UMA VIAGEM AO EGITO


"ESTE DIA NÃO VAI TERMINAR NUNCA!"

Quando se está no Egito, pode apostar, você terá tantas atividades que perderá a noção do tempo! 

Independente do que você tenha planejado, esteja certo: seu dia será bem mais longo do que você imagina (tem-se a sensação de que ele tem 36 horas em vez das 24 habituais).  O motivo é simples: você vai querer ver tudo e não perder nada.  E nesta ânsia de querer aproveitar ao máximo sua estada, emenda-se uma atividade na outra pela madrugada afora. Quando cair em si, o dia terá acabado, iniciado o seguinte, você estará tomando o café da manhã, planejando novas
visitas, compras, etc., que parecem indispensáveis.  

Não se iluda! Mesmo que permaneça um mês naquele país e aproveitar cada minuto do seu dia, não verá tudo o
que gostaria.

Em nosso grupo tinha muita gente que, simplesmente, não queria dormir.  Achavam um desperdício ter de descansar, depois de um dia cheio de passeios, barganhas e emoções.  Quando o sono batia forte, dizíamos: "Gente: tá na hora de parar um pouco, senão este dia não vai terminar nunca!". 

 E quem queria isso?  Todos queriam mais...

Para se ter uma idéia da aventura, tomamos os mais diversos meios de transporte possíveis. 

Acompanhe no mapa abaixo todo o trajeto:

APÓS 16 HORAS DE AVIÃO, UM TREM DE AGATHA CHRISTIE

Após algumas horas do desembarque no aeroporto do Cairo, fomos a estação de trem.  Iríamos viajar 1.000 km ao Sul.  Exatamente 11 horas de vagão leito.  Esse trem tem história.

Mas antes, um adendo para se situar no contexto.  Como são poucas as cidades, conseqüentemente são raras as paradas do trem. 

Descemos de trem do Cairo até Assuan (veja no mapa - Aswan). 

A parte alta do Egito é em Assuan (portanto o relevo desce do Sul para o Norte).  É lá que existe uma  imensa represa (Lago Nasser), com 70m de altura, que distribui a água do Nilo para todo o país, Cairo inclusive.  Repare no mapa, como o Nilo se afina em direção ao Norte.  É exatamente por causa dessa barragem.

As cidades mais prósperas do Egito desenvolvem-se todas à margem do Nilo, no litoral do Mediterrâneo ou do Mar Vermelho.  O motivo é simples: praticamente 90% do país é deserto.  Nas proximidades do rio, há uma faixa de lavoura, cultivada por toda sua extensão em ambas as margens, com aproximadamente 300m de largura.

 Além das plantações, tudo é pedra e areia.

Constata-se, assim, que a vida no Egito depende quase que exclusivamente do Nilo.

Ao contrário do que vemos nos filmes, 87% das áreas dos desertos são formadas por pedras.  Aquelas dunas de areia belíssimas mostradas nas películas são minoria.

Portanto, desceríamos até Assuan de trem e voltaríamos ao Cairo navegando pelo Rio Nilo, com paradas, por Kom Ombo, Edfu e Esna.  Da capital egípcia, iríamos para Karnak e Luxor, de onde pegaríamos o avião para Sharm el Sheikh (um paraíso aquático!). O trajeto Sharm el Sheikh/Cairo (onde passaríamos mais uma semana) seria feito de ônibus (8 horas), através  Deserto do Sinai, cruzando o Canal de Suez.

Agora sim, voltamos ao trem!

A estação de trem, no Cairo, é um cenário de filmes.  Coisa de Indiana Jones, mesmo!  Por ser um local extremamente popular, vê-se de tudo: muita gente vestindo os trajes tradicionais (galabias, véus, turbantes, rostos tampados, somente aparecendo os olhos...) num calor no qual é impossível até pensar em estética (Esqueça o bom-tom e deixe o corpo suar).  No Sul, a temperatura sobe muito mais. 

Mosquitos, muitos mosquitos, daqueles abusados que, após muita briga, você apela e grita: "Sai!"... e eles , sem vergonha alguma, respondem: "Sai você!" e ficam no mesmo lugar.  Eles grudam na sua pele e ficam passeando pelo seu corpo.  Não são como os daqui que se espantam facilmente. 

Quando vimos os tipos de trens que circulavam pela estação, tomamos um susto.  Sujos, empoeirados, velhos. Um "meeedo" só. Eram tão surreais que não sei mais o que dizer sobre eles.  Para nos acalmar, os guias informaram que o nosso trem era diferente: "Vocês são turistas, tem coisa melhor!  O de vocês, é diferente: tem banho, cama, comida. É limpinho!"  Pensamos: "Ufa! Estamos salvos!"

Na chegada do nosso trem, outro susto!  Era pouca coisa diferente dos víramos.  Num último desespero, pensamos: "É leito, tem quarto e poderemos tomar um banho".  Que nada!  Era leito sim, mas apertadinho. O que esperávamos para um banho, era apenas uma pia atrás de uma portinha. A vazão da água lembrava um conta-gotas, mal dava para lavar as mãos.  Enfim, um cubículo como vemos ao lado. No corredor lateral, mal passava uma pessoa. Felizmente tinha ar condicionado.

