JOSUÉ DE CASTRO

Discurso pronunciado na Câmara Federal no dia 14 de novembro de 1956.

 

            Estamos hoje reunidos nesta Câmara, para discutir a posição formulada pela ONU, no sentido de que os paises membros desse organismo internacional enviem um contingente de tropa para, de acordo com a sua política pacificadora, pôr termo ao conflito desencadeado no Oriente Médio pela agressão de Israel, conjugada com a agressão, a seguir da França e da Grã-Bretanha, ao Egito.

           O Brasil, preso pelos vínculos de país membro da Organização das Nações Unidas e pela circunstância de ter aprovado a Carta de sua criação, de ter, ademais, votado na sessão extraordinária especialmente convocada há alguns dias para estudar o conflito, o Brasil, repito, encontra-se necessariamente compelido a estudar o assunto com o máximo interesse e a tomar sobre ele uma deliberação simbólica, mas definição de um país que já hoje pesa no concerto nas Nações, para que essa nossa atitude venha a servir de exemplo na orientação de uma política internacional que não seja de interesses imediatistas, de rapinas, de invasões, de despotismos, de prepotências, de exploração pelos grupos mais fortes, dos grupos mais fracos.

            Creio, assim, que a posição a ser tomada pelo Brasil deve resultar de duas contingências: dos nossos compromissos com a Organização das Nações Unidas e dos interesses do Brasil ante a conjuntura econômica, social e política do mundo.

            Permitam-me, pois, ilustres colegas, antes de enunciar o ponto de vista que me parece consentâneo, uma síntese rápida, uma recapitulação dos fatos que determinaram este estado de coisas e que compeliram as Nações Unidas a tomar tal resolução. Procurarei fazê-lo o mais objetivamente possível, embora o espanto do mundo diante da brutal agressão franco-britânica contra o Egito nos leve a um estado emocional que perturba, que obscurece muitas vezes, a análise fria dos acontecimentos, sem que se possa realmente saber até onde fala­mos de fatos objetivos ou de interpretações subjetivas, de acordo com as nossas tendências, com os nossos pontos de vista, com as nossas ideologias, com a nossa compreensão da realidade do mundo.

  Foi realmente brutal o gesto das grandes potências, França e Grã-Bretanha. Mas não compreendo o espanto do mundo. Tenho a impressão de que esse espanto é fingido. É o fingido espanto de um mundo de convencionalismos. Todos aqueles que conhecem a História contemporânea não têm razão de se espantar diante desse fato, porque ele é apenas mais um episódio da história do imperialismo colonialista no Mundo Moderno. A Inglaterra e a França nada mais fizeram do que repetir um gesto, já outras muitas vezes praticado, de prepotência, de força para escravizar os povos mais fracos, para explora-los, para manter esta economia desumana do colonialismo, que avilta a espécie humana, que a deprime e a degrada, no interesse do economismo puro, da economia degenerada do lucro e do interesse exclusivo, sem nenhum respeito pela condição humana.

  É, pois, sem espanto e sem rancor que falo. E se acentuo que há este fingido espanto é para dizer, com as palavras de um grande filósofo e sociólogo norueguês, Johan Bojer, que a característica da nossa época atual é a insinceridade, o cinismo universal. É em nome de princípios e doutrinas as mais elevadas que se praticam os atos mais baixos, mais vis, mais degradantes para a própria espécie humana.

  Ora, meus nobres colegas, verificamos apenas, neste mo­mento, que a Inglaterra e a França tiraram a máscara, a más­cara de civilização com que disfarçavam o seu apetite, a sua cupidez, os seus mesquinhos interesses colonialistas.

