Six Days War 1967


Edison Iabel

Para impedir incidentes de maiores proporções a UNEF solicitou e obteve a cooperação das autoridades egípcias:

Em 1956, data do inicio das operações de vigília da ADL e da IF (Fronteira Internacional do Sinai até golfo de Acaba), a população da Faixa de Gaza foi oficialmente informada de que o Governo do Egito era terminantemente contrário à infiltração ou travessia da fronteira por civis ou qualquer outro cidadão. Os palestinos foram também notificados que estavam proibidos de se aproximar da ADL e da IF, na distancia de 100 m durante o dia e 500 m à noite. As Autoridades Policiais da Faixa de Gaza foram instruídas a tomar medidas efetivas de aprisionar quem tentasse colocar minas nas linhas divisórias ou que causasse qualquer incidente, agindo só ou em conjunto com outrem.

UN Bulletin

Nossas patrulhas tinham permissão para prender e interrogar o(s) infiltrador (es) e após preenchimento do Relatório de Ocorrência, entregá-lo(s) às autoridades locais. Para isso, semanalmente eram realizados exercícios noturnos de adestramento das patrulhas mistas, junto às fronteiras. (justamente, o horário preferido dos fedayyns atravessarem as duas linhas demarcatórias)

Como sabemos os soldados da UNEF não tinham autorização para o uso de força, a não ser em defesa própria, e.i., caso fossem atacados. É importante frisar que a área de atuação da UNEF1, antes da chegada dos boinas-azuis, era uma das mais conturbadas do Oriente Médio. Contudo, com o passar do tempo, mercê da ação eficaz das patrulhas, tornou-se uma das mais calmas da região. Incidentes e tiroteios continuavam a ocorrer, porém em menor escala. Ou esta transformação teria sido mera coincidência??

Para melhor ilustrar estas lembranças faço uso de trecho desta excelente crônica, escrita pelo então Comandante do 2º Pelotão, Tenente Maurer, hoje General RI Oscar Maurer, gentilmente cedida pelo companheiro Vargas Neto, sobre rotina diária na fronteira:

““... Como o Forte Robinson passara há bem pouco tempo ao controle dos brasileiros, o apoio logístico de todas as classes era ainda encargo dos canadenses, seus antigos ocupantes. Assim o comandante do pelotão era um privilegiado, já que a água, alimentação, manutenção dos geradores, rádios, viaturas, geladeiras, cozinha, apenas para citar as mais importantes necessidades, era providenciada pela base logística do Rafah Camp, operada pelo Exercito do Canada. Tudo funcionava com precisão britânica, tanto a entrega dos gêneros, quanto as visitas de manutenção e substituição de equipamentos.

Quanto ao fornecimento de água e alimentos, as quantidades recebidas eram generosas, muito superiores às necessidades. Tanto é, que o comandante do pelotão passava parte do excedente aos pelotões brasileiros vizinhos da Faixa de Gaza que eram supridos pelo próprio batalhão brasileiro. Mas também a sobra de água e até mesmo alguns alimentos eram distribuídos aos beduínos que se movimentavam com seus camelos nas imediações do Forte Robinson. Muitos deles se diziam ‘fedayyns’, guerrilheiros que faziam incursões no território israelense e, lá, atuavam em ações de comandos.

O interprete entre os brasileiros do Forte Robinson e os beduínos era Salim, também dublê de cozinheiro do pelotão. Salim tinha quase dez anos de convivência com nossa tropa e dominava razoavelmente nosso idioma, por isso, era chamado todas às vezes em (que) as coisas se complicavam com os árabes.

O segundo pelotão patrulhava dia e noite a fronteira, mas não poderia estar presente junto a ela ininterruptamente, em toda a extensão dos 50 km sob sua responsabilidade.

Era proibida a presença dos beduínos e seus camelos junto à fronteira, porque as patrulhas israelenses, muito atuantes na área, fuzilavam os animais e até mesmo os beduínos, seus donos, que estivessem do outro lado dela. Os camelos não estavam informados nem da proibição, nem da rivalidade entre os dois povos e, por isso não se importavam em se aproximar e atravessar a linha demarcatória, em busca de um tufo de capim mais macio do outro lado. Já os beduínos não queriam perder seus camelos e não vacilavam em transpor a fronteira, a fim de trazê-los de volta. Como os beduínos eram, sem distinção, considerados Fedayyn pelos israelenses, os problemas internacionais estavam sendo criados a toda hora, com tiroteios e mortes. Complicações para o comandante do Forte Robinson.

Mesmo sem a presença dos israelenses, a simples aproximação dos beduínos, e camelos para as proximidades da fronteira, era freqüentemente notada pela vigilância aérea canadense, sem que as patrulhas terrestres do 3ºpelotão o percebessem, por terem a visão coberta, em algumas regiões, pela grande quantidade de dunas bem elevadas, ali existentes.

Assim as chamados pelo rádio exigindo providencias, feitas pelos canadenses, eram desconfortáveis e agrediam a honra de todos no pelotão. Depois de várias chamadas, o comandante cujos comandados eram gaúchos, acostumados a andar no lombo de um cavalo, resolveu treinar seus homens a montar, também, camelos. Para isso obteve a ajuda de um beduíno que freqüentava com maior assiduidade o pelotão. Este beduíno, Ahmud, em pouco tempo ensinou uma equipe do pelotão a dominar o manejo daquele animal desengonçado, o rei do deserto.

