10º Contingente - Milton J.G.de Souza
GREGAS & TROIANAS
Certa vez, lá pelos idos do ano 1962, soprava um vento muito forte balançando
os galhos e as folhas verdes dos eucaliptos do Batalhão em Rafah, era início
de dezembro daquele ano.
Eu estava afastado
das atividades normais da Missão de Paz e internado na enfermaria do Batalhão
Brasileiro para tratamento de saúde, devido a uma gastrite e ulceras
estomacal.
Em conseqüências
dessa enfermidade podia gozar de algumas regalias ou privilégios, ou seja,
tinha liberdade para andar e dar minhas voltinhas dentro da Unidade, e
poderia percorrer por onde bem entendesse andando dentro do Batalhão.
Eu sempre percorria
por entre as barracas às vezes dando a impressão de estar praticando
espionagem, pois tantas coisas eu observava, e muitos acontecimentos eu pude
presenciar.
Uma noite, já
passava das 23 horas, e quando eu estava andando próximo ao portão de
entrada principal do Batalhão, tive que fazer uma parada repentina ao
perceber uma camioneta da marca "GMC" utilizada na missão,
repleta de "soldados diferentes" (atípicos) adentrando ao
interior do Batalhão, mesmo sendo altas horas da noite chamou-me atenção.
O Sentinela de plantão
nada questionou, nem se interessou saber a procedência daquela viatura, nem
sobre aqueles "esquisitos soldados", pois que na cabine e na direção
vinha como ocupantes somente oficiais já conhecidos da soldadesca.
Após ser repassado
a senha e contra-senha do dia, e identificação dos oficiais que ocupavam a
cabine, foi aberta a cancela, e aquele estranho grupamento adentrou ao pátio.
Troquei rápido comentário com o soldado que estava de serviço de reforço, a área e próximo ao portão, e ficamos desconfiados, começamos a espalhar o boato da desconfiança de coisas estranhas.
Os
"bisbilhoteiros" de plantão se agitaram, eu era um deles, e
resolvemos espiar fazendo esforço para que não fossemos notados.
Conseguimos chegar
perto de uma janela onde era o prédio do Cassino dos Oficiais, lá de
dentro ouvíamos vozes femininas de estranho linguajar.
Aí o "bicho
pegou" - resolvemos forças umas frestas pelas janelas, para olharmos
ao interior, e vimos umas moças "fantasiadas de gregas", que
vieram sabe-se lá de onde, para fazer o quê naquele Cassino dos Oficiais,
e àquelas horas da noite? Certamente não estavam ali para rezar com
aqueles oficiais.
Resolvemos então
denunciar a outros soldados, e fomos de barraca em barraca, acordando a todo
mundo e "fofocando".
A essas alturas do
campeonato eu não sentia nenhuma dor, nem gastrite alguma, até parecendo
que havia curado minha enfermidade.
Todos os soldados
que se interessavam em conferir o que estava rolando lá no Cassino dos
Oficiais agiam em total silêncio, parecia ato fúnebre de madrugada,
justamente para não ser percebidos, todos confirmavam o fato de que alguma
coisa estranha estava rolando, resolvemos "tocar Rebú" iniciando
uma tremenda algazarra, gritando e batendo com pedaços de paus, nas latas
que encontrávamos, latinhas de refrigerantes e de cervejas jogas ao Lixo,
batíamos umas nas outras, afinal começamos o maior barulho já em plena
madrugada, para justamente despertar ainda mais a atenção de todos os
demais militares daquele aquartelamento.
No auge da algazarra
desviamos a atenção para o que acontecia dentro da barraca, e nem lembrávamos
mais daquela camioneta GMC, quando repentinamente vimos à viatura executar
manobras rápidas e aceleradas, em seguida saindo em desabalada carreira
rumo ao portão principal, e no seu bojo transportando o mesmo pessoal com
aqueles "soldados estranhos na carroceria", corremos atrás na
tentativa de impedir a saída, mas quando chegávamos ao portão já era
tarde, ainda pudemos ver sumir pela traseira e já na estrada asfaltada rumo
a Gaza.
Nada mais se poderia fazer, a não ser comentar sobre o fuzuê e tentar identificar pessoas e conivências.
Custamos a voltar
para as barracas e dormir naquele final de noite. Quando amanheceu por
completo, e dava inicio as atividades normas de mais outro dia de missão,
ninguém ousaram comentar com os sargentos nem com os oficiais aquela
“louca" ocorrência da madrugada anterior.
Todos sabiam do
fato, mas o que se viu foi um silêncio total sobre o assunto, ninguém quis
comentar a respeito daquela viatura com aqueles "soldados
estranhos" que vieram "visitar" o nosso Batalhão de
madrugada, porque ninguém ousava levantar suspeitas mesmo porque não
haveria provas suficientes para garantir qualquer acusação e ninguém
queria servir como testemunha ocular do fato, e qualquer especulação não
fazia sentido e esfriou-se o caso.
Porém de uma coisa estávamos certos... "essas visitas eram bastante prazerosas para algum grupo de brasileiros, com certeza não era para os soldados naquela noite" ...
COISAS DE SUEZ!
Memórias do Cabo Milton - 10º Contingente