Paz no Oriente Médio há mais de 50 anos


MEIO SÉCULO DE ESFORÇOS DOS ESTADOS UNIDOS 
PARA A MANUTENÇÃO DA PAZ NO ORIENTE MÉDIO 
Coronel Larry M. Forster 
Diretor do Instituto de Manutenção da Paz do Exército dos Estados Unidos 
[U.S. Army Peacekeeping Institute] 

O apoio proporcionado pelos Estados Unidos às "inovações na manutenção da paz" no Oriente Médio reflete o compromisso firme do governo americano com a paz a longo prazo na região, diz o coronel Forster. A tentativa pragmática de "encontrar a mistura certa de forças de manutenção da paz, sob mandatos da ONU ou não, aceitável por todos os beligerantes, e imparcial na sua conduta das operações, é característica dos esforços dos Estados Unidos para a manutenção da paz no Oriente Médio," ele diz. Forster é o diretor do Instituto de Manutenção da Paz do Exército dos Estados Unidos, no Quartel Carlisle, Pensilvânia.

Os Estados Unidos estão profundamente envolvidos nos esforços para promover a paz no Oriente Médio há mais de 50 anos. Com o duplo interesse de apoiar Israel e apoiar amigos árabes, e ao mesmo tempo coibir a Guerra Fria e outras rivalidades internacionais, os esforços dos Estados Unidos na região têm sido, ao mesmo tempo, complicados e frustrantes. A urgência e a importância da política dos Estados Unidos foi realçada pela crise do petróleo deflagrada pela OPEP (Organização dos Países Exportadores de Petróleo) no início da década de 1970, uma situação que teve conseqüências globais. 

Os Estados Unidos têm permanecido bem na linha de frente ou perto delas, porém nos bastidores, no esforço para evitar o conflito e promover a paz, a reconciliação, e o desenvolvimento no Oriente Médio. Em conjunto com outros estados, os Estados Unidos têm apoiado as inovações da ONU na manutenção da paz, proporcionando, periodicamente, um forte ímpeto diplomático no processo da paz, e trabalhando fora das Nações Unidas quando necessário para resolver obstáculos específicos à paz no Oriente Médio. 

Os Estados Unidos estavam envolvidos na criação da Organização da ONU Para a Supervisão da Trégua [UN Truce Supervision Organization] (UNTSO), em 1948, para monitorar o cessar-fogo entre Israel e seus vizinhos árabes, e perceberam rapidamente o potencial desse protótipo de operação de manutenção da paz. A UNTSO despachou um grupo internacional de oficiais das forças armadas para monitorar o acordo que pôs um fim à luta e permitiu que medidas para criar a confiança fossem implementadas. A missão foi bem sucedida porque os oponentes queriam encerrar as hostilidades. Oito anos depois, em 1956, os Estados Unidos também apoiaram a iniciativa de estabelecer uma força de tropas de manutenção da paz, portando armamento leve, a Força de Emergência da ONU [UN Emergency Force] (UNEF I), no Sinai, para supervisionar a retirada das forças britânicas, francesas, e israelenses do território egípcio. Essa força internacional sob o controle da ONU permaneceu no Sinai como uma força de manutenção da paz entre as posições até 1967, para garantir a integridade das fronteiras do Egito, e ao mesmo tempo ajudar a manter a segurança de Israel; ela foi substituída pela UNEF II, 1973-1979. Em ambos os casos, os Estados Unidos forneceram equipamento, transporte, e ocasionalmente, um observador militar ou oficial de estado-maior, mas não enviaram tropas. 

Durante esses anos foi estabelecido um padrão para que as "cinco nações permanentes" do Conselho de Segurança da ONU criassem e apoiassem missões de manutenção da paz, constituídas por observadores e tropas armadas, com os Estados Unidos pagando 31 por cento da conta de manutenção da paz da ONU, mas sem participar diretamente com o envio de tropas. Outras nações, no entanto, foram encorajadas no sentido de contribuir com tropas para diminuir a rivalidade entre as superpotências e para reforçar a percepção de imparcialidade, e portanto, a aceitação, dos soldados de manutenção da paz. 

Sob os auspícios da ONU, a manutenção da paz durante a Guerra Fria, aplicada a conflitos entre nações, evoluiu de modo a incluir os seguintes elementos primários: consentimento dos oponentes, imparcialidade das forças de manutenção da paz, mandato internacional (geralmente outorgado pelo Conselho de Segurança da ONU), o uso mínimo de força para a própria proteção, e recursos adequados. Os Estados Unidos e a antiga União Soviética ampliaram o seu comprometimento com a região após a Guerra de 1973 entre os árabes e os israelenses, quando as superpotências concordaram em enviar 36 observadores militares para a UNTSO. Eles também apoiaram a criação de uma nova missão de observação em 1974 nas Colinas de Golã, entre Israel e a Síria, a Força de Observação de Separação da ONU [UN Disengagement Observer Force] (UNDOF), assim como uma nova força de manutenção da paz em 1978, a Força Interina da ONU no Líbano [UN Interim Force in Lebanon] (UNIFIL) para supervisionar a retirada de Israel do Líbano. 

