A CONSTRUÇÃO DA HISTÓRIA E DA MEMÓRIA DO BTL.SUEZ  

Artigo que encontrei navegando pela Internet  - Theodoro

12/02/2008

    PORT SAID - NAVIO TRT SOARES DUTRA 
JAN/1962 - EMBARQUE DO 9º CONTINGENTE 
DO BTL.SUEZ EM RETORNO AO BRASIL
De: "Theodoro da Silva Junior" <theojr@terra.com.br> 
Data: Thu, 12 Feb 2009 10:10:56 -0300 
Assunto: FOTO PARA ILUSTRAR O TEXTO 
CONSTRUÇÃO DA HISTÓRIA E MEMÓRIA DO BTL.SUEZ 

 

RESUMO

A História do Batalhão Suez ainda é desconhecida do grande público e, inclusive, dentro da própria corporação militar. A partir dos testemunhos orais e de depoimentos escritos, este trabalho traz para as luzes o cotidiano de alguns militares brasileiros que participaram da I FENU (Primeira Força de Emergência das Nações Unidas, UNEF, em inglês, First United Nations Emergency Force), entre os anos de 1957 a 1967, no Oriente Médio. Pretendemos retratar com maior ênfase a História e a memória dos mais de 20 (vinte) piauienses que participaram dessa Missão de Paz. Ainda que de maneira fragmentada, este produto da História Oral é relevante para a análise do discurso e dos eventos narrados por cada um deles sobre a Missão.

Palavras-chave: Batalhão Suez, História Militar, História Oral, Oriente Médio, ONU.

A partir dos testemunhos orais e de depoimentos escritos, este trabalho traz para as luzes o cotidiano de militares brasileiros que participaram da I FENU (Primeira Força de Emergência das Nações Unidas, UNEF, em inglês, First United Nations Emergency Force), entre os anos de 1957 a 1967, no Oriente Médio. Pretendemos retratar com maior ênfase a História e a memória dos mais de 20 (vinte) piauienses que participaram dessa Missão de Paz em diferentes contingentes postada na fronteira do Egito com Israel ao longo de dez anos da Missão. Entretanto, para fins deste encontro, apresentarei brevemente apenas algumas impressões iniciais retiradas do conjunto dos depoimentos realizados com praças e oficiais brasileiros.

Ainda na fase de realização das entrevistas fazia várias anotações de suas falas, tentando por no papel o máximo das frases que surgiam nas suas narrativas. Esse caderno de campo me foi de grande utilidade para a conferência do conteúdo das entrevistas. Serviram como guia para algumas ilações enquanto as fitas eram transcritas. Ler e relê-las enquanto as entrevistas ainda estavam frescas na lembrança ajudou no trabalho de elaboração do texto escrito.

O conjunto das 17 entrevistas orais consagra de forma pioneira a montagem do primeiro catálogo de depoimentos orais somente sobre o Batalhão Suez. Este acervo de gravações é o primeiro trabalho persistente focado sobre o tema específico com entrevistas realizado no país. Há depoimentos temáticos e histórias de vida no campo da História Oral. Ainda que de maneira fragmentada, este produto da História Oral é relevante para a análise do discurso e dos eventos narrados por cada um deles sobre a Missão. Uma cópia da transcrição - textualização ou a apresentação por escrito da entrevista - foi entregue aos depoentes "para pequenas correções de datas, nomes de pessoas ou locais".

No momento das entrevistas percorremos um itinerário tortuoso, uma vez que nem todos os piauienses residem em Teresina. Assim, tivemos que nos deslocar para outras cidades para recolher fragmentos da memória destes veteranos. Entretanto, foi um trabalho interessante, pois pudemos trazer para o proscênio novos atores políticos, novos cenários, e novos olhares sobre a participação brasileira na primeira força de emergência da ONU. Observamos neste grupo de veteranos antes excluídos dos trabalhos acadêmicos, uma grande capacidade de narrar a sua participação. A cada um deles, a quem muito sou grato. Para realizar o trabalho, elaborei um roteiro para as entrevistas, mas não selecionei os entrevistados, a cada um que sabia e conhecia fui atrás para realizar as entrevistas. Assim, recolhi um farto material iconográfico com cada um deles.

Esta abordagem é sobre um objeto múltiplo. A partir das narrativas e dos depoimentos escritos tentaremos fazer uma aproximação do real ou de suas representações. Em face do desprestígio a que foram relegados e a muitas imprecisões e divergências que estamos enfrentando, este trabalho aparece então como a possibilidade de uma contra-história. Podemos dizer que dessa forma, ela termina por "instaurar também o diálogo sobre as controvérsias" que cercam a Missão. Esperamos, enfrentando, com o olhar do historiador, recuperar a maior quantidade de fragmentos da passagem de alguns brasileiros nos primeiros momentos da controvérsia de um dos temas contemporâneos de maior relevância no debate internacional. Antes deste trabalho poderíamos mesmo dizer que os veteranos de Suez não possuíam uma história: eram vistos como esquecidos. Na historiografia brasileira não há trabalhos específicos aprofundados sobre a História do Batalhão Suez. Há mesmo quem duvide que eles ganharam o Prêmio Nobel da Paz. Ao narrar suas passagens pelo Batalhão Suez pude notar que ali estava em prática aquilo que Thompson afirmou como sendo uma "terapia da "liberação da memória".

