A MISSÃO PAZ NO HAITI


Soldado brasileiro fala " linguagem do coração ", diz coronel.

" Os americanos querem saber a receita do sucesso brasileiro ", relata general.

Tahiane Stochero, enviada especial

Comandante Barroso Magno caminha com criança haitiane em Cité Militaire.

PORTO PRÍNCIPE - Em um enorme mercado a céu aberto em pleno centro de Porto Príncipe, crianças, insetos e porcos dividem o mesmo espaço com toneladas de lixo, em uma área de mais de 100 mil metros quadrados. Sentadas nas ruas, mulheres vendem em balaios e tendas desde roupas e alimentos até carne de animais recém-mortos. Para o espanto dos que observam a "cozinha do inferno", como o local foi apelidado pelos militares, de uma hora para outra uma dezena de mulheres forma um círculo e começa a dançar. Ao centro está um homem com capacete azul com o emblema da ONU, com um colete à prova de balas e com um distintivo do Brasil no braço. Quem lidera a "festa" é o coronel Cláudio Barroso Magno, comandante das tropas brasileiras no Haiti.

O cenário é de desolação, num lugar de impressionante beleza natural. Em Fort Dimanche e Jeremie, a miséria da capital haitiana lembra cenas africanas. Em meio ao caos, os militares brasileiros jogam dominó, distribuem cachorro-quente e fazem a festa com a criançada, vestidos de robô "Jauru Cop" e o jacaré "Panta", símbolo da tropa, cujos soldados são provenientes em sua maioria da região pantaneira.

Para o general Augusto Heleno Ribeiro, o primeiro a comandar a missão da ONU no Haiti, em 2004, o Brasil é um exemplo por ter sido supostamente o responsável pelo desmantelamento de gangues, e isso tem chamado a atenção de outros países.

"Já me chamaram aos Estados Unidos dezenas de vezes para dar palestras para explicar como o Brasil consegue acabar com a violência e conquistar a população no Haiti. Os americanos querem saber a receita do sucesso para poder aplicar no Iraque. Eu digo que o segredo é respeito e carinho. O segredo é ser brasileiro", diz o general Heleno.

O comandante das tropas do Brasil no Haiti, coronel Barroso Magno, vê um traço característico do brasileiro que, em sua opinião, o torna "diferente" dos soldados de outras nacionalidades: "Somos generosos e queremos o bem dos haitianos, dedicamo-nos de forma irrestrita e verdadeira". Ele afirma que os brasileiros aplicam a "linguagem que vem do coração, da verdade e do profundo sentimento de querer servir".

Em Bel Air, o líder comunitário Romeu René, 52 anos, parece grato aos brasileiros. Ele explica que há dois tipos de pessoas no Haiti, "as que querem matar e as que querem viver". Segundo ele, os brasileiros conseguiram unir a população, não só combatendo o crime, mas distribuindo ajuda e dando carinho e atenção. "Eles são diferentes dos outros. Eu sinto que eles entendem nossos corações. Eles querem a paz para o país", afirma.

Ajuda humanitária

Entre as ações humanitárias realizadas pelos militares brasileiros estão a distribuição de kits escolares, de água e de alimentação, a perfuração de poços artesianos, o asfaltamento de ruas e o atendimento médico e odontológico gratuito. Num país onde a média etária é de 18 anos, expectativa de vida é de 52 e o ganho da maioria da população é de menos de
US$ 2 por dia, isso pode significar alguma coisa.

Na base General Bacellar, sede das tropas, 34 crianças de quatro a 18 anos estudam línguas e informática e têm atividades esportivas. Ainda não é possível mensurar o resultado desse programa - que é acompanhado de estímulo a "valores patrióticos" do Haiti.

Haiti é laboratório para possível intervenção no Rio, admite Exército.