  Esta a verdade. Por isso, já no fim do século passado, um filósofo de orientação diferente da dos ocidentais, um filósofo chinês, conversando com um homem da Europa Ocidental, dizia:  “O que me espanta, o que espanta o povo chinês, o que não entendemos é que os europeus façam tanto esforço para mandar-nos missionários, para difundir na China a religião cristã, quando eles mesmos precisavam, antes de tudo, implantar na própria Europa esses princípios cristãos”. Responde-lhe o europeu: “Há dois mil anos que a Europa é cristã”. Retruca o filósofo: “Estranhamos isso, porque o cristianismo que pregam aqui é um cristianismo de fraternidade, de modéstia, de bondade, de ajuda, de amor ao próximo, de condenação aos crimes e aos morticínios, e nesses dois mil anos tudo que a Europa tem feito é desrespeitar esses princípios do cristianismo”. Voltou o europeu:  “Ê que a religião é uma coisa e a política outra”, ao que redargüiu o filósofo chinês: “Então esta religião não nos serve, porque queremos uma religião para ser cumprida e não para ser ludibriada, para servir de “cortina de fumaça”, quando, na realidade, seus princípios não são obedecidos na hora dos apetites, na hora do pecado, por­que os atos de contrição posterior vão fazer perdoar os crimes, que não são individuais, mas crimes verdadeiramente coletivos”.

            Não é sem razão, portanto, que desejo recapitular essa história. Não me surpreende a invasão do Egito, porque o colonialismo sempre agiu assim, desde o seu começo, logo a pós a expansão do horizonte geográfico, com a era das grandes descobertas, com a ocupação, pelos europeus, dos paises em que viviam os povos chamados bárbaros ou selvagens.

    E como eram conquistados esses povos? Para a América vieram os colonizadores que traziam a cruz e a espada, a fim de aqui arregimentar novos adeptos para a religião cristã. Mas, na verdade, o que eles vinham era buscar riqueza e escravizar esses povos. Tão revoltante era essa conduta dos conquista­dores espanhóis — e nós conhecemos bem a Legenda Nera ou A Lenda Negra Espanhola — tão negra e nefanda era, que um sacerdote sincero, como foi Frei Bartolomeu de Las Casas, dizia, espantado: “Eu não sei se esta cruz que trazem os colonizadores é mesmo a cruz de Cristo ou se uma daquelas em que foram crucificados os dois ladrões ao lado de Cristo”.

    O colonialismo como foi, como é, como deseja persistir, apesar de superado econômica e socialmente, não passa de um roubo organizado, um roubo sacramentado, um roubo cínico das grandes potências, que usam os organismos internacionais, a imprensa internacional, os meios todos de convencimento e de formação de uma falsa opinião pública, manipulada para esmagar o desejo de libertação, de autodeterminação, a vontade de se governar a si mesmos que têm os povos oprimidos e esmagados pelo imperialismo colonialista.

    Talvez seja necessário definir melhor ainda o que pretendo dizer. Não quero referir-me apenas a esse imperialismo dos tempos passados, ao imperialismo da Inglaterra, conquistando a Índia e mandando para lá um Vice-Rei do tipo de Robert Clive, que de tal maneira procedeu, tão indignamente, contra o povo hindu, que a Inglaterra, aparentemente envergonhada, o chamou a prestar contas ao Parlamento; condenou-o como criminoso, vendo-se ele forçado a estourar os miolos com uma bala.

   Mas um segundo Vice-Rei, Warren Hastings, continuou na mesma diretriz, praticando coisas como a venda por vinte e cinco milhões de rúpias ao Grão-Mogol, de uma província que não lhe pertencia e, além disso, alugando por dez milhões, uma divisão britânica, para com armas e fuzis persuadir o governo dessa província a entregá-la.

  Vem de longe essa capacidade britânica de persuadir pela força.

  Mas não é necessário ir tão longe. Neste mesmo Egito, palco do drama de hoje, e mais perto dos nossos dias, se desenrolou episódio no qual o atual parece fielmente decalcado, como uma monótona e insípida repetição, até mesmo nos seus detalhes. Em 1882 a Inglaterra e a França, na defesa dos seus interesses ameaçados no Egito, trocaram seus pontos de vista, enviaram suas esquadras para patrulhar as costas baixas da região do Delta do Nilo e com disciplina e método bombardearam Alexandria, reduzindo-a a “um imenso montão de ruínas”.