Em suma, a partir deste estudo buscamos oferecer documentos "novos" através da memória das camadas subalternas do batalhão que tomaram parte na Missão Suez. Essas camadas populares do exército brasileiro são atores comumente ausentes quando se assentam os tijolos na construção da história oficial. Aí, destacam-se notadamente as figuras dominantes. O restante fica esquecido, esquecido naquilo que Montenegro chama de os "esconderijos da memória". Esta história está guardada nas milhares de imagens, cartões-postais, cartas e diários de viagem. Enfim, está guardada nos "esconderijos de memória" dos milhares de sobreviventes.

O sargento Coimbra que serviu entre 1966 e 1967 foi a primeira pessoa sondada no momento de realização das entrevistas (o "ponto zero" no dizer de Sebe), depois dele, pude chegar aos demais. Desses contatos, nosso projeto montou uma considerável "colônia" de entrevistados. Ou seja, "um grupo de atores que pertencem a uma "comunidade de destino", com um mesmo padrão de afinidades históricas, e com experiências que possam ser diferenciadas, dando vida à análise que foge do biográfico". As entrevistas ocorreram em diversas situações, ora eram compartilhadas com mais de um depoente, ora eram solitárias. Seus depoimentos foram tomados em mais de uma oportunidade com cada um deles e, embora, quase sempre os velhos álbuns estivessem por perto eles não serviram necessariamente para estimular ou basear os relatos; as entrevistas foram realizadas em lugares escolhidos pelos depoentes.

A entrega dos depoimentos transcritos para cada um deles serviu para que se fizesse a chamada "conferência". Embora nem todos os oralistas concordem com esse método, ele é, sem dúvida, um ponto importante da verificação dos procedimentos. Para Sebe, "este, por excelência, é o instante de negociação entre o que se publica ou não, os acertos de datas, falhas da memória." Ultrapassada a primeira fase marcada pelo momento da constituição de um documento; o estamos presentemente numa outra fase que é o da análise do produto das entrevistas.

De posse das transcrições das entrevistas com as poucas correções efetuadas começamos agora a fase de exploração dos aspectos da seletividade da memória e da "correção" por escrito daquilo que a emoção deixou transparecer na fala. Observamos que as narrativas pessoais de alguns deles contêm versões "muitas vezes comprometedoras e incômodas" que chegam a questionar fundo a atuação, a ética, a disciplina e a hierarquia de um grupamento militar, especialmente em se tratando de uma Força de Paz.

A HISTÓRIA ORAL DO BATALHÃO SUEZ

Iniciamos nosso trabalho de entrevistas entre os fins de 2003 e início de 2004. A partir daí oferecemos a oportunidade a civis engajados, soldados, cabos e sargentos, enfim, praças de terem as suas histórias. Estes membros do exército que dentro da hierarquia do exército, não pertence à elite dominante, quase sempre são esquecidos dos cenários de primeira linha e, portanto, são os excluídos das pretensões de "estudos oficiais". Aqui, não queremos aludir à uma história oficial e outra não-oficial - mas colocar os praças que serviram no Batalhão Suez dentro de um universo próprio que exploramos com a metodologia da História oral. Enfim, estes atores também passam a ser assunto de discussão acadêmica.

O trabalho tem exigido uma metodologia que necessita de outras fontes, especialmente, as escritas. Tive que realizar um longo diálogo com textos e livros sobre o uso da técnica e metodologia para observar as formas de abordagens, de aproveitamento do material que eu havia coletado, bem como na forma de condução dos resultados. Como foram traçadas as diretrizes da pesquisa, os problemas teóricos, as trajetórias dos entrevistados, como eram explorados os discursos e os "esquecimentos" até porque estes, às vezes, tem um significado social. Junto a análise destes procedimentos utilizei-me também de livros sobre a Guerra dos Seis Dias e sobre o conflito de Suez, além dos depoimentos escritos que recebi ao longo da pesquisa elaborados por veteranos de outros estados do Brasil. Aqui o intuito era checar algumas informações e dados fornecidos pelos piauienses. Como tantos outros pesquisadores, tenho enfrentado alguns problemas concretos inerentes de uma primeira pesquisa de vulto com a metodologia da história Oral que realizei até o momento. Um dos principais deles é o da subjetividade dos entrevistados.

A História Oral tem um caráter plural e democrático. Ela é um campo de saber novo. Com uma metodologia que traça a História individual ou de grupos e que, neste caso específico, nos convida a pensar na versão de cada um destes cidadãos comuns. Ela serve a inúmeras áreas do território das humanidades, o que traz para si um grande desafio operacional e metodológico.

Do ponto de vista teórico, existe uma diversidade conceitual e metodológica sobre a História Oral. Sem querer adentrar no campo e das discussões teóricas e metodológicas, este trabalho se utiliza das narrativas trabalhadas em diálogo com outros tipos de códigos, às vezes, equipadas com informações contraditórias aos depoimentos. Neste trabalho de História Oral, as narrativas dos depoentes não têm um poder de força exclusivo, elas estão aliadas a outras formas analíticas e fontes diversas. Enfim, a oralidade é um recurso a mais no trabalho para o resgate a que nos propomos.

