UM SOLDADO DA PAZ


CEL. RONCOLATTO - UM SOLDADO DA PAZ Depois que foi transferido para Reserva, vem prestigiando todos os eventos dos Boinas Azuis em Curitiba. Portanto, é um amigo do Batalhão Suez, pelo qual temos o maior apreço. Nossos respeitos ao Cel. Roncolatto, que é um vibrante Boina Azul com relevantes serviços prestados na Missão BÓSNIA.          Um grande abraço, Theodoro.


Cometido por Douglas Portari às 01:16 1 comentários

Entrevista publicada na revista Grandes Guerras de setembro de 2007

Militar e escritor, Claudinei Roncolatto esteve em duas missões da ONU. Foi à Guerra da Bósnia, como observador, e participou da Minustah, no Haiti

O então major Roncolatto, na ex-Iugoslávia,
no local de morte de um companheiro

 

Nos anos 1990, como observador das Nações Unidas na Bósnia, onde atuava desarmado, ele esteve sob fogo de artilharia, viu um colega ser morto pelas traiçoeiras minas e ficou chocado com a morte de inocentes. Em 2005, como subcomandante de um contingente brasileiro na Missão das Nações Unidas para Estabilização do Haiti (Minustah, na sigla em francês), atuou na pacificação da capital Porto Príncipe, quando também contou baixas em suas colunas nos combates com rebeldes haitianos.

Em ambos os casos, portava sobre a cabeça um dos símbolos dos soldados de paz da ONU, o capacete azul. Claudinei Roncolatto, paulista de 53 anos que há alguns meses entrou para a reserva do exército como coronel, foi vítima do que chama de "vírus das missões de paz". Atravessou o Atlântico em 1993 e foi ao Caribe em 2005 por acreditar que elas fazem diferença. "Não podemos nos omitir", diz. Casado, pai de três filhos e doutor em Ciências Militares, ele também se dedicou à literatura. É autor de três livros, dois ainda inéditos.

Na Guerra da Bósnia, sobre sua experiência como observador militar durante o conflito na ex-Iugoslávia, foi lançado em 2003 pela Editora Bibliex, do Exército, e tem alguns trechos publicados aqui. Nesta entrevista exclusiva, Roncolatto fala, entre outros assuntos, sobre sua experiência no exterior e o papel das Forças Armadas e da ONU.

Por que o senhor se apresentou como voluntário para missões da ONU?

Para a missão na ex-Iugoslávia eu fui convidado. E teria sido uma enorme incoerência não aceitar. Como um militar, que se preparou para o combate, poderia recusar uma missão pelo fato de ela envolver risco de morte? Já para o Haiti, efetivamente, me apresentei como voluntário: o "vírus das missões de paz" já estava instalado. Quem participa de uma missão de paz é voluntário para outras.

Qual o peso da família nessas decisões?

Não é nada fácil deixar a família e seguir para uma missão cujo retorno é incerto. O apoio de minha mulher foi sempre irrestrito e fundamental. Na missão na ex-Iugoslávia [entre 1993 e 1994], minhas filhas sentiram muito, eram duas crianças.

E como foi sua atuação na Bósnia?

Eu era observador militar da ONU, trabalhava desarmado. Durante um ano, de setembro de 1993 a setembro de 1994, atuei em Sarajevo e Zepa (ambas na Bósnia), Scopje (Macedônia) e Sibenik (Croácia). A missão no conflito da ex-Iugoslávia, a Guerra da Bósnia, era de manutenção da paz [o Capítulo VI da Carta da ONU]. Esse tipo de missão ocorre quando as partes em conflito celebram acordos para a cessação das hostilidades, cabendo às Nações Unidas monitorar o cumprimento deles. Acordos nos Bálcãs ou eram rompidos com freqüência ou eram frágeis, facilmente corrompidos pelo uso da força. Aquela era uma missão de manutenção de paz anômala - não havia paz a ser mantida.

Após ser acusada de ser omissa e parcial nesse conflito, a ONU mudou alguns estatutos. Afinal, há diferença entre manutenção e imposição de paz?

Nem sempre a ONU é ágil, nem sempre suas múltiplas engrenagens trabalham sincronizadas; às vezes, parece mais um paquiderme de patas atoladas na burocracia. Mas, sem ela, o que teríamos? A imposição pura e simples da vontade dos mais poderosos? Me parece que a instituição, um grande edifício de muitos interesses, merece ser reparada, não demolida. Quanto à imposição de paz: o Capítulo VII da Carta da ONU prevê o emprego mais incisivo da força.

Isso muda algo na linha de frente?

