Um Breve Conto de Natal

Enviado por Edison Iabel 

18-12-2016

 

Aos Boinas Azuis

UM BREVE CONTO DE NATAL 

Uma singela homenagem aos companheiros Boina Azuis do Batalhão Suez, e suas famílias deste imenso e querido Brasil, cujo nome temos honrado e ajudado a incluí-lo no contexto das Nações promotoras, e mantenedoras da Paz Mundial 

    - I “Um pouco antes da meia noite, daquela distante véspera de Natal na Faixa da Gaza, o soldado José S. abandonou a contragosto a simples, e ao mesmo tempo tocante Ceia de Natal, que se realizava no refeitório do Batalhão Brasileiro, em Rafah, Egito, com a presença do coronel comandante e os demais componentes do batalhão Suez. Uma ocasião especial para os militares brasileiros, compartilhando a mesma emoção, há milhares de kilometros de casa.  Coubera a ele a responsabilidade de render seu solitário colega na guarita do portão principal do Campo Brasil.  O Sd. José pegou um pedaço de torta de nozes, para comer mais tarde, embrulhou-o num guardanapo, com cuidado, guardou no bolso externo de sua calça. Apanhou o capacete azul da ONU, abotoou a japona e vestiu o cinturão desejou um Feliz Natal a seus colegas e superiores. Fechou a porta do refeitório atrás de si, e em passos firmes, dirigiu-se a seu destino, olhando surpreso para o firmamento. Fazia bastante frio naquela noite linda e incrivelmente estrelada: dava a impressão de haver mais estrelas no céu, do que o normal. A forte aragem fez com que o nosso herói levantasse a gola de sua japona e enfiasse as mãos nos bolsos, para protegê-las do frio de cerca de zero grau.  No meio do caminho, ouviu mais de uma vez, seu nome ser chamado, e ao virar a cabeça, a procura daquela voz estranhamente familiar, levou um tremendo susto ao deparar-se com uma figura iluminada, de cabelos e barba brancos e encaracolada, faces rosadas e voz rouca, muito parecida com a do padre de sua pequena paróquia, no interior do Brasil.  Antes que ele entendesse o que se passava, esboçasse qualquer gesto, a tal figura abriu um sorriso contagiante, e foi logo se apresentando: “Olá José, sou o Papai Noel, lembras de mim”? Estou a tua espera para te dar um presente de Natal.  Veja só: passei antes em algumas lojas de Beirute, e escolhi algo muito especial para ti; tenho certeza que vais adorar o presente!”“ “M...M...Ma...Mas ‘péraí’, P.. Pap...Papai Noel !- Como o senhor sabe meu nome?” balbuciou um intrigado Soldado. José, aos poucos recuperando o fôlego e sendo tomado por um súbito calor: 

  “Presente para mim”?...

Mas eu não sou nada, sou um simples soldado...

Não sou a pessoa mais indicada... ’

“José, meu querido’, interrompeu o visitante com brandura, "tu representas a simplicidade do homem, há muito tempo perdida, e a pureza de coração dos humildes”...

O soldado esticou seu braço, impedindo que o ‘bom velhinho’ abrisse seu saco de presentes, e disse com sua simplicidade característica: “Mas P Papai Noel, já ganhei meu presente de Natal... Não preciso de mais nada... Só em estar aqui na Faixa de Gaza, com meus irmãos de todas as Regiões do Brasil, guarnecendo as duas Fronteiras Israel/Egito no Sinai( IF) e Israel/Faixa de Gaza( ADL), no Deserto de Negev, cumprindo nossa Missão de manter a paz nesta região, é mais do que um presente de Natal, para todos nós;  O senhor não acha?”.

... “Meu bom José, me chame de você’...

” já havia ouvido falar dos “Boinas Azuis” da ONU, soldados treinados para manter a Paz...Mas não acreditava que tais heróis pudessem existir’, continuou um emocionado ‘bom velhinho’ com voz embargada...

