MBT NAS GUERRAS ÁRABES - ISRAELENSES


 

MBT israelense Merkava Mark 4, de última geração.

"Os heróis das Forças de Defesa de Israel não são
seus generais, mas seu pessoal de manutenção."

Alistair Buchanan, Presidente do Instituto
de Estudos Estratégicos Britânico


 

UMA HISTÓRIA DO CORPO DE MATERIAL BÉLICO DE ISRAEL

ORIGENS
A oposição árabe aos judeus na Palestina iniciou-se após a Declaração Balfour em 1917, que apoiava a idéia de uma pátria judaica ali situada. Na década de 20, houve uma séries de agitações e motins no território da Palestina, então sob o governo britânico devido a um Mandato da Liga das Nações.

Em 1936, uma revolta árabe levou o governo britânico a recomendar a partição da região entre árabes e judeus (aprovada em 1947 pela ONU, mas rejeitada pelos árabes).

Quando se tornou claro que os britânicos pretendiam sair da área nos meados de maio de 1948, os líderes judaicos decidiram implantar unilateralmente a partilha da região, criando o
Estado de Israel no dia 14 de maio de 1948.

As origens do Corpo de Material Bélico das
Forças de Defesa de Israel remontam à organização militar denominada Haganah, fundada em 1920 como um grupo de auto-defesa dos judeus na Palestina. Embora ilegal, já em meados da década de 30 virtualmente todos os membros das comunidades judaicas faziam parte da organização.

Este exército improvisado lutava ao lado dos ingleses para controlar os motins árabes na Palestina, tentando proteger os primeiros kibutz.

As lideranças da Haganah logo concluíram sobre a necessidade de obterem armas modernas, incluindo blindados. Com os britânicos ainda dominando a região, tendo sido imposto um embargo de armas destinadas aos judeus, este objetivo tornou-se quase impossível de ser alcançado por vias legais. Foi decidido, então, em
1941, a criação de uma unidade de material bélico, destinada a obter, manter e prover armamento e munição de forma clandestina. Esta unidade foi o embrião do futuro Corpo.

Muitas armas foram desviadas do arsenal britânico, algumas vezes com apoio de militares simpatizantes à causa judaica. Os primeiros blindados foram assim obtidos, alguns tendo sido montados a partir de partes subtraídas dos depósitos de material salvado. Estes ferros-velhos foram, da mesma forma, a principal fonte de peças de reposição durante os primeiros tempos do nascente Exército Israelense. Notadamente, os primeiros elementos de material bélico improvisaram sobre restos de material, transformando-os em instrumentos de combate, eficientes, embora limitados.

O recrudescimento da situação na Palestina após o término da II Guerra, com o levante dos árabes contrários à criação do Estado de Israel, aumentou a necessidade de proteção aos comboios destinados às comunidades isoladas na região montanhosa sob controle árabe.

A cidade de
Jerusalém também estava ilhada, somente sendo atingida por meio de uma estrada de difícil trânsito, a partir de Tel Aviv. Os comboios de ajuda a essas localidades eram freqüentemente emboscados, passando a exigir uma escolta armada.

Nesta missão, ante a inexistência de blindados, os israelenses começaram a blindar seus caminhões, criando as chamadas "borboletas", viaturas cujas laterais eram cobertas com chapas de aço, sendo-lhes colocadas grades de proteção superiores, que se assemelhavam a asas.


A GUERRA DA INDEPENDÊNCIA (1948-49)

No dia seguinte à declaração da independência do Estado de Israel, exércitos de países árabes, que rejeitaram a decisão da ONU que criava o novo país, invadiram seu território a partir de todas as suas fronteiras, iniciando a chamada
Guerra de Independência.

A luta foi travada em diversas frentes simultaneamente. No norte, as recém-criadas Forças de Defesa de Israel enfrentaram sírios, libaneses e a
Frente de Libertação Árabe; no centro, a Legião Árabe; no sul, os egípcios. A cidade de Jerusalém foi cercada, travando-se um batalha contínua para suprir seus habitantes.

Os israelense travaram uma batalha estratégica em linhas interiores, com todo o desespero de quem tenta resistir ao estrangulamento. Em contraste, as forças árabes foram mal coordenadas,  tendo sido incapazes de um esforço unificado.

Durante a Guerra, os elementos de material bélico lidaram com um vasto arsenal improvisadamente reunido. Tiveram, ainda, que enfrentar o problema do desgaste do material empregado, devido ao mau uso, negligência ou manutenção não apropriada.

O ano de 1948 viu o nascimento do Corpo de Blindados, com a organização da 8ª Brigada Blindada. Esta denominação foi um tanto prematura, já que a unidade contava somente com cerca de 100 viaturas adaptadas.

Entre estas novas armas estava uma adaptação das Dodge 4X4, reforçadas com uma ligeira blindagem e com uma torreta onde era montada uma metralhadora, normalmente uma MG 34.

Tanques eram necessários com urgência, contudo. O Governo israelense enviou, então, comissões de aquisição ao redor do mundo para obterem o tão necessário material. Estas tiveram pouco sucesso, ante a limitação de recursos e por limitações de ordem política.

Os único blindados que obtiveram foram tanques leves franceses Hotchkiss, datados de antes da II GM, armados com canhões
37 mm. Estes eram, contudo, melhores do que qualquer outro carro existente em Israel; pelo menos, eles possuíam o canhão original e munição suficiente.

Neste período, o armamento individual israelense era bastante variado, incluindo fuzis Mauser 98 e Enfield .303, carabinas italianas, metralhadoras-de-mão Sten (fabricadas localmente) e Thompson e metralhadoras MG 34 Spandau e Bren.

Posteriormente, a metralhadora checa MG 38 Besa tornou-se a principal arma de apoio dos batalhões de infantaria. Morteiros 81 mm provinham apoio de fogo de artilharia, sendo substituídos posteriormente nesta missão por canhões 65 mm de montanha. No final de 1948, as brigadas receberam um pelotão de morteiros 120 mm.  

Os árabes não conseguiram impedir o estabelecimento do Estado Judeu na Palestina. A guerra foi encerrada por um armistício patrocinado pela ONU, tendo os israelenses conseguido definir as fronteiras de seu território original.

 
A EVOLUÇÃO

Após o armistício de 1949, as FDI passaram por sua primeira grande reorganização. O Corpo de Material Bélico foi criado, passando a incorporar todo o sistema de manutenção.

O material também foi reformulado. Ainda fazendo face a grandes restrições econômicas, soluções improvisadas tiveram que ser tomadas.

A fim de substituir os carros Hotchkiss, cujo desempenho na guerra fora lamentável, foram adaptados tanques
Sherman M4, em uma engenhosa versão. Estes carros, adquiridos na Itália em antigos depósitos americanos, tinham sido canibalizados antes da venda, tornando seus canhões inoperantes.

Para substituí-los, foram encontrados alguns tubos de canhões Krupp
75 mm M911 em bom estado e com abundante munição. Mas estes não possuíam o mecanismo de culatra, que, mais uma vez, foi adaptado, a partir de restos de obuseiros 105 mm. A solução final foi um tanque M4 com canhão alemão e mecanismo da culatra norte-americano.

Para complicar ainda mais, por ser uma arma originariamente de artilharia, a trajetória de suas granadas era muito alta, indesejável para tiros contra alvos móveis. A técnica de tiro foi, então adaptada da do tiro direto de artilharia, com efeitos questionáveis.

Posteriormente, novos 17 carros M4 foram adquiridos, desta vez completos, a partir de depósitos nas Filipinas.

A atitude francesa diante de Israel mudou drasticamente com a intensificação dos conflitos na Argélia, onde os nacionalistas recebiam claro apoio egípcio. Em uma manobra destinada a desestabilizar o Governo do Egito, a França concordou em fornecer aos israelenses os modernos AMX-13, dotados com o canhão 75 mm, e alguns Sherman M4A1 dotados com o canhão 76.2 mm, que saíam de serviço no Exército Francês, considerados ainda modernos à época.

Foi fornecida, também, grande quantidade de munição. A entrega destes carros foi coberta de grande sigilo, tendo sido desembarcados de navios da armada francesa em praias escondidas no norte de Israel. Esta operação reforçou o Corpo Blindado Israelense com mais de 250 carros, que eram ansiosamente esperados para aparelharem as três brigadas blindadas que estavam sendo formadas.