Muda muito. Na vigência do Capítulo VII, o militar pode atirar não apenas para se defender de uma ação armada, mas também de forma antecipatória, quando houver uma ameaça de agressão. Ora, ameaça é algo que pode ser muito subjetivo, daí a necessidade de um controle cerrado dos comandos sobre a tropa, para que não sejam cometidos excessos.

Quais foram os momentos críticos na Bósnia?

Bem, estive algumas vezes em áreas batidas por jogos de artilharia. Em uma ocasião, freei a viatura que dirigia a poucos centímetros de uma mina anticarro... Mas me marcou muito a morte de Ramli, um observador muçulmano da Malásia, em uma patrulha a pé que realizávamos. Ele foi vítima de uma mina antipessoal no seu último dia de missão naquela área [leia mais no rodapé].

E no Haiti?

Tivemos no nosso contingente, o terceiro da missão no Haiti, sete feridos por arma de fogo. Um deles com muita gravidade. Choca ver um dos nossos ser atingido. O tenente Leone foi ferido severamente na região do ombro por um disparo de fuzil. Esteve muito próximo da morte. Hoje, em Brasília, o jovem catarinense vai se recuperando aos poucos.

Na Bósnia, havia lados opostos. No Haiti, nem há uma guerrilha de fato, não é?

É verdade. Nos seis meses em que permaneci no Haiti, os chimères eram nossos grandes adversários, pela maneira fluida de atuar e pela dificuldade de identificação. Quem eram eles? Membros da resistência pró-Aristide, o ex-presidente? Ladrões, assassinos e seqüestradores que buscavam alguma legitimidade na suposta motivação política? A um só tempo, membros da resistência e criminosos? Ou até bandidos a soldo da elite poderosa que combatia Aristide? Aqueles que exerciam uma dessas atividades, ou mais de uma, eram chamados de chimères. Não é fácil reconhecer suas verdadeiras motivações.

Qual era sua função no Haiti?

Eu fui chefe do Estado-Maior e subcomandante do 3º Contingente Brasileiro, em uma missão que empregava o Capítulo VII da Carta das Nações Unidas. Cité Soleil [uma das grandes favelas do país] não era, então, nossa área de atuação. O grande mérito do contingente foi a consolidação da ocupação e pacificação de Bel Air, gigantesca favela da capital Porto Príncipe. A tática empregada, com grande utilização de pontos fortes, fixos e móveis, e o lançamento intensivo de patrulhas, foi muito bem-sucedida. A ONU considerou nossas ações como um exemplo de operação de pacificação em ambiente urbano.

Então, o exército é capacitado para agir nas favelas brasileiras contra o narcotráfico?

Essa é uma questão que tem de ser estudada com muito cuidado. Eu diria que, técnica e operacionalmente, é capacitado, sim, desde que os militares recebam treinamento similar ao que tivemos, ainda no Brasil, antes de seguirmos para a missão. Mas não podemos perder de vista que, no Haiti, mesmo realizando operações do tipo policial, atuávamos como componentes das nossas Forças Armadas, cumprindo regras de engajamento específicas e apropriadas. Não éramos, de forma alguma, uma força policial.

O soldado tem noção de que sua missão ali é preservar a vida e não destruí-la?

Olha, não é esse o sentimento que temos, o de sermos preparados para a destruição da vida. Somos adestrados, isso sim, para defender o País de uma agressão - a própria Constituição Federal veda a guerra de conquista. Somos preparados para preservar a vida dos brasileiros em caso de guerra, ou a vida de povos estrangeiros sob grave ameaça de guerra civil ou genocídio. Seríamos, digamos, um antídoto contra a guerra, só faríamos "uma guerra contra a guerra". Por isso, filosoficamente, nada mudou no Haiti.

Uma crítica recorrente às missões é a de excessos ou crimes cometidos por soldados. Presenciou algum?

Não, não presenciei crimes. Qualquer excesso seria punido, no mínimo, com a repatriação do responsável. O que vi no 3º Contingente foi uma tropa altamente motivada e determinada.

Como são as ações e o relacionamento com tropas em locais em que se fala uma língua diferente e há militares de vários países?

O idioma oficial de quase todas as missões da ONU, inclusive na do Haiti, é o inglês. Como boa parte dos nossos militares não falava esse idioma, o batalhão brasileiro dispunha de inúmeros intérpretes. Intérpretes também do francês, para a comunicação com os nativos.

Nas missões, o senhor sofreu hostilidade dos nativos?

Demonstrações de hostilidade foram raras. Os soldados brasileiros, da tropa ou observadores militares, são parte de um povo multiétnico que vê o estrangeiro sem ódio. Livres de preconceitos e maniqueísmos, nossos capacetes azuis mantêm a imparcialidade requerida pelas missões de paz. E procuram ajudar, tratam os nativos com simpatia, respeitam as diferenças culturais de cada povo. Por isso, de regra, são muito bem recebidos.

