Batalhão Suez

The Blue Beret - Os Boinas Azuis da ONU

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Edmundo Manzini, um brasileiro Prêmio Nobel da Paz, conta sua saga


:: Ele participou da UNEF-
Forças de Paz da ONU que ganharam o prêmio em 1988.

Por Valdir Sanches

Em sua casa, em
Santo Amaro, na zona sul de São Paulo, Edmundo Manzini de
Souza, Prêmio Nobel da Paz, recorda a noite em que, comandando um grupo de
combate, no Deserto do Sinai, sentiu que o solo por onde caminhavam havia
ficado diferente.

Seguiam à noite, como cegos, sob uma tempestade de areia. Iam
grudados uns aos outros. Grudados mesmo: o de trás segurava um cadarço do
uniforme do que ia à frente. O que acontecia com o solo é que os pés não
afundavam mais na maciez da areia. Havia alguma coisa, sob eles, dura como
cimento.

Era cimento mesmo. Haviam invadido, sem perceber, o acampamento
de um grupo de nômades da Al Fatah. Se em vez de brasileiros fossem judeus
estariam perdidos. Mas eram da terra de Pelé, e integrantes da Força de
Emergência da ONU, a Organização das Nações Unidas. Os Boinas Azuis. Portanto,
neutros.

Estavam lá para garantir a paz, ou, mais apropriado, impedir a
guerra entre judeus e egípicios. Em 1963, a Faixa de Gaza, onde se encontravam,
já era um barril de pólvora, se é que a expressão ainda faz sentido. A tensão
era muito maior do que a de hoje, depois do ataque de Israel aos navios
humanitários a caminho da Faixa de Gaza.

Naquela noite, os nômades do acampamento invadido, bem armados,
imobilizaram o comando brasileiro. Mas o trataram bem. Respeitaram o
comandante. Deixaram que Edmundo ficasse com suas armas, uma metralhadora e uma
pistola. Desarmaram os outros e os mandaram sentar no chão.

Interessaram-se pelos cantis dos invasores. Não teriam araque, a
aguardente árabe? Não, mas cachaça podiam garantir. Falando uma mistura de
árabe, inglês e francês, trocaram amabilidades. Cigarro brasileiro (Minister)
por chaveirinhos da Al Fatah. Quando o dia clareou, os nômades revistaram os
invasores, conferiram a nacionalidade, na etiqueta dos uniformes, e os
liberaram.

“Eu tinha 26 anos, era sargento, e comandava 22 homens no 1º
Grupo de Combate do 3º Pelotão (Pelotão Paraná) da 7ª Companhia de Fuzileiros
do 13º Contingente do Batalhão Suez. No deserto, todo dia tem tempestade de
areia. Sob sol, a temperatura era de 52 graus. À noite, caía para 4 graus. A
areia não retém o calor, mas reflete o sol.

“A nossa missão era evitar o confronto entre judeus e árabes. Os
grupos nômades, como a Al Fatah e o Fedayin , estavam armados para pegar
judeus. E era complicado. Às vezes a molecada jogava pedra na viatura. Para os
nativos, nós éramos intrusos.

“Nosso acampamento, com barracas de lona, ficava no Deserto do Sinai, na Faixa de Gaza. Uma de nossas missões era cuidar de um trecho da Linha de Demarcação de Armistício, uma valeta cavada na areia, de 60 cm de fundo por 60 cm de largura. Separava Israel da Faixa de Gaza (os brasileiros cuidavam de 32 quilômetros). Se houvesse problemas, nós seríamos o alvo, dos dois lados.

“A valeta tinha que ser limpa todo dia, para marcar a divisa.
Era um trabalho insano. A tempestade cobria de areia, e tínhamos que cavar de
novo.”

Edmundo servia como sargento no Quartel General do 2º Exército
(hoje 2ª Região Militar), em
São Paulo, quando soube que o Exército Brasileiro integraria
as forças de paz da ONU. Disputou uma vaga. Um dos seus interesses era o soldo,
três vezes maior do que ganhava aqui (não lembra valores). Havia um detalhe:
estava noivo.

O navio em que embarcou, em Santos, levou-o a… Porto Alegre. Na
capital gaúcha passou por treinamento, recebeu vacinas e instruções. Tudo
pronto, integrou a força de 380 homens embarcados no navio Ary Parreiras, com
seus beliches de seis andares. Demoraram-se muito tempo nas Ilhas Tenerife,
próximo às costas da África. Com mais de um mês de viagem, desde a partida,
chegaram a Port Said, no Egito.

Nesse porto começa o Canal de Suez, que liga dois mares – o
Mediterrâneo ao Vermelho – e permite a navegação da Europa para a Ásia, e
vice-versa, sem contornar a África. O canal estava no centro dos incidentes da
região. O destino seguinte dos desembarcados foi Rafah Camp, na Faixa de Gaza.

Perto desse lugar, no antigo Forte Inglês, o Brasil instalara
seu QG. Dali, os recém-chegados foram enviados para suas bases, à frente da
Linha de Demarcação de Armistício, em lugares pouco habitados do deserto.

“Durante o dia, fazíamos vigilância em três postos de observação,
separados entre si por três quilômetros. Ficávamos em uma caixa de cimento, com
o visor voltado para Israel, a uns 50 metros da linha. Usávamos binóculos,
telefone magnético de campanha e armas de defesa.