Nosso interesse não é necessariamente "preencher lacunas". Elas existem e são muitas, deixadas tanto pelos documentos como pelas fontes escritas e pela história oficiais. Ele é, mesmo sem o querer precipuamente, uma reparação. Esta reparação acontece no momento em que o Batalhão Suez está prestes a completar 50 anos de sua criação. O Batalhão Suez é um tema pouco conhecido e, portanto, pouco explorado. A participação de cada um na Missão foi o assunto principal que me aproximou dos entrevistados. Assim, procurei explorar ao máximo da experiência de cada um no intervalo de pouco mais de um ano que passaram na Faixa de Gaza, suas vidas, suas decepções, suas percepções sobre a cultura, as cidades, o conflito e as relações tanto com os colegas brasileiros como de outros países. Uma vez transcritos, os conteúdo das entrevistas, agora eles ganham o status de documentos sobre as vivências e experiências únicas destes entrevistados.

Enfim, montamos um acervo com coleções de entrevistas unidas por um tema central, mas salpicado por assuntos diversos. Embora esquecida e relegada pelo EB, encontramos uma memória relativamente bem preservada pelos ainda muitos sobreviventes. Para esta apresentação escolhi fragmentos de uma memória focada no dia-a-dia dos acampamentos, no árduo trabalho das patrulhas e nas alegrias dos passeios. Mas também há a memória focada na Guerra, na saudade, na ausência da família e amigos.

A pesquisa ainda não está totalmente aprofundada, entretanto, já podemos observar algumas indicações, como por exemplo: o conteúdo das entrevistas, de uma forma geral, estampa julgamentos de valor sobre as sociedades do deserto. Analisando os conteúdos das entrevistas podemos montar alguns temas e elaborar algumas idéias sobre o nosso assunto que nos tem despertado a cada dia maior interesse com as descobertas que fazemos. Entretanto, neste encontro ainda não podemos divulgar maioria delas, pois ainda estamos na fase exploratória da pesquisa.

Queremos no final da pesquisa poder oferecer para cada um deles um universo ampliado no que concerne a quantidade de informações sobre a sua participação na Missão, mas também no antes e depois dela. Como trabalhamos com relatos de vários indivíduos que participaram dos vários contingentes, o limite, abrimos a possibilidade de leitura do social, através de múltiplas versões individuais, permitindo reconstruir, a história e a trajetória deste grupo social.

ANTECEDENTES HISTÓRICOS E A CRISE NO ORIENTE MÉDIO (1947 - 1956)

Algumas informações gerais

À guisa de uma introdução entendo ser necessário um pequeno recuo na História para estabelecer o pano de fundo que levou milhares de militares brasileiros à fronteira do Egito com Israel, precisamente na Faixa de Gaza. Não pretendemos realizar aqui qualquer historicização de forma aprofundada das causas do conflito, apenas apresentá-las en passant. É deveras impreciso apontar um início ou uma causa determinante para o conflito árabe-israelense. Ele pode ser, entre outros, apontado mais recentemente com a partilha da Palestina. Remontando a este evento dizemos que encerrado a Segunda Guerra mundial, os ingleses retiraram-se da região ficando a Organização das Nações Unidas (ONU) a tarefa de solucionar os problemas ali existentes. Sem uma consulta prévia aos árabes palestinos, em 1947, a ONU vota a favor da divisão da Palestina em dois Estados: um judeu e outro árabe palestino.

Em 14 de maio de 1948, David Ben-Gurion proclama o Estado de Israel, tornando-se seu primeiro-ministro. Com a criação do Estado de Israel, os judeus retornam à Palestina, território de onde tinham sido expulsos 2 mil anos antes. Sem dúvida, a sua fundação gera uma das mais importantes disputas territoriais do mundo, motivo, ainda hoje, de complexas negociações de paz, envolvendo a ONU, israelenses, palestinos, grupos armados, e os Estados árabes vizinhos.

Em represália à criação de Israel, alguns países árabes enviam tropas para a região, originando o que se convencionou denominar de a Primeira Guerra Árabe-israelense. A guerra termina em janeiro de 1949, com a vitória de Israel, que passa a controlar 75% do território da Palestina, um terço a mais do que o determinado pela ONU no momento da partilha. O restante da área da Cisjordânia, território à margem oeste do Rio Jordão, é incorporado à Jordânia em 1950, também como resultado da guerra. Intimidados, cerca de 800 mil árabes fogem de Israel. A conquista jordaniana incluiu também o setor oriental de Jerusalém, que se torna uma cidade dividida, com o setor ocidental ocupado pelos judeus.

Um outro ponto de inflexão de importância para a formação do Batalhão Suez foi a nacionalização do canal de Suez em 1956. Aí configura-se uma delicada situação que envolvia os interesses de grandes potências, Grã-Bretanha, França, Estados Unidos e União Soviética. De uma forma ou de outra, essas potências desejavam manter sua influência no Oriente Médio por interesses políticos, econômicos e militares. Em 29 de outubro de 1956, Israel invadiu a Faixa de Gaza e a Península do Sinai, avançando em direção ao Canal, com o pretexto de eliminar as bases dos comandos egípcios, instaladas na região. Várias potências ofereceram contingentes, mas somente dez foram escolhidas por satisfazerem uma série de condições exigidas pela ONU: BRASIL, CANADÁ, COLÔMBIA, DINAMARCA, FINLÂNDIA, ÍNDIA, INDONÉSIA, IUGOSLÁVIA, NORUEGA, E SUÉCIA .

Em virtude da recusa do Egito de retirar suas tropas do Canal de Suez, o comando franco-britânico desembarcou tropas em Porto Said e Porto Foad. Com o início do conflito a Assembléia Geral da ONU, que agindo com rapidez, aprovou uma Resolução para a imediata cessação das hostilidades. Entretanto, faltava-lhe respaldo para fazer cumprir tal decisão. Assim, no dia 5 de novembro, o Secretário-Geral da ONU, DAG HAMMARSKJOLD, propôs a criação de uma Força Internacional de Emergência, para garantir o cumprimento da Resolução. A tropa da ONU passou a denominar-se "UNEF - UNITED NATIONS EMERGENCE FORCE" - (Força de Emergência das Nações Unidas - FENU, em português).

