O ORIENTE MÉDIO E O BATALHÃO SUEZ


O BRASIL EM MISSÃO DE PAZ

No dia 17 de novembro de 1956, foi sancionada a Lei n° 2953 ficando que a remessa de forças armadas, aéreas, navais e terrestres para fora do território brasileiro, sem declaração de guerra e em cumprimento de obrigação assumida pelo Brasil só ocorreria nos termos da Constituição com plena autorização do Congresso Nacional.

O Presidente da República autorizado pelo decreto Legislativo n° 61 de 22 de novembro de 1956, autorizou a enviar um contingente de valor de Batalhão para integrar a FORÇA DE EMERGÊNCIA ( os soldados brasileiros da paz) para manter a segurança e paz na região de SUEZ e linha de armistício entre ISRAEL e EGITO Foi determinado então ao Sr Cmt da 1ª DI que colocasse operacional o Terceiro Batalhão do 2° RI e o aprestasse para embarcá-lo para Suez sob o comando do Cel de Inf Iracílio Ivo de Figueiredo Pessoa.

Essa unidade obteve a autonomia administrativa pela Portaria n° 197 de 20 de novembro de l956. Passava agora existir de fato o BATALHÃO EXPEDICIONÁRIO como no início foi chamado. O nome Batalhão Suez só ficou denominado quando o 3° /2° RI, nossos valorosos boinas azuis chegaram ao Egito.

Nosso Batalhão Suez era constituído:

· três companhias de fuzileiros
· uma companhia de comando e serviço
· um destacamento de Polícia do Exército- PE
· um depósito misto, absorvido pela Cia de Comando e Serviço.

O adestramento de nosso militares no Brasil obedeceu a um programa de Instrução no quartel do 2° RI e no Campo de Instrução de Gericinó. O batalhão recebeu material, equipamentos, moto e viaturas nacionais.

Cartilha que os soldados brasileiros deveriam ler e saber para o bom desempenho de suas funções em Suez

1- Você foi escolhido para fazer parte em um acontecimento de grande relevância na História do Mundo. Nosso batalhão irá incorporar a Força de Emergência da ONU que se destina a manter a paz e evitar a guerra entre os povos.

2- Você deve orgulhar muito de sua missão, pois sua família irá orgulhar muito de ti, e na volta todo o Brasil o festejará.

3- Você vai adquirir muita experiência nessa missão conviverá com militares de outras nações e irá conhecer terras com usos e costumes diferentes das nações

4- O Batalhão Brasileiro irá para o Oriente Médio que é a região que fica entre três continentes: Europa, Ásia e África. Os povos em sua maioria que lá estão são árabes e israelenses, povos que possuem grandes divergências, e andam guerreando ultimamente. A Força de Emergência vai se colocar no meio de todos para evitar o combate.

5- Por onde estiver deverá ser comportar dignamente como militar e como brasileiro. Deverá deixar boa forma de disciplina e comportamento.

6- Lembre-se que o estrangeiro tem tanto direito de ser patriota como você os costumes dos estrangeiros devem ser respeitados como também seus símbolos nacionais
7- Os estrangeiros como nós tem famílias por isso devemos respeitar seus familiares.Suas igrejas merecem também respeito.

8- Seja discreto, não se meta em assuntos complexos de políticas, religião, não crie caso

9- Mantenha um bom ambiente no Batalhão e um ótimo relacionamento com seus camaradas, afinal "a união faz a força".

10- Aceite e cumpra as ordens de seus superiores demonstrando claramente que nosso Exército existe disciplina, tendo sempre em mente que a subordinação militar nunca foi humilhação.

11- Não relaxe, respeite a si mesmo e a todos para ser respeitado, dignificando o uniforme que veste e eleve bem alto o nome do BRASIL.

12- Escreva constantemente carta para a família com simplicidade e carinho, informando de sua vida. Não mande notícias alarmantes ou que não sejam verdadeiras

13- É importante aprender algumas coisas sobre o Egito como religião, clima relevo, temperaturas, costumes usos, seu livrai sagrado ALCORÃO, desertos, sua capital, o Rio Nilo, condições de vida do povo, educação, regime político , principais cidade e Canal de Suez.

