EGITO - HISTÓRIAS, RELIGIÃO E COSTUMES


O Ramadan.

O trânsito é infernal até umas 17h. Depois disso, acho que a terra abre e engole os carros. O iftar (quebra do jejum) começa lá pelas 17:45h, e aí, lá pelas 19h, a terra regurgita os veículos e a zona continua...

Ponto interessante: todos os restaurantes colocam mesas e cadeiras nas ruas e servem o iftar aos pobres e pedintes que estiverem por lá, gratuitamente, todo dia. E, na frente da maioria das lojas e estabelecimentos, amigos e parentes se reúnem para comerem juntos e, como não há cadeiras para todos, sentam no chão e fazem sua refeição, tranquilamente. É uma cena diferente e marcante, com certeza. 

Ramadan, que é o mês sagrado para os muçulmanos. É o 9º mês do calendário islâmico e, segundo a tradição, é o mês durante o qual Allah revelou a Maomé (Mohammed) o Corão.  

O mês não é fixo, e depende da lua (a lua nova indica o início do mês). Para os muçulmanos, esse período é marcado por orações, caridade e jejum, sendo que este último é um dos cinco pilares da fé islâmica. 

Os cinco pilares da fé Islâmica são:

1) Shahada: profissão de fé

2) Salat: oração

3) Zakat: caridade

4) Sawn: jejum

5) Haji: peregrinação a Meca 

O jejum é obrigatório do nascer ao pôr-do-sol, e trata-se de jejum absoluto: nenhum tipo de comida, nem de bebida, inclusive água. Além disso, os fumantes são proibidos de praticarem seu vício, o que pode deixar algumas pessoas relativamente nervosas. E esse é um dos motivos – ao lado do jejum – pelo qual o país desacelera (não só o Egito, mas todos os países islâmicos): a jornada de trabalho é encurtada em 2 horas, pois as pessoas vão pra casa a fim de quebrarem o jejum com suas famílias, o que é uma tradição e um dos principais aspectos do Ramadan, a reunião familiar. 

As famílias acordam cedo para o suhoor, a refeição antes do nascer do sol. Já no início da noite, o jejum é quebrado com uma refeição chamada iftar, que começa, geralmente, com tâmaras e sucos, visando uma "carga rápida" de energia. À noite, é comum encontrar os muçulmanos orando nas mesquitas além dos horários normais, em orações mais longas próprias desse período. Alguns passam a noite toda rezando. 

Na 27ª noite é celebrado o Laylat-al-Qadr, ou "A Noite Grandiosa", quando Maomé recebeu a primeira revelação do Corão. E ao fim do Ramadan, no 1º dia do mês de Shawwal, inicia-se a festa de Id-al-Fitr, ou "a festa do fim do jejum", que dura 3 dias. As famílias se reúnem, trocam presentes, etc. . Parecido com uma certa festa cristã que conhecemos... 

Detalhe: como todo mundo sai mais cedo do trabalho e quer chegar em casa ao mesmo tempo, dá pra imaginar como fica o trânsito ? Já falaram pra eu nem esquentar a cabeça, que o negócio vai ser um show de horrores... 

Só pra não ficar sem fotos, aí vai uma foto de um "Fanous", a lanterna típica que enfeita as ruas e casas durante o Ramadan:

 

 

Ramadan Karim !

Renato

Escrito por Renato Maschetto às 12h47

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KHAN EL-KHALILI

Ainda não falei do famoso Khan el-Khalili, o maior mercado a céu aberto do Oriente Médio, que existe desde o séc. 14. Era o centro comercial do Cairo naquela época, e ponto de escambo e negociação internacional, sendo parte do monopólio de especiarias que encorajaram os Europeus a procurarem novas rotas de comércio, e aí o Colombo foi parar na América, o Cabral a gente sabe o que aconteceu, etc...

Em outras palavras, é uma 25 de Março gigantesca, com todas as cores, becos, formas, cheiros e eteceteras que vocês podem imaginar...tem de tudo: jóias, roupas, perfumes, artesanato, condimentos, comida, chás, bugigangas em geral. E se você não souber ser convincente, os vendedores não largam do seu pé, e ficam te seguindo por um bom tempo. A regra lá é barganhar e tomar cuidado pra não ser enrolado pois, sabendo que você é estrangeiro, eles vão querer te esfolar. Mas aí prevalece o bom senso: se você acha que está caro, pule fora (esquema Sta. Ifigênia...).

