Primeiro passeio à Gaza - Por Stans Zouain Filho


Gaza distava, aproximadamente, 40 quilômetros do Batalhão (Campo Brasil). Boa parte da estrada era cercada por eucaliptos, nem parecia que estávamos tão perto do deserto de Negev, especificamente do PC da 9ª Cia – Pelotão Rio de Janeiro.

 


(Na foto vemos parte da estrada que nos levava a Gaza)

 

Era sem dúvida a melhor opção de lazer, para dezenas de brasileiros do Batalhão Suez, todos os domingos.

Além de vários pontos turísticos, Gaza nos oferecia um comércio dos melhores, tinha de tudo! Na verdade, a cidade vivia às custas dos militares da ONU.

Era maio de 1966, estávamos adentrando no nosso terceiro mês de Faixa, estreando com orgulho nossos ICARDS (Identificação como membro da UNEF), quando fomos à Gaza pela primeira vez.

Éramos três do 18º Contingente: Tadeu, Andrade e Zouain. O táxi que nos levou, como os outros, era um automóvel da marca Mercedes. Evidentemente que, naquele primeiro passeio, estávamos acompanhados por um antigão, Alípio do 17º Contingente, que além de nos mostrar a cidade de Gaza, nos ensinou vários macetes de como se comportar; macetes esses que meses depois ensinaríamos aos companheiros do 19º Contingente. Coisas de Suez!

Para pegar um táxi, quem não servia na CCS, pegava carona de Jeep ou caminhão Bedford, do seu respectivo Pelotão até o Batalhão. Do Batalhão, andava-se à pé uns 200 a 300 metros, até o ponto de táxi, num lugar chamado Check Post, Fronteira entre Palestina/Egito/UNEF.

Pagamos por nossa primeira corrida, 50 piastras (metade de 1 libra egípcia, ou, 60 cents do dólar) sabíamos que negociando podíamos chegar a 45, até 40, mas a vontade era tanta que deixamos isto para as viagens seguintes. Durante o trajeto o rádio do táxi  tocou belos foxtrotes, a nosso pedido, no lugar de músicas árabes.

Antes de chegar a Gaza (cidade histórica, onde nasceu Sansão) passamos por uma outra cidade bem menor, Khan Yunis (onde nasceu Dalila).

Aquele foi um domingo muito especial, mas sabíamos que daquela primeira vez não dava ainda para conhecer a praia, só mesmo alguns pontos da cidade, deixamos a praia para a próxima vez.

Fomos ao foto do John, gente finíssima, que falava português muito bem, tiramos fotos vestidos de Habibe.

Fomos também ao foto do Kegan, esse tinha um português fraco, dava pra  entender, mas não era tão festivo como o John,. Ficamos impressionados com a beleza da sua filha, por não ser muçulmana, vestia trajes ocidentais.

Ali perto, passamos por um cinema, onde ficamos fascinados com o letreiro de um filme que já havíamos assistido no Brasil, escrito em árabe.

(Zouain na frente de um cinema onde exibia o filme: ”O Trem” com Burt Lancaster)

 

 Visitamos várias lojas, principalmente a famosa loja do Zacarias onde os brasileiros tinham uma atenção toda especial. Ele era muito brincalhão e além de falar português muito bem, nos facilitava muito nas compras.

E o Banho Turco? Foi sensacional, suas instalações eram bastante primitivas, todas as paredes eram de pedra, e o local ficava sob a rua.

 Tivemos que entrar numa banheira de água quase que fervendo permanecendo de molho uns 20 minutos. Depois os Habibes que trabalhavam lá, pegaram sabão, bucha e começaram a esfregar nos nossos corpos, evidentemente pulando certas partes envolvidas por uma toalha. A cada esfregue, os Habibes exibiam as tiras de sujeiras de 20/30 centímetro que tiravam da nossa pele, principalmente entre os dedos da mão, dando verdadeiras gargalhadas! E a gente respondia também com gargalhadas, não só das sujeiras, e sim, das suas bocas faltando à metade dos dentes, além dos pedaços de dentes amarelos e pretos que ainda restavam! Quando saímos, me senti muito leve e os meus companheiros também.

Fomos ao jardim público, era uma praça imensa, onde se destacava um monumento com uma estátua apelidada de “Dedo Duro” (foto). 

Na verdade a estátua simbolizava o soldado palestino com uma metralhadora na mão direita, e com a mão esquerda apontava o dedo indicador para Israel.

Depois de andarmos um bom pedaço até a entrada da cidade onde ficavam os táxis que nos levaria de volta ao Batalhão, vimos de longe uma multidão andando pela rua carregando, no alto, algo estranho. Chegamos mais perto e verificamos que se tratava de um enterro só que, o defunto ao invés de estar dentro de um caixão, estava deitado sobre uma espécie de padiola e totalmente exposto para que os presentes o vissem. Achamos aquilo estranho, mas era apenas um dos diversos costumes daquele povo que tinha um carinho especial com os brasileiros, e sabíamos que aos poucos iríamos aprender mais coisas. Aquele foi o primeiro dia que tivemos um contato maior com o povo árabe, especificamente o “Povo Palestino” em número grande.

Foi um ótimo passeio, embora o tempo tenha sido curto. Combinamos que voltaríamos na primeira oportunidade para fazer tudo de novo e ainda conhecer a praia, algo que naquele dia não deu tempo.

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