Por sua experiência no exterior, como avalia o exército brasileiro?

No caso específico do Haiti, para o que exigia a missão, estávamos muito bem preparados e equipados. Melhor do que a maioria dos outros contingentes.

Com a compra de novos armamentos pela Venezuela e Chile, o equilíbrio da região está sendo alterado. O que o senhor acha?

No ano passado visitei, por cinco dias, o Exército do Chile, e pude constatar sua modernidade. As forças armadas de um país devem ser proporcionais à sua importância geopolítica e econômica. Acho que no Brasil há um descompasso. O Estado Brasileiro precisa fortalecer urgentemente seu braço armado.

"[O que mais me marcou na guerra foi] A subversão de todos os valores da retaguarda, da população civil faminta.

 (...) É doloroso ver um pai entregar uma filha por uma barra de chocolate... ", frase do jornalista Joel Silveira [morto em agosto], que cobriu a atuação da FEB na Segunda Guerra. O senhor pode comentar?

Grande Joel Silveira! Li a recente edição de seu livro sobre a FEB. Excelente. Eis aí uma pessoa que gostaria de conhecer pessoalmente. Imperdível também a obra do Rubem Braga, Crônicas da Guerra - Com a FEB na Itália.

Freqüentei por um ano um curso de Altos Estudos de Defesa na Itália, e tive a oportunidade de refazer o caminho épico da nossa FEB. Subi a pé o Monte Castelo, vasculhei os becos de Montese... Tenho enorme apreço pelos pracinhas. E também com os boinas-azuis do Batalhão Suez. Bem, chega de digressão.

A miséria é torpe, sim, a miséria do Haiti é torpe. Mas ela existe também em tempo de paz. No país caribenho, a missão da ONU só faz minorar a miséria. Veja a nossa companhia de engenharia, que tem melhorado a infra-estrutura daquele país. O que, definitivamente, me aflige nos conflitos armados são as mortes inúteis, estúpidas, a violência gratuita.

Que lição o senhor tirou dessas missões?

Que não podemos nos omitir. O militar é um instrumento de defesa do país, e como tal precisa estar afiado para ser eficaz. Deve ser treinado. E a melhor oficina de aprendizagem são as situações reais de conflito. Participar de missões de paz reforça a postura pacífica do Brasil e, ao mesmo tempo, prepara a defesa da nação. E não há aqui contradição ou cinismo. Cínico é o indiferentismo: 'por que atravessar o Atlântico em socorro de povos flagelados pela guerra, com tantos problemas aqui mesmo no Brasil?' Esse sim é um juízo falso, supor que estaremos protegidos abrigados na própria indiferença.

Trechos de Na Guerra da Bósnia, de Claudinei Roncolatto, Editora Bibliex, 2003

"Pois é, Ramli. Como a mina foi-lhe pegar, logo a você, que a temia e disso não fazia segredo, que se protegia mais que todos? Logo a você, pai de seis filhos, amante de beisebol e da paz, precisamente no último dia? Quando cobriram seu corpo com aquele lençol branco, como ficou pequeno... Você assim parado, sem a agitação habitual, sem a grande risada que lhe rasgava a cara acobreada e redonda, parecia ter encolhido... Nada mais tenho a dizer-lhe, meu amigo. Descanse na paz do seu Deus. Repouse na paz do Deus de todos nós."

"E eis que chegou a mulher toda aflita. Carregava nos braços um embrulho de pano. Abriu-o, lá estava o filhinho. Pediu socorro, um médico que tratasse da ferida na perna da criança. Um estilhaço. Mas, Deus meu, a criança não tinha... não tinha cabeça! Decepada pela estupidez dos homens, uma outra morte gratuita. Qual a miserável razão que justificava um preço assim alto? É um custo esse que não se pode pagar. Em nada mais se confia, senão na natureza. Aquela que dá à pobre mãe a loucura, temporária e misericordiosa, a extraordinária defesa psicológica de negar o insuportável. É o que a defende de si própria, que a impede de explodir ali mesmo, de dor."


