EGITO -TERRA DE ENIGMAS


TERRA DE ENIGMAS

Fonte: Jornal do Brasil
Data: 23/10/05



Magia, mistério e história compõem o roteiro pelo Egito, ícone do turismo arqueológico.

Tutancamon, Nefertiti, Quéops, Ramsés. Personagens fantásticos de um enredo tecido com mistério e magia. Revisitá-lo nas pirâmides, templos, tumbas e museus egípcios é mais que uma viagem: é um culto à história, à vida e à morte. No fim do passeio, almas entre estupefatas e frustradas: nunca visita alguma será suficiente para desvendar os segredos e fascínios do lugar.

Muito mais que malas ou documentos, é preciso preparar o espírito para arriscar uns passos pela terra dos faraós, que espreguiça-se árida e bela no nordeste da África. Deserto rasgado pelas águas do Nilo e multidões de turistas, em eterna peregrinação rumo ao inapreensível. Pois, de certa forma, vãs são as mil explicações sobre como foram erguidos os enormes monumentos, a dissecação tintim por tintim das técnicas de mumificação ou os esforços por desmascarar lendas de pragas e maldições. Nada vai solucionar o principal enigma do Egito: uma espécie de encantamento que faz com que pisar aquelas terras seja sentir-se estranhamente em casa - venha você de onde vier.

Claro, a trivialidade dos cartões-postais estampando as pirâmides ajuda na identificação do visitante em relação ao país. As assombrosas construções andaram em moda por lá durante aproximadamente um milênio, entre 2.630 e 1.640 a. C. Já foram encontradas mais de 80 delas, mas três destacam-se pela 
imponência: as de Quéops, Quéfren e Miquerinos. São elas, junto com a esfinge e o museu do Cairo, o conjunto que mais seduz arqueólogos e turistas ao Egito.

Imponência que desafia a razão - As enormes pirâmides e esfinge deixam patente a complexidade da cultura egípcia.

Rigor geométrico derivado de um profundo conhecimento de matemática e astronomia. A complexidade da cultura egípcia fica patente nas pirâmides de Gizé, cidade colada ao Cairo. Perfeitamente alinhadas com os pontos cardeais, elas são um desafio à razão.

A maior delas, Quéops, mede, hoje, cerca de 137 metros de altura e tem 250 metros em cada lado da base. Estima-se que tenha sido nove metros mais alta (mas a idade e as intempéries cuidaram de encolher as medidas) e mobilizado 100 mil homens durante 20 anos para ser construída. Tanta majestade demandou mais de 2,3 milhões de blocos de pedra, cada um pesando, em média, duas toneladas e meia (mas alguns chegam a 70 toneladas).

Todos os números, porém, são pouco para descrever o assombroso monumento, que esconde no interior um emaranhado de surpresas, como os diversos corredores, a Grande Galeria e a Câmara do Rei. Caminhar pelas passagens que sobem e descem, ora sob luz intensa, ora imersas em escuridão, exige sangue frio. A respiração é difícil. O silêncio, uma ordem. A idéia de estar no meio de uma montanha de pedras gigantescas e milenares é apavorante. A tensão cresce a cada passo. Até que se chega a uma sala pequena, com cerca de 15 metros quadrados, de pedras escuras. É o sarcófago de Quéops. Frio na espinha.

Matutar sobre como tudo aquilo foi erguido é tarefa que intriga os cerca de 5 milhões de turistas que passam por ali todo ano. A foto em cima do camelo com a pirâmide ao fundo é daqueles inevitáveis lugares-comuns que todos trazem na bagagem.

Embora pareça mais alta que Quéops, por estar sobre um platô, Quéfren mede, hoje, 136 metros da base à ponta. Já Miquerinos é a mais modesta delas, com altura atual pouco acima de 62 metros.