A partir daí Iniciaram-se as negociações com a finalidade de estabelecer os princípios norteadores da sua organização, a efetivo, a missão, o recrutamento e os recursos financeiros da Força Multinacional, capaz de, sem fazer uso da violência, garantir o cessar-fogo e o respeito às Resoluções da Assembléia-Geral.

Com o cessar da luta no Egito, no dia 07 de novembro, abriu-se espaço para o desembarque dos Boinas Azuis, como são conhecidos os soldados da ONU. As primeiras unidades da Força de Emergência das Nações Unidas chegaram a 15 de novembro de 1956 e, uma semana depois, franceses e britânicos deixaram a cidade de Porto Said. A Assembléia Geral da ONU, de acordo com a resolução "União pela Paz", estabeleceu uma zona de neutralidade entre Israel e Egito que seria ocupada pelas forças internacionais.

A Missão da UNEF no deserto do Sinai

A História do Batalhão Suez ainda é desconhecida do grande público e, inclusive, dentro da própria corporação militar. Meu interesse pelo tema não é recente, remonta a alguns anos, muitos anos, desde quando, ainda pequeno, assistia às projeções de slides realizadas publicamente pelo sargento Coimbra, logo após o seu retorno da Missão, nos idos de 1970. As exibições eram feitas no jardim de sua casa ou mesmo no meio da rua onde morávamos. Nessas exibições o interesse era muito grande, medido pela quantidade de pessoas que apareciam para assistir as projeções que eram sempre acompanhadas da descrição dos lugares e das pessoas que apareciam nas imagens.

Em 2004 me encontrei com o antigo vizinho, hoje militar aposentado, e questionei acerca de seu acervo. Ele gentilmente me cedeu todos os slides e cartões postais que possui guardado. São mais de mil fotogramas, muitos estão em estado irreversível de deterioração, entretanto, há várias centenas muito bem conservados. Ele também se prontificou a conceder entrevistas e me ajudou a encontrar outros veteranos de Suez. Seu Coimbra não apenas gosta de falar sobre sua participação como ainda demonstra grande vivacidade e um discurso eloqüente sobre o tema. Aliás uma característica dos demais narradores.

Somente nas conversas preliminares fiquei sabendo que ele não foi o único piauiense que viajou ao Egito e durante uma solenidade militar em Teresina em que participamos, ele pode conhecer outros que também viajaram na Missão. Todos estes também dispunham de acervos muito ricos de slides, cartões e fotografias. Também encontrei um diário de viagem muito bem conservado e detalhado da experiência na Missão.

Como nesta pesquisa trabalhamos com relatos orais de vida de personagens procedentes das mais diferentes camadas sociais, esperamos que as aspirações, as percepções e as visões de mundo sobre si, sobre a Missão e sobre o Oriente sejam também diferentes, provavelmente divergentes ou até conflitantes. Algumas questões se colocaram para mim enquanto um curioso daquele evento: como era para eles, deixar uma pequena e pacata Teresina e "ganhar o mundo" desconhecido?; quais eram as referências sobre o Oriente e sobre o conflito árabe-israelense?; quais eram as condições de vida, de trabalho e de saúde deles e dos habitantes do deserto?; como era o dia-a-dia no interior dos acampamentos e nas tarefas de guarda da Fronteira Internacional?; quais eram as suas impressões acerca da cultura autóctone e dos outros batalhões?

Como se disse antes, a missão do Batalhão Suez era manter a paz e a segurança na região da Faixa de Gaza e na Linha de Demarcação do Armistício (ADL). A linha de Demarcação do Armistício, era uma linha que partindo de Gaza ia até Rafah, daí infletindo-se para o Sul, na direção do Golfo de Akaba. Além de garantir e supervisionar a cessação das hostilidades entre Israel e Egito, a Assembléia Geral da ONU atribuiu outras missões à FENU, como a de assegurar o cumprimento da atual e das futuras Resoluções das Nações Unidas; supervisionar e garantir a retirada das tropas que operavam em solo egípcio; interpor-se entre Egito e Israel, na linha da fronteira, a fim de impedir os choques armados na região compreendida entre o Canal de Suez e a Linha de Armistício (ADL, sigla em inglês para Advisory Demarcation Line)entre Israel e o Egito fixada na mesma Resolução. Dessa forma, a faixa de Gaza foi toda ocupada pelas tropas desses países, que realizavam ações de patrulhamento com tropa motorizada e mecanizada.

O planejamento e a preparação no Brasil

Pelo decreto legislativo n. º 61, de 1956, o Brasil contribuiu com um contingente militar do valor de um Batalhão independente integrando a Força Internacional de Emergência, instituída em conseqüência da referida Resolução de 7 de novembro de 1956, O primeiro contingente brasileiro a seguir para o Egito foi composto por soldados já incorporados e servindo ao Exército (EB). Mas também foi adotado o sistema de convocação de reservistas que, depois de selecionados, serviriam à Força pelo prazo de um ano. Os efetivos eram estruturados no 2º Regimento de Infantaria (RI), Rio de Janeiro, em São Paulo, Porto Alegre, Recife e Belo Horizonte. Isso deu ao Batalhão uma constituição nacional. Entre os mais de 6300 brasileiros havia pouco mais de vinte piauienses.

