O pracinha do Batalhão Suez que adotou Rosário como sua cidade
Participar do 11º Contingente Brasileiro na Missão das Forças de Paz da ONU no Egito, entre 1962 a 1963 na Faixa de Gaza é motivo de orgulho para o gaúcho natural de Porto Alegre e que adotou Rosário como sua cidade há 30 anos, desde 1978 .
Nelson Centeno Silveira, 72.
Quem vê o aposentado Nelson andando pelas ruas de Rosário e dançando todos
os fins de semana nos bailes, não imagina quanta história ele tem para
contar. O ex-pracinha na Força de Emergência das Nações Unidas da época
com Brasil e outros seis países, Nelson foi um dos 6 mil homens que
ocuparam a Faixa de Gaza para impedir conflito entre Árabes e Judeus.
Iniciado seis anos antes, quando Gamal Nasser, presidente do Egito nacionalizou o Canal de Suez proibindo a passagem de navios de Israel, desencadeou uma reação militar na área.
A Saída
A cena de tão forte, nunca mais lhe saiu da retina. Dia 04 de agosto de 1962 Nelson então com 26 anos embarcou no navio da Marinha Ary Parreiras, atracado no Pier da Praça Mauá no RJ. A embarcação levava o 11ª Contingente de Brasileiros, composto por gaúchos, cariocas e paulistas para o Egito.
“Foi muito emocionante, todo mundo chorando ao se despedir da família. Eu só tinha amigos no Rio, e me despedi com emoção, pois, já havia me despedido de familiares em Porto Alegre. De minha mãe que via o filho partir para um lugar distante e desconhecido”, relembra o Boina Azul do Batalhão Suez.
No Mar
Em alto mar o transporte das tropas
brasileiras durou 32 dias. O navio partiu do Rio, fez escala em Recife e
foi até a África, com escala nas ilhas Canárias, depois entrou no Mar
Mediterrâneo e chegou ao norte da África. Entre duas paradas na África e
Gênova na Itália, os soldados faziam treinamentos de abandono do Navio de
117m de comprimento. A embarcação tinha capacidade para 1.870 pessoas.
No Egito
O desembarque no Porto de Said, já no
Egito, reservou a primeira surpresa para a tropa. “ Às 18h
desembarcamos e um trem já nos esperava onde levaria os soldados para a
cidade de Rafah, em 12 horas de travessia pelo deserto do Sinai. Chegamos
às 6h da manhã cobertos de areia”, relata Nelson. “Os
sentinelas que trabalhavam nos Postos de Observação ao longo da Fronteira
Israel/Egito, dispunham apenas de armas para defesa, binóculos e telefones
de fios que desapareciam na areia do deserto”.
As folgas
Em um ano de missão, os soldados
ganharam algumas folgas. Foram oportunidades para viagens históricas ao
Cairo, capital do Egito, Beirute no Líbano, Damasco na Síria, Jerusalém,
Belém e várias ruínas romanas. As variações climáticas que oscilavam dos
50º C de dia e -10ºC a noite. Nossas patrulhas pela linha divisória entre
Egito e Israel eram percorridos 5km. Não podíamos parar por causa do frio,
arrastávamos pela areia com o cantil cheio de Wiski para suportar o frio.
Além do fardamento de lã, carregavam armas e capacete de aço. A patrulha
era formada por um sargento, um cabo e três soldados.
As dificuldades
“Caminháva-mos no escuro, com
lanternas para casos de emergências. Quando ouvíamos tiros, deitávamos no
chão e cavávamos buracos para nos proteger”, conta o pracinha.
A volta
Nelson Centeno diz que escreveu centenas
de cartas para a família em Porto Alegre, com relatos do dia-a-dia da
tropa em terras inóspitas. “O retorno ao Brasil, foi um dia
ensolarado de primavera no mês de setembro de 1963. Havia uma multidão nos
esperando no cais do Rio de Janeiro. Fomos recebidos como heróis, foi uma
loucura” diz o ex-cabo.
A melhor lembrança
Não são as fotos, nem os souvenires ou
lugares visitados que marcam o homem que passa sua vida em Rosário do Sul,
cidade que adotou como sua cidade depois de Porto Alegre onde nasceu. Uma
medalha concedida pela ONU e o Certificado de Prêmio Nobel da Paz,
concedido pela Fundação Sediada na Suécia, são os maiores galardões da sua
vida: “Isso não tem preço, guardo-os como a melhor recordação de uma
aventura pela paz mundial”, finaliza o pracinha radicado em
Rosário desde 1978, em entrevista à Folha.
Saiba Mais
As tropas brasileiras eram renovadas duas vezes por ano entre o Egito e Israel, no Canal de Suez. Em 10 de dezembro de 1988, a Fundação Nobel concedeu prêmio Nobel da Paz as forças da ONU por serviços prestados desde 1948 até hoje. Cada militar recebeu distinção. Cada pracinha recebeu o certificado do prêmio Nobel.
de Theodoro da Silva Junior <theojr@terra.com.br>
data 06/10/2008 00:38
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