O AMARGO REGRESSO DO ÚLTIMO CONTINGENTE DO BATALHÃO SUEZ


Capitão-de-Fragata Theophilo Symphronio do Couto Netto 

 

O AMARGO REGRESSO

Julho, 1967. A cidade do Recife acabava de receber, a bordo do NTrT, Soares Dutra, os componentes do último contingente brasileiro, da extinta Força de Emergência das Nações Unidas - UNEF. Foram 427 homens que testemunharam, amargamente, uma guerra fulminante.

A par da alegria de voltar ao Brasil, depois de terem encomendado a alma nas proximidades dos campos de batalha, eram homens frustrados, pois a missão não pode ser cumprida integralmente. 

Para a perfeita compreensão dos aspectos humanos e políticos da crise, façamos uma retrospectiva sobre a vida dos litigantes e a composição do contingente brasileiro, naquela ocasião. 

A CRIAÇÃO DA UNEF

A história de Israel começou, propriamente, no ano de 1200 aC, quando tribos israelitas povoaram a terra de Canaã. No ano 135 da nossa Era, os romanos expulsaram os judeus da Palestina e começou a via cruéis desse povo. Turcos, mongóis, árabes, cruzados e ingleses foram donos da terra, e o judeu teve que amargar a condição de apátrida, errando pelo mundo.

Entretanto, desde 1882, as correntes migratórias tentaram a reconstituição de Israel, sem lutar abertamente pela antiga posição, mas povoando em silêncio, evitando alardear seus sonhos de pátria. Os choques com os árabes foram sempre constantes, e eles jamais conseguiram a coexistência pacífica, mesmo nessa forma sutil de povoamento. 

Após sofrerem a perseguição nazista, que pretendeu exterminá-los, os judeus proclamaram a República de Israel, em 14 de maio de 1948. 

De 1949 a 1956, o judeu trabalhou seu solo, verdejando, com o trato agrícola dos kibutz, o quase indomável deserto de Naguev. 

Então, os povos da Liga Árabe ten­taram, ainda, varrer Israel do mapa, mas foram derrotados.

Com a intervenção da ONU, houve um armistício de caráter apaziguador e Israel voltou para os limites convencionais. 

Mas o tratado de paz não fora assinado entre os países, numa demonstração de desprezo árabe pelos judeus. Para a Liga Árabe, estes não compunham um Estado livre, mas uma coletividade indesejável. 

A Comissão de Armistício da ONU não havia encerrado, definitivamente, sua função, quando foi criada a Força de Emergência das Nações Unidas, composta de tropas de seis países da Organização. A finalidade dessas tropas era patrulhar a faixa de Gaza.

A FAIXA DE GAZA

Era uma fatia de Israel, ilhada entre este país, o Egito e o Mar Mediterrâneo. Suas dimensões aproximadas eram 50 quilômetros de litoral por 10 quilômetros de largura. Ali moravam 500 mil palestinos que noutros tempos se espalhavam pela antiga Palestina. 

Viviam como refugiados na faixa, nascendo e morrendo, em situação vexatória em Gaza. Sob intensa propaganda política do Egito. Seu único caminho de redenção era um diploma do Segundo Grau - curso médio -. com o qual poderiam ser matriculados numa Universidade do Cairo. Suas condições de vida eram precários e as ten­das abrigavam, mal, numerosos famílias indigentes. Por não terem ambiente de estudo em casa, era comum encontrar-se crianças e jovens, beira das estradas, estudando para a conquista da alforria. 

AS ATIVIDADES DA UNEF

A Força de Emergência das Nações Unidas era composta por contingentes do Canadá, Iugoslávia, Suécia, Dinamarca, Índia e Brasil. Dispunha-se ao longo da fronteira de Gaza com Israel e num trecho da fronteira entre Israel e Egito. 

É importante observar que as tropas não podiam pisar solo israelita, sob pena de repatriamento. Ficavam na fronteira, mas do lado egípcio, tendo Nasser como anfitrião. 

De 1956 a 1967, foram muitos os casos de repatriamento de praças, que foram encontrados apenas conversando com judeus. 

A par da função precípua da UNEF, a de evitar choques ou invasões de terras entre os dois países, tinha ela, também o seu papel de assistência social.Assim, era rotina os pelotões de Forte Robinson e Forte Saunders percorrerem as vizinhanças, distribuindo água de carro-pipa, àquelas famílias paupérrimas que pontilhavam solo egípcio. Os arabiques -  como os brasileiros tratavam os palestinos - eram grandes admiradores de nossos homens, pela bondade e simpatia que os brasileiros demonstravam. 

O Brasil espalhou seus componentes em dois fortes - Robinson e Saunders - e quatro campos: Rio de Janeiro, Santa Catarina, Brasil e Rafah. Os limites eram demarcados com tonéis de óleo vazios, intervalados ao longo de toda a fronteira. 