Aqueles contingentes organizados à base de reservistas voluntários, passavam por um período curto de preparação, que visava readaptá-los à vida militar. Dessa forma, foram ministradas sessões de instrução para atualizá-los e enquadrá-los, durante a permanência na missão. A cada seis meses, o pessoal era substituído em quantidade de valor igual à metade do efetivo. Isso permitia a permanência dos voluntários na área por um período de ano, e, em tese, evitando-se a quebra do padrão de eficiência da tropa. Inicialmente, essa operação era realizada pelos navios de transporte da Marinha, posteriormente, passou a ser encargo da Força Aérea Brasileira.

A vida no deserto

De acordo com as narrativas coletadas, no início da Missão, a vida no deserto era monótona, isso por que o soldado passava de 2 a 5 meses basicamente patrulhando a imensidão de areia. Isso provocava um estado de angústia que teria acometido alguns soldados e determinava, por vezes, os seus retornos ao Brasil. Stans Zouain, cabixaba que participou da UNEF em 1966, chama a este estado mental que acometia alguns praças de "alopragens".

O Exército brasileiro, entretanto, procurou desenvolver algumas ações com vistas a elevar o ânimo do combatente e dar-lhe mais determinação no cumprimento da missão recebida. Segundo os relatos foram providenciadas algumas modificações importantes, especialmente quanto à alimentação, moradia e diversão. Dessa forma, procurou-se ter um suprimento alimentar de boa qualidade. O Batalhão recebia reforço de rancho em gêneros não perecíveis, tais como arroz, feijão e açúcar, mas a maioria era fornecida pela FENU. Gradativamente foi feita a substituição das barracas de lona por alojamentos montados em armações de madeira. Providenciou-se ainda a exibição de cinema diário com filmes falados em inglês e a apresentação de shows, além da realização de confraternização e de intercâmbio entre os diversos batalhões, em especial com os canadenses e os suecos. Havia ainda uma cantina sortida com biscoitos, chocolates, bebidas e outros artigos que permitiriam dar um maior conforto à tropa.

As competições esportivas entre os batalhões estrangeiros estimulavam o crescimento do espírito coletivo. Eram realizadas disputas de vôlei, basquete, natação, xadrez, atletismo, tiro e futebol. Há quem afirme que com o passar do tempo o esporte na FENU dava prestígio, assim, o Brasil teria adotado também uma política de seleção de voluntários atletas, visando tornar mais forte as equipes nas competições realizadas entre os batalhões.

Nos acervos fotográficos que tivemos acesso com os veteranos pudemos observar que o uniforme que usavam na Missão era diferente do adotado no Brasil. Isso se deveu em face de que o fardamento e o equipamento brasileiros, inicialmente deixaram muito a desejar, pois não eram adequados ao emprego no deserto. As condições adversas do ambiente operacional impunham um desgaste muito acentuado e rápido ao material oriundo do Brasil. Posteriormente, este problema foi solucionado com o emprego de material estrangeiro.

Vale dizer que de três em três meses de missão, o militar tinha o direito de uma semana de dispensa. Essas dispensas-férias poderiam ser passadas no próprio Oriente Médio, na Europa ou no Brasil. Elas eram denominadas de Leaves. A ONU mantinha ainda Centros de Licença no Cairo, Alexandria e em Beirute, onde os militares podiam usufruir de hospedagem em hotéis, refeições grátis e de assistência médica. Como se disse antes, tais medidas visavam eliminar a rotina diária e revigoravam o combatente para o cumprimento de suas tarefas. O Serviço Social da ONU programava visitas ao Cairo, Alexandria, Luxor, El Alambin, Beirute, Jerusalém, Monte Sinai. Outros lugares poderiam ser visitados, no entanto, nesses casos, as despesas corriam por conta do interessado. O EB também prestava assistência religiosa à tropa, através de um capelão militar. Assim, procurava manter alguns costumes e tradições culturais do povo brasileiro em solo do Oriente Médio.

O trabalho na ADL

O Batalhão Suez se incumbia de variadas missões de guarda, patrulha, observação e vigilância da área determinada pela ONU. Dentro desse quadro, o Batalhão Brasileiro recebeu missões diversas. Na LDA vigiava 32 Km, com duas Companhias (Cias)de Fuzileiros. A rotina da missão de paz resumia-se em vigiar o "front" com vários postos de observação com sentinelas em pontos estratégicos e espaçados e pequenas patrulhas motorizadas durante o dia. A noite as patrulhas eram a pé. Segundo informações, cada pelotão fornecia duas patrulhas, uma das 18 horas às 24 horas e a outra de meia-noite às 06 horas da manhã. Esse serviço de patrulha a pé era pesado. Cada patrulha tinha o itinerário distante caminhava sobre a areia em formação por quase, ininterruptamente, 6 horas consecutivas, no verão ou no inverno. O patrulheiro tirava esse serviço, numa média de 3 vezes por semana. Uma terceira Cia. de fuzileiros servia no Quartel General (QG) do Batalhão Brasileiro e guarnecia as suas instalações. Finalmente, havia a Companhia de Comando e Serviços (CCS) - cujo Posto de Comando (PC) era justaposto ao do Batalhão Brasileiro. Era a responsável pela logística do Batalhão. Esta Cia era composta com o pessoal da área de saúde, mecânicos, motoristas, burocratas, e outras especialidades. Esse era a estrutura organizacional e de funcionamento do batalhão Suez.

