Por que o Oriente Médio é um barril de pólvora?

Reportagem de Camila Marques - ( extraída pela Internet - dia 8 de janeiro 2008)


Não se passa um dia sequer sem que o Oriente Médio ocupe espaço nos noticiários. Atentados de grupos terroristas, assassinatos de líderes políticos e religiosos, bombas, acordos de paz fracassados. Temas como estes, sempre nas manchetes, levam à fácil conclusão de que a região é um verdadeiro barril de pólvora. Mas qual a razão desse dia-a-dia conflituoso? Por que alguns povos da região se odeiam tanto? Quem são essas pessoas? Afinal, onde fica e o que é o Oriente Médio?

Antes de mais nada, é importante destacar que não há consenso entre historiadores e geógrafos acerca de quais países integram o Oriente Médio, essencialmente a parte de terra entre chamado de Oriente Próximo - nome dado por ingleses e franceses à parte da Ásia menos distante de Londres e Paris - e o Extremo Oriente (Leste Asiático). Porém, a maioria dos estudiosos considera como parte da região todos os Estados asiáticos mais próximos da Europa, além de Turquia e seis nações do nordeste da África.

Pode-se dizer, assim, que 20 países integram o Oriente Médio: Arábia Saudita, Bahrein, Catar, Emirados Árabes Unidos, Irã, Iêmen, Iraque, Israel, Jordânia, Kuwait, Líbano, Omã, Síria e Turquia, além dos africanos Egito, Sudão, Líbia, Argélia, Tunísia e Marrocos.

VOCÊ SABIA QUE...

O Oriente Médio é do mesmo tamanho do Canadá (9,702 milhões de quilômetros quadrados), com um território praticamente todo desértico. A temperatura, durante o ano, pode variar entre 46º C no pico de calor e 18º C abaixo de zero nos dias mais frios. Os cerca de 350 milhões de habitantes da região vivem, basicamente, nos vales dos rios, das montanhas e nas costas marítimas, banhadas pelo mar Negro, mar Mediterrâneo, mar Vermelho, golfo de Aden, mar de Omã, golfo Pérsico e mar Cáspio.

Apesar dos árabes serem maioria, o grande número de etnias que o Oriente Médio reúne resulta também numa mistura de idiomas (árabe, hebraico, persa, curdo, grego etc.), crenças, religiões e valores. Isso ajuda a aumentar os conflitos.

No que diz respeito ao aspecto religioso, o Oriente Médio é importante por ser o berço das três religiões monoteístas do planeta: o
judaísmo, o cristianismo e o islamismo. Jerusalém é a cidade sagrada para os judeus, islâmicos e católicos.

Fonte: World Christian Encyclopedia, de David B. Barrett

Essas nações tinham outros nomes e fronteiras na época do imperialismo mesopotâmico, persa e romano, na Antigüidade. Já na Idade Moderna, a região ficou submetida ao chamado Império Turco-Otomano para, depois da Primeira Guerra Mundial, dividir-se sob a influência da Grã-Bretanha e da França.

Desde dessa última época, quando começaram a se delinear fronteiras, tornaram-se evidentes os conflitos sociais, políticos e religiosos, além da disputa territorial. Sem identidade própria, e sem ter mais a quem responder, os povos, em sua maioria árabes, passaram a buscar espaço e direitos, originando diversos confrontos.

No entanto, segundo destaca o professor de Teoria Política dos cursos de Comunicação Social do Centro Universitário Municipal de São Caetano (IMES), Fernando Luiz, essa "idéia" de classificar a região do Oriente Médio como "tensa além do normal" é dos ocidentais.

"A tensão naquela região e em outras partes do mundo é histórica, tem motivos religiosos, mas antecede a era Cristã. A verdade é que nossa violência, com crianças de ruas e o tráfico de drogas, só é diferente, nem melhor nem pior", explica Fernando.

Portanto, a motivação religiosa existe, mas é muito simplista achar que ela é a única. Os conflitos, hoje, têm a ver com as conseqüências da descolonização (França e Grã-Bretanha) e as influências ocidentais. Os países do Oriente Médio são, em sua maioria, países em desenvolvimento, com grandes desafios a superar, injustiças sociais e discordâncias internas.

O principal conflito no Oriente Médio se dá entre palestinos e israelenses (saiba mais sobre o conflito israelo-palestino), e mistura disputas territorial e religiosa. Em um dos lados estão os palestinos muçulmanos (há palestinos de outras religiões), que querem todas as terras sagradas ocupadas por Israel para o Islã. Do outro, os israelenses judeus (também existem israelenses cristãos), que não querem abrir mão das terras reivindicadas pela Palestina.

