londres e Paris. Relatórios do serviço de inteligência informando que as forças soviéticas estavam concentradas na Síria para uma intervenção no Egito alarmaram as autoridades americanas, pois elas sentiam que o tumulto na Hungria havia deixado os líderes soviéticos propensos a um comportamento impulsivo. Prudentemente, Eisenhower alertou o Pentágono a se preparar para a guerra. A intersecção entre o conflito árabe-israelense e os conflitos de descolonização deflagraram um confronto alarmante entre o Ocidente e o Oriente.

Abalado pela repentina possibilidade de um conflito mundial, Eisenhower também agiu rapidamente para impedi-lo. O presidente recorreu a pressões políticas e financeiras sobre os beligerantes para que aceitassem em 6 de novembro um acordo de cessar-fogo da ONU. Esse acordo entrou em vigor no dia seguinte e endossou os esforços das autoridades das Nações Unidas para enviar urgentemente a Unef ao Egito. As tensões se acalmaram aos poucos. As forças britânicas e francesas deixaram o Egito em dezembro e, após difíceis negociações, as forças israelenses se retiraram do Sinai em março de 1957.

Conseqüências da crise

Embora atenuada com rapidez, a Crise de Suez teve profundo impacto sobre o equilíbrio de poder no Oriente Médio e sobre as responsabilidades que os Estados Unidos assumiram na região. O conflito manchou gravemente o prestígio britânico e francês entre os Estados árabes, minando a autoridade tradicional dessas potências européias na região. Nasser, ao contrário, não apenas sobreviveu à provação, como ampliou seu prestígio entre os povos árabes como o líder que desafiou os impérios europeus e resistiu à invasão militar pelas forças de Israel. O restante da região, que manteve regimes favoráveis ao Ocidente, parecia vulnerável aos levantes dos nasseristas. Apesar de Nasser não ter mostrado inclinação imediata a se tornar cliente da União Soviética, as autoridades americanas temiam que as ameaças soviéticas contra os aliados europeus tivessem melhorado a imagem de Moscou entre os Estados árabes. E parecia não haver perspectiva de promover a paz árabe-israelense em um futuro próximo.

Em reação a essas conseqüências da Guerra de Suez, no início de 1957 o presidente declarou a Doutrina Eisenhower, uma política de segurança regional nova e de grande porte. Proposta em janeiro e aprovada pelo Congresso em março, a doutrina prometia que os Estados Unidos distribuiriam ajuda econômica e militar, e, caso necessário, usariam a força militar para conter o comunismo no Oriente Médio. Para implementar o plano, o enviado presidencial James P. Richards visitou a região distribuindo dezenas de milhões de dólares em ajuda econômica e militar para Turquia, Irã, Paquistão, Iraque, Arábia Saudita, Líbano e Líbia.

Ainda que nunca invocada formalmente, a Doutrina Eisenhower orientou a política dos EUA em três controvérsias. No segundo trimestre de 1957, o presidente concedeu ajuda econômica à Jordânia e enviou navios da Marinha dos EUA ao Mediterrâneo Oriental para ajudar o rei Hussein a debelar uma rebelião entre oficiais do Exército favoráveis ao Egito. No final de 1957, Eisenhower incentivou a Turquia e outros Estados amigos a considerar uma incursão à Síria para impedir que um regime radical consolidasse o poder naquele país. Quando, em julho de 1958, uma revolução violenta em Bagdá ameaçou propagar levantes similares para o Líbano e a Jordânia, finalmente, Eisenhower ordenou que os soldados americanos ocupassem Beirute e transportassem suprimentos para as forças britânicas que ocupavam a Jordânia. Essas medidas, sem precedentes na história da política americana nos Estados Árabes, revelou claramente a determinação de Eisenhower de aceitar a responsabilidade pela preservação dos interesses ocidentais no Oriente Médio.

A Crise de Suez foi um divisor de águas na história da política externa americana. Ao anular as premissas tradicionais no Ocidente sobre a hegemonia anglo-francesa no Oriente Médio, exacerbar os problemas do nacionalismo revolucionário personificado em Nasser, incendiar o conflito árabe-israelense e ameaçar oferecer à União Soviética um pretexto para penetrar na região, a Crise de Suez levou os Estados Unidos a um envolvimento substancial, significativo e duradouro no Oriente Médio.

As opiniões expressas neste artigo não refletem necessariamente a posição nem as políticas do governo dos EUA.

 

Thu, 13 Jul 2006 18:51:05 GMT
Rem."Theodoro da Silva Junior" <theojr@terra.com.br>

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