Os canadenses eram conhecidos pelos arabiques como homens enquadrados ao máximo ríspidos com eles, no trato costumeiro. 

Um dos graves problemas da UNEF era evitar que os fios das comunicações fossem roubados pelos ladrões do deserto, na calada da noite. Vários ladrões foram apanhados pelos brasileiros, e muitos deles alvejados pelos irritados canadenses. 

Certa ocasião, antes da guerra eclodir, um tenente brasileiro se viu cercado por tropa mal encarada, de beduínos que tentavam ultrapassar a fronteira. Depois de um diálogo difícil,  grupo brasileiro notou que os arabiques estavam perdidos, e deu-lhes orientação adequada para o retorno. Mas o tenente e seus homens quase foram sacrificados. 

A eficiência dos brasileiros pode ser atestada por um detalhe: nossa quota de fronteira era o dobro daquelas entregues aos indianos e suecos, mas, enquanto tínhamos 427 elementos, os Indianos tinham 1300, e os suecos outros tantos. E nenhuma ordem deixou de ser cumprida pelo Brasil. O reconhecimento dessa verdade foi oficializado pelo general indiano, que comandou a última força: no ato de entrega de medalhas, no Porto de Ashdod, disse que os brasileiros eram os que mais mereciam a condecoração. 

Como se não bastassem os trabalhos de patrulhamento e de assistência social, um fato vinha agravar os movimentos do Batalhão: estradas que desapareciam da noite para o dia, sob tempestades de areia. Depois, portanto, era necessário o trabalho de “arqueologia”, até que as estradas brilhassem, novamente, sob o sol do Naguev. Os homens que serviam no QG do Estado-Maior da UNEF tinham contatos com os complicados problemas de logística, mas, por outro lado, se viam a braços com os pequenos problemas de costumes. Por exemplo: um oficial brasileiro entrava numa sala do Comando, onde havia subalternos indianos, brasileiros, canadenses e iugoslavos. Os canadenses permaneciam sentados, os indianos se curvavam, os brasileiros se levantavam e os iugoslavos se ajoelhavam. Era delicada a situação, pois não admitimos que homens andem de mãos dadas no Brasil, o que acontecia sempre na tropa indiana. 

Tudo ia sendo levado de modo satisfatório, quando os acontecimentos, políticos vieram transformar o destino de nosso contingente. 

A RETIRADA DA FORÇA

No dia 17 de maio de 1967, o Presidente Nasser mobilizou o Egito, que contava com a Síria, a Jordânia e o Kuwait como aliados de guerra. 

Apoiado nas informações russas sobre Israel, e com o espírito carregado do ódio ancestral, disse na televisão que soara a hora da grande “limpeza”. Como, até então, a UNEF gozava de sua hospitalidade, dirigiu-se a ONU, solicitando a retirada das tropas do território egípcio. 

A 19 de maio o Secretário Geral U Thant, depois de controvertida reunião em Nova Iorque, acedeu ao pedido de Nasser, com uma diferença: determinou que a UNEF fosse evacuada, não apenas de território egípcio, mas também da península do Sinai, o que equivalia à ordem de extinção daquela Força. 

Os preparativos: para a retirada da tropa brasileira começaram, então, e todos estavam garantidos pelo Presidente Nasser, até o dia 21 de junho, como “hóspedes do Egito”.   O DIA “D”  Entretanto, eram outros os planos em Tel-Aviv. No dia 5 de junho, de 1967, às 9 horas da manhã, os judeus colocaram no ar uma aviação de rara eficiência. Jatos Mirage, de fabricação francesa, cortavam o espaço aéreo com destino à principal base egípcia. 

Em poucos minutos de guerra surpreendente, cerca de 400 aviões Migs russos, da Força Aérea do Egito, foram dizimados em El Arish, sem terem a oportunidade de sair do solo. 

Ás 10 horas, o Comando do Contingente Brasileiro do batalhão Suez deu ordens de construir trincheiras para defesa do pessoal e de preparação para evacuar a área até á meia-noite. Todo o material portátil deveria ser posto nos caminhões, e, depois de embarcado o essencial, os objetos pessoais poderiam ter sua vez. 

Era desolador ver tanto suor, tanto sacrifício jogados fora. Os campos estavam muitos bem arrumados. A pintura era nova e os jardins foram carinhosamente tratados pelos brasileiros, que ali se revezavam por mais de dez anos.

Mas era a pele que estava em jogo, e não a saudade do panorama. Cada um pensava em si, com o instinto de conservação presente em todas as ações. 

O fogo continuava, ao longe. Até então, não sentiam cheiro de pólvora, mas apenas ouviam o troar de canhões e o silvo das esquadrilhas israelitas que sobrevoavam os campos, de passagem para o Egito. 