Cabe aqui uma pequena observação acerca do papel e das responsabilidades entregues aos brasileiros na Missão. O que nos depoimentos - orais e escritos - é descrito como "a eficiência brasileira" na verdade representava uma carga de serviços e responsabilidades muito grande. Senão vejamos: a quota de guarda de fronteira na L.D.A. era maior, o dobro, que as entregues aos Suecos e Indianos. Outro detalhe esclarecedor da exploração a que estavam submetidos os brasileiros é o fato de que "enquanto tínhamos um efetivo menor, 425 homens. Suecos e Indianos tinham 1.300 homens cada", e, afirmam com orgulho que "nenhuma ordem deixou de ser cumprida pelo Brasil". O teatro de operações oferecia condições climáticas adversas temperaturas superiores a 45º C durante o dia e frio intenso durante a noite, com tempestades de mosca e de areia e a escassez de água. Nesse meio insinuou-se o espírito de sacrifício do soldado brasileiro, evidenciado em várias oportunidades e nas diversas missões realizadas. Se as ligações entre o comando da FENU e o Batalhão Suez eram cordiais, entretanto elas não chegavam a ser estreitas. Um dos fatores restritivos dessa relação era o idioma, pois os oficiais brasileiros, na sua maioria, não falavam o inglês corretamente.

Descortinando ainda mais esta nossa pequena contribuição à História do Presente, aos poucos estamos adentrando alguns aspectos recheados de polêmicas que foram ocultadas ou simplesmente "esquecidas" ao longo dos anos. Um destes temas é sexo na Missão. Não houve grandes resistências para os veteranos tratarem deste tema. Entretanto, em suas histórias na Missão parece que os veteranos narram/recuperam apenas os fragmentos mais convenientes". Assim, apenas um falou abertamente acerca de sexo ao recapturar sua história de vida na Missão. Sexo com mulheres locais - palestinas -, era proibido de acordo com o que estabelecia os acordos de não envolvimento com judeus e palestinos. Isso só poderia ocorrer depois dos três meses iniciais cumpridos inteiramente na fronteira. Além do mais a prostituição é um tabu e um crime pela lei islâmica, cuja pena é a morte da mulher. Entretanto, com base nas narrativas estas determinações não foram cumpridas. Aqui ficamos atentos ao que foi dito e ao que não foi dito, pois também são significativos os silêncios sobre este e outros temas, especialmente naquela experiência humana eivada de privações e constrangimentos, especialmente de cunho sexual. Enfim, "essas lembranças, ou a dificuldade para expressar esses sentimentos possivelmente expõem alguma dificuldade para desenterrar lembranças eivadas de sofrimentos profundos, não resolvidos" como diria Thompson. Talvez se trate para eles der experiências que tragam "vergonhas, ou sejam particularmente complicadas e desconcertantes".

Evidentemente, que podemos compro peças de um grande mosaico que é a história da Missão. A partir deste tema podemos encaminhar a um outro: a quebra da disciplina e do controle das atividades internas dos batalhões. À esse respeito o então cabo Theodoro, natural do Paraná, que participou do contingente de 1962, enfatiza o papel pedagógico das funções de fiscalização que era realizado pelos superiores para que os desvios de conduta fossem evitados e, ou exemplarmente punidos. Sua visão se coaduna com a idéia de Foucault, para quem "o castigo disciplinar tem a função de reduzir os desvios. Deve, portanto ser essencialmente corretivo... os sistemas disciplinares privilegiam as punições que são da ordem do exercício - aprendizado intensificado, multiplicado, muitas vezes repetido." Se os soldados não poderiam mostrar qualquer má conduta também não seria admitida qualquer tipo de negligência, ou má vontade na sua Missão. No mais adequado padrão de "corpos adestrados" e submissos. Caso contrário, eles seriam repatriados e perderiam a medalha ou, no melhor dos casos, apenas não serão indicados para recebê-la. O Medal Parade era um evento militar dos mais concorridos que ocorria na Faixa de Gaza a cada três meses pois era o momento de entrega de medalhas e comendas a praças e oficiais pelo staff da ONU na região.

Entre os fatos, memorizados e resgatados nos relatos destes veteranos, observou-se que alguns foram mencionados por todos os entrevistados. Entre tantos recolhemos aqui algumas referências à dicotomia árabe-israelense que se afirmam na representação dos entrevistados. Todos compartilham da imagem de que há uma diferença abissal entre o judeu e o árabe, sobremaneira, entre o israelense e o palestino. Enfim, em todos os relatos sobre os árabes e sobre os judeus, observamos um centro valorativo moral e narrativo da história que recai sobre a seguinte questão: "os árabes são preguiçosos"; "são ladrões"; "não se pode confiar neles". Fica claro que este é "um construto valorativo deles, mas que também é encontrado "tanto na literatura e no cinema ocidentais quanto em outras narrativas."

Cabe ainda, por último, apresentar um outro tema polêmico, materializado nas narrativas dos veteranos piauienses do contingente de 1967. Essa narrativa concentra emoções profundas do vivido no momento da Guerra dos Seis Dias e os momentos finais de retirada da tropa para o Brasil. Para os participantes do último contingente a memória que os une, não só nega qualquer atuação pouco firme dos comandantes como também culpa o governo pela situação vexatória a que foram colocados no teatro de operações da Guerra dos Seis Dias. Os israelenses não sabiam da presença dos militares brasileiros remanescentes da FENU na região. O depoimento do sargento Macedo, sobrevivente do avanço israelense sobre o território egípcio, está provavelmente correto em seu julgamento de que a permanência prolongada do Batalhão Suez na área do conflito foi conduzida com extrema irresponsabilidade. As informações sobre a guerra iminente ao que parece não chegou aos ouvidos dos oficiais ou foram sub-avaliadas, inclusive pela soldadesca. A extinção da FENU também deve ser vista como um duro golpe para as pretensões de alguns que como o sargento Macedo, viam na Missão uma chance de ganhar dinheiro.