Em 1979, como parte dos Acordos de Camp David, os Estados Unidos concordaram em apoiar e participar da Força Multinacional e Observadores [Multinational Force and Observers] (MFO) no Sinai, entre o Egito e Israel. A MFO, ativada em 1981, é uma força multinacional de manutenção da paz, sem ligação com a ONU, que tem ajudado a garantir a estabilidade entre os dois vizinhos. Além disso, os acordos foram facilitados por subsídios concedidos pelos Estados Unidos a Israel e ao Egito, em troca de concessões feitas pelas duas nações durante as negociações. 

Infelizmente a Força Multinacional [Multinational Force] (MNF), sem relação com a ONU, estabelecida no Líbano em 1983, não teve o mesmo sucesso que a MFO conseguiu. Membros da MNF, no ambiente incerto em torno de Beirute, sofreram um número excessivo de baixas enquanto estavam tentando manter a paz, porque, na percepção de alguns oponentes, eles estavam tomando partido, e se tornando parte do conflito. A MNF foi retirada em 1984. Uma lição importante aprendida na intervenção no Líbano, e aprendida novamente na Bósnia com a UNPROFOR (1991-1995), foi que não se deve tentar instituir missões de garantia da paz - nas circunstâncias em que nem todos os oponentes podem concordar com a presença de uma força internacional para separar os combatentes - com forças configuradas para missões de manutenção da paz - em circunstâncias em que todos os oponentes concordem com a presença de forças externas para separar as facções inimigas. Além disso, tanto no Líbano quanto, mais tarde, na Bósnia, as forças internacionais de manutenção da paz foram prejudicadas por normas de envolvimento inadequadas. 

O padrão das operações da paz da ONU e sem ligação com a ONU no Oriente Médio se repetiu mais tarde na Guerra do Golfo quando, em 1991, uma coalizão liderada pelos Estados Unidos, a Operação Prover Conforto, conduziu uma operação humanitária nos moldes de uma missão de garantia da paz, para apoiar os curdos nas montanhas do norte do Iraque. Mais tarde, no mesmo ano, as Nações Unidas estabeleceram A Missão Iraque-Kuwait de Observação da ONU [UN Iraq-Kuwait Observation Mission] (UNIKOM) para monitorar a fronteira entre os dois países. Enquanto isso, aviões da coalizão liderada pelos Estados Unidos impediram o acesso do governo do Iraque ao espaço aéreo das partes norte e sul do seu país, em conformidade com o acordo de cessar-fogo. 

Do modo geral, o esforço pragmático de encontrar a mistura certa de forças de manutenção da paz, tanto para mandatos da ONU quando de fora dela, aceitável por todas as partes beligerantes e imparcial na sua conduta das operações, é característico dos esforços de manutenção da paz dos Estados Unidos no Oriente Médio. Isso reflete a atenção da comunidade internacional em relação ao Oriente Médio - uma região tão rica em recursos naturais, e no entanto tão sujeita a desavenças, conflitos e agitação. Além disso, a combinação de três grandes religiões na área, as complexas tensões políticas e culturais entre esses grupos e internamente, entre partes dos mesmos, e os legados políticos e econômicos de duas guerras mundiais e da Guerra Fria acrescentam grande emoção, e às vezes, extremismo, ao conflito. 

As pessoas envolvidas na resolução de conflitos no Oriente Médio precisam perceber muito bem as distinções culturais e as dimensões históricas para poder ter alguma oportunidade de elaborar estratégias para criar um clima de confiança. O progresso que foi feito na resolução de conflitos freqüentemente foi feito porque os esforços de manutenção da paz reduziram a probabilidade de combate direto, permitindo, ao mesmo tempo, medidas periódicas de "diplomacia itinerante" de grande visibilidade, esforços diplomáticos nos bastidores, e medidas de "duas vias" a longo prazo, para a criação de um clima de confiança. Os esforços que deram mais certo têm sido holísticos e abrangentes - envolvendo os oponentes do conflito e a comunidade internacional em geral, e liderados pelo forte apoio diplomático de países, como os Estados Unidos, que podem exercer influência no processo. Apesar de toda a frustração que freqüentemente experimentamos no decorrer do processo da paz, de ritmo aparentemente lento no Oriente Médio, os esforços das tropas de manutenção da paz minimizaram de fato a eclosão das hostilidades e salvaram inúmeras vidas humanas. 

Os Estados Unidos continuam decididamente comprometidos com a paz no Oriente Médio, a longo prazo. Os esforços dos Estados Unidos para atingir esse objetivo incluem a resolução de conflitos nas questões entre os árabes e israelenses, iniciativas para evitar que as nações agressivas na região ameacem os vizinhos, e a manutenção dos negócios e do comércio em nível internacional. Para cumprir essas metas, os Estados Unidos estão enviando tropas ao Sinai (aproximadamente 1.000 soldados na MFO), pré-posicionando equipamentos e colocando tropas no Golfo, conduzindo operações de vigilância aérea sobre partes do Iraque (Vigilância Norte e Vigilância Sul), contribuindo com missões de observação da ONU na região, e conduzindo exercícios de treinamento militar no Egito, Kuwait, e em outros locais na região. Esses esforços reforçam o apoio contínuo dos Estados Unidos, nos campos diplomático e econômico, para iniciativas abrangentes da paz, e trazem benefícios para os habitantes da região e para a comunidade internacional. 

Agenda de Política Externa dos EUA
Revista Eletrônica da USIA
Vol. 3, Nº 2, Abril de 1998 


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