A BARRAGEM DE ASSUÃ

Texto de: Luciano Costa Reis
 


Estava eu em Milão, no norte da Itália. Viera a chamado do meu velho amigo o Comendador Gallioli, dono do Escritório Gallioli - Engenharia e Arquitetura, especializado em projetos de grandes barragens. O engenheiro Gallioli e eu, tínhamos feito boa amizade quando, chefiando a construção da barragem de Mãe d'Água, na Paraíba, havia recebido, por diversas vezes, a sua visita. Tive oportunidade então, de lhe fazer explanações sobre o projeto e o desenvolvimento da obra, saindo-me bem, pois o "mestre" passou a tecer elogios à minha competência.

Tendo concluído a parte da construção da barragem propriamente dita, passei a tarefa de montagens dos acessórios e dos serviços complementares a outros. Fui então passar uma temporada no Rio, tomando conhecimento de outras obras programadas pelo Ministério de Obras Públicas. Foi lá, no Departamento de Obras de Saneamento, que encontrei o Gallioli já contratando o projeto da Barragem de Pedras, a ser construída no Rio de Contas, pouco acima de Jequié. Aqui na Bahia.

O Dr. Gallioli, sabedor das minhas férias , convidou-me para visitá-lo em seu Escritório e, lá estava eu. Não! Atendendo logo à sua curiosidade, nem foi dessa vez que consegui visitar a Catedral de Milão, para ver a obra-prima de Miguel Ângelo, a Santa Ceia; ainda estava sendo restaurada e vedada aos olhos dos turistas. Hospedado no apartamento de luxo, da cobertura do edifício sede da Engenharia, permaneci segredado por quatro ou cinco dias, sem ver a luz do sol, como dizem; o Dr. Gallioli, absorvente como era, me trancara na sala de projetos e não sossegou enquanto não me mostrou, explicou, detalhou, discutiu, gesticulou como bom italiano e só faltou construir no ar, a obra que ele considerava como o coroamento de sua carreira: a grande, colossal, BARRAGEM DE ASSUÃ, no Rio Nilo, lá no Egito.

Quando já quase tinha perdido a noção dos dias, o entusiasmado Gallioli deu por encerrada a pormenorizada apresentação.

- "Agora, você já tem uma visão de todo o projeto, embora faltem as plantas dos detalhes. Mas, vamos sair e jantar, você vai conhecer uma magnífica "trattoria" e vai comer a melhor "pasta" de sua vida. E vamos conversar muito!".

Realmente, o restaurante, casa de pasto ou "trattoria" como eles chamam, era de primeira. Toda a decoração era típica, com garrafas, salames, tranças de alho e até presuntos de Parma pendurados no teto. E lá o Gallioli era tratado como um rei. O dono à frente, fomos recebidos por um batalhão de prestativos garçons e logo, nos foi apresentado o vinho "especial para o Comendatori" e até a gordissima "mama" veio da cozinha, ainda enxugando as mãos no avental e dando as faces para o beijo do velho. Era uma festa, inda mais com um cantor, velho, gordo e careca, cantando canções napolitanas e violinos desfilando entre as mesas. Depois de beber e comer à farta, Gallioli levantou-se e, em tom pomposo se dirigiu a mim:

- - " Conheço da sua capacidade de trabalho e de seus conhecimentos técnicos. Se o nosso projeto for aceito e espero que o seja, quero que você seja um dos chefes do nosso escritório na obra, encarregado de fiscalização da mesma!"

- O "staff" da Engenharia Gallioli, presente ao jantar, aplaudiu e eu esfriei.

Não direi que fui pegado de surpresa, pois esperava qualquer coisa desse tipo, mas ir para o Egito, para o deserto? Eu já sabia o que era isso, não bastava os anos que passei no interior do Nordeste? Pedi para pensar.

- "Ma como? Mama mia! Depois de amanhã vamos para lá. Cairo e Assuã".

Dois dias depois estávamos no Cairo, capital do Egito, hospedados no Mena House Oberoi Hotel, um dos melhores hotéis do mundo e jantando à beira da piscina, avistávamos, de longe, as três Pirâmides de Gizé, Keops, Kefren , Mucerinos e lá de cima, da janela do apartamento dava para ver a Esfinge. Todos esses monumentos bem iluminados; e eu me sentindo como que penetrando na História. Estava nas nuvens!