14 -Ter conhecimentos sobre Israel, sua história, povo, criação, costumes, usos, clima, produção, educação, religião localização geográfica, população, principais cidades, forma de governo e comércio.

Com essa cartilha o boina azul brasileiro seguiu confiante no seu valor que é o valor do homem brasileiro; a nação ficou ansiosa pela sua volta.

Precedido por um destacamento precursor, 50 homens transportados por via aérea, embarcou o 3°/2° RI.

Dia 11 de janeiro de l957, o navio de transporte da MARINHA DE GUERRA DO BRASIL CUSTÓDIO DE MELLO, transportando o comando, oficiais e os praças deixou o Rio de Janeiro e navegou 6.136 milhas marítimas até chegar a PORTO SAID em 02 de fevereiro de 1957.

O Batalhão desembarcou e foi incorporado à Força de Emergência da ONU se dirigindo para El Ballah, às margens do Canal de Suez.

UNEF

A Força de Emergência da ONU que esteve mo Oriente Médio de 1956 a 1967 era formada por efetivos de nacionalidades diferentes.

Os iugoslavos e brasileiros eram os que menos sabiam falar o inglês, no entanto a amizade entre essas duas nacionalidades era marcante devido ao gênio alegre dos nossos rapazes. Nas festas, nos embates esportivos, sempre findavam com uma confraternização geral, sempre sob a direção dos boinas azuis do Brasil. Foi assim que os soldados da paz do Brasil se tornaram comunicativos, respeitados não só no lazer mas principalmente no comprimento do seu dever.

A região onde nosso Batalhão Suez cumpriu a sua difícil missão era considerado a área mais perigosa devido a zona de Guerra, como também a mais endêmica do mundo, onde a lepra, a febre amarela, tuberculose, eram doenças características da área, mas nossos valorosos soldados foram devidamente vacinados e cumprimos nossa missão sem dúvida alguma.

Com a sida de Israel da Faixa de Gaza e do Sinai a Força de emergência ocupou os locais deixados pelos israelenses. Nosso contingente militar seguiu então para El Arish e depois Rafah, nesta área permanecendo fixos.

A Força de Emergência da ONU em Gaza tinha a função de patrulhar a Linha de Demarcação de Armistício e nessa função os brasileiros que integravam a FENU se destacaram com as nossas sub-unidades patrulhamento de grandes trechos desérticos.

BTL.SUEZ

O BATALHÃO BRASILEIRO, teve a difícil missão de policiamento do setor do ADL- ARMISTICE DEMARCATION LINE- que tinha 50 Km de extensão materializado por um fosso de 60X60 cm em toda sua extensão; e a função principal de impedir o cruzamento da linha. Na área em que os brasileiros quarneciam houve pequenos incidentes e praticamente todas as atividades dos "comandos" egípcios na área cessaram completamente.

Estivemos no Oriente Médio por longos 10 anos sendo que o contingente precursor era constituído por soldados incorporados e prestando o serviço regular ao Exército Brasileiro. Mas logo adotou o sistema de convocação de reservistas que uma vez selecionados serviriam por um ano. 

Inicialmente os efetivos do Exército eram oriundos do 2° RI-RJ. No entanto esses encargos variaram entre os exércitos. Contribuíram com contingentes Paraná, Santa Catarina. São Paulo, Minas Gerais, Rio Grande do Sul, Pernambuco.

O pessoal do Batalhão Suez a cada seis meses era substituídos grupamento de valor aproximadamente de metade do efetivo, o que permitia a permanência de cada contingente, na média, por um ano na área, não deixando quebrar com isso o padrão operacional e de eficiência.

Deve-se ressaltar aqui o bravo valor de eficiência e grande profissionalismo dos efetivos da MARINHA DE GUERRA DO BRASIL e da FORÇA AÉREA BRASILEIRA, nas operações de transportes e do elo ligação entre o Batalhão Suez e o Brasil.

Avião de transporte Hercules C-130H da Força Aérea Brasileira-FAB

A dois brasileiros coube o comando da FORÇA DE EMERGÊNCIA. Em 1964 o General CARLOS FLORES DE PAIVA CHAVES e em 1965 o General SINZENO SARMENTO.