Essa é uma rua típica do mercado, você se sente no filme Indiana Jones, não tem jeito:  

Várias "coffee shops" circundam a área, uma ao lado da outra, com seus sofás na rua, shisha, gritaria, confusão:

 

O Ali me convidou pra tomar um chá numa delas, e fomos à El Fishawi, a mais antiga do lugar (tem 240 anos):

 

 

Ainda não comprei nada, mas não vejo a hora de entrar numa barganha nervosa com um vendedor. Se pra comprar os móveis do meu apartamento já dei dor de cabeça pras lojas, imagino aqui, eu falando em inglês, o cara não entendendo e querendo vender, e o Ali dando risada !  

Alguém havia perguntado sobre as mulheres, acho que foi a Dani. Há uma visão generalizada e equivocada que todas as mulheres se vestem de preto, com o rosto completamente coberto. E há também uma idéia preconceituosa que isso é um absurdo, um desrespeito, etc. .  

"Viajar é aprender a não julgar", li em algum lugar...nada mais correto: por acaso gostamos quando alguém fala que "brasileiro é tudo folgado", ou "no Brasil só existe violência" ? A mesma coisa se aplica a outras culturas e posso dizer que aqui o mundo é diferente. Mas, nem por isso, é melhor ou pior, tudo depende do seu referencial. Uma coisa é nascer e viver dentro desse sistema; outra coisa é olhar de fora e falar que é algo horrível. Puro preconceito.  

A mulher pode usar a "burka", que a cobre dos pés à cabeça, e que é mais comum nos países onde a religião é mais radical: Afeganistão, por exemplo:  

Em outros países, podem usar o "xador", que cobre o corpo e parte do rosto, deixando os olhos à mostra (comum na região do golfo):  

E podem usar só um véu cobrindo os cabelos, que é o mais comum por aqui. E não pensem que é preto, as mulheres usam combinações que fariam muitas não-muçulmanas morrerem de inveja:  

Muita gente acha que as mulheres ficam "menos bonitas" em virtude do véu. Para elas, ao contrário, uma forma de ficar bonita é, justamente, escolhendo bem o véu e a roupa. E usam maquiagem e acessórios normalmente. Mas, de novo, aqui no Egito e em outros países mais liberais.  

No Líbano, por exemplo, a situação é diferente. As mulheres vestem-se como a maioria das ocidentais e, mesmo aqui no Egito, há muitas mulheres que não usam o véu. E isso é bem notado no canal de música aqui, a "MTV" da região, a "Melody Arabia": a maioria das cantoras é libanesa e não usam véus. Aliás, são bem "soltinhas", isso sim...  

Amanhã termina o horário de verão e ficaremos a 5 horas de diferença do Brasil.  

Bom final de semana.  

Salam !

Renato  

P.S.: Diário Compostelar atualizado (www.maschetto.nafoto.net)

Escrito por Renato Maschetto às 11h05


CAIRO ISLÂMICO - PARTE 2

Penso que a maioria tem uma noção do que é o Islamismo, uma das 3 principais religiões monoteístas do mundo, ao lado do Cristianismo e do Judaísmo. Infelizmente, hoje associa-se Islamismo a Terrorismo de uma forma generalizada, o que é uma tremenda ignorância e desrespeito aos muçulmanos. A religião islâmica prega o bem e a submissão a Deus, o problema é a distorção dessa mensagem por certos grupos fundamentalistas.

Para os 3 grupos acima, há um só Deus, chamado "Allah" (em árabe) pelos muçulmanos e algo próximo a "Iaweh" (em hebraico) para os judeus (os judeus não pronunciam o nome de Deus a qualquer hora, por considerarem uma quebra do mandamento "não pronunciarás o nome de Deus em vão"). É o mesmo Deus, inclusive tendo as 3 religiões o mesmo patriarca, Abraão.

Por intervenção de Deus, Abraão teve um filho com sua esposa Sara, chamado Isaac, e sua descendência é a considerada pelos judeus e também pelos cristãos, já que foi daí que posteriormente nasceu Jesus, a partir da promessa feita por Deus a Abraão no episódio da 1a. Aliança.

Os muçulmanos, porém, consideram outro fato: por não conseguir ter filhos com sua esposa Sara, Abraão procura sua empregada, Agar, e tem com ela um filho chamado Ismael. Maomé, o fundador do islamismo, seria descendente de Ismael.