 O grande Eça de Queirós, em crônicas magistrais envia­das para a “Gazeta de Notícias”, do Rio de Janeiro é neste jornal publicadas em setembro de 1882, descreve com realismo, este sinistro episódio e é curioso verificar-se como os fatos descritos e comentados se assemelham em quase tudo aos fatos que hoje ocorrem, fazendo estarrecer a opinião pública do mundo, tão desprovida de memória, tão desguarnecida de conhecimentos históricos elementares. Permita-me este Plenário que eu leia uma página deste sublime Eça de Queirós, acerca deste bombardeio de Alexandria levado a efeito pelos ingleses em fins do século passado. É realmente uma página de impressionante atualidade e de um criticismo superiormente mordaz. Sob o título “O que resta de Alexandria”, lêem-se nas “Cartas da Inglaterra” as seguintes palavras:

  “Hoje, à hora em que escrevo, Alexandria é apenas um imenso montão de ruínas.

  Do bairro Europeu, da famosa Praça dos Cônsules, dos hotéis, dos bancos, dos escritórios, das companhias, dos cafés-lupanares, resta apenas um confuso entulho sobre o solo, e aqui e além uma parede enegrecida que se vai aluindo.

  Pela quarta vez na história, Alexandria deixou de existir.

  Tratando-se do Egito, terra das antigas maldições, pode-se pensar, em presença de tal catástrofe, que passou por ali a cólera de Jeová — uma dessas cóleras de que ainda estremecem as páginas da Bíblia, quando o Deus único, vendo uma cidade cobrir-se da negra crosta do pecado, corria dentre as nuvens a cicatrizá-la pelo fogo, como uma chaga viva da terra. Mas desta vez não foi Jeová. Foi simplesmente o almirante inglês Sir Beauchamp Seymour, em nome da Inglaterra, e usando com vagar e método, por ordens do governo liberal do Senhor Gladstone, os seus canhões de oitenta toneladas.

  Seria talvez desonesto, de certo seria desproporcionado, o juntar aos nomes dos homens fortes, que nestes últimos dois mil anos se têm arremessado sobre Alexandria e a têm deixado em ruínas — aos nomes de Caracalla, o pagão, de Cyrillo, o santo, de Diocleciano, o perseguidor, e de Ben-Amon, o sanguinário — o nome do Sr. William Gladstone, o humanitário, o paladino das nacionalidades tiranizadas, o apóstolo da democracia cristã. Mas se por um lado, evidentemente, a política do Senhor Gladstone não é um produto de pura fero­cidade pessoal, como a de Caracalla, que fez arrasar Alexandria, porque um poeta dessa cidade finamente dado às letras o molestara numa epigrama — por outro lado esta brusca agressão duma frota de doze couraçados, cidadelas de ferro flutuando sobre as águas, contra as decrépitas fortificações de Mehemet-Ali, este bombardeamento duma cidade egípcia, estando a Inglaterra em paz com o Egito, parece-se singular­mente com a política primitiva do califa Omar ou dos imperadores persas, que consistia nisto: ser forte, cair sobre o fraco, destruir vidas e empolgar fazendas. Donde se vê que isso a que se chama aqui a política imperial da Inglaterra, ou os interesses da Inglaterra no Oriente, pode levar um ministro cristão a repetir os crimes dum pirata muçulmano, e o Senhor Gladstone, que é quase um santo, a comportar-se pouco mais ou menos como Aben-Amon, que era inteiramente um monstro. Antes não ser ministro da Inglaterra! E foi o que pensou o venerável John Bright, que, para não partilhar a cumplicidade desta brutal destruição duma cidade inofensiva, deu a sua de­missão do gabinete, separou-se dos seus amigos de cinqüenta anos, e foi modestamente ocupar o seu velho banco da oposição...

 Tudo o que se prende imediatamente com a aniquilação de Alexandria, é de fácil história, sobretudo traçando só as linhas principais, as únicas que podem interessar quem está, moral e materialmente, a três mil léguas do Egito e das suas desgraças.

