Egito: o Berço do Ideal Imperial
Danilo José Figueiredo
danilo@klepsidra.net
Mestrando em História Social/USP


  2 – Tribos, Deuses e Migrações: O Período Formativo:

 

         Por volta do início do V milênio antes de Cristo, a situação de ressecamento climático iniciada no IX milênio já havia terminado de se consolidar, isso fez com que ao longo de quatro mil anos os animais migrassem para o sul e para o norte e os homens (outrora povos nômades de regiões propícias) se fixassem em torno de oásis ou à beira do Nilo.

         Os processos de migração ocorridos nesse período é complexo e igualmente confuso sendo que, possivelmente, nunca viremos a compreende-lo com perfeição. O que se sabe é que por volta de 4500 a.C. (ou talvez um milênio antes), várias comunidades estavam estabelecidas ao longo das margens do Nilo.

         Essas comunidades se dividiam em vilas que eram administradas por uma vila maior, formando espécies de ligas de vilas chamadas Spat, ou Nomo (em Grego). Caracteristicamente, essas sociedades deviam se agrupar a partir de uma mesma crença religiosa, ou seja, a partir de deuses em comum.

         Os deuses dos primeiros períodos da História Egípcia eram predominantemente zoomórficos, ou seja, constituíam-se de animais que, por uma ou outra determinada característica eram adorados. Por exemplo, aves poderiam ser adoradas por poderem voar, algo que possibilitava melhor locomoção e possibilidade de caça; crocodilos poderiam ser adorados por serem uma ameaça constante às populações que habitavam as margens do rio e, sendo assim, seu culto poderia ter o intuito de apaziguar seu ânimo destruidor; serpentes poderiam ser adoradas por razões semelhantes às dos crocodilos; bois e ovelhas, assim como vários tipos de animais, poderiam ser adorados por razões de alimentação e assim por diante.


        
O fato é que esses Spat construíam espécies de totens de seus deuses, com templos em sua homenagem e, também em sua homenagem, guerreavam uns contra os outros.  

         A consolidação de um Spat (ao todo, no Egito, existiam 44) era um processo complexo e demorado, mas, possivelmente se dava pela expansão das áreas cultiváveis de uma aldeia original, ou seja, na medida em que a população crescia, era preciso construir mais diques e mais casas o que vinha a criar novas vilas, porém, vilas ligadas a uma vila-mãe, capital do Spat.

         Até bem pouco tempo, algo denominado de “Hipótese Causal Hidráulica” era tido como sendo a melhor teoria para a unificação do Egito, ou seja, o país teria se unido sob a autoridade de um único governante para que assim, com a organização central dos recursos da nação, fosse possível construir obras de irrigação. Essa teoria é perfeitamente coerente e foi primeiramente proposta por Karl Marx, sendo descrita como “Modo de Produção Asiático”, ou seja, um Estado centralizado que emprega a mão-de-obra livre de seus habitantes para realizar grandes construções, em especial, obras de irrigação.  

         A teoria hidráulica da unificação do Egito, no entanto, não é mais muito aceita hoje em dia pelo fato de até o Médio Império (mais de mil anos após a data sugerida para a unificação do Egito) não haver sequer um documento Estatal que comprove o controle do Estado sobre os diques de irrigação, o que leva a crer que até aquele período tais obras fossem de caráter local.

       Bem, vejamos, derrubada a “Hipótese Causal Hidráulica”, podemos concluir que, muito possivelmente os próprios Spat haviam desenvolvido seus meios de irrigação para agricultura. Como a agricultura chegou ao Egito é outra questão complicada. Pode-se dizer que tenha sido por difusão através da Mesopotâmia, pode-se dizer que tenha vindo da África Central, pode-se ainda dizer que tenha sido descoberta paralelamente no próprio Egito, nunca será possível saber, mas também, essa não é exatamente uma informação relevante, na medida em que sabemos que havia agricultura no Egito pré-unificação.  