Enquanto estes carros eram, desembarcados, outra operação secreta estava sendo levada a cabo: a modernização do Sherman M50 - um exemplo de como a engenhosidade de técnicos e combatentes, postas lado a lado pode gerar grandes frutos.

A idéia original derivou do conceito britânico, adotado no final da II Guerra Mundial, de montar um canhão de 17 libras na torre do Sherman, o que obteve excelentes resultados em ações contra os tanques alemães Tigre e Pantera.

A soldagem de uma caixa de aço à retaguarda da torre e o deslocamento dos munhões do canhão para frente permitiam o seu maior recuo e o equilíbrio da torre. Agora, os oficiais de material bélico faziam face a problemas similares com soluções similares.

Na época, os franceses desenvolviam o canhão 75 mm de tiro rápido, que era, na verdade, uma evolução do canhão alemão 75 mm Kwk 42 (L/70). O canhão francês proporcionava uma velocidade inicial de mais de 1.000 m/s para munição anti-tanque, o que o tornava o melhor canhão do mundo na época. As autoridades francesas concordaram em vender o precioso canhão a Israel. Mas onde montá-lo?

Os Sherman eram bastante apreciados pela FDI, em especial por sua performance no ambiente desértico. Suas tripulações e equipes de manutenção já eram bastante proficientes nele. A solução óbvia parecia ser a montagem do canhão francês nas torres dos M4.

Esta solução parecia mais fácil de ser dita do que executada, no entanto. Uma missão técnica foi enviada ao Arsenal de Bourges na França em 1954, onde desenvolveu um protótipo, seguindo as linhas gerais da solução britânica anterior.

Ao invés da caixa de aço existente na versão inglesa, um peso de chumbo foi soldado à retaguarda da torre, como contrapeso. Muitas modificações foram feitas até que "experts" no combate de tanques foram levados ao campo de provas para testá-lo.

O conceito final do carro foi estabelecido a partir de necessidades de ordem tática e técnica específicas para os israelenses.

Após uma série de novas modificações, em especial nos mecanismos de recuo, estava pronto o
Sherman M50, com os primeiros exemplares tendo sido entregues nos meados de 1956, às vésperas de uma nova guerra.


A CAMPANHA DO SINAI DE 1956

A despeito da assinatura do armistício em 1949, dando fim à Guerra de Independência, nenhum acordo formal de paz foi assinado entre Israel e seus vizinhos árabes, o que levou à rápida deterioração das relações entre eles.

Incursões através da fronteira, ataques dos guerrilheiros "
fedayeen" e ondas de sanções econômicas contra Israel estavam na ordem do dia. Extra-oficialmente, havia informações de que estas ações eram parte de um plano coordenado pelos países árabes.

A conquista do poder no Egito por
Gamal Abdel Nasser em 1952 fez nascer uma nova onda de hostilidades contra Israel. Em 1955, Nasser realizou uma grande aquisição de armas em países do Bloco Comunista.

Em seguida, contrariando os termos do armistício de 1949, mandou bloquear aos navios israelenses as águas internacionais, em especial pelo
Estreito de Tiran, seu único acesso ao Mar Vermelho e ao Extremo Oriente.

A formação de um comando conjunto sírio-egípcio em 1955 somente poderia ser visto como uma nova e séria ameaça contra Israel. Por outro lado, o apoio egípcio à Frente de Libertação Nacional na Argélia fez crescer o apoio francês aos israelenses. Este apoio deu-lhes uma confiança de que não seriam abandonados em um novo conflito contra os árabes, como o tinham sido em 1948.

Em conseqüência, o Governo de Israel começou a elaborar planos para um ataque preventivo contra o Egito no ano de 1956, objetivando liberar o Estreito de Tiran e destruir bases dos "fedayeen".

A nacionalização do
Canal de Suez em 26 de julho de 1956 provocou uma imediata reação franco-britânica para liberá-lo, dando a Israel a oportunidade para lançar sua ofensiva contra o Sinai, em coordenação com os europeus.

 


Canal de Suez visto de satélite.
 

A Península do Sinai constitui-se em um istmo triangular separando os territórios do Egito e Israel, com cerca de 150 km de extensão desde seus extremo leste até o seu limite oeste, o Canal de Suez. Suas partes central e norte são excelentes terreno para as ações dos blindados.  

No entanto, esta mesma área apresenta algumas posições que, se defendidas, podem impedir a progressão de forte inimigo, impedindo-o de penetrar as regiões facilmente manobráveis no interior.

A rede de estradas é bastante limitada. A região é pouco habitada, com poucas vilas. As poucas estradas são de vital importância para quem quiser dominar a região e seus entroncamentos constituem-se em acidentes capitais.

O dispositivo defensivo egípcio previa impedir o acesso israelense ao interior da península, montando uma forte defesa de área junto à fronteira e na
Faixa de Gaza.
 


A Faixa de Gaza.
 

A ordem de batalha israelense incluía dez brigadas, sob dois comandos de nível de divisão. A maioria dos meios estava dirigida contra o norte da península e a Faixa de Gaza.

A única brigada blindada em serviço regular nas FDI, a 7ª Brigada Blindada, fazia parte das forças que atuariam ao centro, sendo dotada de tanques M4A3, com o novo canhão 75 mm, M4A1E8 Supersherman, com canhão 76,2 mm e AMX-13, além de viaturas M3 "half-track".

Outras forças blindadas, oriundas da reserva, faziam parte das demais brigadas. O uso de blindados ainda era bastante questionado entre os membros do alto-comando israelense.

O assalto inicial previa o emprego prioritário das tropas de infantaria. A evolução do combate, no entanto, com o emprego da 7ª Brigada em um amplo desbordamento das forças egípcias que defendiam a fronteira, mostrou que os blindados seriam de extrema importância em uma guerra naquela área.

Esta brigada, após 100 horas de combates muito intensos, rompeu o dispositivo egípcio e alcançou as margens do Suez, depois de percorrer cerca de 250 km. Sua luta, revivendo a
blitzkrieg, deitou as fundações de uma brilhante tradição que se mantém até hoje.

 

 Visão da fulminante invasão alemã na França através da Bélgica,
em apenas 5 dias, simplesmente evitando-se a
Linha Maginot.
 

Quando as forças israelenses atingiram as margens do Canal de Suez, forças aeroterrestres francesas e britânicas iniciaram seu ataque contra diversos pontos ao longo do canal.

A luta foi suspensa por interferência da
ONU, tendo sido criada a Força de Emergência das Nações Unidas para supervisionar o cessar-fogo ao longo do Canal. Em uma rara ocasião de cooperação entre os EUA e a URSS, a ONU expediu uma resolução determinando que os três invasores deixassem o território do Egito e a Faixa de Gaza.

Ao final do ano, a Península do Sinai retornava às mãos egípcias, mas Israel somente liberou Gaza após os EUA darem-lhe garantias de que o Estreito de Tiran seria mantido aberto.


 


A Península do Sinai ao centro vista do Space Shuttle STS040.
O Golfo de Suez fica a oeste e o Golfo de Aqaba a leste.

 

Esta campanha foi a primeira vez em que o Corpo de Material Bélico foi empregado como uma estrutura formal, tendo alcançado excelentes resultados, em especial por ter assegurado a mobilidade para os blindados.

Uma das grandes dificuldades enfrentadas pelos elementos de logística referia-se à manutenção das estradas principais de suprimento abertas, em especial para os elementos destacados.

Esta foi, também, a primeira vez em que os israelenses empregaram em larga escala as forças-tarefas, combinando os carros com a infantaria. Quanto a este aspecto, as conclusões dos comandantes da época foram de que ainda havia um longo caminho a ser percorrido em busca da eficácia.


NOVA REORGANIZAÇÃO

O sucesso das forças blindadas na campanha do Sinai influenciou a doutrina das FDI nos anos que se seguiram. A reorganização que foi levada a cabo transformou um exército baseado no emprego da infantaria em uma força blindada altamente móvel. Diversas brigadas blindadas foram formadas, tanto baseadas em tanques médios quanto em infantaria blindada.

No início dos anos 60, os soviéticos equiparam os exércitos árabes com os modernos tanques
T-54 e T-55, todos com performance superior aos tanques israelenses. Os carros russos tinham motores mais potentes, além de um canhão 100 mm, que batia os canhões 75 mm dos Sherman M50.