Entretanto, o dia seguinte foi de trabalho. Fizemos visitas oficiais, inclusive longas conferências com o Ministro e com o Vice-Ministro encarregados da obra. Não entendi quase nada, pois falavam uma mistura de árabe com italiano; confesso que ficava mais admirando os opulentos palácios e as obras de arte que os adornavam. As conversas com outras autoridades entraram pela noite adentro, inclusive, durante o magnífico jantar. No dia seguinte, entramos num avião militar e fomos para a cidade de Assuã.

Eu pensava que já tinha estado em lugares quentes, abafados, com sol escaldante, mas tomei o maior choque quando desembarquei ao meio-dia, no deserto arenoso que era o aeroporto de Assuã. Precisei correr para a prédio da Estação e seu ar condicionado. Eu, hein? Lembrei-me do que tinha sofrido no Ceará e na Paraíba. Infelizmente, o automóvel que nos levou até o local da barragem, não era refrigerado, como também, as instalações do precário acampamento, ainda eram deficientes e os escritórios e apartamentos eram servidos por barulhentos aparelhos de ar- condicionado, ou por insuficientes ventiladores de teto.. Visitamos o local onde já estavam sendo efetuados
serviços de terraplenagem, estradas e pedreiras de granito vermelho, aproveitando para ver um grande obelisco inacabado, com mais de 4.000 anos.

Regressamos já ao anoitecer e dormimos em Assuã. Voltamos no dia seguinte ao canteiro da obra e coletamos inúmeros dados, para projeto e calculo das fundações. Lembro-me bem que aventamos o emprego do Sistema Rodio-Marconi. O mesmo que, tempos depois, empregaríamos nas fundações da Barragem de Pedras. Demos uma volta, pelas imediações e avistamos o Templo de Philae, ao longe, e logo regressamos a Assua.

O velho Gallioli, um pouco abatido pelo calor, regressou ao Cairo e me deixou sozinho para voltar de navio, descendo o Nilo. Três dias num fabuloso navio, visitando as maravilhas que já conhecia pelas muitas leituras! Era o maximo! Estava deslumbrado!

Fiquei de reencontrar o Dr. Gallioli, no Hotel do Cairo. Ele levaria esses dias em reuniões e conferências enfadonhas e nas quais eu sobraria. Achou melhor me proporcionar essa aventura.

No dia seguinte, após embarcar o velho, ainda tive tempo de visita à ilha Elefântina e ao Mausoléu de Aghakan, atravessando o Nilo numa "faluca", ancestral do nosso saveiro. À noite, já estava alojado e jantando no navio, no qual iria descer parte do rio, até Luxor.

O navio era nada mais, nada menos, que o velho, mas ainda, confortável, "Queen of Nilo"! Sim, aquele navio que apareceu num filme, baseado num dos livros de Agatha Christie, com o detetive Hercule Poirrot. Deveria já ter uns 50 anos, mas guardava todo o charme e elegância dos anos 20. E, passei a imaginar encontrar o Poirrot em pessoa, a qualquer momento. Inda mais, que no jantar, compareciam casais, com toda certeza ingleses, vestidos a rigor.

Ao amanhecer do primeiro dia a bordo, já estávamos navegando em direção a Kom Ombo de Sobek, onde demos uma pequena parada , após o que continuamos para Edfu, onde visitamos o Templo de mesmo nome e almoçamos num restaurante típico, aquele banquete no qual se come com as mãos, grandes nacos de carneiro. Na parte da tarde, continuamos a viagem até Luxor.

No dia seguinte, bem cedo, umas 6 horas, para evitar o calor, atravessamos para a margem oeste do Nilo, visitando a Necrópole de Tebas, o túmulo de Tutankamon, o Templo da Rainha Hatshepsut e o colosso de Menon, almoçamos e a tardinha, voltamos a Luxor.

Vocês devem estar se perguntando como me lembro de todos os detalhes. Fácil, em minhas viagens anoto tudo numa espécie de diário e guardo. Lógico que o tenho que consultar agora, quarenta e tal anos depois.