O suposto desconhecimento ou subavaliação de uma guerra potencial naquele momento pelos membros do comando militar brasileiro no Oriente Médio, de modo algum, diminui ou justifica a irresponsabilidade dos oficiais brasileiros naquele momento. A versão que nos foi revelada pelo sargento Macedo de que o Brasil aceitou o convite para permanecer na área do conflito por mais tempo como convidado do Egito ainda é algo que precisa ser pesquisado mais acuradamente.

A análise das fontes orais transcritas, dos depoimentos por escrito e das crônicas que tenho recebido via internet, tem revelado algo bastante interessante na montagem deste trabalho. Os depoimentos escritos são de veteranos de outros estados e muitos deles congregam atualmente a Associação Brasileira dos ex-Integrantes do Batalhão Suez (ABIBS). Comparando as narrativas orais com os depoimentos escritos observamos que é como se houvesse para alguns fatos, duas memórias - a dos veteranos piauienses e a dos integrantes da ABIBS. Seria uma "memória dividida". Muitas vezes elas entram em choque. Entretanto, há uma concordância quanto ao descaso em que foram relegados os ex-integrantes da Missão na extinção da UNEF e, especialmente, após o retorno deles ao Brasil.

Assim, um ponto de relevo do trabalho até o momento tem sido coligir este choque de versões existente em vários depoimentos. Narrativas de desmandos contadas por mais de um dos entrevistados piauienses com riqueza de detalhes dos eventos, são copiosamente negados por outros, especialmente em nome de que o regimento interno do exército não permitiria tais abusos, nem as autoridades locais, no que estão corretos na sua avaliação. Este e vários outros pontos de discórdia que tenho inventariado no estudo das versões serão mais bem analisados no aprofundamento da pesquisa.

Os depoimentos dos veteranos piauienses e dos integrantes da ABIBS - ou não - estão recheados de referências sobre a natureza dramática dos acontecimentos, a gravidade de alguns erros do passado, o ressentimento de alguns dos sobreviventes. Sem qualquer interesse de tomar parte ou de criticar as versões de cada lado, devemos dizer que nossa tarefa é interpretar criticamente todos os documentos e narrativas, especialmente aqui, quando nos deparamos com uma memória dividida, para usar novamente uma expressão de Portelli. Ou seja, memória dividida, não se remete apenas a um conflito entre a memória espontânea dos veteranos com outra "oficial" e "ideológica". Na verdade, estamos lidando com uma multiplicidade de memórias fragmentadas e internamente divididas, "todas, de uma forma ou de outra, ideológica e culturalmente mediadas".

A análise do comportamento coletivo desta pequena parcela do enorme contingente de homens que foi ao Egito entre 1957 a 1967, também revela que, para estes veteranos, a importância da imagem pública impele à reconstrução de "um passado linear, sem ranhuras", que se espelha também na forma de ver e atuar no presente." Por seu turno, o Exército Brasileiro não se manifesta e "esquece" da memória e das perdas daqueles que logo que chegaram ao país foram dispensados. Por esta razão um dos objetivos deste trabalho é, dentro de seus limites, resgatar ou reparar a memória menosprezada destes veteranos.
A UNEF gozava de sua hospitalidade do Egito, até que o presidente Gamal Abdel Nasser dirigiu-se a ONU solicitando a retirada das tropas do território egípcio. A 19 de maio, o Secretário Geral U Thant, atendeu ao pedido de Nasser, determinando que a UNEF fosse evacuada do território Egípcio e da península do Sinal, o que extinguia aquela Força. Os preparativos para retirada começaram, e estava garantida a permanência da tropa brasileira até o dia 21 de junho de 1967, como hóspede do Egito. Entretanto, no dia 05 de junho de 1967, às 09:00 horas da manhã, os judeus começaram o ataque ao Egito e seus aliados; numa guerra de apenas seis dias o pequeno, eficiente e bem equipado exército e a força aérea de Israel impuseram uma fragorosa derrota aos árabes. Com o início da Guerra dos Seis Dias, os brasileiros se viram cercados por fogo cruzado, e não puderam retirar-se de imediato, o que somente foi possível uma semana mais tarde, a 13 de junho de 1967. Chegando ao Brasil, a tropa foi desmobilizada.

BREVES CONCLUSÕES

A FENU I, por ser a primeira experiência internacional em missões de manutenção de paz foi uma experiência marcante para o Exército Brasileiro seja pelo contato da tropa com militares de outras nacionalidades, seja pela constatação da versatilidade e da eficiência do soldado brasileiro, no seu conjunto ou operando com militares de outras nações. Além da constatação da necessidade de investir no preparo profissional dos integrantes, e da necessidade de modernização do armamento e do equipamento e de habilitar os quadros em pelo menos um idioma estrangeiro.