        
2.1 – A Etnia Egípcia Antiga:  

         Falar de etnicidade é sempre tocar em um ponto complicado e, muitas vezes tabu na nossa sociedade. Essa questão se torna mais importante na medida em que grupos minoritários começam a ganhar força e a reclamar os direitos que sempre lhes foram negados. Em contra-partida, grupos antiquados, racistas e protecionistas de sua mentalidade político-religiosa atrasada tentam sustentar preconceitos insustentáveis como forma de manter negros (e membros de outras etnias) longe de cargos e acontecimentos importantes da História.  

         Hoje existe na África um grupo cada vez maior de intelectuais negros que, como forma de compensar as humilhações sofridas ao longo de séculos pelos indivíduos oriundos do continente Africano, criaram uma corrente de pensamento conhecida como Pan-Africanismo. Segundo essa corrente, os negros não devem em hipótese alguma se envergonhar de suas origens e de sua cor, além disso, todos os Africanos, independente de religião ou de região, devem buscar origens negras que os legitimem como irmãos. É uma atitude louvável, mas, por um certo aspecto, perigosa, na medida em que pode vir a gerar, num futuro hipotético, movimentos semelhantes às doutrinas de superioridade racial surgidas na Europa dos anos 30.  

         Deixando suposições e previsões de lado, nos deparamos com um grave problema de cunho étnico: como determinar o biótipo do Egípicio antigo?  

         Alguns autores dirão que basta que se observe os Egípcios atuais para que se tenha uma idéia bastante aproximada de como eram os Egípcios antigos. Porém, essa recomendação é, no mínimo despropositada, seria o mesmo que determinar como eram os brasileiros do século XX a.C. observando os brasileiros do século XX d.C.. Não preciso dizer os absurdos que seriam cometidos, não é?  

         Pelo Egito, desde a unificação de seu território, passaram Núbios (possivelmente negros); Líbios (possivelmente Berberes); Judeus, Fenícios, Acadianos, Hititas e Assírios (com caracteres semíticos); Hicsos (com caracteres talvez Arianos); Persas e Árabes (com caracteres Médicos); Gregos (com feições balcânicas); Romanos (com biótipo latino); Ingleses e Alemães (com tipo ariano-saxão); Turcos (que originalmente tinham feições orientais) entre outros povos. Seria muito complicado dizer que tais populações passaram incólumes pelo Egito, sem deixar sua marca étnica na população; seria o mesmo que dizer que os Portugueses e Africanos não modificaram a população do Brasil.  

         Essa explicação foi toda feita para que se chegasse a uma conclusão: não se pode afirmar que a etnia Egípcia tinha os traços característicos das múmias dos Faraós porque estes eram membros de uma classe dominante e, justamente por isso, sem miscigenação com as classes mais baixas, além disso, muitas vezes o Faraó era o filho de uma esposa secundária de seu pai e esta, por sua vez, podia ser uma princesa estrangeira, o que também deixaria o Faraó sem os traços típicos da população comum. Não se pode, porém, como querem os intelectuais Pan-Africanistas, fechar os olhos às pinturas e mesmo aos caracteres das múmias e simplesmente assumir que a população do Egito antigo fosse predominantemente negra.  

         Para que não tomemos uma postura que possa ser considerada racista por qualquer parte, acredito que uma boa saída seria analisarmos as pinturas egípcias. Se o fizermos, poderemos ver que existem pessoas retratadas com a cor negra e pessoas retratadas com cores mais claras, lembrando o semítico original. Talvez essa seja uma saída para que determinemos a etnia do Egito antigo.  

         Outra saída seria assumir que a população Egípcia fosse de origem semítica ou berbere e, portanto, branca, sendo a população Núbia de origem negra. Isso explicaria, por exemplo, porque o Egito, mesmo tendo dominado a Núbia por tanto tempo e mesmo sendo esta região um prolongamento natural de seu território, nunca a tenha considerado como parte do Egito, apenas como domínios Imperiais, sendo que havia até uma espécie de Vice-Rei para a região, como se se tratasse de um domínio distante.  