Continuando, no terceiro dia, fomos, gloriosamente, visitar os magníficos Templos de Karnak e de Luxor, voltando a bordo para o jantar de despedida. No dia seguinte, desembarcamos e seguimos para o aeroporto, saindo de avião para o Cairo.


Chegamos ao hotel já no meio da tarde, verificando logo se o Dr.Gallioli já se encontrava lá. Ao atender o telefone, Franco, o seu secretário, recomendou me acomodasse, tomasse um banho e fosse para lá. Tinha más noticias. Apreensivo, apressei-me e logo chegava à sua suíte.

O meu amigo, estava recostado na cama, tendo de um lado o Franco e do outro, um médico que o auscultava; uma enfermeira preparava uma injeção.

- "Vá bene! Não se espante! É uma precaução. Estou ótimo..."

Aproveitando o médico e a enfermeira o posicionarem para a injeção nas nádegas, Franco me puxou para a saleta ao lado, sentou-me e contou o que se passara.

- "Houve uma reviravolta! Os americanos e ingleses não vão mais financiar o empreendimento! O presidente Nasser está furioso. Não estivemos com ele, mas, da ante-sala ouvíamos os gritos. Falaram em nacionalizar o Canal de Suez e com a renda executar a obra. O ministro bradava que iriam fazer a obra, de qualquer jeito. Hoje, vimos o embaixador da Rússia, com grande comitiva, ser recebido pelo Ministro e, após, saírem para o palácio presidencial. Sem sequer nos atender. Está a maior agitação. O Dr. Gallioli sentiu-se mal e eu o trouxe para cá, Sua pressão está alta e, talvez o médico o leve para o hospital. Já fiz reserva e, se possível, regressamos a Itália amanhã. Não adianta ficar aqui, temos que esperar a poeira baixar..."

Não voltamos no dia seguinte, mas não pude me afastar do hotel, acompanhando o amigo. Nem fui visitar as Pirâmides, como era meu desejo, limitando-me a olhar de longe, da janela da meu quarto. Só depois é que voltamos a Milão, o Dr. Gallioli já recuperado, mas sendo medicado e ficou-se esperando os acontecimentos.

O Presidente Nasser, nacionalizou o Canal, a Inglaterra e a França mandaram tropas, ocupando a Zona. Os Estados Unidos e a Rússia reclamaram, exigiram a retirada e voltou tudo ao que era anteriormente. Os Russos aproveitaram e se ofereceram para fazer a obra, inclusive o projeto, claro. Houve a Guerra dos Seis Dias e os judeus destruíram o exercito egípcio.

Enquanto isso, eu já tinha voltado ao Brasil, sentido pela perda da oportunidade de fazer parte e contribuir para uma grande obra de engenharia.

Fui chefiar a construção da Barragem de Pedras, projeto da Engenharia Gallioli.

E os russos construíram Assuã, uma das maiores barragens do mundo.

O Dr. Gallioli, lutou durante dez anos com o Governo do Egito. Nunca recebeu um tostão sequer, embora os contratos fossem todos legais. Desgastou-se, teve sua saúde gradativamente abalada pelos revezes e findou-se, entristecido.

Assim, os comunistas russos me frustraram e, provavelmente, prejudicaram o desenvolvimento da minha carreira. Em compensação, passei quatro dias, dos mais maravilhosos da minha vida, visitando tesouros do antigo Egito, o que ficou gravado para sempre na minha memória.

Quanto à frustração do engenheiro de menos de 30 anos, essa foi atenuada pelo fato de estar ainda na dúvida se aceitava a empreitada, não pelo tamanho do desafio, mas pela certeza de não agüentar os muitos anos necessários à construção da obra, naquele calor capaz de enlouquecer qualquer estrangeiro.

A Barragem de Assuã foi construída em 15 anos, empregando 35.000 operários e custou a vida de 5.000 deles.

EU PODERIA TER SIDO UM DESSES!

dez - 2001

de Theodoro da Silva Junior <theojr@terra.com.br>
data 15/12/2007 17:38
assunto EGITO e A Barragem de Assuã


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