SEM COMIDA NÃO HÁ PAZ

Reportagem publicada no portal America Online em janeiro de 2006

Mais pobres são o fiel da balança das eleições no Haiti

A escolha do novo presidente no dia 8 de janeiro passa pelas favelas do país, como Bel Air e Cité Soleil, que juntas têm quase um milhão de habitantes

Crianças da favela de Bel Air, em Porto Príncipe:
misto de festa e mendicância

 

Para quem conhece uma favela, nenhuma surpresa. O panorama é o mesmo, algumas vias principais que se ramificam em vielas estranguladas por barracos. As crianças se divertem com a aparição de pessoas com câmera ou filmadora, fazem pose, riem e então pedem comida. Podia ser em qualquer um dos muitos guetos do Brasil, mas as senhas gritadas pelos meninos - "photo, photo" e "manger, manger" - lembram que se trata do Haiti.

A agitação das crianças - e de muitos adultos - ou a desconfiança e mau humor de outros tantos são as reações dos moradores da favela de Bel Air aos jornalistas que aparecem fazendo perguntas e tirando fotografias. O país está às portas de uma eleição presidencial, mas na favela poucas faixas e algumas pichações a favor do presidente deposto Jean-Bertrand Aristide eram as únicas indicações disso em meados de dezembro.

Dos cerca de 8,2 milhões de habitantes do Haiti, quase 2 milhões vivem na capital Porto Príncipe. Encravadas no centro urbano ficam as duas maiores favelas do país, Bel Air, hoje pacificada pelo exército brasileiro, com seus 400 mil moradores; e Cité Soleil, na outra ponta da cidade, com outros 500 mil, e ainda um foco de traficantes, seqüestradores e chimères, os rebeldes pró-Aristide.

As duas são reduto eleitoral do partido criado por Aristide, o Lavalas (em criole, a língua oficial do Haiti, significa enxurrada ou o dilúvio bíblico, numa referência aos tempos em que o ex-presidente era padre). Mesmo exilado na África do Sul, a figura messiânica de Aristide - acusado, entre outras coisas, de enriquecimento ilícito, tráfico de drogas e manipulação das eleições de 2000 - ainda é forte entre a população mais pobre.

Não é à toa que um ex-protegido seu, René Preval, esteja na frente nas raras pesquisas feitas entre os 35 candidatos à presidência. Preval, hoje como candidato independente, foi primeiro-ministro do governo deposto de Aristide em 1991. Depois, sucedeu o mesmo em 1996. Foi o segundo presidente eleito a cumprir inteiro seu mandato e o primeiro a passar o cargo pacificamente no final dele. Não por acaso, novamente para Aristide.

Legitimidade e paz

O desemprego no Haiti atinge 80% da população ativa e quem trabalha ganha por mês menos de 30 dólares (o equivalente a cerca de 70 reais). Apesar da instabilidade crônica, ou por causa dela, o povo mostra interesse pelas eleições. Dos 4,2 milhões de hipotéticos eleitores, mais de 3,5 milhões foram cadastrados. Após sucessivos adiamentos, o Conselho Eleitoral Provisório (CEP) garantiu que o primeiro turno das eleições acontece no dia 8 de janeiro, sob observação de várias entidades internacionais.

Um dos principais motivos para os adiamentos, segundo o CEP, foi a dificuldade em montar postos de cadastramento nas favelas. O governo provisório dizia ser difícil devido aos ataques dos chimères. A oposição alegava ser falta de interesse em dar chance de voto aos seus redutos. A pacificação de Bel Air mudou o quadro. Até mesmo Cité Soleil, ainda uma área de conflitos, ganhou quatro centros de cadastramento.

"Definitivamente o povo está otimista e determinado a fazer algo mudar", diz o porta-voz do CEP, o jornalista Stéphane Lacroix, que ainda arrisca uma análise do país. "O sistema político aqui é diferente do Brasil, nada é tão simples como esquerda e direita. Há vários matizes de políticos e partidos, só nessa eleição são 45 partidos diferentes." Uma certeza se impõe na análise de Lacroix: "Só o processo democrático pode trazer paz ao Haiti."

Em um país que já teve dezenas de golpes de estado e décadas de diferentes ditaduras, a legitimidade das eleições é que dirá o grau de paz que o próximo presidente eleito terá. A questão é tão importante que os principais candidatos assinaram um termo de compromisso no qual afirmam aceitar o resultado das urnas seja ele qual for.

Como é fundamento básico das democracias, caberá à maioria, que nesse caso vive em Bel Air, Cité Soleil e tantas outras favelas do país, ditar esse resultado. Se essa nova oportunidade se frustrar, o Haiti irá condenar mais uma geração à mendicância, a repetir ao mundo "manger, manger".


Foto: Douglas Portari

Cometido por Douglas Portari às 00:11 1 comentários

de Theodoro da Silva Junior <theojr@terra.com.br> ocultar detalhes 09:36 (9 horas atrás)
data 03/06/2008 09:36
assunto REPORTAGEM:- CEL. RONCOLATTO - UM SOLDADO DA PAZ
 


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