Das três pirâmides, sempre uma está aberta ao público, sendo que Quéops só fica acessível algumas vezes por ano e é a que cobra mais caro pela entrada. Como múmias, estátuas e sarcófagos foram mandadas para museus, o que se vê no interior dos monumentos são o túmulo - espécie de caixa de pedra de tamanho pouco maior que um homem - e desenhos pintados na pedra, figurando desde o caminho do faraó rumo ao Paraíso até cenas de caçada, festas e trabalho.

Guardiã altiva de tantos tesouros, a esfinge intimida com o corpo de leão e a cabeça de gente. São 57 metros de comprimento, 18 de altura e muito enigma - onde raios foi parar o nariz da estátua, por exemplo?

Todos esses monumentos são deslumbrantes, sem dúvida. Mas não espere encontrá-los em uma paisagem desértica: a cidade do Cairo está logo ali, quase tocando - literalmente - as preciosidades históricas. Lixo, vendedores ambulantes e a proximidade excessiva com o meio urbano maculam a magia do lugar. Nem tudo é perfeito...

Se conferir pirâmides e esfinge de perto é imprescindível, visitar o Museu do Cairo não é menos importante. Afinal, é lá que repousam as riquezas que outrora adornavam os monumentos. Inaugurado em 1900 no estilo neoclássico assinado pelo arquiteto francês Marcel Dourgnon, reúne mais de 120 mil objetos, datados desde a pré-história até o período greco-romano. Entre as exposições atuais, pode-se ver a curiosa mostra de perfumes e cosméticos do Egito Antigo. Cuidados com a beleza que são nada mais que naturais, considerando-se um povo que parece buscar sempre a eternidade - seja nas construções de solidez monumental, no culto aos mortos ou na busca pela aparência sempre jovem, tão em voga nos dias de hoje.

As riquezas históricas do Egito, claro, não param por aí. O país é recheado delas, especialmente Nilo acima. Colossos de Memnon, Templo de Karnak, Deir-el-Bahari... A lista é grande. O valor, imensurável.

O fascínio dos contrastes - Depois de duas horas de vôo, o comandante anunciou pelo alto-falante: ''Preparar para o pouso''. Enfim realizaria o antigo sonho de conhecer o Egito. Claro que me sentia um pouco ressabiado, pois este era um país completamente diferente, desde a religião, os costumes, as roupas, a mentalidade, a comida até o modo de ver a vida, mas, ao mesmo tempo, esta grande diferença me fascinava. Nada importava: eu só queria entender os mistérios e desfrutar das surpresas que só existem neste lugar chamado Egito.

Já no aeroporto, as novidades eram gritantes: mulheres cobertas de véus, homens trajados com ''camisolões'', falando uma língua completamente diversa de tudo que já ouvira. Encontramos nosso guia e, ao longo do percurso até o hotel, as novidades continuaram. O trânsito era uma loucura! Milhares de 
carros caindo aos pedaços disputavam espaço metro a metro ao som de uma desagradável sinfonia de buzinas, interminável tormento. Dirigir no Cairo parecia uma missão só para ser desempenhada pelos nativos, como o nosso próprio guia Mohamed (nome óbvio, não?) explicava: ''Quase não existem 
sinais luminosos. Quando existem, não funcionam e quando funcionam, ninguém os respeita''.

Ao chegarmos no hotel, o impossível tinha se transformado em realidade: da janela do nosso quarto avistamos as tão famosas pirâmides de Gizé. Era uma visão dos deuses e melhor ainda poder oferecer tudo isto a minha mulher e meu filho, na época com apenas dez anos.