Por sorte, logo uma patrulha encontrou uma manada de mais ou menos 20 desses animais junto à fronteira. Seus donos, lá no horizonte, na crista de uma duna, observavam tudo. Nosso pessoal não vacilou. Um grupo desceu da viatura, aproximou-se dos camelos, fê-los ajoelhar como manda o costume, e em seguida, montara-nos e foram, logo, tangendo a manada em direção a do Forte. À medida que iam progredindo, observavam que os beduínos os acompanhava lá no horizonte, sem se aproximar.

Quando chegaram ao forte já estava escurecendo. De imediato, tangeram os camelos detidos para seu interior. Os beduínos lá longe, só observando.

No outro dia, estavam os beduínos todos na porta de entrada do forte reclamando sua propriedade com grande alarido. O tenente, com a ajuda do Salim, explicou a missão do pelotão, as sucessivas desobediências das regras bem conhecidas pelos beduínos, e que os camelos somente seriam liberados mediante o pagamento de 5 pilastras (algo em tono de 50 centavos) de multa por animal.

Assim aconteceu. Com muito choro, os homens do deserto foram pagando e levando seus animais. Mas, em pouco tempo, estava tudo como antes: os camelos, o comandante do pelotão sendo chamado à atenção pela vigilância aérea. Em conseqüência, a operação chamada ‘campereada no deserto’ se repetiu.

Sucedeu, então, que um emissário do Sheik, chefe das tribos de beduínos daquela região, chegou ao pelotão trazendo um convite do próprio pra participar de uma comemoração que aconteceria dali a alguns dias, no acampamento onde era a sede de seu poder.

O comandante de pelotão, um pouco receoso, mas compreendendo que aquele era o memento de resolver a questão, decidiu que iria atender o convite. Caso o impasse continuasse, muito provavelmente criar-se-ia um conflito, no qual só um poderia lavar a pior: o pelotão brasileiro. Para isso preparou uma equipe pequena, porém escolhida, além do próprio Salim, que inicialmente, com medo, não quis ir. Somente depois de muita insistência, Salim somou-se à comitiva.

Na data e na hora marcada, o comandante do Forte Robinson e sua equipe chegam junto ao Sheik. Era um conjunto de barracas velhas e rasgadas, muito parecidas uma favela brasileira. De uma delas demandava o poder. Lá era o lugar do Sheik. No fundo da barraca uma vistosa espada curva, bem do modelo árabe, bastante enfeitada, e um belo cavalo eram o que distinguia o chefe supremo daqueles beduínos dos demais membros da tribo.

Na verdade uma decepção para todos. Acostumados com as descrições de suntuosidade dos Sheiks das história das mil e uma noites, aquilo era uma caricatura. Mas uma particularidade era evidente: a autoridade do Sheik era indiscutível e insofismável. Sua voz era lei naquela tribo, isto deu logo para perceber.

Depois dos comprimentos de praxe, a comitiva brasileira foi convidada pelo Sheik e seu Estado-Maior a tomar chá e comer pão assado ali mesmo num buraco na areia, onde queimavam alguns gravetos.

O comandante do pelotão não esqueceu de levar alguns presentes, entre eles alguns quilos de café, o que agradou muito o Sheik.

Depois de muitas conversas e trocas de compromissos mútuos, de nosso lado não mais recolher camelos, e do outro, de não permitir mais que os beduínos tangessem seus camelos para junto à fronteira, o acordo foi selado. Tudo acertado, a comitiva brasileira do forte Robinson se retirou, mas incrédula em relação ao futuro quanto aos compromissos mutuamente assumidos, particularmente da parte dos beduínos.

Contrariando as expectativas, porém, tudo deu certo. Nunca mais os habibs voltaram a tanger seus camelos para junto à fronteira. Também o comandante do pelotão não foi mais repreendido pela vigilância aérea canadense. A distribuição de água e alguns alimentos continuou também normalmente. Enfim, a paz voltou e o tenente comandante do Forte Robinson compreendeu que a historia das ‘mil e uma noites’ não é mais que uma bela lenda. “Porém compreendeu, também, que os Sheiks existem e se não são tão charmosos como os da lenda, pelo menos têm o poder que a lenda conta...”.

A crônica acima, escrita com maestria pelo General Maurer, sintetiza com perfeição, a missão de patrulhar a fronteira árabe/israelense. Ele nos fala do convívio ambíguo com os habitantes do deserto- homens e animais- da ajuda dos habibs que trabalhavam nos Fortes e no Batalhão, bem como o relacionamento, um tanto abrasivo com os ‘Canadians’. A melhor parte, para mim seria logicamente... o prazer de andar de camelo!

NOTA:-
O Texto acima está contido no Livro do EDISON IABEL " SIX DAY WAR- 1967" cujo livro já está no "forno", recebendo os últimos retoques, e muito em breve será lançado para conhecimento público. Aguardem.

Edison Iabel é um dos integrantes do 20º
Contingente Btl.Suez.
Correspondências para:-
(>>edisoniabel@msn.com <<)

VOLTAR