Não vou negar que na hora senti um baixo astral danado, por saber que iríamos ficar nele por mais 11 horas, madrugada afora.  O vagão 2 inteiro (10 cabines), duas cabines do vagão 3 (onde ficamos Lulu e eu), era do nosso grupo. Ainda havia pessoas do grupo no vagão 4 (neste vagão, viajava também uma americana).  Em cada cabine havia um banco, mas nada
de camas.

Era um trem ao estilo "contos da Agatha Christie".   Bastante misterioso e com aqueles sujeitos sinistros que vemos nos filmes baseados no conto da autora.

Contrariando o meu humor, nossa turma mal se importou com as acomodações, parecia uma festa!  Fizeram muita bagunça e gracejos pelos vagões, e filmando tudo.  Virou Brasil! O pessoal realmente estava em altíssimo astral!  Eu é que via  as coisas de forma muito real para o momento.  Mas como entrar num clima desses?

Parecia que emendava uma coisa errada na outra, e o pior, nada funcionava direito!

De tempos em tempos, passava um vendedor de refrigerantes e água de porta em porta.  E claro, quando comprávamos algo (tudo sem gelo, apenas do carrinho para nossas mãos), lá vinha a mão estendida querendo uma gorjeta.

Alguns detalhes engraçados do trem:

1) Havia uma plaquinha pedindo que não se usassem os banheiros com o trem parado, pois a descarga ia direto para os trilhos. Usá-los com o trem em movimento era um exercício de equilíbrio e concentração: era impossível sentar. Por mais grotesco que possa parecer, esse foi um dos motivos de riso do grupo. Ah, não tinha papel!  Mas o moço que servia as bebidas nos fornecia esse aparato de higiene (em troca de um "bakhchich", claro!)

2) As cabines eram pra lá de compactas. Os botões dos equipamentos opcionais não funcionavam desde que Marco Antônio foi apresentado a Cleópatra.  E, como não poderia deixar de ser, os tais botões eram tão sujos quanto os cabides de plástico (teoricamente, deveriam ser usados para pendurar roupas, mas tinha cascão nos cabides!). A pia não era muito diferente!

3) Na hora da refeição (inclusa na viagem de trem), vinha o tal vendedor de bebidas montar uma tábua de madeira na cabine, encaixando-a na parede, à guisa de mesa, guarnecendo-a com os alimentos (como aquelas bandejas servidas em aviões).  Tudo aquecido no micro-ondas. Até aí, quase tudo bem, quando chegava a hora de comer, era difícil identificar o que era a comida: alguns pequenos pedaços de carne (parecia carneiro), uma beringela e uma abobrinha recheadas (tudo em miniatura. O recheio da abobrinha era impossível de identificar), batatas cozidas e algumas chips murchas, um doce também estranho (assemelhava-se a uma mousse . É mais fácil descobrir o elo perdido que adivinhar de que fruta era feita), uma laranja e um pãozinho.  Nos sentíamos como aqueles soldados da
Legião Estrangeira sem alternativas de alimentos.

4) Ao cair da noite, vinha este mesmo vendedor de bebidas desmontar as camas para que pudéssemos dormir.   Então entendemos o esquema: as camas eram parafusadas na parede. Apareciam arrumadinhas num passe de mágica, com cobertor e tudo. Não eram camas individuais e sim beliches.  A vontade era de deitar e acordar somente na hora da chegada.

5) O trem chacoalhava o tempo todo. Quem ficou acordado realmente deve ter tido a mais longa das viagens. Eu tinha um trunfo: tomei um remedinho e apaguei.  Quando acordei, já era dia. Vi apenas uma das paradas noturnas. Pela manhã, este mesmo moço desmontava os quartos e servia o desjejum: café ou chá, pão, coalhada, manteiga e uma fruta, não me lembro bem.   Pude apreciar pouco a paisagem dos camponeses na lavoura (principalmente mulheres), trajando as roupas típicas, e crianças acenando.

 

À medida que você vai para o Sul, a paisagem fica cada vez mais simples.  A impressão é que, pelo caminho, há muitos locais de entulhos, que não são mexidos por décadas, apenas se avolumam lixos de todas as espécies, em meio a muita poeira e pedra.

Pensei comigo:  "Já quero voltar para o Brasil!"

Este percurso, eu não o havia feito das vezes anteriores.  Para mim, era tudo surpresa.  Mas fazia parte desta história.

Desembarcamos na estação sob um calor de mais de 40 graus.  Um novo ônibus (com ar, claro!), nos esperava para levar até a barragem de Assuan.



De lá iríamos para o barco que subiria o Nilo durante 3 ou 4 dias, passando por algumas cidades e monumentos faraônicos.

 

 

Veja a parte 3

DEPOIS DE UM "TREM DOS INFERNOS", "UM BARCO DOS SONHOS"

Jorge Sabongi - Julho/2005
(correção ortográfica:  Andrea Loli - Brasília-DF)

Theodoro da Silva Junior <theojr@terra.com.br> 
Data: 14/03/2006 (16:11:11)
Assunto: atemporal - UMA VIAGEM AO EGITO


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