Ajuda a esclarecer o nível de tensão do Oriente Médio dados do Banco Mundial. De acordo com a instituição financeira, das 14 nações do mundo que gastam mais de 5% do PIB (Produto Interno Bruto, as somas das riquezas de um país) - valor considerado altíssimo - com militarismo, sete estão no Oriente Médio. Outros números revelam que os 20 países encravados no Oriente Médio compraram 40% de toda a produção de armas dos Estados Unidos em 2001. O que isso significa? Evidencia o clima de tensão, afinal, o Oriente Médio é a região mais militarizada do mundo. Com exceção de Israel e Turquia, todos os seus países não são democráticos, têm ditaduras ou governos autoritários. Poucos comercializam entre si e poucos têm uma identidade coletiva que una seus cidadãos.

A INFLUÊNCIA DOS ESTADOS UNIDOS
O professor de Teoria Política dos cursos de Comunicação Social do Centro Universitário Municipal de São Caetano (IMES), Fernando Luiz, destaca que é simplesmente "impossível dissociar", hoje em dia, a realidade política do Oriente Médio dos interesses dos Estados Unidos.

"O local se tornou influência norte-americana principalmente por conta da estratégia que visa a transformação de petróleo. O produto que transforma guerras locais em conflitos de interesse mundial", avalia.

Atualmente, o Oriente Médio reúne 70% das reservas mundiais do óleo. Os poços da região abastecem mais da metade das bombas de gasolina nos EUA. (Leia mais sobre o petróleo)

Rica miséria

Fora os conflitos étnicos e religiosos, a falta de dinheiro quase unânime agrava as diferenças sociais e estimula a revolta popular. Israel, com sua mesada anual dos EUA de US$ 3 bilhões, é o país mais rico, cuja renda per capita (por pessoa) ultrapassa os US$ 18 mil. Na outra ponta estão nações como o Iêmen, com renda inferior a US$ 350. Ainda segundo o Banco Mundial, metade dos países do Oriente Médio está entre os 30 mais pobres do mundo. Em quase todos esses países se tentou o desenvolvimento econômico através dos Estados e houve fracasso.

A pobreza, cada vez maior, faz com que milhões migrem todos os anos do campo para as cidades a procura de trabalho e oportunidades. Porém, não acham empregos. Em países mais ricos, a exemplo da Arábia Saudita, os mais abonados viajam para fora para estudar, mas ao retornarem à terra natal não encontram oportunidades.

Surpreendentemente, o Oriente Médio é literalmente um terreno rico. Estão na região 70% das jazidas de petróleo (leia mais sobre o petróleo da região) do mundo, produto que, hoje, é fundamental para o bom funcionamento de qualquer economia. Mas os petrodólares geralmente ficam concentrados nas mãos dos monarcas e outros dirigentes dos países. (Continua)...

Reportagem: Camila Marques
 



A guerra dos dois maiores rivais do Oriente Médio

A causa dos diários confrontos entre os palestinos muçulmanos da Autoridade Nacional Palestina (ANP) e os israelenses judeus (há israelenses que não são judeus) é a disputa por terras santas. A porção oriental de Jerusalém é reivindicada pelos dois lados. Os palestinos querem instalar ali a capital de seu tão sonhado Estado. Até hoje, não houve acordo de paz (leia mais sobre os acordos fracassados) que fizesse os inimigos chegarem a um consenso. Enquanto os árabes se recusam em aceitar a criação de uma nação judaica, os israelenses não admitem ceder nenhum pedaço de seu território.

A chamada Diáspora, espalhamento dos israelenses judeus por diversos países ao redor do globo, se intensificou no ano 70 d.C. por motivo religioso, em conseqüência da destruição do Templo Sagrado de Jerusalém pelos romanos. Apesar de dispersos, os israelenses mantiveram vínculos emocionais e históricos com a pátria mãe perdida e sempre defenderam um reencontro.

A COBIÇADA JERUSALÉM

A cidade de Jerusalém é a única do mundo que tem enorme valor simbólico para as três grandes religiões monoteístas - judaísmo, islamismo e cristianismo. Para os judeus, é a cidade do rei Davi e onde o templo foi construído para guardar a Arca da Aliança. Para os muçulmanos, é o lugar do qual o profeta Maomé ascendeu aos céus. Para os cristãos, foi o palco da paixão de Cristo e de seu sepultamento.

Hoje, Jerusalém possui cerca de 600 mil habitantes (70% de judeus, 28% de árabes e 2% de cristãos). Os palestinos querem a cidade como capital de seu futuro Estado. Mas judeus de direita e ortodoxos não querem abrir não dela.

No século XIX, essa luta se intensificou e foi politizada com o fortalecimento do movimento sionista, que defendia a recriação do Estado judaico na Palestina. Nesse sentido, a contínua entrada de colonos judeus na região, então ocupada por 90% de palestinos e 10% de judeus, começou a gerar vários choques com a comunidade árabe - com a colonização desordenada, os israelenses judeus passaram a controlar parte das melhores áreas cultiváveis da região.

1947: o começo do terror

No período que antecedeu a Segunda Guerra Mundial, o movimento de ocupação começou a se intensificar, sendo que nem judeus nem palestinos tinham ainda um Estado independente. Em 1947, porém, esse contexto mudou radicalmente.

