SÓ UMA CARTA


  Antigas cartas guardadas

Que o tempo amarelou

São lembrança do passado

Que no meu peito ficou .

 

É desta maneira que tem o início da música cantada pelos irmãos Sertanejo ou Caipira (Tonico e Tinoco).. Ontem, dia 22/03/2008 recebi a visita do boina azul Onivaldo Freiberger do 14º contingente, trazendo consigo uma cópia do Jornalzinho criado na época mais precisamente em 01/10/1964 com o nome de (O AREIA) , tão difícil até para ler algumas palavras, se passaram mais de 40 anos. Por isso tem sentido o verso acima. Na folha de  nº 5 com o título,

SÓ UMA CARTA

O dia. Segunda ou sexta-feira, não importa a hora. Pela madrugada, ao meio dia, a tardezinha, todo o dia. Uma ansiedade nos invade o coração, a princípio tênue, com sintileza de um sonho, porém, aos poucos vai tomando formas e avultando-se, e, por fim, toma completamente conta do nosso ser, tornando-se quase que insuportável. Em todos os olhares nota-se um raio de esperança, uma chama muito débil de alegria, e, olhando mais demoradamente nota-se que não é só esperança que existe naqueles olhares, mas existe também um temor, quase diminuto . As horas parecem arrastarem-se com muita lentidão, e parece que os ponteiros do relógio, quem sabe por cansaço caminham mais devagar. Finalmente a noite começa a estender seu manto sobre a areia, todas as coisas vão tomando forma nova, preparando-se docemente para enfrentar a escuridão, as trevas que as envolvem cada vez mais. É a hora triste em que tudo acompanha as expectativas reinantes nos corações esperançosos.

Os lábios já conseguem articular palavras que traduzem a razão daquela ansiedade; as cartas não demorarão e no íntimo de cada um, aquela pergunta: será que receberei alguma?

A noite já vai alta, quando finalmente ouve-se ruído distante, insignificante para os ouvidos que não estão a espera de algo, mas atuando como um clarim na alvorada, para os que aqui se encontram é uma viatura que se aproxima.

Ninguém mais fala, todos aguardam e os minutos brincam, zombam aumentando sempre mais o espaço que separa-nos de suprema decisão.

Então surge uma luz, a princípio muito distante, mas que se vai aproximando pouco a pouco. Os olhares se alongam pela estrada infindável, como se pudesse enxergar através das trevas o que vem naquela viatura, ainda distante.

Os corações pulsam descompassadamente, , como se quizesse nos saltar do peito. As respirações tornam-se ofegantes... a viatura transpõe o portão de entrada e às vezes dos que nela se encontram fazer-se ouvir. “ Chegou o chifre” “chegou o chifre”... Um colega desembarca e trazendo entre as mãos um pequeno maço de envelopes amarrotados pela distância que percorreram, pequenos envelopes que para muitos não têm valor algum, mas para nós vale uma fortuna incalculável; envelopes que são portadores de laços de união, únicos laços que nos trazem uma verdadeira mensagem de fé, resignação e consôlo. Um círculo se forma ao seu redor, um círculo vivo de jovens que esperam de corações vibrando, torturados pela dor de uma saudade. Um a um, os envelopes vão passando das mãos de quem os trouxe para as de seu destinatário, que com um sorriso nos lábios retira-se, para um lugar calmo onde possa ler o conteúdo daquela carta tão ansiosamente esperada.

O seu sofrimento teve um fim, foi recompensado. Se olharmos com atenção, enquanto seus olhares percorram àquelas folhas, cujo valor traduz carinho e amor, veremos claramente que ela não se encontra entre nós, mas sim ... lá ... muito longe, de onde saiu a carta d’entremãos trêmulas de emoção.

Terminada a distribuição, e, para  alguns a espera não teve recompensa, nada veio para acalmar-lhe o coração inquieto; ele só, magoado e de cabeça baixa retira-se para seu alojamento, para chorar talvez, abafando os soluços  entre as cobertas de sua cama de soldado, pois terá que esperar até que a próxima mala postal traga-lhe novamente uma esperança de receber uma pequena carta, verdadeiro bálsamo para o seu forte coração.

A luta reinicia, a luta árdua, a luta contra a dúvida e a saudade, a solidão e o tédio, luta que só quem se encontra tão distante  pode avaliar.

Colab. Cb Moraes
Transcrito por: Arnaldo Reinert-10ºcontingente-Suez
 
osboinasazuis@yahoo.com.br
de Arnaldo Reinert <osboinasazuis@yahoo.com.br>
data 30/06/2008 21:09
assunto Onivaldo Freiberger

VOLTAR