 


Blindado T-54/55 soviético.
 

Pedidos urgentes dos israelenses ao governo norte-americano não foram atendidos, mas o governo britânico concordou em vender-lhes alguns tanques Centurion.

Estes tanques já tinham sido empregados na
Guerra da Coréia, mas atingiram seu apogeu no oriente médio, como a estrela do Corpo Blindado Israelense.

No entanto, a aceitação dos Centurion pelas suas tripulações não foi imediata, já que estavam acostumados com os Sherman, de fácil manutenção e grande robustez, em especial no ambiente do deserto. Os veteranos da unidades blindadas tinham um especial apreço pelo M50, com seu canhão de alta velocidade.

 


Blindado Centurion (Shot Kal Alef) no Museu
Batey ha-Osef, Tel Aviv, Israel, em 2005.

Os primeiros resultados dos tanques britânicos foram desapontadores. No deserto do Neguev, onde ocorriam os principais exercícios de adestramento, os Centurion tiveram uma muito baixa performance. Seus radiadores entupiam com a poeira, causando superaquecimento dos motores.

As operações de manutenção antes e depois do uso, extremamente detalhadas e difíceis, eram complexas demais para a inexperientes tripulações, resultando em um número elevado de panes. Muitas vezes, tanques vazios desciam ladeiras, sem que ninguém os conseguisse parar. Seus freios queimavam, causando diversos acidentes.

Durante um exercício, muitos carros aqueceram e pegaram fogo diante dos olhos do próprio Chefe do Estado-Maior das FDI. Para tornar as coisas piores, os canhões Mk3 de 20 libras não foram zerados, atirando sem precisão.

O Estado-Maior Geral concluiu que era necessária uma solução radical para superar os problemas do Centurion. Assim, uma equipe do Corpo de Material Bélico, que tinha reunido grande experiência na modificação dos Sherman, apresentou uma proposta para modernizá-los de forma a atingirem as necessidades israelenses.

As modificações introduzidas no carro foram extremamente bem sucedidas e refletiram a habilidade e engenhosidade dos técnicos. O motor original foi substituído por um motor Continental diesel refrigerado a ar que tinha duas vantagens: adaptava-se com perfeição ao conjunto de força e era empregado pelos tanques
M48 Patton, norte-americanos, que estavam sendo recebidos pelas FDI.
 


Tanques médios M48 israelenses.
 

Para simplificar a direção, reduzindo as necessidades de treinamento e a fadiga em combate, a caixa de mudanças mecânica foi substituída pela caixa automática CD-850-6. Os técnicos de material bélico enfrentaram, agora um novo problema: inverter o sentido de saída da caixa.

Para tal, construíram novas engrenagens de saída, o que, por sua vez, exigiu novo maquinário especializado. Outras alterações incluíram o redesenho do compartimento do motor e a melhora dos sistemas de freio e de extintores de incêndio.

Equipes especiais de manutenção foram designadas para zerar os canhões. Procedimentos de manutenção preventiva foram elaborados e distribuídos, reforçados por uma severa disciplina.

Quando a operação terminou, o Corpo de Blindados possuía um sistema de armas com que contaria durante muitos anos.

Enquanto isto, um outro tanque entrava em serviço nas FDI: uma nova modificação dos Sherman, dotado com um canhão 105 mm.
 


Blindado Sherman M51 israelense com canhão de 105 mm.
 

No início dos anos 60, a indústria de armamentos francesa tinha desenvolvido um canhão revolucionário, o CN 105F1 - um canhão raiado, de 56 calibres (com quase seis metros de comprimento) desenhado para atirar uma granada HEAT especialmente desenhada.

Até então, todas as granadas HEAT existentes eram lançadas através de tubos de alma lisa. O canhão francês possuía um engenhoso sistema de estabilização da munição que lhe permitia lançá-la a uma velocidade inicial de 1.000 m/s - a maior até então atingida por este tipo de munição.

Os israelenses admiraram o potencial deste canhão, achando-o mais bem adaptado às suas necessidades, especialmente contra os blindados soviéticos de baixa silhueta, passando a ser possível engajá-los a longas distâncias com munição HEAT, as quais tinham uma boa possibilidade de penetrar a blindagem dianteira arredondada, em contraste com as granadas APC do Sherman M50.

O canhão CN105 F1 era, no entanto, muito comprido e sua velocidade inicial muito alta, o que impedia sua utilização na torre do Sherman, mesmo depois de modificada. A solução encontrada foi o encurtamento do canhão em cerca de 1,5 m, reduzindo sua velocidade inicial para cerca de 800 m/s.

Esta solução exigia a fabricação de uma nova munição. Foi, decidido, então, a construção de uma fábrica de munições em Israel.

A modificação foi bastante difícil. Além das mudanças necessárias na torre, muito mais complicadas daquelas envolvendo a colocação do canhão 75 mm, era vital que os carros, já se tornando obsoletos, fossem atualizados em todos os aspectos, de maneira a torná-los eficazes no combate contra os tanques soviéticos, muito mais modernos.

Assim, houve um completo redesenho dos Sherman, com a substituição do motor (agora um Cummings a diesel de 450 hp), nova suspensão e a colocação de um freio de boca no canhão. Mais de 2.500 horas de trabalho foram gastas nos arsenais israelenses na modificação dos carros.

Novas técnicas foram desenvolvidas, as quais em muito contribuíram para trabalhos futuros, como a própria modernização dos Centurion e, mais tarde, o projeto do Merkava, o tanque principal israelense.

Nestes anos, ainda, o governo alemão concordou em vender a Israel tanques M48 Patton, que estavam sendo substituídos por modelos mais novos no Bundeswehr. Estes carros, de fabricação norte-americana, eram dotados do canhão de 90 mm, pouco eficazes contra os blindados soviéticos.

Estudos foram iniciados no sentido de dotá-los com os canhões 105 mm e aplicação de um motor diesel, transformando os M48 em suas versões mais modernas, os M60. Estas mudanças foram, porém, adiadas, consideradas de menor prioridade em relação às outras modificações.

Este período foi de grande transformação nas FDI, empenhadas em treinamento e manutenção dos novos equipamentos. Em 1967 elas estavam prontas para o combate, com plena confiança no embate contra os árabes, que estava para chegar.


CAMPANHA RELÂMPAGO : A GUERRA DOS SEIS DIAS (JUNHO DE 1967)


A
Guerra dos Seis Dias iniciou-se em 05 de junho de 1967, seguindo-se a três semanas de tensão entre Israel e seus vizinhos, quando se tornou claro que o Egito concentrava forças em larga escala na Península do Sinai.

O aumento da forças egípcias era acompanhado por alguns outros passos ameaçadores: a evacuação da Força de Emergência das Nações Unidas, o bloqueio do Estreito de Tiran e a formação de uma aliança militar entre Egito, Síria e Jordânia.

Os capacetes azuis da ONU, estacionados na fronteira Egito - Israel desde 1957, e que tinham conseguido manter certa estabilidade na região ao afastar as forças antagônicas, foram evacuados em maio, ante grandes pressões do Presidente Egípcio, Nasser.

No mesmo mês, a Marinha egípcia bloqueou, mais uma vez, o Estreito de Tiran aos navios israelenses. No dia 30 de maio, a Jordânia aderiu à aliança já existente entre Egito e Síria, colocando seus exércitos sob o comando egípcio, no que logo foi seguido pelo Iraque, que concordou em enviar reforços no valor de duas brigadas e por outros países árabes, que enviaram contingentes menores.

Israel estava diante de um contingente árabe de aproximadamente 465.000 homens, 2.880 tanques e 810 aeronaves.

Desta forma, havia uma ameaça concreta à integridade do território israelense. Na medida da deterioração da situação, Israel intensificou a mobilização de suas reservas, que já vinha acontecendo, e estabeleceu um Governo de União Nacional, com
Moshe Dayan como Ministro da Defesa.



Ministro da Defesa de
Israel Moshe Dayan.

Ante a ameaça de um ataque por todas as suas fronteiras, o governo de Tel Aviv decidiu tomar a iniciativa da ofensiva.

