MAIS DETALHES SOBRE O LIVRO

 Do CAP.Capelão "Cônego" JOAQUIM DE JESUS DOURADO J.J.DOURADO


Caros amigos - Boinas Azuis - FARAÓS do 10º Contingente :

Estou encaminhando, abaixo, uma pequena parte do livro ORIENTE MÉDIO - Batalhão 
Suez , escrito pelo Capelão "Cônego" JOAQUIM DE JESUS DOURADO ( J. J. DOURADO) - quem não se lembra dele? 

Este texto, parte do livro, trata de uma passagem triste acontecida com um dos nossos amigos que serviu nos primeiros meses da Missão, lá no Pelotão divisa com os Indianos ( alô Silvio!, alô Mochi! era lá no mesmo PELOTÃO de vocês). 
Será que alguém do 10º Contingente lembra desse episodio? Quem será era esse nosso companheiro do triste episódio? 

Não esquecendo que  o nosso amigo ARNALDO REINERT também tenha - infelizmente - passado por um momento muito parecido. Passagem, aliás, que ele mesmo divulgou no site - veja em 10º Contingente.

Eu espero que você possam gostar do texto em anexo e ao mesmo tempo relembrar daquele período de Fronteira e da Missão do Btl.Suez. Se alguém tiver interesse em mais outros textos do livro estou à disposição.

Lembro que esse livro a que me refiro, foi escrito e publicado pelo Capelão, no ano de 1963, logo depois que chagamos de volta ao Brasil, porém eu somente fui tomar conhecimento do livro quarenta anos depois, e foi um dos nossos companheiros do 14º Contingente (Israel Rodrigues Cruz) quem encontrou numa Livraria Sebo, (Presenteou) repassou ao Baçon, e eu tive a feliz idéia de tirar uma cópia "xerox" do livro. O exemplar original está à disposição dos interessados lá no Museu Soldados da Paz - 20º BIB - Bacacheri. 

Aguardo comentários sobre o texto. 
Um abraço, Theodoro 
 
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CAPÍTULO 12  

OLHOS ÚMIDOS 
 
Ainda não havia decorrido uma semana da nossa chegada ao deserto, quando me entregaram uma carta, vinda do interior do Paraná. Rasguei depressa o envelope, e comecei a ler... 

Certo rapaz, amigo de um soldado que viera conosco, pedia-me um grande obséquio. Dizia ele:

 “O soldado...é meu amigo. A senhora mãe dele, que vinha doente há muitos meses, acaba de falecer. O pai esquivou-se de dar a notícia ao filho com receio de que ele tivesse um inesperado choque logo ao pisar terras de Suez. Pediu-me que transmitisse ao filho a triste notícia.Não tive, porém, coragem de o fazer. Sinto-me aquém da missão. Pediria ao senhor, como sacerdote, que lhe desse a dolorosa notícia. A família dele é protestante. Ele também. Mas estou certo de que o Senhor terá palavras amigas e oportunas para minorar o choque que vai ferir o coração do meu amigo. Somos quase irmãos, desde criança nos conhecemos. Freqüentamos a mesma escola, os mesmos brinquedos, e, como rapazes, os mesmos caminhos...” 

Procurei localizar o enlutado filho. Soube que estava no 1º Pelotão da 9ª Companhia. Arranjei condução, e para lá me dirigi. 

A frente do Pelotão, estendia-se o deserto, então tapetado do trigo com poucos dias de nascido. Na tarde que morria, um tom de confrangedora tristeza. Pelo deserto afora, o mistério de um grande silêncio. 

Logo, identifiquei o rapaz. Estatura média, olhos castanhos, louro, feições de gente do campo.  Chamei-o à parte. Saímos os dois para distante das barracas. Adiante, perguntei-lhe: - Seu pai estava doente, quando você saiu de casa?... – O soldado arregalou os olhos cheios de espanto. 
 
Uma máscara de funda apreensão apregou-se-lhe no rosto. Continuei: - Tem tido notícias dele?...  -Diga senhor padre, meu pai morreu? Será possível?!...  -Não. Seu pai não morreu. – O pai estava sadio quando ele partira. Se não morrera, a notícia não podia trazer-lhe preocupações.  -Mas que é que o padre queria dizer?... – Indago: 
 
Sua mãe estava doente, não é?  -Sim, Doença incurável. Foi ela que morreu?...  Exatamente. Mas você é homem de fé, e sabe muito bem que nem um só fio do cabelo de nossa cabeça cai, sem que Deus o consinta e o permita. 

O rapaz desatou a chorar. Choro entrecortado de soluços. Tirei do coração as palavras que podiam ajuda-lo a suportar o peso da provação ali no deserto, longe de sua terra natal. Senti-o confortado. Voltamos ao Pelotão. Fiz que soldados e sargentos lhe dessem as condolências num abraço de irmão. Os olhos do rapaz pararam de chorar, ao sentir que os outros partilhavam de sua desdita.  Foi a primeira assistência social que registrara no meu diário. 
 
Ao findar a missa de hoje, lá fora os últimos raios do sol tingiam de ouro a pequenina torre de capela. Reparei que, junto do harmônio, ao lado do sargento organista, estava o sargento Cruz. Baiano, e protestante. Não me espantei, porque o sargento Cruz tratava-me sempre com respeito absoluto. Nem uma palavra injuriosa. Nem discussões descabidas. Nem comentários ofensivos ou mesmo apologéticos. A bordo, até, o vi algumas vezes assistindo à santa missa, com muitíssimo respeito. Agora notei que ele estava cantando. Isso me espantou com efeito. Acompanhado do harmônio por outro, cantava o Adeste, Fideles. E o sabia muito bem. Repetiu-o. O rapaz do órgão parecia que tocava com dedos da alma, enlevado nas notas do canto. O sargento Cruz mostrava-se empolgado no seu inesperado papel de cantor. Por certo, no seu templo, tomou parte muitas vezes no coro de vozes que conclamavam, naquela música, um pedido de adoração a Deus. 

Já me prostrara para a ação de graças. Agora o harmônio faria as primeiras notas do Noite Feliz. Fora o sargento Cruz que o solicitara. Repetiu-o várias vezes, como se sequioso de louvar, com sua voz cheia de saudade, o nome do Senhor. 

Ao terminar minhas orações, aproximei-me do grupo e comecei a cantar a segunda voz 
da inspirada canção do Natal.  

O quadro era deveras original. Um sacerdote, um protestante batista e um fiel católico a bendizerem, unidos no mesmo canto, a Jesus menino, o Messias, o Salvador da Mundo.  

À porta da capela, os “habibes” muçulmanos, fiéis de Alá, enchiam os olhos de 
prazer. Ouviam uma música do céu... 
 
CAPÍTULO  13 

TIJOLOS DE LADRILHO 
 
Escrevo aqui na capela, por onde entra um bonito sol de inverno, sol refrescante e bom. Dizem os soldados que não se pode comparar esse sol com a lua, porque o sol é homem e a lua é mulher. E homem é sempre homem. Conversa de soldado... 


De: Theodoro da Silva Junior 
Em 25 Jan 2005


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