O guia nos sugeriu que fôssemos neste primeiro dia ao Museu Egípcio do Cairo. Na verdade, o que eu mais queria era tocar nas pirâmides, mas, meio a contragosto, acabei aceitando sua proposta. Sem a menor sombra de dúvida o museu é maravilhoso, contudo, duas partes são excepcionais: os tesouros de Tutancamon -- cujo ponto máximo é sua máscara mortuária entalhada em ouro maciço (sequer foi um dos faraós mais importantes, pois morreu muito cedo aos 18 anos de idade, no entanto, como sua tumba foi uma das raras a serem encontradas intactas - com todos os seus pertences - daí surgiu sua fama. Na verdade, praticamente todas as tumbas haviam sido saqueadas na própria época do Antigo Egito. A outra são as múmias com sua aparência desagradável e assustadora. Somente o processo de mumificação, quando o estômago, os pulmões, os intestinos e o fígado - eram retiradas do corpo e colocadas em quatro jarros chamados ''canopes'' e o corpo era todo desidratado, já era bastante curioso. Porém, o mais intrigante era que os faraós acreditavam mesmo que retornariam à vida, se este ritual fosse realizado corretamente, numa prova de que não há limite para a fé.

Depois de aprendermos tanto no museu, fomos jantar. Comemos um prato de cordeiro acompanhado de purê de berinjela com gergelim. Uma delícia! E, sem mais delongas, voltamos ao hotel. Como era bom poder deitar e apreciar as pirâmides iluminadas através da janela do meu quarto!

No dia seguinte, antes que o guia fizesse qualquer sugestão, afirmei que iria ver as pirâmides. Dito e feito. Pouco depois estávamos caminhando em torno da Quefrém, fotografando a Miquerinos e admirando a Queóps, a mais alta das três, com 146 metros de altura. Eu estava em êxtase! Nem sei quanto tempo passei ali deslumbrado, quase não acreditando que estava encostando minhas mãos em mais de 5 mil anos de história! Para mim foi uma realização estar diante da única das Sete Maravilhas que ainda resta no mundo.

Resolvemos conhecer o interior da pirâmide de Miquerinos. Foi um pouco decepcionante. Além de não apresentar grandes atrativos, com suas salas e corredores totalmente vazios, tive uma sensação claustrofóbica, como se todas aquelas toneladas de pedras fossem desabar em cima da nossa cabeça.

Ao sairmos, fui até o alto de uma duna e avistei as pirâmides com a cidade do Cairo atrás. Que contraste! De um lado, o deserto do Saara e do outro, a cidade ali, colada.

Demos uma volta de camelo, porém combinei antes o preço da ''descida'': já tinha ouvido falar que turistas desavisados aceitavam fazer um passeio por um preço bem em conta, mas quando terminava, era cobrado um valor exorbitante para descer do animal!

Fomos parar do outro lado, onde fica a bela e imponente Esfinge. Ali tirei o maior número de fotos, com a estátua em primeiro plano e as pirâmides ao fundo.

Partimos em seguida para o mais famoso e antigo mercado do Cairo: o Khan el-Kalili. Era mais um lugar surpreendente e fascinante, o paraíso das compras. Minha mulher quase enlouqueceu. Eram milhares de quinquilharias em uma infinidade de pequenas lojas, desde véus de seda e tapetes persas a panelas de bronze e pequenas pirâmides em metal. A pedra mais característica era o alabastro, bem branco, e o deus Anúbis (com cabeça de chacal), ou o deus Thot (com cabeça de íbis), ou mesmo a estátua de Nefertiti. Estavam por toda a parte, de todos os tamanhos, para todos os gostos. Papiros? Eram incontáveis.

Na hora de fechar a compra era necessário negociar muito. A pechincha faz parte da cultura desse povo, era uma verdadeira ''batalha''. Saímos de lá abarrotados de suvenires. Mesmo que não pudesse dizer que as peças tivessem sido baratíssimas, certamente o preço final acabou sendo bastante acessível.

No dia seguinte, fomos visitar a mais famosa mesquita do Cairo, a Mohamed Ali. Neste lugar, o respeito é vital: tivemos de tirar os sapatos para entrar e, mesmo não conhecendo o Alcorão, agradeci a Alá por ter dado a mim a oportunidade de estar ali e de, naqueles dias, ter visto e curtido tantos monumentos fabulosos.