A guerra começou com um ataque aéreo em grande profundidade, destinado a destruir as forças aéreas árabes com suas aeronaves ainda no chão. O plano israelense era de realizar um ataque maciço empregando toda a aviação disponível simultaneamente contra as bases aéreas egípcias. Isto requeria um planejamento detalhado para assegurar a surpresa em todos os alvos.

Em um curto mas decisivo golpe, a
Força Aérea Israelense obteve a supremacia aérea, destruindo, ainda no solo, a capacidade ofensiva de seus inimigos. As forças blindadas poderiam, então lutar com total apoio dos seus pilotos, sem que seus eixos de suprimento e o próprio interior do país estivessem sob ameaça aérea.

O esforço principal dos blindados israelenses foi dirigido contra as forças egípcias desdobradas em posições fortificadas nas partes orientais do Sinai e na Faixa de Gaza, consistindo em 7 divisões, em um total de aproximadamente 100.000 homens, 1.000 tanques e centenas de peças de artilharia.

O Comando Sul das FDI investiu contra estas posições com forças no valor de 3 divisões compostas por brigadas blindadas, de infantaria blindada e de infantaria pára-quedista.

A luta neste front durou quatro dias, em um movimento contínuo, sem pausas. Cientes do fato de que a guerra poderia durar somente alguns poucos dias e que era imperativo alcançar um vitória rápida, as FDI concentraram toda sua força blindada na penetração do dispositivo egípcio.

O ataque foi rápido e profundo, sem que fossem asseguradas a segurança dos flancos e dos eixos de suprimento para as vanguardas. A despeito de sua resoluta resistência inicial, o dispositivo egípcio ruiu rapidamente.

Este risco calculado assumido pelos israelenses, em prol da velocidade de sua ação, ocasionou perdas entre os seus elementos logísticos. Alguns comboios de suprimento, em especial de combustível e munição foram atingidos pelo fogo inimigo, sofrendo grandes danos.

Sob o Comando Sul, três eixos de penetração foram obtidos. No norte, na direção de
Rafah - El Arish, sob o comando do General Israel_Tal, as unidades de combate tiveram grande dificuldade em abrir seus eixos, ante a grande resistência inimiga.

No sul, a divisão sob o comando do
General Ariel Sharon, empregando a combinação de armas de forma bastante eficiente, atacaram as posições fortemente defendidas pelos flancos e pela retaguarda.

No centro, a divisão do
General Avraham_Yoffe penetrou entre as zonas de ação destas duas divisões, através de uma região de dunas de areia considerada, até então, intransitável por unidades blindadas.

Esta divisão atingiu, na primeira noite da guerra, importantes acidentes na retaguarda egípcia, impedindo a ligação entre os dois outros setores e bloqueando a vinda de reforços do coração do Sinai.

No segundo dia de combate, foi obtido o controle da Faixa de Gaza, enquanto os reforços egípcios eram destruídos e os blindados israelenses avançavam rumo ao Suez.

No dia seguinte, os israelenses atingiram o
Passo de Mitla, um dos poucos acessos do centro do Sinai para oeste, que se tornou um "campo da morte", onde foram destruídos grandes contingentes egípcios que tentavam escapar rumo ao Canal.

Finalmente, após quatro dias de lutas intensas e ininterruptas, as forças árabes no Sinai estavam destruídas enquanto os blindados de Israel atingiam as margens do Canal.

Houve casos de unidades que atingiram seus objetivos já sem combustível, ante o distanciamento de seus trens e das perdas de comboios de suprimento.

No front jordaniano, o Comando Central tinha planejado manter uma postura estratégica defensiva, enquanto a prioridade fosse dada para o Comando Sul. Acreditava-se que a participação da Jordânia na aliança militar seria somente pro-forma, sem um envolvimento intenso no conflito.

No entanto, a confirmação das intenções ofensivas por parte da Jordânia fez com que Israel respondesse rapidamente, com uma operação combinada de blindados e pára-quedistas, reconquistando a porção oriental de Jerusalém e todos os territórios a oeste do Rio Jordão.

A batalha contra a Síria, o inimigo mais ferrenho de Israel, aguardou até o quinto dia da luta. A demora no início das operações deveu-se à prioridade dada ao front Sul e a reconquista de Jerusalém e da região da Samaria, que desviaram forças importantes previstas para comporem o Comando Norte.

Por outro lado, isto possibilitou uma maior concentração de meios, liberados do front egípcio. A força síria era a que mais ameaçava o país, devido aos constantes bombardeios de artilharia que, a partir das colinas de Golan, atingiam as comunidades judaicas no norte. Daí a grande importância política e estratégica dada ao combate à Síria.

A força atacante tinha que enfrentar condições topográficas muito difíceis. Ela deveria vencer fortes aclives em um terreno muito movimentado e pedregoso, sob constante fogo vindo das cristas, onde o exército sírio a esperava em posições fortificadas.


O ataque iniciou-se na manhã de 9 de junho, precedido por forte bombardeio e pelos engenheiros, que abriram passagens através de vastos campos minados.

Eles foram seguidos por bulldozers que abriram um caminho por onde os blindados foram capazes de progredir, conquistando as primeiras posições sírias. Ao mesmo tempo, a infantaria golani conquistava acidentes capitais que permitiam a penetração dos blindados profundamente em território inimigo.

No dia seguinte, último da guerra, a infantaria conquistou novas posições no centro e norte das colinas, em especial o
Monte Hermon, enquanto os blindados avançavam por uma série de eixos em direção ao interior da Síria. Era o colapso da defesa síria. Pára-quedistas israelenses ainda foram lançados ao sul das colinas, eliminando os últimos pontos de resistência.

O avanço israelense contra os sírios foi detido pelo cessar-fogo imposto pela ONU. A Guerra dos Seis Dias deixou Israel de posse da Península do Sinai e Faixa de Gaza, tomadas aos egípcios; Jerusalém oriental e a margem ocidental do Jordão, tomadas da Jordânia; e das colinas de Golan, tomadas dos sírios.

 

Guerra dos Seis Dias.

O território do país era, agora, cerca de quatro vezes superior à área no interior das fronteiras do Armistício de 1949. Os territórios ocupados incluíam uma população árabe de cerca de 1,5 milhões de pessoas.

Antes da guerra, o Corpo de Material Bélico recebera a missão de preparar o material bélico, em especial os blindados, para o combate que se aproximava. Durante o conflito, elementos de manutenção estavam desdobrados em todos os escalões das forças israelenses.

Destacou-se, neste período, o uso intensivo de técnicas de reparação de emergência, que permitiam a manutenção do poder de combate das unidades após os embates. O custo, no entanto, em vidas do pessoal de manutenção foi bastante alto.


TEMPO DE ATRITO E REORGANIZAÇÃO DOUTRINÁRIA

O período que se sucedeu à Guerra dos Seis Dias foi marcado por um atrito constante entre Israel e seus vizinhos, em especial Egito e Síria, sendo conhecido como a
Guerra de Atrito.

Embora, pela primeira vez em sua história, a FDI pudessem se dar ao luxo de um desdobramento em profundidade no novos territórios conquistados, estratégica e politicamente a manutenção das colinas de Golan e do Canal de Suez era muito importante.

Assim, suas forças foram desdobradas junto aos limites com seus vizinhos, muitas vezes enfrentando-os em pequenas escaramuças e através de bombardeios de artilharia.

Os árabes foram rapidamente reequipados pelos soviéticos, restaurando e ampliando em pouco tempo o poder de combate perdido na guerra, em especial no tocante aos blindados, às armas anticarro e aos mísseis antiaéreos.

O exército israelense, logo após o fim da guerra, iniciou um amplo debate referente à sua reorganização, absorvendo as experiências do combate. Uma das primeiras críticas levantadas foi a ineficiência da infantaria blindada no conflito.

Embora muitos julguem esta assertiva injusta, alguns comandantes de blindados advogavam a sua extinção, passando a contar somente com tanques nas brigadas blindadas. Entre as causas desta possível ineficiência estavam o fato da infantaria blindada ser equipada com antigos half-track, incapazes de acompanhar o ritmo dos Centurion e Sherman modificados.

Outra causa era o fato de a maioria dos infantes ser oriunda da reserva, portanto menos treinados. O fato é que, toda vez que necessitaram de infantaria, os comandantes das divisões empregaram os pára-quedistas, ao invés dos infantes blindados.