Todos esses anos de tensão, com o equilíbrio da Força de Emergência, foi quebrado no dia 05 de junho de 1967, quando Israel atacou novamente o Mundo Árabe; embora com esse ataque a FENU e o contingente brasileiro não deixara de cumprir sua missão. Desde de 19 de maio a FENU não existia mais, e a Força de Emergência fora extinta. Os contingente que compunham permaneceram no Egito como "hospedes", já se preparando o seu regresso aos respectivos países.

Enquanto lá estivemos, cumprimos a nossa difícil missão e enquanto preparávamos a retirada, a guerra na região irrompeu. O posto de comando brasileiro em RAFAH estava na principal via de acesso dos israelenses sobre El Arish e por ele os israelenses passaram.

No dia 05 de junho de 1967 pouco antes das 09:00hs, ocorreu a primeira manifestação de que a guerra estava começando, pois os caças da Força Aérea de Israel começaram a dar vôos rasantes sobre o Campo Brasil sequindo rumo a El Arish. Pouco depois chegava a notícia que os israelenses tinham bombardeado o Cairo. Mais ou menos as 10:00 hs duas baterias do Egito localizadas nos flancos do acampamento brasileiro, abriram fogo sendo posteriormente destruídas por tiros de uma bateria israelense e logo em seguida um violento bombardeiro aéreo.

Nesta oportunidade a nossa tropa já tinha recebido ordens de se organizar em comboio de viaturas e deixar aquele local perigoso. Por volta das 1100 hs, passaram a leste do nosso acampamento duas colunas de viaturas blindadas de Israel, abriram fogo contra carros de combate e unidade de infantaria dos árabes. O tiroteio foi muito violento, exatamente sobre as tropas brasileiras, que se abrigava para não ser confundidas com os combatentes locais.

Durante toda a tarde os combates foram cada vez mais violentos que acabaram atingindo o Campo Brasil bem intensamente. À 13:00 hs tivemos um óbito em nossa unidade conforme Boletim do Batalhão, o CB ADALBERTO ILHA DE MACEDO, foi ferido mortalmente, sendo sepultado no próprio campo de batalha. Com o passar do tempo as tropas de Israel foram gradativamente assumindo o comando da região. A tropa brasileira por ordem da ONU, iniciava a retirada através da perigosa zona de combate observando o rastro de destruição e mortes, infelizmente alguns de nossos rapazes foram feridos durante esta retirada.

No dia 08 de junho de 1967, unidades de combates de Israel entraram nos acampamentos da ONU, e os integrantes da Força de Paz da ONU foram transferidos para instalações localizadas às margens da estrada de El Arish, observada por unidade de Israel. Ao retornarem à suas instalações no dia sequinte - 09 de junho de 1967- os soldados brasileiros puderam observar que o acampamento havia sido totalmente saqueado.Os integrantes do Batalhão suez puderam verificar que toda a bagagem havia sido saqueada por tropas de ISRAEL, havendo inclusive a subtração de armas e uniformes. Foi com grande sentimento que verificou o que tinha ocorrido e a frustração tomou conta de toda a tropa do Brasil na região. Após a retirada o Secretário Geral da ONU, obsequiou o Batalhão Suez com a Medalha da ONU, pela recompensa pelos serviços prestados em nome da paz mundial.

Em 1988 o Prêmio Nobel da Paz foi concedido às Forças Nações Unidas para a manutenção da paz, e recompensou o conjunto das missões enviadas a 14 cenários bélicos nos últimos 40 anos, integradas tanto pelas forças militares (capacetes azuis), com armamento leve, quanto os observadores ( boinas azuis) Estas forças mobilizam-se desde 1948 para fazer respeitar as tréguas e acordos de cessar fogo.

Nossa presença no Oriente Médio, marcou os esforços dos boinas azuis do Brasil para conseguir e proporciona aqueles povos os valores da paz, e imagens diferentes traduzíveis numa geopolítica de entendimento.

