O Criativo Brasileiro


        A Força de Emergência das Nações Unidas que cumpriu a missão de paz no Oriente Médio de 1956 a 1967 era composta por tropas de várias nacionalidades.

        Os soldados brasileiros e iugoslavos eram os que menos conheciam o inglês, idioma oficial e usual.
Os iugoslavos, ao chegar a Faixa de Gaza, sentiam-se pouco à vontade ao encontrarem-se com soldados de outros batalhões.

        O soldado brasileiro já chegava buscando alegremente o contato e, por meio de mímica, mostra de slides, troca de moedas e de maços de cigarros, conseguia o milagre da comunicação.
Logo aprendiam um mínimo de inglês e até de árabe. Com uma semana já sabiam arrancar sorrisos até dos tímidos iugoslavos, pois reforçavam universal continência com um “dobro” de entonação perfeita. A desconfiança árabe, a timidez iugoslava, a compenetração dos sikhs indianos e a polida frieza dos escandinavos eram barreiras que os “Brazilian Boys” removiam também com extrema facilidade. Qualquer festa ou competição terminava numa confraternização geral em torno da tropa brasileira que, cantando e batucando, era sempre o ponto de convergência das atenções e simpatias.

        Esta capacidade de tornar a iniciativa, improvisar e vencer alegremente os obstáculos tornava, o soldado brasileiro não apenas comunicativo e estimado, mas também eficiente e respeitado nos esportes e no cumprimento das missões.

        O futebol era dominado por brasileiros e iugoslavos; o basquete por brasileiros e canadenses; o vôlei por brasileiros e indianos.

        Até no “dart”, especialmente, preferência canadense, o Brasil destacou-se com um bicampeonato conquistado pelos tenentes Jomar Costa e Cássio Cunha à custa de um engenhoso truque que lá, como todas as soluções expeditas, recebia a brasileira designação de “macete”. Nos três anos que antecederam sua retirada, a Força enfrentou grandes dificuldades.

        O material estava muito desgastado a ONU atravessava grave crise financeira.
Peças de reposição, suprimentos, recursos financeiros, tudo escasseava. Até os efetivos foram reduzidos.
Manter as viaturas rodando era um prodígio em que os brasileiros tornaram-se mestres. Oficiais de motores e sargentos de manutenção de todos os batalhões eram vistos nas oficinas do “Brazilian Battalion”, olhando, perguntando e aprendendo a fazer adaptações e improvisar soluções pouco ortodoxas. Adaptações e imprevisões denominadas genericamente de “macetes”.O mesmo fenômeno se observava na nossa estação de rádio, a PTA-2, e no nosso “Signal Platoon”.O “macete” tornou-se uma invenção consagradora do talento brasileiro e uma das palavras mais intensa e esquisitamente pronunciadas na Faixa de Gaza.Com seu desembaraço, engenho e simpatia, o soldado brasileiro deixou, com aqueles camaradas de outras nações, a certeza de que no Brasil habita um povo que, valendo-se de sua criatividade, sabe ser eficiente no trabalho e agradável no convívio com seus semelhantes.
       

(Transcrito do Noticiário do Exército nº 7305 –jul/87)


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