Por outro lado, os tanques israelenses tiveram excelentes performance tanto na luta contra a infantaria quanto na contra tanques inimigos. Em muito, isto se deveu ao elevado padrão de treinamento de suas tripulações e à capacidade de liderança de seus comandantes em todos os escalões.

Ainda não havia, na época, o conceito de Veículo de Combate de Infantaria (o primeiro seria o soviético
BMP-1, que estava entrando em serviço ) e julgava-se que as VBTP, como o norte-americano M-113, não iriam satisfazer às necessidades do campo de batalha israelense.

Assim, o conceito de forças blindadas somente com tanques cresceu de importância. O número de infantes nas brigadas blindadas foi reduzido drasticamente, priorizando-se o emprego do carro de combate.

Neste período começaram a chegar os primeiros materiais de origem norte-americana, comprados diretamente dos EUA: as VBC M-60, alguns M-113 (que foram prioritariamente empregados em missões de apoio, como PC móveis, por exemplo), e os obuseiros autopropulsados M-
109 155 mm AP.

A vitória esmagadora na Guerra dos Seis Dias teve uma conseqüência indesejável para as FDI: uma sensação de onipotência, uma segurança quase absoluta na sua capacidade de enfrentar seus inimigos.

Além disso, a tática da blitzkrieg, ou seja, emprego maciço dos blindados com intenso apoio de fogo aéreo tornou-se quase um paradigma, com efeitos nefastos para os israelenses no próximo conflito que teriam que enfrentar: a Guerra do Yom Kippur.


A GUERRA DO YON KIPPUR (1973)

Com a morte do Presidente Nasser,
Anwar Sadat assume o governo do Egito. O novo presidente logo concluiu que os agudos problemas econômicos e sociais egípcios eram mais prementes que o conflito com Israel.

Sadat acreditava que, fazendo a paz com Israel, o Egito poderia reduzir seus enormes gastos com defesa e obter a assistência norte-americana, extremamente necessária.

Ele imaginou, contudo, que, antes de qualquer acerto com Israel, o Egito teria de recuperar o território perdido em junho de 1967. Para alcançar este objetivo, Sadat lançou uma iniciativa diplomática no início de 1971, visando trocar os territórios por paz.

Esta iniciativa, no entanto, não foi bem recebida pelo governo israelense. A grande confiança na capacidade combativa das FDI, a desunião entre os árabes e a segurança obtida pelo "colchão de ar" criado pelos novos territórios do Sinai, Margem Ocidental e Golan faziam os israelenses pensarem que impediriam seus inimigos de lançarem qualquer ação ofensiva. Não havia, portanto, qualquer razão para a troca proposta pelo Presidente egípcio.

Esta rejeição fez com que Sadat se convencesse de que, para alterar o status quo e ganhar a legitimidade que necessitava junto ao seu povo, era necessário lançar uma guerra, ainda que com objetivos limitados.

No dia do
Yom Kippur, feriado judeu da reconciliação, 6 de outubro de 1973, Síria e Egito lançaram um ataque surpresa contra Israel.

Forças equivalentes ao efetivo de toda a OTAN na Europa lançaram-se coordenadamente contra as fronteiras israelenses. Pelo menos nove países árabes apoiaram ativamente o esforço de guerra sírio-egípcio, fornecendo tropa, aeronaves e auxílio financeiro.

No Norte, as
Colinas de Golan foram palco de uma luta que passou para a história como um dos exemplos mais destacados da batalha defensiva. Os sírios possuíam cinco divisões escalonadas em profundidade, contando com cerca de 1.400 tanques, enquanto os israelenses defendiam a região com uma brigada blindada, a 7ª, a dois batalhões, com cerca de 150 tanques.




As Colinas de Golan.
 

Como reserva do front, Israel mantinha dois comandos de divisão blindada. Estes comandos não eram mobilizados constantemente; seu pessoal provinha da reserva e seu material ficava estocado nas proximidades. Naquele momento, todos estavam desmobilizados.

O plano sírio previa um ataque segundo a doutrina soviética, ou seja, por escalões sucessivos. Seu objetivo era a conquista das pontes sobre o
Rio Jordão. Uma vez rompidas as defesas israelenses, comandos helitransportados assaltariam as pontes onde as divisões blindadas fariam a junção, o que deveria acontecer no prazo de 24 horas, antes que as reservas israelenses pudessem alcançá-las.

O plano era bem concebido e tinha grandes chances de sucesso, especialmente diante do poder relativo de combate.

Inicialmente, sua execução ocorreu como previsto. Cada tanque israelense enfrentava uma força dez vezes superior. Suas tripulações sabiam que tinham de manter o terreno até que as reservas pudessem chegar. No ar, uma luta feroz entre as forças aéreas israelense e síria impedia o apoio de fogo aéreo tão empregado na guerra anterior. Além disso, agora os sírios estavam mais bem equipados e treinados.

Com a chegada da noite, a desvantagem israelense aumentava, já que seus Centurion não possuíam equipamentos de visão noturna eficientes, ao contrário dos T-55 sírios. Ainda assim, eles tentavam resistir e contra-atacar, obtendo poucos resultados de vulto, mas retardando o avanço inimigo.

Poucos tanques israelenses ainda atiravam quando a manhã chegou. Cada um deles lutava uma guerra individual. Os tanques sírios já podiam ver o
Mar da Galiléia quando os primeiros batalhões da reserva israelense chegaram ao campo de batalha.

Na medida em que as forças em reserva fluíam em maior número, o comando israelense pôde se reorganizar, invertendo o sentido das operações e empurrando os sírios de volta. A crise imediata estava terminada. A resistência da 7ª Brigada Blindada tinha conseguido o tempo suficiente para impedir que os inimigos alcançassem seus objetivos.

Com o passar da luta e novos reforços chegando, os israelenses expulsaram os sírios das colinas, passando a considerar a possibilidade de realizar um poderoso contra-ataque para explorar a situação, movendo-se em direção ao interior da Síria e sua capital, Damasco.

Em 10 de outubro, os sírios se deram conta que seu ataque não obtivera sucesso e que, agora, sua capital estava exposta. Assim, tentaram reorganizar suas forças, montando sumariamente uma defesa. Os israelenses conseguiram romper através das linhas árabes (sírios, iraquianos, jordanianos), alcançando os arredores de
Damasco, quando a guerra foi encerrada por um cessar-fogo.

No sul, os egípcios tinham à sua frente em obstáculo de enorme vulto. Não somente as águas do Canal de Suez, com cerca de
200 m de largura, que mudavam com a maré, provocando grandes correntes, mas também as rampas da sua margem oriental, construídas pelos israelenses.

Além disso, o front era constantemente patrulhado, com posições de apoio para suas guarnições, naquilo que era conhecida como
Linha Bar Lev. Esta linha compreendia uma série de pontos-fortes sobre o canal, mobiliados por elementos de uma brigada blindada.
 


Fortificação israelense Bar Lev.

O ataque com transposição de uma curso de água é uma das operações militares mais complexas, exigindo em planejamento minucioso e o máximo de coordenação na sua execução. O planejamento e a execução egípcias foram quase perfeitos.

Uma vez cruzado o vasto espelho d'água, esperava-se que o contra-ataque israelense ocorresse em duas fases: na primeira, realizado por forças de valor pelotão ou companhia blindada, movendo-se para posições preparadas, 15 a 30 minutos após o início da travessia; na segunda, brigadas blindadas situadas mais à retaguarda contra-atacariam em cerca de 2 horas. De fato, isto correspondia ao planejamento israelense.

Para fazer face a estas possibilidades, o plano egípcio previa que uma grande quantidade de armas anticarro seria transposta nas primeiras levas do assalto, garantindo a proteção para as levas seguintes.

Além disto, um guarda-chuva de mísseis antiaéreos garantia a proteção contra aeronaves israelenses que tentassem atacar alvos no solo. Com isso, a tática israelense da blitzkrieg estava bastante comprometida.

Como a hora H prevista para o início das operações seria às 14:00 h, havia uma previsão de que o choque contra os blindados israelenses ocorreria à noite. Para tanto, as guarnições de armas anticarro foram dotadas com equipamentos de visão noturna.

Curiosamente, um dos maiores problemas que era previsto que enfrentassem eram as luzes ofuscantes dos faróis de busca que equipavam os Centurion. Para enfrentá-las, foram distribuídos óculos de solda para os combatentes.