Depois circulamos a esmo pela cidade. Ao passarmos pela Cidade dos Mortos, fiquei impressionado. O guia nos explicou que, apesar de não parecer, aquele local era um cemitério, só que muita gente vivia ao lado das sepulturas na maior pobreza. Apesar de me sentir estarrecido, essa informação reforçou minha tese de que o feio também faz parte das viagens e das culturas dos povos.

Voltamos ao hotel e fomos até a piscina. Chegava a ser engraçado estar me esbaldando dentro d'água sabendo que ali, a pouco mais de um quilômetro de distância, se iniciava o deserto do Saara.

Antes do entardecer, fomos à Esfinge para assistir ao show de luz e som. Sentamo-nos em bons lugares e aguardamos. De repente, tudo ficou escuro. Surgiu a voz possante do narrador, acompanhada de uma música forte e entusiástica. Pouco a pouco, as luzes foram se acendendo e, enquanto a Esfinge coloria-se de verde, as pirâmides ganharam um tom alaranjado. Quando a música atingia um ápice, a estátua de corpo de leão e semblante humano pintava-se de vermelho e a Sétima Maravilha do Mundo tomava tons de lilás. 
Naquele momento, pouco importava a história que estavam narrando. As pirâmides continuaram a mudar de cor, ora amarelo, ora branco, ora verde e o tom azul escuro, quase roxo, do crepúsculo dava o arremate final, tornando a imagem à minha frente em uma das mais belas visões que já tive em toda a minha vida.

Um lugar ao sol e uma pechincha sobre o Nilo - O espanto de um turista carioca ao se deparar com a cultura árabe é quase inevitável, muito embora o povo egípcio se considere bem semelhante ao brasileiro - na alegria, no desprendimento e no calor humano. A quentura, aliás, é um dos fatores de estranheza: o sol por lá parece arder de forma diferente, queimando sem piedade. Aliada à baixa umidade (na capital, Cairo, só chove dois ou três dias por ano), a alta temperatura vai sugando as energias e um breve passeio de meia hora exige o esforço de uma maratona. Assim, é extremamente importante levar alguma proteção para o sol -- no mínimo, um boné. O consumo de líquidos também se faz necessário, para repor a rápida perda.

Mas aí o turista é apresentado a uma outra faceta da sabedoria local. O comércio não usa etiquetas de preço nos produtos. O valor de cada item (até mesmo de um refrigerante) é dado pelo vendedor que, por tradição, joga o preço para o alto. Cabe ao consumidor pechinchar, até achar a justa medida. Isso vale tanto para suvenires (chaveiros, camisetas, perfumes) quanto para alimentos em barraquinhas. Outra tática usada pelo mercador é dizer que não tem troco e sugerir que o turista ''leve dois''. A menos que se tenha espaço em dobro na mala, o melhor a fazer é sair às compras com dinheiro trocado. A moeda corrente é a libra egípcia, mas o dólar é bem aceito em lojas, restaurantes e hotéis.

O marketing mais agressivo, contudo, emerge das tranqüilas águas do Rio Nilo. É comum os barcos de cruzeiro, lotados de turistas, serem abordados por dezenas de canoas ao mesmo tempo. Delas, camelôs atiram - com a precisão de arremessadores do basquete americano - colchas, mantas e tapetes diretamente na janela dos navios. Quando o viajante sai da cabine para ver o que está acontecendo, é saudado em várias línguas: ''Fifteen dollars! Quince dólares!''... Quem quiser regatear leva qualquer peça de tapeçaria por US$ 10. Os que não estão dispostos a gastar têm de devolver o produto janela abaixo.

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Assunto: EGITO-TERRA DE ENIGMAS 
Remetente: "Theodoro da Silva Junior" <theojr@terra.com.br> 
Data: Fri, 07 Jul 2006 21:40:46 GMT


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