  No princípio de junho passado, o almirante inglês Sir Beauchamp Seymour achava-se nas águas de Alexandria, comandando uma formidável frota, e tendo ancorado ao seu lado uma esquadra francesa, com o pavilhão do almirante Conrad. A França e a Inglaterra estavam ali com morrões acesos, vigiando Alexandria, de camaradagem, como tinham estado nos últimos dois anos no Cairo, de pena atrás da orelha, fiscalizando, de camaradagem, as finanças egípcias: porque sabem, de certo, que, tendo o Egito (endividado até ao alto das pirâmides para com as burguesias financeiras de Paris e Londres) omitido o pagamento de alguns coupons — a França e a Inglaterra, protegendo maternalmente os interesses dos seus agiotas, Instalaram no Cairo dois cavalheiros, os Srs. Coloin e Blegniêres, ambos com funções de secretários de fazenda no ministério egípcio, ambos encarregados de colher a receita, geri-la e aplicar-lhe a parte mais pingue à amortização e juros da famosa dívida egípcia!

  De sorte que as duas bandeiras, da Inglaterra e da França, eram na realidade dois enormes papéis de crédito, içados no tope dos couraçados. No Almirante Seymour e no Almirante Conrad reapareceram dois burgueses, Coloin e Blegniêres. E na baia de Alexandria, perante o Egito, um dos grandes falidos do Oriente, as frotas unidas das duas altas civilizações do Ocidente, representavam simplesmente a usura armada “.

  Que magistral resumo feito com suprema arte e suprema ironia, nos dá o escritor português desta brutal agressão empreendida pelas potências imperialistas movidas pelo vil interesse material.

 Vê-se, pois, que em 1882 e em 1956 as atitudes das grandes potências foram idênticas e o móvel das duas agressões foi o mesmo. E as justificativas? Também foram as mesmas. Basta que se leia mais adiante no mesmo Eça de Queirós, onde ele demonstra com clareza meridiana que a expedição dos ingleses no Egito em 1882 teve como objetivo conter os excessos perigosos do Coronel Arabi que, nomeado Paxá por pressão da tropa junto ao Kediva, logo se exagerou em querer implantar no país certas reformas contrárias aos supremos interesse britânico e franceses no Egito. Reconhece Eça de Queirós que o Coronel Arabi tinha três ou quatro idéias que não eram más, idéias que, diz o saboroso cronista: “...se houvesse uma Europa decente, que lhe permitisse a realização, podiam ser o começo de um novo Egito, um Egito possuindo-se a si mesmo, um Egito governando-se a si mesmo, um Egito para os egípcios — não uma raça escrava enfeudada à família de Mehemet-Ali, muito menos um refeitório franco para os esfomeados europeus”. Mas nas suas reformas, de mistura com essas idéias sensatas, vinham coisas arrepiantes. Sobre estas coisas arrepiantes que tornaram extremamente suspeitas aos olhos europeus as reformas de Arabi, é bom acompanharmos textualmente as palavras de Eça de Queirós:

            “Mas o ponto delicado das reformas de Arabi era quando tocavam com a situação dos estrangeiros do Egito. Havia aí pretensões monstruosas. Arabi exigia que se abolisse o privilégio pelo qual os estrangeiros, estabelecidos no Egito e enriquecendo no Egito, não pagam imposto. O desalmado queria que não houvesse esses tribunais de exceção para os estrangeiros, que sob o nome de tribunais mistos, distribuem duas justiças — uma de mel para o europeu, outra de fel para o árabe. Enfim, esse homem fatal pretendia que os empregos públicos não fossem dados exclusivamente a estrangeiros —e que não se pagassem anualmente, como se pagavam, mais de três mil contos de bom dinheiro egípcio, a franceses, ingleses e italianos repoltreados em sinecuras em todas as repartições do vale do Nilo, e quase todos tão úteis ao estado como aquele inglês que, com uma carta de recomendação de Lord Palmerston, foi nomeado coronel do exército egípcio e ao fim de nove anos, de ter recebido perto de oitenta contos de soldos, ainda não tinha visto o seu regimento e ainda mesmo não tinha uniforme!

            Tais eram, em resumo, as abomináveis idéias de Arabi, e não se imagina facilmente a apoplética indignação que elas causaram à França republicana e a livre Inglaterra. Arabi foi considerado uma fera. Na bolsa de Paris, no Stock-Exchange de Londres, onde os fundos egípcios tinham descido, pedia-se com energia a supressão imediata desse iníquo aventureiro.

            Os gritos estridentes dos estrangeiros no Egito, ameaçados nas suas pessoas e nos seus privilégios, enterneciam a Europa”.