Para os judeus, o Messias ainda não veio ao mundo, como relatam as profecias, tanto que sua contagem de anos é diferente da nossa, estando eles no ano 5765 . Para os cristãos, o Messias, filho de Deus, é Jesus. Já para os muçulmanos, o último profeta é Muhammad (Maomé), que recebeu a mensagem de Deus e redigiu o Quran (Corão).

Lembrando também que Abraão construiu a Caaba, em Meca (na Arábia Saudita), local para onde os muçulmanos se voltam ao realizarem suas orações.

Os muçulmanos têm 5 orações obrigatórias ao longo do dia: antes do amanhecer, perto do meio-dia, no meio da tarde, ao pôr-do-sol e à noite. Antes de cada uma delas, eles devem lavar o rosto, as mãos e os pés. Tiram os sapatos e fazem a oração onde estiverem: às 6as feiras, vão às mesquitas; nos demais dias, rezam em qualquer lugar, até mesmo na rua. Na GM, por exemplo, há salas reservadas para as orações: perto das 13h os funcionários vão ao banheiro lavar-se e, em minutos, o "Muazzin" chama os fiéis para a oração, proclamando o "Adhan" em alta voz, que é o convite à oração:

"Deus é o Maior !

Testemunho que não há outra divindade além de Deus !

Testemunho que Muhammad é o Mensageiro de Deus !

Vinde para a oração !"

Com a chegada dos árabes no Egito no séc. VII, o islamismo espalhou-se pelo país, e várias mesquitas foram construídas. Algumas seculares ainda existem, sendo que visitei 3 delas no final de semana: Sultan Hasam, Muhammad Ali e al-Azhar.

A mesquita-mausoléu de Sultan Hasam foi construída em 1356, perto da Cidadela, e é o maior monumento religioso medieval islâmico, e um dos maiores representantes da arquitetura islâmica:

Na foto abaixo, vocês podem ver uma construção que é uma espécie de lavabo. Aí, os muçulmanos lavam-se antes das orações:

Para que saibam a direção de Meca nas orações, as mesquitas têm uma parede com o "Mihrab", que é um nicho indicando a "Qibla", a direção de Meca (à minha direita):

Reparem que estou descalço, pois não se entram com sapatos nas mesquitas. Abaixo, outra foto de seu interior:  

Depois, fui à Cidadela, e lá conheci a mesquita de Muhammad Ali, uma das mais famosas (vista por 2 lados), construída no séc. XIX:

Vejam a alta torre à esquerda: é o "Minarete" (algo como 'baliza' ou 'farol'), onde antigamente os Muazzin subiam e chamavam os fiéis. Hoje, modernos sistemas de som fazem essa função, o que faz com que a cidade ganhe uma atmosfera toda especial no horário das orações, pois as várias vozes proclamam ao mesmo tempo, gerando uma sonoridade muito bonita e interessante.

Dentro da mesquita, uma beleza enorme, vejam as luminárias:

No passado, elas continham velas. Imaginem o clima ! E abaixo, uma amostra da cúpula:

Por fim, fui até a mesquita de al-Azhar, "A Esplêndida", que foi a 1a. mesquita construída pelo fundador do Cairo, no ano 972:

Ela abriga a mais importante universidade islâmica do mundo, e pode também ser considerada a mais antiga universidade do globo:

Foi um belo tour. Não vai caber o Khan el Khalili, mas não tem muitas fotos, depois eu coloco.

Um bom final de semana a todos !

Salam !

Renato

Escrito por Renato Maschetto às 06h39


CAIRO ISLÂMICO - Parte 1

Falar "Cairo Islâmico" é meio redundante, uma vez que 90% da cidade é muçulmana. Mas há uma área onde concentram-se as primeiras construções islâmicas do país, onde exatamente começou a colonização árabe. Fui visitar essa área no final de semana e, para entender melhor o passeio, montei um resumão da história, desde a invasão árabe no Egito:

- Séc VII: o general ‘Amr ibn al-‘As conquista o Egito, por ordem do Califa Omar, segundo sucessor de Maomé (califa significa "sucessor"), terminando o controle do Império Bizantino. Constrói então um acampamento para suas tropas, chamado al-Fustat;

- Séc IX: o líder militar turco Ahmad ibn Tulun é nomeado governador do Egito, e funda al-Qata’i ("os loteamentos"), ampliando o território original;