Havia uma discussão entre os comandantes egípcios sobre os objetivos da operação que iriam iniciar. Alguns advogavam que esta teria um objetivo limitado, resumindo-se ao estabelecimento de uma cabeça-de-ponte com cerca de 15 km de profundidade, fortemente protegida e contra a qual os israelenses iriam se bater, com pesadas perdas e forte desgaste político.

Outros eram favoráveis a operações mais profundas, com a conquista dos passos que levavam ao interior do Sinai, bloqueando os reforços israelenses, mesmo que fora da cobertura das armas antiaéreas. Ao que tudo indica, a primeira linha de ação saiu vitoriosa.

O assalto aconteceu como o planejado. Os israelenses, pegos de surpresa, tiveram pesadas baixas no primeiro dia de combate. Sua aviação não conseguia proporcionar o apoio necessário e as armas anticarro tiveram um terrível efeito sobre os tanques. Pela manhã, cerca de dois terços dos tanques israelenses tinham sido perdidos.

A corrida era, agora, contra o tempo. Os egípcios tentavam aumentar sua cabeça-de-ponte, conquistando as alturas mais para o interior, enquanto os israelenses lutavam por deter seu avanço. Em torno do meio dia de 7 de outubro, os primeiros tanques das reservas israelenses chegavam ao front, tendo sido mobilizados e atravessado uma distância de 250 km em 20 horas.

A guerra já durava cerca de 40 horas quando o primeiro contra-ataque israelense de vulto foi realizado. Nesta altura, os egípcios já tinham estabelecido oito pontes, contando com dois exércitos de campanha na margem oriental. Eram mais de 1.000 tanques, milhares de armas anticarro e pesado apoio de artilharia.

Este contra-ataque que durou quase todo o dia 8, foi um insucesso. Na verdade, foi uma grande carga de cavalaria contra as posições egípcias bem defendidas. Tendo começado o dia com cerca de 170 tanques, os israelenses o terminavam com menos de 100, sem terem atingido qualquer objetivo importante.

Durante a noite, as guarnições, exaustas, descansavam, enquanto as equipes de manutenção corriam pelo campo de batalha, tentando recuperar mais tanques danificados. Pela manhã, o número de tanques disponíveis já chegava aos 120.

O insucesso do contra-ataque fez com que os comandantes israelenses passassem a agir com maior cautela nas suas operações, pois não podiam continuar a fazer face a tão pesadas perdas.

Os israelenses tinham chegado à conclusão de que sua única chance de sucesso seria uma travessia de forças blindadas altamente móveis para a margem ocidental do canal, de modo a operar na retaguarda egípcia. Não havia possibilidade de enfrentar diretamente, com seus meios disponíveis, as forças desdobradas nas cabeças-de-ponte.

No entanto, para que esta operação desse certo, havia a necessidade de que a maioria dos meios blindados egípcios estivesse na margem oriental, deixando do outro lado forças cujo poder de combate pudesse ser enfrentado.

No dia 13 de outubro, o serviço secreto israelense constatou que as reservas blindadas egípcias estavam cruzando o canal. Era a oportunidade que o comando das FDI esperava.

Em 15 de outubro, em uma manobra das mais ousadas da história, uma força israelense de 3 divisões com aproximadamente 600 tanques cruzava o Canal de Suez, atacando as linhas de suprimento e postos de mísseis antiaéreo à retaguarda do 3º Exército egípcio.

A reação inimiga foi pífia, muitos tendo sido colhidos pela surpresa. O cerco do 3º Exército forçou os egípcios a aceitarem um cessar-fogo, de forma a evitar sua destruição.

A operação de travessia israelense foi um risco calculado em termos logísticos. Muitos logísticos, em qualquer exército, não arriscariam lançar três divisões através de um obstáculo do porte do Suez (e outros pequenos canais paralelos) com suas rotas de suprimento correndo a menos de 8 km dos flancos desprotegidos.

Todos os historiadores deste conflito são unânimes em afirmar que o Corpo de Material Bélico exerceu um papel decisivo na guerra. As altas taxas de perdas de material, em especial nos primeiros dias de combate, foram, em muito, compensadas pelas reparações e recuperações feitas pelo pessoal de manutenção.

Desde a frente de combate, até os arsenais no interior, o Material Bélico realizou façanhas, fazendo retornar ao combate centenas de armas avariadas.

Mais de 75% dos tanques disponíveis foram avariados neste período. No entanto, aproximadamente 80% destes tanques foram reparados em menos de 24 horas. Alguns dos tanques foram danificados e reparados 4 a 5 vezes. A ação mais dramática ocorreu nas Colinas de Golan, quando os tanques retornados permitiram que os israelenses montassem seu contra-ataque.

Segundo o
Gen Herzog, historiador deste conflito, "os homens das equipes de manutenção demonstraram estar entre os grandes heróis da guerra, movimentando-se durante o combate e consertando os carros avariados sob o fogo".

Os israelenses atribuíram grande parte deste sucesso às técnicas de manutenção de emergência no campo de batalha, responsável pela maioria das reparações.

Outro fator que favorecia este retorno do material foi a própria dimensão limitada do
TO, permitindo que os carros danificados em maior escala fossem rapidamente evacuados, muitas vezes por via férrea, para os arsenais no interior, onde eram recuperados.

O uso das ferrovias poderia, contudo, ter sido melhor explorado. Em 1967, os israelenses encontraram uma ferrovia que se estendia no Sinai até o Canal de Suez. Em vez de se aproveitarem desta estrada como meio para cerrar meios rapidamente para a frente, os israelenses desmontaram-na a fim de utilizarem os trilhos na construção da Linha Bar Lev.

Este fato fez com que, após o ataque egípcio, as unidades da reserva, depois de mobilizadas, tivessem que se deslocar por via terrestre por muitos quilômetros, através das poucas estradas disponíveis, com o conseqüente desgaste no material.

Em todo Israel, unidades deslocavam-se desde seus locais de mobilização para o campo de batalha, ocorrendo muitas vezes falhas mecânicas que obrigavam o abandono temporário das viaturas e o congestionamento das principais rotas de abastecimento.

Em termo de apoio logístico, o grande problema israelense foi o relativo ao suprimento. A intensidade da guerra tomou de surpresa o comando da intendência das FDI. O consumo de munição foi anormalmente elevado, as perdas em aviões foram sérias e a quantidade de blindados perdidos foi alarmante.

Era evidente que as tabelas em que tinham se baseado para estocar suprimentos necessitavam de uma drástica revisão. Algumas semanas depois de encerrado o conflito, o Ministério da Defesa chegou a admitir que as forças israelenses tinham esgotado certos tipos de munição.

A grande compensação para estas faltas de suprimento veio através da decisão política norte-americana de fornecer material bélico a Israel. No dia 13 de outubro, com uma semana de conflito, uma esquadrilha de
C-5 Galaxy realizou o primeiro vôo de ressuprimento.

No período de um mês, mais de 2.200 toneladas de armas, munições, carros de combate, artilharia, helicópteros e outros materiais foram entregues via aérea. Uma grande quantidade chegou a Israel também pelo mar.

Além disto, 56 aeronaves de combate, entre
A-4 Skyhawk e F-4 Phantom da Força Aérea Americana na Alemanha foram entregues diretamente para a Força Aérea Israelense.

Militarmente, esta ponte aérea foi de importância vital para Israel, num momento crucial.

Os árabes, por seu lado, também receberam substancial apoio externo, desta vez dos soviéticos. Poucos dias antes de começada a guerra, uma grande ponte aérea já estava em operação, com gigantescos
Antonov 22 aterrando a curtos intervalos em Damasco e no Cairo.


O gigantesco Antonov An-22 é capaz de decolar com
250.000 kg e percorrer distâncias de até 5 mil km.

A guerra de outubro produziu efeitos devastadores sobre Israel. Mais de 6.000 soldados foram feridos ou mortos em 18 dias de luta. A perda de equipamentos e o declínio da produção e exportação em virtude da mobilização trouxeram um prejuízo de 7 bilhões de dólares - equivalente ao PNB anual do país.

Mais importante que isto foi a destruição da imagem de invencibilidade de Israel que vinha desde 1967, abalando a seriamente sua autoconfiança.