            E foi assim, conforme demonstra exuberantemente Eça de Queirós, que compelido por estes fatos abomináveis o governo de Sua Majestade Britânica não teve outro recurso que o de bombardear brutalmente o Egito, para conter a fera perigosa.

            Que perfeita coincidência! Não falta mesmo no nosso episódio de 1956 o pedido de demissão de um ministro do Gabinete para que a história seja repetida em seus detalhes. E as feras parelhas: Arabi e Nasser — ambos coronéis. E as reformas temerárias e as angustiadas potências ocidentais ameaçadas por essas feras. É realmente tocante a atitude defensiva do Imperialismo Ocidental, forçado a se manter alerta e a se defender por todos os meios contra estas nefandas conspirações que armam as pequenas potência mesquinhamente invejosas do seu grande e radioso poderio.

            Não é só desse tipo de imperialismo que desejo falar, mas de todos os tipos do imperialismo opressor, contra os quais se levantam, no momento, unidos como um só bloco, todos os povos oprimidos do mundo — contra o imperialismo americano, contra o imperialismo russo. É neste sentido que o mundo desperta.

            É de um inglês, membro do Parlamento britânico, Sir Richard Acland, esta advertência ao seu país: “É hora de despertar porque os povos coloniais já despertaram, já se rebelaram e já não se conformam em vender por nenhum preço a sua liberdade”.

  Os episódios da Hungria e do Egito demonstram a determinação absoluta, incoercível e irreprimível dos povos espolia­dos de se libertarem do colonialismo político e econômico, das tutelas estrangeiras, para defender seus supremos interesses de autodeterminação. Seja qual for o preço, de venda da liberdade, não será ele aceito pelos povos oprimidos.

  A Hungria recebeu urna grande ajuda material da União Soviética.

  A Hungria passou do tipo de estrutura puramente agrária e feudal a um país, já hoje, de economia industrial. Mas na hora em que a União Soviética quer sufocar a sua liberdade e impor princípios contra a sua autodeterminação, ela se rebela e sua gente sacrifica a própria vida, numa desproporção de força que é um martirológio, para mostrar ao mundo que passou a época do imperialismo.

  É diante desta situação do mundo que o Brasil precisa tomar posição. É lamentável que nosso País, até hoje, em sua política internacional, apenas se tenha enfileirado a blocos belicosos, respaldando o desejo de agressão de um bloco para esmagar outro e dominar o mundo. Países, como o Brasil, do grupo dos países subdesenvolvidos, só teriam uma posição a tomar; a terceira posição, contra os gigantes da guerra, contra a prepotência das nações belicosas.

  Se essas potências, que hoje se enfileiram em dois grupos - o mundo da órbita americana e o da órbita soviética - verificassem  que não tinham aliados para sua aventura porque não é possível sejamos aliados da morte e da miséria, elas não se animariam a deflagrar a próxima conflagração, que pode exterminar a humanidade inteira.

  Esta deve ser a posição do Brasil, para não trair os seus interesses, a sua formação cristã, honestamente cristã, não fingidamente cristã, e para não trair a evolução da sua história libertando-se do colonialismo. Esta é a posição que deve tomar o Brasil, e é neste sentido que advogarei seja discutida a pro­posição submetida à apreciação do Parlamento.

  Desejo, Sr. Presidente, em continuação, para precisar com objetividade o que se está passando no mundo, servir-me do episódio do Egito para desmoralizar esse cinismo, esse artificialismo com que se pretendem justificar atos que são indignos dos nossos dias.

  O que se passou no Egito foi apenas o que vou expor a seguir.

  O Egito é um país pobre, um país subdesenvolvido, de pauperismo generalizado, onde uma população, miserável e faminta, se comprime numa estreita faixa de terra fértil que penetra como uma lança no coração do deserto do Saara, o maior e o mais desértico de todos os desertos do mundo. Esta faixa de terra fértil é o vale do Nilo e se alarga apenas no seu delta, ampliando a superfície do oásis. O Egito é apenas este oásis, produto milagroso da água do Nilo, fertilizando e fecundando as areias de fogo do deserto.