HINO DO BATALHÃO DE SUEZ

Letra: Sd. Eduardo Pikinas
Música: Sd. Eduardo Pikinas
Sd. Romeu C. Moreira
7º Contingente.

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I
Batalhão Suez
Gloriosa Unidade da Paz
Fiel representante ante o mundo,
Do Brasil e do seu povo audaz.
Sentinela sempre alerta!
Deste longínquo deserto oriental;
És a unidade, que o Brasil garante,
Poderoso auxílio, pela paz mundial.

Estribilho

Salve, salve Batalhão Suez,
Defensor da pa z da humanidade
Ficarás na história do Brasil.
Para toda eternidade!

II
No combate da guerra sangrenta!
Ou mensageiro da Paz sobre a terra
O nosso verde oliva sempre impera
Sua bandeira hasteada no deserto,
Simboliza a bravura e tradição
Batalhão Suez
É o orgulho de nossa nação!

Estribilho

Salve, salve Batalhão Suez,
Defensor da paz da humanidade
Ficarás na história do Brasil
Para toda eternidade

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Poesia

AO SONHO DE SUEZ

Tu, que um dia em teu passado
Cheio de ador e idealismo
Vibrando de patriotismo
Saíste de seu torrão
Foste parar em outra terra
Desumana e sem razão

Tu, que em plena mocidade
Cruzastes terra e mares
Deixaste amores e lares
Para calar os canhões
Deixaste a pátria querida
Indo arriscar tua vida,
Se interpondo entre nações

Tu, jovem patriota
Desfraldaste as bandeiras,
A da ONU e a Brasileira
Em terras tão diferentes
Levastes a paz ao inferno
Ganhaste o respeito eterno
Dos países e das gentes.

Tu, que partiste um dia
Quantas saudades chorastes,
Quanto de bom tu deixastes:
A paz , o lar e o amor
Indo viver com bravura,
Com renúncia e destemor

Tu, que moço destemido,
Plantasse a paz no deserto
Ombro a ombro muito perto,
De outros jovens irmãos
A tua pátria honraste
E ao Brasil coroaste
Com o respeito das nações.

Tu, que orgulhoso partiste
E um herói julgavas.
Pois tua vida arriscavas,
Em tua nobre missão
Cumpristes bem teu dever
E ao mundo fizeste ver
O valor desta nação!

Tu, que ao regressar prevías
Uma acolhida de flores,
Medalhas honras e louvores
E como herói ser tratado
Tiveste os pais, os parentes
E no mais, bem pouca gente
A receber-te soldado

Tu, que não foste lembrado
Depois da missão cumprida
Depois da luta vencida
Na distância e no sofrimento
Jamais tiraste da memória
Que num momento da cúria
Tiveste teu momento

Tu, que foste esquecido
O anônimo soldado
O herói não coroado
Que fez a guerra cessar...
Não deixe calar no peito
O conquistado respeito
Que longe foste ganhar.

Acorda os que dormem em paz
Na paz pela qual lutaste
Na paz que tu conquistaste
Com teu irmão no passado,
E lembra que a nação que amas
Que nada, nada ,reclama
A não ser um obrigado

E se ninguém te escutar,
Procura por teus irmãos,
Abraça-os, dêem-se as mãos
Dividindo glória e dor.....
Na legião dos esquecidos,
Muitos aguardam feridos
Por tua ajuda e amor!

Nem deixes, tu pelo menos,
Que aqueles que já partiram
E nem tiveram ou sentiram
O conforto de tua prece,
Sejam em pleno sentido,
O herói desconhecido,
Pois, a glória não padece!

Tu, que vives hoje em paz,
Se foi fugaz tua glória,
Lembra que um dia na história
Chegará sua vez.
Erga a fronte com vaidade,
E marcha para a Eternidade,
Como um bravo de Suez.

Autor: JOSÉ CARLOS GIACOMINI
"IN MEMORIAN"
9° CONTIGENTE - BTL SUEZ.
UM BOINA AZUL DA PAZ DO BRASIL

De: "Theodoro da Silva Junior" <theojr@terra.com.br>
Data: Sat, 23 Jun 2007 22:48:35 -0200
Assunto: BTL.SUEZ-Mais um Resumo Histórico


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