A vulnerabilidade de Israel na guerra levou a uma outra importante conseqüência: sua crescente dependência dos Estados Unidos em termos militares, econômicos e diplomáticos. A guerra desencadeou uma corrida regional por armas, na qual Israel era pressionada para equilibrar-se com os Árabes, que estavam enriquecidos pelos altos preços de petróleo.

O uso do petróleo como arma, que se seguiu à guerra, tornou mais dramática a dependência do Ocidente aos árabes. Uma evidência disto foi, por exemplo, a negação de todos os países europeus (exceto Portugal) da permissão para pouso das aeronaves norte-americanas que transportavam material bélico para Israel durante a luta.

Os arsenais árabes forçavam Israel a gastos crescentes com a defesa, debilitando a sua frágil economia. Mesmo a ajuda americana parecia não ser capaz de deter o declínio econômico israelense. Após a guerra, as unidades de material bélico empreenderam um esforço hercúleo no sentido de restaurar às condições de uso a maior parte do material danificado, recompondo o poder de combate das FDI.

Em um esforço para encorajar um acordo de paz, o Presidente Nixon enviou seu Secretário de Estado Henry Kissinger à região com a tarefa de negociar a paz entre Israel, Egito e Síria. Em 1974, Kisinger conseguiu o desengajamento militar entre os antagonistas, iniciando um longo processo de pacificação.


NOVO INTERVALO

Logo após o término da guerra, muitos críticos apontaram como uma das causas das dificuldades iniciais israelenses a presença somente de tanques nas forças blindadas. Em verdade, em muitas ocasiões, a falta de infantaria atuando junto aos carros representou uma séria vulnerabilidade.

A barreira anticarro egípcia representou uma grande ameaça aos tanques, sem que houvesse como enfrentá-la com infantaria.

Outra grande dificuldade foi a impossibilidade do apoio aéreo aproximado para os blindados, em virtude das defesas antiaéreas.

A falta de prática no conceito de operações combinadas entre armas foi a maior lição tirada do campo tático deste conflito. Uma mudança neste sentido fazia-se necessária.

Para que esta evolução fosse realizada, era necessário uma reformulação na organização e na dotação de material. Enquanto o tanque manteria sua inquestionável posição dentro das FDI, chegou-se à conclusão de que seria necessário apoiar-lhe com outros elementos.

A nova brigada de armas combinadas deveria ser totalmente móvel, possuindo diversos tipos de armamentos, em grande parte blindada, sendo capaz de decidir o combate. Todos os sistemas de armas deveriam apoiar os tanques, permitindo que eles retivessem sua mobilidade em um campo de batalha saturado pelo fogo.

Além disso, como a mobilidade depende da capacidade de sobrevivência, a proteção da tripulação e de seus sistemas recebeu máxima prioridade, em contraste direto com os conceitos de velocidade e poder de fogo, tradicionais nos outros exércitos.

Em um exército pequeno como o israelense, não era possível admitir-se taxas de perdas das guarnições de blindados tão altas como as que ocorreram no conflito de 73.

Estas idéias, nascidas da experiência do campo de batalha, foram tornadas reais no projeto e desenvolvimento do tanque principal de batalha israelense - o
Merkava.
 


MBT israelense Merkava Mark 4, de última geração.

Para isto desenhistas do novo carro decidiram criar um tanque principal de batalha (Main Battle Tank - MBT), multifuncional, em substituição aos diversos tipos então existentes, separados em função de seus pesos e empregos. No entanto, o equilíbrio entre proteção blindada, poder de fogo e mobilidade constituía-se em enorme desafio tecnológico.

Examinando tanques destruídos no combate, seus próprios e inimigos, o grupo encarregado do novo projeto chegou à conclusão de que era necessário desenvolver-se uma nova forma de proteção à guarnição. Esta nova forma era colocar a tripulação no centro do carro.

A questão da proteção da guarnição foi decidida de forma simples e brilhante: fazer com que cada parte do tanque participasse da proteção. Para tanto, algumas medidas foram tomadas:

- a colocação do motor na parte mais vulnerável, a frente da viatura;

- blindagens de composição e desenho exaustivamente testados como proteção contra os mais diferentes tipos de armas;


- desenvolvimento do conceito de "blindagem espaçada", no qual cada   parte do tanque serviria como uma câmara de combustão para munições químicas (HEAT): tanques de combustível, caixas de   ferramenta, depósitos de munição, depósitos de material QBN, etc.


- uso do diesel como combustível;


- colocação do compartimento da tripulação no centro do carro,  eliminando-se a cesta da torre, o que aumentou o seu espaço útil e acabando com um dos maiores problemas dos carros de combate:   o isolamento do motorista; e


- colocação de uma porta de acesso à retaguarda, o que permitia a   rápida evacuação em caso de incêndio.


O formato do tanque foi desenhado de maneira a oferecer a menor silhueta e o menor alvo possível. Para tal, foram retirados todos os elementos da parte superior da torre, incluindo a cúpula do comandante.

Seu armamento seria o já consagrado canhão 105 mm L/7, mas o poder de fogo seria aumentado graças ao novo sistema de controle de tiro e à nova munição armour piercing 'hypershot', desenvolvida em Israel e que era capaz de penetrar todas as blindagens conhecidas a grandes distâncias.

O sistema de suspensão especialmente projetado e o conjunto de força de 900 hp fizeram do Merkava um dos tanques de maior mobilidade, sendo capaz de enfrentar com facilidade grandes aclives e declives.

Brevemente, este novo carro provaria sua capacidade em combate, ao liderar a invasão do Líbano.


A OPERAÇÃO PAZ NA GALILÉIA

A primeira invasão israelense do território libanês ocorreu em 1978, em resposta aos ataques de terroristas palestinos ao seu território. Estes terroristas obtinham abrigo em campos de refugiados situados ao sul do Líbano, que vivia um grande período de turbulência política, sendo incapaz de controlá-los.

A ofensiva israelense foi detida por uma resolução do Conselho de Segurança da ONU, que determinava a retirada imediata das tropas invasoras.

Os ataques de membros da Organização para a Libertação da Palestina (OLP) a partir do Líbano ao território de Israel não cessaram, utilizando artilharia e baterias de foguetes russos Katyusha a partir do sul daquele país. A OLP contava com o apoio dos sírios, que chegaram a desdobrar forças no território libanês, em especial na região conhecida como Vale do Bekaa, no sudeste deste país.

Assim, em 1982, os israelenses montam uma grande incursão ao sul do Líbano, denominada Operação Paz para a Galiléia, com dois objetivos político-estratégicos: expulsar a OLP da região e dar uma lição nos sírios que os apoiavam.

O maior feito do Corpo de Material Bélico ocorreu durante esta operação. Milhares de tanques, viaturas blindadas de transporte de pessoal, canhões autopropulsados, viaturas sobre rodas e sistemas de armas de alto nível operacional foram transportados para o campo de batalha rápida e eficientemente desde seus depósitos de emergência.

Esta capacidade derivou do método de "estocagem seca", que isola o material bélico do ambiente externo, evitando a influência das condições climáticas, desenvolvido após a Guerra do Yom Kippur. Secadores e coberturas de plástico preservam o material sem contato com a umidade do ar, preservando-o por um longo período. Periodicamente, o material recebe serviços de conservação. Com a utilização da "estocagem seca", as FDI conseguem manter uma grande quantidade de material estocado e pronto para emprego, como reserva de pronto emprego.

Esta operação foi, também, o batismo de fogo do Merkava. O Corpo de Material Bélico foi responsável pelo desenvolvimento do projeto e por todo apoio logístico ao tanque, incluindo manutenção e controle de qualidade. Este tanque demonstrou um soberbo poder de fogo e capacidade de sobrevivência, confirmando os conceitos nos quais se baseara. Ele demonstrou, ainda, sua superioridade sobre o tanque soviético T-72, que também estreava no combate.

As FDI tinham sido preparadas para a guerra no deserto, em um terreno amplo que permitia a manobra dos blindados. O terreno libanês era bastante diferente desta realidade: bastante movimentado, cheio de áreas confinadas e urbanizadas nas quais os guerrilheiros estabeleceram suas defesas. As forças israelenses, baseadas no emprego do tanque, eram totalmente inadequadas a esta nova situação.

A operação das FDI, iniciada a 6 de junho de 1982, foi desenvolvida em três diferentes eixos de penetração, contando com forças no valor de cinco divisões e duas brigadas isoladas.