- Séc X: após anos de trocas de poder e etnias, o califa fatimida al-Mu'izz li-Din Allah coloca seus soldados no Egito e o conquista (Fatimida significa "descendente de Fátima", uma das filhas do Profeta Maomé). Al-Fustat é uma das principais cidades do mundo, mas o general Gawhar al-Siqilli pretende fundar uma verdadeira cidade imperial, à qual dá o nome de "al-Qahira" ("A Vitoriosa") pois, conforme a tradição, o planeta Marte ("al-Qahir" em árabe) estava em seu ascendente durante a fundação da cidade. Al-Qahira é o nome árabe para CAIRO. A partir daí, a cidade prospera e cresce, absorvendo outras culturas (bizantina, cruzados, etc.);

- Séc XII: com o enfraquecimento dos fatimidas, o vizir do califa al-‘Adid’s o retira do poder e assume o governo, reinando por 22 anos. Seu nome era Salah al-Din Yusuf al-Ayyubi, mais conhecido no Ocidente como Saladino. Salah el-Din reorganiza o país e conquista Jerusalém (ocupada até então pelos Cruzados) e a Síria. Cria as "Madrasas" (escolas islâmicas) e as "Khanqahs" (monastérios para os místicos sufis). Durante seu reinado, al-Qahira torna-se uma importantíssima metrópole e, sempre preocupado com a segurança do Egito, Saladino cria imponentes estruturas de defesa como a Cidadela (foto a seguir) e o forte na divisa com Israel (que pude ver à noite, na volta do Sinai, mas não consegui tirar foto);  

- Séc XIII: ao invés de árabes, os exércitos passam a ser formados por escravos de origem turca, chamados Mamelucos (em árabe, "aquele que é de alguém"). Com a morte do último sultão sucessor de Saladino, sua esposa é obrigada a se casar para reter o poder, e casa-se com um líder Mameluco, iniciando assim sua dinastia;

- Séc XVI: a administração dos Mamelucos começa a entrar em declínio, principalmente por depender de mercenários. Com isso, as tropas do sultão de Constantinopla invadem e conquistam o Egito, tornando o país uma província do Império Otomano, fazendo com que o Cairo deixe de ser a capital do mundo Islâmico. Essa situação permanece até 1798, quando Napoleão chega ao Egito;

- Séc XIX: o mercenário albanês Muhammad ‘Ali (não, ele não é boxeador...) chega ao Egito em 1801 e, em 4 anos, graças às suas habilidades, assume o poder. Elimina toda a resistência inimiga num episódio famoso, ao convidá-los para um jantar na Cidadela, assassinando-os ao final do banquete. Graças a ele, o país assimilou a cultura ocidental e modernizou-se, e seus descendentes permaneceram no poder até meados do séc XX (1952);

Resumão mesmo, mas com os principais pontos. Não vou colocar todas as fotos hoje, vou colocar apenas algumas da Cidadela e, na 5ª. Feira, coloco as das mesquitas, mencionando alguns pontos importantes a respeito delas.

Essa é a cara da Cidadela de Salah al-Din, toda contornada por uma alta muralha:

Uma visão de dentro da Cidadela:  

E o local onde Saladino mandou matar os inimigos:  

Uma visão aérea do Cairo, do alto da muralha da Cidadela:  

E em 1º. Plano, a Mesquita do Sultão Hasan (no próximo post, fotos de seu interior):  

A propósito, há duas semanas tivemos a eleição presidencial no Egito, e foi a 1a. na história do país. Após a era dos reis, sendo o último o Rei Farouk, o país teve 4 presidentes: Naguib Mahfouz (1953), Gamal Abdel-Nasser (1954), Anwar Sadat (1970) e Hosni Mubarak (1981), que é o presidente atual e que ganhou a eleição com 88,5% dos votos. Desde o começo os egípcios diziam que a eleição já estava "ganha", ou seja, tirem suas conclusões...

No próximo post coloco algumas das mesquitas e o Khan al-Khalili, o famoso mercado árabe (ou vocês acharam que a Casa de Chá de São Paulo tinha inventado o nome???).

Salam !

Renato

P.S.: Diário Compostelar atualizado (www.maschetto.nafoto.net)

Escrito por Renato Maschetto

De: SILVIO RIBEIRO <ribeiro.suez@hotmail.com> 
Data: Thu, 23 Apr 2009 13:00:06 -0300 
Assunto: FW:EGITO_-_HISTÓRIAS,_RELIGIÃO_ECOSTUMES


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