“Às seis da tarde saía a patrulha à pé. Ficávamos 12 horas
andando ao longo da linha. Em silêncio, sem fumar. Não falávamos, se preciso
cochichávamos. Quando uma patrulha motorizada se aproximava, ficávamos em
posição de defesa e dávamos sinal de lanterna. Pedíamos a senha. Eles davam, e
nós dizíamos a contra-senha.

‘Essas senhas eram criadas pelo QG da ONU, e mudavam toda noite
(palavras do alfabeto de radiocomunicação, como ‘charles’, ‘delta’, ‘victor’).
A situação era: quem não tem senha come chumbo.

Às vezes, no começo, apareciam alguns soldados de outro país,
bêbados. Dávamos sinal, eles paravam. Mas não sabiam dizer a senha, só falavam
de onde eram e queriam prosseguir. Nós dávamos a ordem: ‘Volta!’. E eles não
tinham jeito senão obedecer.”

Para distrair, não ficar só pensando na família, os soldados
construíram uma praça em frente ao acampamento (que, então, já tinha base de
alvenaria). Instalaram uma placa, com o nome dos 23 homens do grupo. Uma frase
de Edmundo encimava a relação de nomes: ‘Somente os bravos vencem a solidão do
deserto’.

O Canadá, que cuidava da logística, fazia as cartas das famílias
chegar pela mala diplomática. Vinham em aviões canadenses ou no Hércules C-130
da FAB (Força Aérea Brasileira). Às vezes atrasavam muito. Um bolo de Natal só
chegou para Edmundo em fevereiro.

Em março de 1964, quando os militares assumiram o poder no
Brasil, Edmundo e seus homens ficaram angustiados. Não tinham notícias da
pátria, dizia-se que estava havendo uma guerra civil. Às vezes conseguiam uma
informação melhor, do noticiário de rádios estrangeiras que falavam um pouco de
português.

Em 25 setembro de 1964, Edmundo e seus companheiros iniciaram a
longa viagem de volta. Em
Port Said, à entrada do Canal de Suez, embarcaram no Barroso
Pereira, navio da Marinha de Guerra brasileira. Escalaram em diversos portos,
entre eles o de Marselha, na França. Só em 13 de outubro desembarcaram no Rio.
Um ano e três meses depois da partida.

No cais do Arsenal da Marinha estavam a mãe e a noiva de
Edmundo, que haviam viajado de São Paulo. “Foi uma alegria indescritível, uma
emoção que ninguém pode imaginar.” Edmundo está casado há 44 anos. Tem quatro
filhos e dois netos. É professor doutor cirurgião dentista, e sanitarista,
formado pela Universidade de São Paulo, USP. Na última quarta-feira fez 73
anos.

Em 1988, o Prêmio Nobel da Paz foi destinado às Forças de Paz da
ONU. O Batalhão Suez, dos brasileiros que atuaram durante dez anos (1957-1967)
na Faixa de Gaza, estava incluído. Edmundo guarda sua medalha e seu diploma de
Nobel da Paz junto com outras medalhas, como a do Exército Brasileiro e do
Pacificador.


O contexto que levou o
brasileiro Edmundo a Gaza


 

Inaugurado em 1869, o Canal de Suez, no Egito, liga o Mar
Mediterrâneo ao Vermelho. Viabiliza a navegação da Europa para a Ásia, e
vice-versa, sem precisar contornar a África. Foi construído por iniciativa da
França. Este país e o Egito eram seus maiores acionistas. Mas o Egito vendeu
sua parte aos ingleses.

Em 1953, Gamal Abdel Nasser liderou uma revolta e assumiu o
governo do Egito. Três anos depois, em 1956, nacionalizou o canal e fechou o
porto de Eilat, no Mar Vermelho, o que impossibilitou o trânsito de Israel.

Negociações entre os países envolvidos fracassaram. Com isso,
Israel invadiu a Faixa de Gaza, controlada pelo Egito, e a Península do Sinai,
em território egipício. As aviações francesa e britânica atacaram o Egito, e
Nasser afundou 40 navios no canal, e o fechou.

Os ingleses e franceses passaram a controlar o canal, mas os
Estados Unidos condenaram o emprego da força. Em março de 1957, os ocupantes se
retiraram e o canal foi reaberto. Israel deixou o Egito, mas o risco de
confronto entre os dois países continuou latente.

Nasser procurou o apoio da ONU para garantir a paz. Criou-se,
assim, a Força de Emergência da ONU, com dez países integrantes – entre eles o
Brasil. Para pacificar a região, e evitar novos confrontos, essa força –
apelidada dos Boinas Azuis – interpôs-se entre as de Israel e Egito.

Com 6 mil homens revezando-se, a Força de Emergência garantiu a
paz de 1957 a 1967, quando se retirou, a pedido de Nasser. Ainda havia soldado
da força na região, brasileiros inclusive, esperando embarque, quando eclodiu a
Guerra dos Seis Dias, em
que Israel bombardeou Egito, Síria e Jordânia.

Mas este já não era assunto para os Boinas Azuis.

Junho de 2010.

Esta reportagem foi originalmente publicada no Diário do Comércio.


 

 

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