Operação permitiu prender e expulsar bandidos de favela; 'tudo que fizemos aqui foi planejado para lá', diz comandante

Tahiane Stochero, PORTO PRÍNCIPE

PORTO PRÍNCIPE - A seqüência de operações que desmontaram as gangues de Cité Soleil, a região considerada pela ONU como a mais violenta do Haiti, foi elaborada como laboratório das ações estudadas pelo Exército para aplicação contra o crime organizado e o narcotráfico no Rio de Janeiro.

A estratégia é baseada na integração entre os órgãos envolvidos, a ocupação simultânea de Quartéis Generais (QGs) das gangues e o crescente aumento das áreas de influência, seguido de ações político-sociais que resultem na melhoria da qualidade de vida da população e a conquista de corações e mentes - a simpatia da comunidade.

"O plano aplicado aqui está coerente com o que foi planejado para o Rio", afirmou ao estadão.com.br, em Porto Príncipe, o coronel Cláudio Barroso Magno Filho, comandante das tropas brasileiras na Missão das Nações Unidas para Estabilização do Haiti (Minustah).

"Mesmo que as operações realizadas no Haiti sejam específicas, elas têm conceitos estratégicos semelhantes aos visualizados para o Rio de Janeiro, particularmente a integração das ações e dos órgãos envolvidos, em todos os níveis. Isso é o que se buscou aqui na capital haitiana e por isso deu certo. Tudo o que fizemos aqui foi planejado para lá".

O Exército confirma a relação entre as duas frentes. "Do ponto de vista operativo, o Haiti tem sido uma escola sim", diz o Exército, salientando que "a experiência operativa" vivenciada lá "indica que a presença ostensiva e permanente das forças de segurança deve ser acompanhada de ações em benefício da população, como as desenvolvidas pela tropa brasileira em Porto Príncipe". Em outras palavras, a ação militar deve ser seguida de uma
ofensiva para conquistar "corações e mentes".

Pacificação de Porto Príncipe

A ação em Cité Soleil, bairro de 300 mil habitantes, foi consolidada na Operação Jauru Sudamericano, realizada em 9 de fevereiro em conjunto com outros países e a Polícia Nacional do Haiti, mas sob comando brasileiro. Segundo militares ouvidos pelo estadão.com.br, apesar das diferenças de cenário entre ambas as situações, o plano seria bem-sucedido também no Rio.

Carioca, Barroso Magno trabalhou no planejamento de operações do Exército no Comando Militar do Leste, no Rio. Ele percebe semelhanças entre as situações nas favelas fluminenses e em Porto Príncipe.

Em ambos os locais, o crime organizado dificulta a atuação do governo, e um arcabouço jurídico torna-se necessário para que a paz seja imposta pelas armas. No Brasil, contudo, para que o Exército possa ir às ruas, a Constituição manda que o governo estadual declare sua incapacidade no combate ao crime e que seja repassado aos militares, através de uma lei complementar, o poder de polícia.

Em 2004, no momento em que o Haiti enfrentava uma grave crise institucional, a ONU criou a Minustah. Com um mandato e regras de engajamento específicas, a missão atua contra o crime organizado e pela imposição da paz ("peace enforcement"), resguardando-se o Estado de Direito - ao menos na teoria. No Rio, deveria ocorrer coisa semelhante, apontam alguns militares. Poderia ser usada a recém-criada Força Nacional de Segurança Pública. A decisão, em última instância, é política.

"Com vontade política e integração não tem bandido que vença a sociedade",

afirmou Barroso Magno. "O que seria necessário no Rio é a integração das Forças Armadas com os órgãos de segurança pública na condução de operações militares e policiais, e com a participação e comprometimento dos diferentes setores da sociedade, governamentais ou não. Desta forma, não há organização criminosa que sobreviva. Só o trabalho conjunto daria certo", aponta Barroso Magno.

Exército na rua: revolta?

Militares ouvidos pelo estadão.com.br dizem que as Forças Armadas poderiam ter êxito em sua ação contra o crime no Rio usando o modelo do Haiti. Contudo alguns afirmam que não se sentem à vontade para atuar contra brasileiros e temem a revolta da população diante de ações especiais. Eles questionam se a população está realmente preparada para uma ação desse tipo.