Junto à costa, uma divisão forte em infantaria avançou na direção de Tiro e Sidon, onde realizou a junção com uma tropa anfíbia ali desembarcada. Sua luta foi longa e difícil, especialmente nas muitas áreas urbanas.

A resistência palestina ao avanço foi bastante tenaz, travando uma luta em cada vila, em cada quarteirão, em cada casa. Este combate em localidade fez crescer o número de baixas israelense e retardou seu avanço. Outra grande dificuldade com que as FDI tiveram que lidar foi o grande número de civis refugiados na sua zona de ação, criando-lhes grandes problemas.

No centro, a força era forte em tanques. Seu objetivo era ligar-se com a força de oeste na região de Sidon, em um movimento clássico de pinça. Esta força enfrentou sérios problemas na medida em que encontrou diversas armadilhas antitanque e emboscadas dos elementos da OLP, causando sérias perdas. Sua organização mostrou-se pouco flexível, necessitando realizar mudanças de formação durante o desenrolar do combate.

Como conseqüência das dificuldades sofridas, o tráfego pelas pequenas estradas da região tornou-se quase caótico, dificultando imensamente a evacuação de feridos e o suprimento das tropas. As unidades logísticas divisionárias ficaram impedidas de cerrarem seu apoio, ficando isoladas de seus usuários. Helicópteros de transporte foram chamados para transpor as estradas bloqueadas, levando via aérea o suprimento urgentemente necessário às tropas na vanguarda. Destacamentos logísticos avançados foram desdobrados junto a pistas de pouso improvisadas próximas à vanguarda, onde operavam postos de distribuição de suprimento e oficinas de manutenção. Algumas destas pistas foram construídas em estradas de terra melhorada, possibilitando o pouso de aeronaves C-130. A evacuação aeromédica foi amplamente utilizada, salvando muitas vidas.

Esta demora no avanço israelense impediu que seu grande objetivo estratégico fosse alcançado: a tomada de Beirute antes da imposição de uma cessar-fogo. As forças de oeste e do centro chegaram a sitiar a cidade, mas não a conquistaram.

O setor de oeste foi o mais difícil dos três. Ali, os israelenses enfrentaram duas divisões blindadas sírias. O objetivo israelense era a estrada Beirute - Damasco, por onde suas forças poderiam progredir para este, ameaçando a capital síria com sua artilharia de longo alcance. Para evitar o embate com o grosso das forças inimigas, os engenheiros israelenses construíram uma estrada de cerca de 20 km, desviando das suas posições. Uma brigada de comandos sírios, no entanto, conseguiu emboscar a vanguarda blindada israelense, impedindo seu avanço sem apoio aéreo. Este apoio era dificultado pelo domínio sírio dos ares da região, em especial por suas baterias de mísseis antiaéreos no Vale do Bekaa. Uma ação combinada ar-terra permitiu aos israelenses que destruíssem tais baterias. O avanço, no entanto, foi penoso, sendo interrompido pelo cessar fogo assinado entre Israel e Síria em 11 de junho, sob os auspícios dos EUA.

O período que se seguiu ao cessar fogo, muito mais longo, foi uma experiência inédita para os israelenses. Nesta fase, as FDI, enquanto mantinham o cerco de Beirute, procuraram executar uma rigorosa varredura no território ocupado, destruindo os remanescentes da OLP que ali operavam e capturando um vasto estoque de armas e munições por eles usadas.

As perdas israelenses neste período foram muito pesadas, levando-os, por uma combinação de vários fatores políticos, a retirarem-se do Líbano em 1985, mantendo somente uma "Zona de Segurança" próxima à fronteira.

A primeira performance do Merkava foi extraordinária. Ele provou ser o mais seguro tanque em ação. Pesquisas referentes a baixas mostraram que nem um único tripulante destes carros foi morto em ação e que não houve explosões secundárias na munição causadas por fogo inimigo. O conceito da blindagem espaçada mostrou-se bastante eficaz, fazendo com que o jato proveniente da explosão de cargas ocas se perdesse nos espaços vazios entre as camadas de blindagem.

Outros tanque foram empregados pela primeira vez neste conflito pelas FDI, como os M-60. Estes receberam placas de blindagem reativa, que também se mostraram bastante eficazes.

A performance dos logísticos israelenses pode ser sintetizada no depoimento do Dr. John Laffin, renomado comentarista militar britânico, após esta operação:

" O Exército Israelense sempre foi bom, mas eu nunca o tinha visto parecer tão bom como durante a Operação Paz para Galiléia, quando 60.000 homens cruzaram a fronteira. Seu equipamento de combate estava em excelentes condições; a manutenção bem feita; depósitos de peças de reposição estavam em posição antes mesmo dos blindados iniciarem seu movimento. Eu vi muito poucas quebras e pude evidenciar que os soldados cuidavam melhor de suas viaturas que nas guerras precedentes. (...)

O aspecto mais impressionante do Exército Israelense foi seu apoio logístico. Toda vez que vi um obuseiro autopropulsado M-109, perto estava seu transporte de munição. Depósitos de combustível, munição e outros suprimentos estavam bem localizados e identificados claramente.

Como as estradas estavam bloqueadas, os logísticos utilizaram navios, helicópteros e aeronaves de transporte para moverem o suprimento para unidades e depósitos considerados chaves. Até onde eu pude ver, nunca houve uma unidade que deixasse de combater por falta de munição, armamento ou água."  


O CORPO DE MATERIAL BÉLICO NA ATUALIDADE

O Corpo de Material Bélico é responsável pelo desenvolvimento e manutenção do material bélico das Forças de Defesa de Israel (FDI), assim como por prover apoio técnico às suas unidades. Constitui-se no maior corpo técnico do Exército, com os recursos humanos mais extensos e sofisticados. O Corpo é chefiado pelo Comandante do Material Bélico, no posto de General de Brigada. Este é subordinado ao Diretor da Seção de Tecnologia e Logística do Estado-Maior Geral das FDI, sendo a maior autoridade na área técnica, responsável pelos assuntos referentes ao material e servindo como assessor direto do Chefe do Estado-Maior nestes assuntos.

O pessoal de material bélico está desdobrado em todas as unidades da FDI, desde o campo de batalha até as oficinas na retaguarda, lidando com uma enorme variedade de itens - desde geradores até sofisticados equipamentos de informática. De seus oficiais e praças espera-se que mantenham um alto nível de competência técnica de modo a desenvolverem a tecnologia de combate do futuro. Um sistema educacional bem organizado dá o devido apoio a este pessoal.

O Corpo de Material  Bélico possui duas missões básicas:

- desenvolver o material de emprego militar: pesquisa e desenvolvimento,   manutenção e melhoria da qualidade do material das forças terrestres;

- construir uma capacidade de manutenção que promova os benefícios   da tecnologia nas FDI.

O Corpo representa em grande escala o "poder por trás das cortinas" no exército israelense. Seus homens constituem-se em exemplo dos mais dignos para todos os soldados do mundo.
 
 
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

- ESHEL, David. Chariots fo the Desert: the story of the Israeli   Armoured Corps. Oxford: Brassey's, 1989.

- THOMPSON, Julian. The Lifeblood of War.  Oxford: Bressey's, 1991.


- CHURCHILL, Randolph e CHURCHILL, Winston. Seis dias de   uma guerra milenar. Rio de Janeiro: BIBLIEX, 1968.

- HERZOG, Chain. A guerra do Yom Kippur. Rio de Janeiro: BIBLIEX,   1976.



VÍDEOS

You Tube - Merkava Mark 4

You Tube - Merkava Clip


FONTES & LINKS

Wikipedia - Inglês


Wikipedia - Português

Army Technology - Merkava Mk 4


Israeli Weapons - Sherman

Global Security - Sherman

Israeli Weapons - M48

Wikipedia - 2006 Israel-Lebanon Crisis

Defesa UFJF  :

       
Merkavas Destruídos no Líbando (pdf)

       
"Trophy" - Defesa Ativa Para Blindados (pdf)

        
Yom Kippur (pdf)
             

DEFESA BR


De: "Theodoro da Silva Junior" <theojr@terra.com.br>
Data: Sun, 16 Mar 2008 20:17:29 -0300
Assunto: MBT- NAS GUERR AS ÁRABES-INSRAELENSES
 


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