         Uma terceira saída (se bem que passível de legitimação de preconceitos) seria assumir que o grosso da população Egípcia seria negro, mas que aqueles em posições mais elevadas seriam brancos, pois seriam descendentes de um grupo semítico (possivelmente de procedência Acadiana) que teria se estabelecido na região pouco antes da unificação. Essa teoria não é de todo descabida, visto que há indícios de que Acadianos tenham realmente se estabelecido no Delta do Nilo pouco antes da unificação do Egito e há, inclusive, aqueles que pensem (a meu ver erroneamente) que teriam sido estes Acadianos que teriam trazido ao Vale do Nilo a idéia de unificação política, idéia já consolidada na Mesopotâmia, de onde eram oriundos.  

         Particularmente, este autor acredita que a segunda hipótese aqui proposta seja a mais plausível, na medida em que explicaria a presença de negros (em quantidades não tão grandes) nas pinturas murais e também a não anexação da Núbia ao Egito propriamente dito, mas, tão somente,  aos domínios Egípcios.  
 

         2.2 – A Política dos Spat:  

         Agora que já delimitamos uma hipótese (que se não é verdadeira, ao menos é boa) de trabalho para a etnia Egípcia, partamos para o esclarecimento da política dos Spat e de sua evolução rumo ao período Pré-Dinástico.  

         Como organizações populacionais recém-estabelecidas nas margens do Nilo, os Spat precisavam de uma nova organização interna, uma vez que aquela das tribos nômades já não mais era útil.  

         Não é muito difícil de se aceitar que as sociedades se transformem em mais de quatro mil anos de existência, afinal, civilizações inteiras podem surgir, evoluir, entrar em colapso e desaparecer num período de tempo tão longo. Portanto, não é de se estranhar que os Spat tenham descoberto formas de se organizar gradualmente melhores na medida em que os séculos foram se acumulando.  

         Para poder realizar obras públicas, ainda que no campo do microcosmo (uma vez que já justificamos a derrubada da “Hipótese Causal Hidráulica” para o macrocosmo), os Spat precisaram organizar lideranças e estas, possivelmente foram escolhidas entre os chefes de família. É possível que mulheres tenham tomado parte dessas lideranças tribais, especialmente se levarmos em conta que pode ter havido um difundido culto Neolítico a uma grande divindade feminina em todo o Mediterrâneo Oriental (pelo qual o Egito é banhado), o que indica que a mulher deve ter tido uma importância muito mais destacada nas sociedades Neolíticas em geral do que veio a ter nas sociedades Arcaicas.


        
Pois bem, voltemos ao que estávamos falando, possivelmente havia conselhos de anciãos em cada Spat, anciãos estes que eram responsáveis pela organização dos recursos do Spat e por sua distribuição nas diferentes necessidades: principalmente o culto, a irrigação e a defesa.  

         Esse conselho, denominado Saru, era legitimado por assembléias populares onde, a priori, poderiam participar todos os habitantes do Spat (talvez excetuando-se as crianças). Essas assembléias, denominadas Zazat devem ter tido a função de levantar os problemas e necessidades da população, além de, talvez, ratificar as decisões mais controversas do Saru, como a decisão de atacar outro Spat, por exemplo.  

         É possível que entre as funções do Saru; por ser este composto de pessoas idosas que já não podiam trabalhar fisicamente; estivessem as obrigações religiosas. Dessa maneira, os membros do Saru seriam ao mesmo tempo governantes e sacerdotes dos Spat.  

         Apenas para um efeito de comparação com sistemas de governos que nos são mais conhecidos, podemos dizer que os Spat eram governados por uma Oligarquia Aristocrática assistida por uma Assembléia Popular, ou seja, em moldes rudimentares, uma espécie de Democracia com uma elite Aristocrática superposta.  

 

OFS(outras faces de Suez)
Sun, 09 Jul 2006 14:49:52 GMT
Rem."Theodoro da Silva Junior" <theojr@terra.com.br>

VOLTAR