"Que estamos preparados e que conseguiríamos ter sucesso, sem dúvida. O problema é que as coisas são diferentes lá [no Rio] e aqui [no Haiti]. Lá tem uma polícia e um governo instituídos. Aqui é um estado de exceção, onde a ONU interveio para conter o caos. São casos diferentes", aponta o comandante da Minustah, o general brasileiro Carlos dos Santos Cruz.

Um oficial que esteve no Haiti e que, de volta ao Brasil, atuou contra o Comando Vermelho no Morro da Mangueira, se disse contra o emprego das Forças Armadas isoladamente nos morros. "A gente subia o morro e a polícia ficava em casa, vendo TV", afirmou o militar, que não quis se identificar. "Se a ação do Exército for isolada, eu sou contra. Não é nossa atribuição fazer isso, é deles [da polícia]. Se for algo integrado, tudo bem. Que trabalhem juntos".

Outro militar, que também preferiu o anonimato, concorda com a necessidade de integração e lembra a atuação das Forças Armadas na Operação Guanabara, no carnaval de 2003. "A gente ia para a rua dar segurança, e a polícia ficava liberada para ir ao sambódromo fazer escolta de bicheiro.

"A integração entre polícia e Forças Armadas é delicada, mas sem integração não se faz nada. Veja só o que aconteceu no Haiti. A pacificação foi resultado de integração com outros órgãos, países e a Polícia Nacional, seguido de todo um aporte e ações socioeconômicas", diz o militar.

O medo dos militares recai sobre a exigência de um aparato jurídico para dar sustentação ao trabalho no Brasil. Para que isso ocorra, é necessário que o presidente da República assine uma lei complementar, dando às Forças Armadas poderes de polícia para atuarem em determinadas situações que não os compete atuar dentro do país, conforme a Constituição brasileira. Muitos oficiais e soldados que subiram os morros fluminenses em operações do Exército respondem a processos por abuso da autoridade que lhes foi instituída.

Semelhanças e diferenças

Na elaboração de uma operação militar, são levados em consideração cinco fatores: terreno, inimigo, tempo, meios e a missão.

Ao contrário do Rio de Janeiro, onde o crime está basicamente em terrenos de difícil acesso, em Porto Príncipe o terreno é plano. No Haiti o tráfico de drogas não é um dos eixos do crime, como nas favelas fluminenses. Os criminosos sobrevivem de seqüestros e de extorsão. Investiga-se a ligação com partidos políticos, mas, inicialmente, as gangues visam enriquecimento, poder e ascensão social. Outro diferencial seriam os meios empregados. Conforme autorização da ONU, as tropas podem usar a mesma arma com a qual foram atacadas. No Brasil, há limitações legais para isso.

Brasil tem maior contingente em força de paz no Caribe.

Atuando há três anos no Haiti, o Brasil possui o maior número de militares na Minustah, cerca de 1.200. Composto por pessoas de 40 países, a missão foi criada pela ONU em maio de 2004, após uma onda de protestos e violência em todo o país provocar a queda do presidente Jean-Bertrand Aristide.

Desde o início, o Brasil tem liderado operações contra o crime organizado no país caribenho, pacificando os bairros mais violentos da capital, como Bel Air, Cité Militaire e Cité Soleil. Todos os chefes militares da missão foram brasileiros. Essa é a quinta missão da ONU desde 1993 no Haiti, o país mais pobre das Américas.

Tahiane Stochero, enviada especial

A repórter viajou a convite do Ministério da Defesa e do Exército brasileiro.

 

Colaboração do Professor RICARDO ARRAES- Piauí.

De: "Theodoro da Silva Junior" <theojr@terra.com.br>
Data: Thu, 17 May 2007 14:38:16 -0200
Assunto: MISSÃO DE PAZ NO HAITI


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