Depois do desmantelamento dos campos de concentração nazistas montados durante a Segunda Guerra, que chocaram o mundo com imagens de seres humanos definhando, os judeus ganharam simpatia e receberam amplo apoio à sua causa, principalmente dos Estados Unidos.O resultado desse suporte aos sobreviventes da Guerra deu impulso ao movimento sionista e à luta pela independência de Israel.

Em 1947, a Organização das Nações Unidas (ONU) aprovou a partilha da Palestina em um Estado judeu e outro palestino: 56,47% do território constituiria o Estado judeu e 43,53%, o Estado palestino. Jerusalém, cidade sagrada para judeus, muçulmanos e cristãos, era declarada cidade internacional.

Pronto, fora aceso o estopim da guerra que atravessou um século.

O líder judeu na ocasião, David Ben Gurion, declarou em 1948 a independência de Israel, com a retirada de tropas britânicas que ocupavam a região. Do outro lado, porém, a Liga Árabe recusou a partilha da Palestina, assim como os próprios palestinos: eles viviam na região há séculos e não queriam abandonar a zona. Essa recusa, porém, só serviria para aumentar, ainda mais, o domínio territorial judeu.

Essa oposição gerou o primeiro confronto militar entre Israel e os países árabes. Um dia depois da proclamação de independência de Israel, Egito, Iraque, Líbano, Síria e Transjordânia (hoje Jordânia) atacaram o jovem Estado. As lutas duraram até janeiro de 1949 e  foram vencidas por Israel.

Guerras árabes-israelenses

Após essa primeira guerra, ainda ocorreriam vários conflitos árabes-israelenses, mas três deles tiveram maior destaque.

Em 1956, questões fronteiriças entre Israel e Egito, a nacionalização do Canal de Suez e a proibição egípcia de que navios israelenses trafegassem pelo canal causaram a Guerra de Suez. O presidente egípcio, na ocasião, desafiou interesses franceses, britânicos e israelenses. A guerra acabou com a intervenção soviética e norte-americana e na assinatura de um acordo, que permitia o direito de utilização do Canal de Suez a todos os envolvidos.

OS GRUPOS AL FATAH E OLP

Em resposta à condição de refugiados, em 1959 os palestinos criaram o grupo guerrilheiro Al Fatah (significa reconquista). O objetivo da entidade era destruir Israel e formar o Estado Palestino. Yasser Arafat, atual líder da Autoridade Nacional Palestina (ANP), foi um de seus fundadores.

Além do Al Fatah, foram formadas outras organizações guerrilheiras e terroristas árabes, que passaram a atacar alvos civis e militares israelenses. Em 1964, os palestinos formaram a OLP (Organização pela Libertação da Palestina), cuja direção passou também para as mãos de Arafat. A ONU reconhece a entidade como a única representante do povo palestino.

Em 1994, a ANP assumiu muitas das funções administrativas e diplomáticas relativas aos territórios palestinos antes desempenhadas pela OLP, inclusive nas áreas de saúde, informação e finanças.

Mais tarde, em 1967, ocorreu a Guerra dos Seis Dias - importante destacar que o período entre-guerras se manteve tenso e com centenas de mortos nos dois lados. Naquele ano, o Egito decidiu fechar a entrada do golfo de Ácaba aos navios israelenses e ordenou que as tropas da ONU estacionadas no Sinai abandonassem o território.

Sentindo-se ameaçado, Israel fez um ataque relâmpago aos países fronteiriços. Em seis dias, a guerra estava ganha. Israel ampliou seu território, incorporando a península do Sinai, a Faixa de Gaza (pertencentes ao Egito), a Cisjordânia, o setor oriental de Jerusalém (da Jordânia) e as colinas do Golã (pertencentes à Síria).

A tomada da Cisjordânia e de Gaza provocou o êxodo da população palestina pelos países vizinhos - hoje, existem mais palestinos refugiados do que dentro da Palestina. Surgia a chamada 'Questão Palestina', que defende o reconhecimento de um território próprio. Essa realocação dos refugiados é, ainda hoje, um dos maiores entraves à finalização de um processo de paz.

Seis anos depois, desobedecendo às determinações da ONU, que exigia a devolução dos territórios ocupados, Israel manteve suas conquistas. Isso provocou, em 1973, a Guerra do Yom Kippur. O novo presidente do Egito, Anuar Sadat, se juntou à Síria e, em 6 de outubro, dia em que os judeus comemoravam o Dia do Perdão (ou Yom Kippur), atacaram o inimigo para recuperar as terras que haviam lhe sido tomadas.

Sob a interferência dos Estados Unidos, da União Soviética e da ONU, foram feitos acordos de cessar-fogo em 1973, 1974 e 1975. O confronto terminou em impasse e os israelenses não alteraram suas fronteiras.

Reportagem: Camila Marques

 

Theodoro da Silva Junior <theojr@terra.com.br>
data 08/01/2008 08:38
assunto REPORTAGEM:-Por que o Oriente Médio é um barril de pólvora?


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