11º Contingente Sd. Francisco Denck Monfron

Um Conto


Um conto sobre Coisas de Suez e CANAL DE SUEZ

 

Como acontecia em todos os domingos, ela estava sentada em roda junto aos seus primos. Todos ouviam as histórias de seu avô, o tradicional almoço de família na casa dele não falhava nunca. Hoje suas histórias giravam em torno de quando ele esteve com as Forças de Paz Brasileiras no Canal de Suez, ela achava aquilo tudo uma enorme chatice, assim como a maioria dos que estavam ali sentados. Para ela o velho sempre foi um enrolador e mentiroso, inventava histórias de coisas que gostaria de ter sido, e agora que estava velho e não tinha nada, gostava de sonhar. Foi quando, pensando que não iria ficar por mais de uma hora ouvindo ele, ela se levantou, e num acesso de raiva berrou com o dedo apontado para ele:


- Ah vô, pelo amor de Deus! Acha que vamos acreditar em todas essas mentiras que tu conta? Se os outros não tem coragem de dizer eu tenho: É muito chato ficar ouvindo teus sonhos por horas. Se tivesse um pingo de bom senso, tu iria usar o dinheiro que gasta nesses almoços para ter algo na vida.


Depois de falar ela saiu correndo, iria se esconder no lugar que seu avô sempre falou para ninguém entrar. Chegou ao segundo andar da casa e subiu o último lance de escadas que levavam ao esconderijo, o sótão. Enquanto fechava a porta viu que um feixe de luz vindo de uma janela iluminava o lugar, ao menos não ficaria na completa escuridão.


Ficou por um tempo analisando tudo que aquele lugar escondia por tantos anos, pequenos troféus, móveis cobertos de poeira, brinquedos antigos de madeira, pensava qual teria sido o motivo para seu avô não deixar ninguém subir ali. Uma caixa de papelão na parede oposta à janela lhe chamou a atenção, antes de ver o que ela continha foi ver como estavam os preparativos do churrasco pela janela. Todos muito ocupados, mas não avistou nenhum de seus primos, provavelmente estavam com aquele velho doido. Quando se virou de novo para dentro do aposento seu coração apertou, agora ela encarava a caixa de papelão de frente, e escrito com tinta verde ela podia ler: Suez.


Pegou a caixa e sentou-se na cadeira que estava a frente da janela, ao abrir sentiu um forte soco no estômago, uma sensação de culpa tomou seu corpo. Retirou de dentro uma foto que mostrava um soldado sobre a divisa de Israel e Egito, junto de uma carta, que tinha as quatorze coisas que os soldados brasileiros deveriam saber para o bom desempenho de suas funções em Suez. Olhou a foto mais de perto, e agora constatou o que já imaginava, era seu avô.

Uma dor começou a machucar ela por dentro, e seus olhos se encheram de lágrimas. Estava tudo ali naquele sótão, o troféu de boliche, os quadros, os discos autografados, as lembranças do exército, todas histórias que seu avô tinha contado e ela havia duvidado. Só pensava em reparar seu erro, ia levantar da cadeira quando sentiu uma mão pesada pousar sobre seu ombro esquerdo.

- Eu sabia que iria te encontrar aqui.

- Vô, me perdoa, me desculpa! Eu realmente não imaginava. - Disse ela chorando.

- Está tudo bem. Você deve estar se perguntando porque eu guardei tudo isso, quando poderia logo ter acabado com as tuas dúvidas? Pois bem, enquanto eu viver não preciso de nada que tem aqui, eu mesmo posso contar minhas histórias, e quando eu não estiver mais com vocês, essas lembranças que vão contar por mim. Tu ainda vai aprender que tem certas coisas que a gente não precisa ver para acreditar, e não me ofendi, quando disse que deveria juntar dinheiro para ter algo na vida, porque eu já tenho algo que dinheiro no mundo seria capaz de comprar, vocês minha pequena princesa, a minha família.

O Canal de Suez, que até então unia o Mar Mediterrâneo ao Mar Vermelho, acabara de unir mais uma coisa, uma neta ao seu avô.

"Não levantes a espada sobre a cabeça de quem te pediu perdão." (Machado de Assis)

Fotos: Canal de Suez - Cartilha do Exército

 

Canal de Suez 

O Canal da Lembrança  " Um bonito Texto - Artigo que encontrei pela Internet dia 09-03-2006 de autor desconhecido".(?????)


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