Sobre a Guerra dos Seis Dias com a conseqüente extinção e retirada da UNEF daquela área, as narrativas possuem um tom de grande eloqüência e dramaticidade na descrição nos seus momentos finais. Além das entrevistas sobre a Guerra dos Seis Dias recebi alguns depoimentos escritos. Nenhum sobre os últimos momentos ainda no interior do batalhão antes do retorno. O vigésimo e último contingente era eminentemente composto por gaúchos, entretanto, havia três piauienses. Até o momento manuseei apenas dois dos três depoimentos. O do sargento Macedo é, inapelavelmente, o mais rico, o mais dramático e o mais polêmico. Entretanto, ainda não podemos fazer as devidas revelações contidas em sua narração feitas em três oportunidades. Macedo faz um relato a um tempo comovente e contundente da experiência sob o fogo-cruzado e do que foi deixar uma Missão em que depositou muitas expectativas pessoais, especialmente, a de ganhar dinheiro. Como ainda não disponho de sua autorização para apresentar sua narrativa. De um de seus depoimentos, gostaria de citar apenas uma de suas frases, que repetiu mais de uma vez: "professor, eu tenho um princípio: eu não minto".

Resguardadas as polêmicas, cremos que a vivência de cada um deles no Egito por vários meses "é essencial para conferir algum grau de confiabilidade das informações. Menos que a busca objetiva da verdade dos fatos apresentados pelos veteranos o importante, nas entrevistas, é o resgate das experiências pessoais e únicas dos entrevistados." Através da metodologia da História Oral recuperamos nestes senhores uma certa "capacidade narrativa - e, poderíamos mesmo afirmar que, assim, operamos no sentido de uma humanização da História do Batalhão Suez.

As entrevistas transformadas em fontes escritas são a compreensão da experiência de vários piauienses e de militares de outros estados no Oriente Médio, mais precisamente na Faixa de Gaza na Primeira Missão de Paz da ONU. São estas histórias alheias, experiências pessoais vividas no meio do deserto e nas cidades do oriente que dão vida a este trabalho. Dessa maneira, colocamos cada um dos veteranos "dentro da História", marginalizados que foram desde sempre neste nível. Eles agora se acham sujeitos. A notícia de que são "Prêmio Nobel da Paz" despertou neles mais interesse em contar a sua participação que há muito estava adormecida, "esquecida" em suas mentes e corações. Este fato, novo, despertou neles uma nova motivação ao narrar suas histórias, despertou também um novo olhar sobre o estar lá, sobre ser um soldado da paz e ter participado da Missão Suez. Agora sentem-se mais atores ativos e não apenas observadores da Missão.

Os documentos escritos produzidos com a transcrição das fontes, são textos que narram profundamente o significado daquela experiência vivenciada na Missão. É um magnífico "inventário de lembranças" desses homens voluntários através da história Oral.

A quantidade e a qualidade dos depoimentos orais que obtivemos até o momento são de extrema relevância. Elas permitem-nos confrontar posições. Com as entrevistas realizamos o trabalho de produção de fontes sobre alguns fragmentos do Batalhão. Já é um começo. E, de certa maneira, com a recuperação da atuação destes civis voluntários, soldados e oficiais, recupera-se uma parte da memória dos militares brasileiros, com enfoque em novos personagens, novos atores. Desse modo, temos consciência de que com este trabalho estamos construindo um novo saber, apresentamos novos e diferentes pontos de vistas sobre a Missão, alguns são conflitantes. Entretanto, há muitas concordâncias constatadas até o momento. Temos consciência de que não seriam simplesmente os depoimentos sobre uma Missão, um ancoradouro de concordâncias sobre a Missão multinacional de paz.

Menos que julgar se as afirmações estão corretas ou encobertas pelo manto da longa distância temporal e espacial, temos em mente as palavras de Portelli para quem "lidar com experiências que não as próprias e compreendê-las deve, também, constituir a essência mesma da experiência antropológica... é improvável que qualquer experiência possa ser verdadeiramente expressa; é inquestionável que ninguém pode compartilhar a experiência alheia, dolorosa ou não... o esforço para contar o incontável resulta em narrativas interpretáveis, construtos culturais de palavras e idéias".

BIBLIOGRAFIA

Foucault, Michel. Vigiar e Punir: o nascimento da prisão. Petrópolis, Vozes, 1987, p. 160.

Sebe Bom, José Carlos M. (Re)introduzindo a História Oral no Brasil. São Paulo, Xamã/USP, 1996

Portelli, Alessandro. O massacre de civitella Val di Chiana (Toscana: 29 de junho de 1944): mito, política, luto e senso comum, in Amado, J. & Ferreira, Marieta de Moraes (coordenadoras). Usos e Abusos da História Oral. Rio de Janeiro: FGV, 2002.

Said, Edward. Orientalismo. O Oriente como construção do Ocidente. São Paulo,Cia das letras, 2001.

Zoauin, Stans. Histórias de Suez, edição particular, 2003.


DEPOIMENTOS ORAIS:

SARGENTO MACEDO, do vigésimo contingente, 1967.
SARGENTO COIMBRA, do décimo nono contingente, 1966.
SOLDADO FONSECA, do vigésimo contingente, 1967.
SOLDADO BONIFÁCIO, do primeiro contingente, 1957.

DEPOIMENTO ESCRITO:

CABO THEODORO, do décimo contingente, 1962.

MANOEL RICARDO ARRAES FILHO
Departamento de Geografia e História

de Theodoro da Silva Junior <theojr@terra.com.br>
data 06/10/2008 00:45
assunto A CONSTRUÇÃO DA HIST.E MEMÓR. DO BTL.SUEZ


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