O capelão do contingente, Monsenhor João Pheeney, percorreu as trincheiras para abençoar os “meninos” e afiar-lhes o moral, tendo sido personagem de um episódio original.

ADEUS ÀS HÓSTIAS

Ás 11h l5min. do dia cinco teve início sua última missa em Gaza. 

Todos se preocupavam em encher os caminhões e viaturas para a retirada, de modo que, a essa missa, apenas com­pareceu o soldado Miguel, seu ajudante. 

Meia hora depois, ao ite, missa est, o capelão foi surpreendido pelos acontecimentos: a retirada marcada para a meia-noite, seria feita já, naquele momento. 

Sem jamais ter tido vocação de iconoclasta, o capelão correu para o altar, a fim de destruí-lo, para evitar uma provável profanação pelos muçulmanos. 

Não restou pedra sobre pedra. 

Depois, tomou a imagem de Nossa Senhora Aparecida, abraçou-a e levou-a para seu quarto, numa das alas dos dormitórios do campo. 

Novamente se precipitaram os acontecimentos... 

À entrada do quarto começou o fogo cruzado, e uma rajada de metralhadora queimou seu rosto, sem feri-lo. 

A preocupação do padre, nessa hora, voltou-se para as quinhentas hóstias,- já consagradas, contendo, portanto, segundo a religião católica, o corpo e sangue de Cristo. Assim, só poderiam ser tocadas por um sacerdote. Rastejou até a capela, pegou o cálice com as hóstias e começou a consumi-las. 

Depois de umas 100 hóstias mastigadas e engolidas rapidamente, o capelão precisou de tempo para se refazer. Foi quando um soldado, inocentemente, rastejou até o padre, oferecendo-se “para ‘comer o resto...”  

FOGOS CRUZADOS

O Campo Rafah ficava na fronteira entre Israel e Egito, e nele se concentrou todo o contingente brasileiro.

As tropas de Israel avançaram com extrema rapidez, no movimento de “pinça”, envolvendo as tropas egípcias pelos flancos. Os blindados que passavam céleres nas estradas, não pediam licença. Se um carro estivesse na frente de um blindado, este passava por cima, transformando o obstáculo numa pasta amorfa, com seus ocupantes. Nossos homens contaram mais de 100 carros tipo esporte, que foram desintegrados pelas forças blindadas de Israel.

Nesse avanço insólito, os judeus invadiram a faixa de Gaza, limpando-­as dos fedains, que eram os palestinos ativistas, armados pelos egípcios. A Cidade Khan Yunis, que sempre foi considerada bastião da Palestina, quase inexpugnável, foi arrasada em pouco tempo. 

Nessa altura do terreno, os judeus estavam de um lado do Campo Rafah, enquanto os egípcios os esperavam do outro. Com o Campo Rafah dividindo os fogos, nenhum brasileiro pode pensar mais em retirada, e todos ficaram, pelo espaço de dois dias e duas noites, na obrigação de rastejar para não morrer. Dentro do campo, todos deitados. Fora dele, as baterias adversárias se dizimavam. 

Nessa espera cruciante, o cabo-enfermeiro Adalberto Ilha de Macedo levantou-se para determinada missão quando foi varado por uma bala perdida. Não houve socorro que o salvasse por mais rápidos que fossem seus companheiros em medicá-lo. 

Quando as posições egípcias foram destruídas, um pelotão judeu ocupou Campo Rafah e seus componentes ficaram abismados ao encontrarem ali o contingente brasileiro, pois disseram que imaginavam no Cairo, há muito tempo.  

A VER NAVIOS

Antes de iniciar o conflito, em meados de maio de 1967, o Navio-transporte Soares Dutra deixara o porto do Rio de Janeiro com 2.800 toneladas de café para o Entreposto Comercial de Trieste, Itália.

Já no final da sangradura Rio-Recife, o barulho que vinha do Oriente Médio fazia-nos presumir a retirada do contingente brasileiro de Gaza. 

O navio recebeu ordens de municiamento especial de mantimentos, na previsão de possível emergência. 
Ao arribarmos em Las Palmas, o acirramento no Sinai atingia os contornos reais. Nas proximidades de Malta, a guerra dos seis dias já havia acabado.

Nas últimas horas do dia 10 de junho, entrávamos em Port Said, sob grande alívio da tripulação: desde que atravessáramos o Estreito de Gibraltar, até aquele momento, não havíamos cruzado com qualquer embarcação no Mediterrâneo. Todos evitavam o Mare Nostrum, por sabê-lo vizinhança do teatro de operações.

Mediterrâneo: Mar relativamente raso e quase fechado que separa a Europa da África e se estende por cerca de 3.300 Km, desde o Estreito de Gibraltar, no Oeste, até Israel, no Leste. Secília; Sardenha; Córsega: Creta e Chipre. São suas maiores e mais importantes Ilhas. Seus principais braços são: o Mar Adriático e o Mar Egeu, este último, ligando indiretamente ao Mar Negro. 