  Nesse pequeno oásis se concentra um formigueiro humano de 24 milhões de habitantes, tão concentrado e pesando tão densamente sobre o solo que os neomalthusianos, aqueles que querem ressuscitar as velhas teorias criminosas de Malthus, que prescrevem o morticínio e o assassínio pré-natal, em massa, para privilégio dos que têm a sorte de nascer nos países ricos, se servem do Egito como exemplo para mostrar que não é possível deixar impunentemente crescer a população do mundo. Entretanto, o que não se deve deixar crescer impunemente é a exploração do mundo por um pequeno grupo, com o sacrifício da maioria da humanidade ou da espécie humana em seu conjunto.

  O Egito, dizia eu, com essa condição desfavorável, de uma pequena área de terra para alimentar a sua população, só tinha uma possibilidade de sair do seu pauperismo, que era a de promover o seu desenvolvimento econômico. Para isso, tomava-se necessário antes de tudo, a modificação da estrutura agrária do país. Fez-se uma reforma agrária. Mas que resultou dessa reforma? Coube apenas meio hectare de terra para cada felá, para cada pobre agricultor, e com meio hectare de terra não é possível alimentar-se uma família. Era preciso uma segunda providência para promover esse desenvolvimento: expandir a agricultura, não intensivamente, por­que ela já é das de maior rendimento do mundo, em virtude da magnífica fertilidade que propicia o Nilo, o rio que ali­menta a Nação, mas estendendo a sua área de cultivo, extensivamente através da irrigação.

  Então, o Egito projetou ampliar as obras da Represa de Assuã para poder irrigar novas terras. Pelo projeto elaborado se permitiria dispor de um aumento de terras irrigadas de cerca de 30%. Mas para realizar essas obras era preciso assistência financeira, não apenas a assistência técnica que a Organização das Nações Unidas oferece aos países subdesenvolvidos. Não é só com a técnica que se faz, é com os recursos financeiros, e estes as nações pobres, subdesenvolvidas, não têm para sair de sua miséria, porque o desenvolvimento econômico só se processa com novos investimentos que as supram, através da poupança, da economia, e quem vive na fome, na miséria, não tem poupança, não pode reinverter, não pode sair da miséria.

  Então, o Egito apelou para as potências ocidentais: Estados Unidos, Inglaterra, França, no sentido de financiarem essa obra que redimiria da fome e da miséria 24 milhões de habitantes do nosso planeta. Os Estados Unidos prometeram que dariam esse financiamento, mas, com isso, estava envolvida, também, uma outra promessa: compromisso de o Egito assinar pactos de segurança contra os interesses do próprio Egito. Foi o Pacto de Bagdá. O Egito se recusou a ser seu signatário; e, então, lhe foi negado o financiamento, o recurso necessário a que pudesse desenvolver sua economia, irrigar suas terras e sair do regime da fome em que se encontrava.

  O Egito queria salvar-se da fome e da sede, e lhe foi negada água pelas potências ocidentais. Negaram água a um povo maometano, cujo Alcorão, código de moral e de religião, diz que o maior crime é o de negar-se água a quem tem sede; quem a nega deve sofrer penalidades na terra e nunca alcançara o reino dos céus ou o paraíso de Maomé, simbolizado por um verde oásis de palmeiras, com água correndo à vista e aos pés dos fiéis.

  Foi a esse povo, que tem na água o símbolo de sua própria vida, porque, na verdade, o sangue do Egito é a água do Nilo, que as potências ocidentais negaram o direito de ter água para irrigar as suas terras e delas extrair os alimentos para os seus filhos famintos.

  Então que fez o Egito? Resolveu procurar nos próprios recursos internos os meios para empreender este seu plano de salvação nacional. Procurou utilizar para este fim, parte da espantosa renda da Companhia do Canal de Suez, que opera em seu território, que de acordo com o artigo 16 do convênio de 1886, é uma companhia egípcia e que percebe um rendi­mento anual de cerca de 50 milhões de dólares.