Enquanto isso, ouvia-se à distancia ecos de uma estranha melodia...

“Graças a vossa constante vigilância desta fronteira, e dos esforços de outros colegas voluntários de diversas nações estrangeiras, as famílias desta e de outras regiões conflagradas em redor do planeta, podem ter o privilégio de se reunir em paz e celebrar esta Noite de Natal...

Algo tão banal e rotineiro em outras partes do mundo, não é mesmo?...

“A humanidade sempre será grata a vocês, e aos criadores das Forças de Paz, independente de nacionalidade de raça ou credo”... 

Nosso amigo José, ‘nesta altura do campeonato’ suando as bicas, e mal conseguido enxergar o mostrador de seu relógio, tamanha era a torrente de lagrimas que brotavam de seus olhos, interrompe esta verdadeira

“Ode ao Boina Azul” proferida pelo mágico personagem :

“Escute Papai Noel... Já é quase meia noite, vamos nos atrasar; o senhor para entregar os presentes para as criancinhas do Oriente Médio e de outras partes do mundo...E Eu para render meu solitário companheiro, lá na guarita!”

“Hii”! É mesmo, meu bom rapaz, preciso voltar a pegar a estrada!”, disse Papai Noel, como se despertasse de um transe”.

O soldado José sentiu sua mão direita sendo envolvida pelo aconchego das luvas do bom velhinho, quando este disse sorrindo:

“Massalâma, meu jovem”!! ’(Adeus!,em arabic). Shalom!! (Paz!, em hebraico)

Deu meia volta e ‘voou’ para seu velho trenó, estrategicamente escondido no meio de uns arbustos.

Nesse instante a musica se fez mais nítida, como num ‘grand finale’ de um majestoso Oratório de Natal. 

Ao passar por sobre os telhados do Campo Brasil Papai Noel gritou para o Sd. José, com os olhos brilhando, a mão esquerda espalmada na vertical, junto ao canto da boca, e a direita segurando firmemente as rédeas do trenó:

“Um Feliiz Nataal e Proóspero Ano Noovo, para você e para os demais componentes do glorioso Batalhão Suez... do Primeiro ao Vigésimo Contingente!!”. 

II - Com o rosto iluminado pelos primeiros raios solares, o Capelão dava sua costumeira caminhada, na alameda arborizada que atravessava o Campo Brasil, e simpaticamente cumprimentava o pessoal saindo de serviço, e os demais que apressadamente se dirigiam ao café da manhã.

O Capelão, Pastor de Almas, aproveitava a ocasião, para relembrá-los dos assuntos espirituais, convidar a ‘galera’ para a missa matinal.

Porém, naquela esplendorosa manhã de Natal, ele não falou com ninguém antes de encontrar o soldado José.

Ao avistá-lo, tirou algo que portava em seu bolso esquerdo, cuidadosamente embrulhado em seu lenço, e entregou ao nosso herói, falando com uma voz cálida:

“Acho que isto te pertence, meu filho!”

Tratava-se de uma enorme pena branca, recolhida há poucos instantes, perto do local do mágico encontro dele com o Papai Noel, na noite anterior. 

Até hoje uma pergunta teima em fazer cócegas em nossa cabeça:

“Teria tão alva pena se soltado da asa de algum componente da celestial Orquestra de Anjos??” 

“Angel Musicians”; obra prima de Hans Memling, 1480, Koninkij Museum, da Antuérpia.

(Dizem que quando os Anjos tocam para Deus Adonai, tocam Handel e Bach; Quando tocam para si, tocam Mozart...

E... Nosso Senhor chega de mansinho para ouvir sem ser notado....)

Um Feliz Natal, e Próspero Ano Novo, Amigos!! 

(By Edison Iabel)

Soldado Interprete do 20º Contingente do Batalhão Suez, 1967.)

 

 

 

 

 

 

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