Também os egípcios ficaram surpresos com a nossa presença em Port Said: no calor de tantas batalhas, as autoridades locais não sabiam do destino do Contingente Brasileiro da UNEF. Fizeram-nos arriar os dois ferros e obrigaram-nos à amarração pelas alhetas, nos dois bordos, enquanto iam à busca de “instruções do Governo” E, por via das dúvidas, no aconselharam a cumprir rigoroso black-out. 

Segundo o Imediato, Capitão-de­Fragata Santos Viana, ficamos, então, a ver navios. 

A 11 de junho de 1967, o Ntrt. Soares Dutra comemorava o 102º aniversário da Batalha Naval do Riachuelo, de modo singular: a mesma natureza do Domingo da Santíssima Trindade, o mesmo silêncio o mesmo sol. Porém, com um décor especial: minaretes ao longe, muitos deles, e metralhadoras apontadas para nosso navio, sobressaindo-se dos ninhos feitos de sacos de areia. 

Foi lida a Ordem-do-Dia. O Comandante, Capitão-de-Mar-e-Guerra Hélio Marroig de MeIlo, evocava lembranças históricas e nos pedia solidariedade aos irmãos do Exército, que esperavam por nós. 

À tarde desse mesmo dia, sem que tivéssemos podido pisar aquele solo, recebemos, do Rio, instruções do Estado-Maior da Armada, a fim de que nos dirigíssemos a um ponto de Israel, cujas coordenadas nos foram dadas. 

Grande perplexidade. Latitude e longitude cruzavam numa área proibida, Ashdod Yam, sem qualquer indicação de presumíveis instalações portuárias, o que, talvez, impossibilitasse a atracação. Aventamos a utilização de batelões e nos preparamos para isso, com o pessoal de manobras reforçado pela Faxina do Mestre. 

A TERRA PROMETIDA

12 de junho. Por volta de 14 horas, enquanto o navio se aproximava de terra, com os navegadores desconfiados, Ashdod se ia delineando, surpreendentemente, em nossas retinas: um dos mais bem aparelhados portos que conhecêramos. 

Armazéns, guindastes, tomadas de água e óleo, redes modernas de abastecimento, conforto, logística perfeita. 

No cais, o contingente brasileiro da UNEF. 

A disciplina militar quase não conseguia sopitar as manifestações humana daquele grupo. O contingente se acotovelava no cais, espremido pelo stress da guerra, das privações e da insegurança que pontificavam depois de tantas contramarchas. 

Atracamos. Arriamos a escada de portaló. 

A invasão do navio foi comovente. 

O primeiro a subir foi o Cabo Silva, que se ajoelhou no meio da escada e beijou a madeira:  Viva a Marinha ! 

A resposta foi de quase todo o contingente: Viva !!!

Seguiram-se muitos, que beijavam o :casco e gritavam “Viva!!!” O navio, para eles, era a vida, que acabava de ser reconquistada.    

DOCE REGRESSO

13 de junho. Regressávamos. Para onde? O destino original do navio seria Trieste, pois uns 2 mil 800 toneladas de café estavam sendo esperadas com ansiedade, pelo Entreposto de Trieste. 

A tripulação se adaptara aos novos “inquilinos“. Se bem que estes encontrassem dificuldades naturais de entrosamento, como o jogo do navio, a rotina do mar e a exigüidade do espaço, havia uma harmonia excepcional, sem qualquer manifestação de estranheza. A marujada exultou, quando o Comandante, após receber as instruções do Brasil, que determinava as rotas seguintes, Trieste como porto de destino, antecedida por “licenças higiênicas” para a tropa, como Augusta, na Sicília, e Bari, no “calcanhar da bota”. Antes de tudo, porém, arribamos na Ilha de Chipre, para recolher uma pequena parte do contingente, que lá ficara. E tudo aconteceu, conforme as escrituras. Cabelo curto. Uniformes limpos. Moral elevada. Disciplina de exportação. Foi muito interessante ver o Exército Brasileiro, perfeitamente encaixado na rotina dos navios de guerra. 

E assim chegamos ao Brasil. Em Porto Alegre, onde a tropa foi desmobilizada, os soldados foram recebidos como heróis, num regresso de guerra. 

Entretanto, os homens do último contingente brasileiro do Batalhão Suez teriam doado muito de sua alegria - alegria de redenção, de retorno à vida - para mitigar as dores do casal que ficou chorando pelo Cabo Adalberto Ilha de Macedo. Que era filho único. 

Colaboração do Cabo Theodoro da Silva Junior - 10ºCont. Btl.Suez -Ponta Grossa/Pr  


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