  Então, que fez o Egito? De acordo com o princípio da autodeterminação dos povos, que têm o regime mais conveniente à sua economia e à sua estrutura social, nacionalizou a Companhia do Canal de Canal de Suez, como a Inglaterra nacionalizou as minas e a exploração de indústrias pesadas e dos transportes na Grã-Bretanha. E para nacionalizar essa Companhia o Egito apenas apelou para seus próprios recursos e, por isso, pelo crime de apelar para seus próprios recursos, a fim de salvar da fome, a sede e da miséria o seu povo, é ele barbaramente invadido pelas potências civilizadas e cultas do Ocidente, pela França e Grã-Bretanha.

  Dizia eu que o Egito projetava, em 18 anos, usando as rendas do Canal de Suez, mesmo pagando aos acionistas, poder redimir-se, construindo a Barragem da Assuã. Mas não pôde. A Inglaterra levanta-se despeitada, movida por dois sentimentos: um de cobiça nos 50 milhões anuais de dólares que rende o Canal de Suez; outro, de medo, de medo do precedente de nacionalização do Canal de Suez, ao qual se seguiria, como se seguirá, a nacionalização do petróleo, dos minérios, dos fosfatos do Norte da África, etc., que não permitirá mais os privilégios das nações exploradoras e colonialistas.

  Estas foram as causas da invasão.

  Mas os povos pobres e espoliados do mundo despertaram e se juntaram; não deporão o seu direito de protestar e de reagir enquanto não for inteiramente superado o colonialismo, hoje deliqüescente e desmoralizado.. Estou certo de que o Brasil deve estar nessa posição.

Diante do projeto, creio que devemos enviar a tropa para apoiar as Nações Unidas que, lamentavelmente, não dispõem de elementos próprios para coibir o abuso da força. Só há uma forma de reagir contra a força até hoje: a própria força.

  Mister se faz, porém, que o Brasil, ao enviar o seu contingente, precise bem que não vamos lá respaldar as conquistas imperialistas britânicas (muito bem), porque, senão iríamos apenas mandar homens que seriam soldados ingleses com carne de brasileiros, vestidos com o uniforme do Exército da nossa Pátria. Precisamos não servir de cortina de fumaça ou de biombo a este cinismo espoliador dos direitos humanos no mundo. Precisamos apoiar-nos na justiça social da qual todos os povos do mundo têm hoje consciência. E é por isto, que Lord Boyd Orr, o maior dos homens vivos de nossos tempos, Prêmio Nobel da Paz, diz que a revolta dos povos de cor, dos asiáticos, não será oprimida, nem extinta pela força dos canhões, nem pelas bombas atômicas. Os povos da Ásia sabem que a sua miséria e a sua fome são apenas um problema da má conjuntura da estrutura econômica do mundo, dos privilégios das nações que açambarcaram a riqueza, numa distribuição leonina, que lembra aquele leão da fábula de Voltaire e que bem representa a Inglaterra: o leão divide a presa em quatro pedaços, apodera-se de três e diz que esganará quem se aproximar do quarto pedaço. É este leão velho e desdentado que, mais uma vez, ameaça o mundo; mas o mundo não mais o teme, porque o mundo está unido contra a opressão, e unido dos dois lados, no mundo socialista e no mundo capitalista.

  Todas as nações oprimidas se unirão e, sob a égide da união, terminarão com a exploração econômica e imperialista no mundo.

  O estatuto das Nações Unidas precisa ser reformado. O seu art. 109 prevê a revisão de sua Carta e essa revisão é necessária para acabar com o veto, que é privilégio de um pequeno número de Nações, contra o interesse da maioria, e para fazer das Nações Unidas, não um organismo internacional, mas supranacional, com estrutura jurídica para criação de uma legislação mundial, com uma estrutura de administração e uma Polícia Internacional para fazer cumprir as leis do mundo.

  Para terminar, desejo prestar uma homenagem a esse mártir povo egípcio. O sacrifício que ele está sofrendo talvez sele a última tentativa e o último episódio, o clímax do imperialismo colonialista. Estou certo de que se vão realizar, com o apoio e a união dos povos subdesenvolvidos as profecias de Tagore, quando dizia que “nós, os mendigos esfarrapados do mundo, conquistaremos um dia a liberdade para a humanidade inteira”.

 Colaboração Theodoro


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