Batalhão Suez

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20º Contingente - Sd Noré Buzzatti

 


Nome   -             NORÉ BUZZATTI

Unidade  -         III/2º RI – (Batalhão Suez) 20º Conting.

Graduação   -  Soldado

Condições:     - Apresentação voluntária:

                       - Ser reservista de 1ª categoria:

                       - Ser fisicamente apto.

Histórico:  - Apresentação e incorporação no 18º Regimento de Infantaria nesta Capital Porto Alegre, para um período de treinamento, exames médicos e vacinas para estar apto a enfrentar as condições no Oriente Médio, bem como a formalização da documentação e contrato.Em 27 de março de 1967 partida para o Oriente Médio em um avião Hercules da FAB, com escala em Recife, Ilha do Sal, Lisboa e finalmente El Arich base aérea do Egito. nosso destino era a Faixa de Gaza, fronteira com Israel, onde meu pelotão o 3º da 7ª Cia. Ficou aquartelado no Forte Worthington - campo Rafah, onde ficaríamos por quatro meses após este período seríamos transferidos para outros locais da fronteira.

Nos primeiros três meses cumprimos nossa missão com relativa tranqüilidade, a partir daí a situação começou a ficar tensa. Observava-mos grande movimentação de tropas e veículos militares nos arredores do campo Rafah, bem como muito nervosismo dos árabes que trabalhavam nas instalações da ONU.

Meados do mês de maio a situação ficou mais tensa, diariamente ocorriam escaramuças entre árabes e judeus. Estávamos muito tensos pela possibilidade de combates e incerteza do futuro pois nosso comando não informava nada.

O Egito expulsa o contingente canadense, país que era encarregado da manutenção das tropas da ONU na Faixa de Gaza, abandonando suas instalações numa situação de fuga, pois eram eles inimigos do Egito por ser um país imperialista e historicamente apoiarem Israel.

Com esta situação coube ao meu pelotão o 3º da 7ª Cia. e outro da 8ª Cia. patrulhar e zelar pelo imenso patrimônio abandonado pelos canadenses. Foram dias de muita tensão e medo, constantemente o local que patrulhávamos era invadido por palestinos, que buscavam alimentos, bens materiais, veículos e até nosso armamento apesar de obsoletos para os padrões da época.

Os dias iam passando a incerteza e a angustia aumentando, não obtínhamos informações sobre nosso futuro. No dia seis de junho como de costume estávamos de serviço, meu GC naquele dia, estava de patrulha no hospital, cuja responsabilidade também era dos canadenses. Por volta das oito horas fomos surpreendidos por rajadas de metralhadora e tiros de canhão em nossa direção, disparados por tanques não soubemos se árabes ou judeus. Imediatamente abandonamos nossos postos e procuramos abrigo correndo para dentro do hospital. Foram horas de angustia e medo, sem comunicação com o comando, não tínhamos alternativa senão aguardar e torcer para não sermos atingidos por bombas que a todo momento explodiam  muito perto e   por balas que pelas porta e janelas atingiam o interior  do hospital.

Aviões davam rasantes e bombardeavam posições egípcias ao mesmo tempo em que eram metralhados, o barulho era ensurdecedor o que aumentava nosso pavor.

Os palestinos civis corriam para todos os lados, uns oravam outros choravam o pavor estava estampado em seus rostos.

Varias mortes ocorreram no hospital e arredores naquela manha, nós nos protegíamos do jeito que dava e por muita sorte saímos com vida, alguns com ferimentos e escoriações causadas pela correria e fuga dos bombardeios e rajadas disparados em nossa direção.

No meio da tarde acalmou um pouco os combates naquela região, o que nos possibilitou o deslocamento ate nosso forte. Lá a situação também estava confusa, não sabíamos que atitude tomar, pois nosso comando não se manifestava.

Não demorou muito fomos atacados por seis blindados israelenses que invadiram nossas instalações atirando, como não houve reação de nossa parte, evitaram-se assim muitas mortes.

A partir daí juntamente com os palestinos passamos a ser prisioneiros dos israelenses que numa atitude hostil mesmo sabendo que éramos soldados da ONU nos retiraram de nossas instalações e nos conduziram para um descampado onde ficamos prisioneiros sob a mira de soldados israelenses até o dia amanhecer.

No momento da invasão do nosso forte pelos soldados de Israel eu estava vestido com calção e camiseta no banheiro e não tive permissão para ir ao alojamento para me fardar, a ordem era para todos irem para o pátio e ali ficamos sentados no chão sob a mira dos israelenses e depois já como prisioneiros fomos deslocados para fora do nosso forte.  

A maneira como estava vestido, me causou muita dificuldade, pois fui confundido com palestinos civis que na tentativa de fugir dos israelenses, buscavam abrigo junto a nós, e quando identificados eram violentamente retirados para outro local. O mesmo estava acontecendo comigo pelo fato de não estar fardado. O que impediu ser este o meu destino naquele momento,   foi um soldado israelense de origem espanhola que entendeu o que eu dizia e me identificou como soldado ONU, permitindo assim que eu voltasse para junto de meu pelotão. Foi a pior noite de minha vida, o frio era muito, ao redor de dois graus e eu permanecia de calção e camiseta. O que me ajudou foi uma manta que me foi alcançada por um soldado que até hoje não sei de que nacionalidade. Esta situação me causou uma forte gripe acompanhada de amidalite e febre, e medicação não existia.

No outro dia fomos libertados e ao retornar aos alojamentos nossa indignação aumentou, pois constatamos que nossos pertences haviam sido saqueados provavelmente pelos israelenses cuja indenização até hoje, ficou só na promessa. E com muita tristeza soubemos da morte do cabo Carlos A. Ilha de Macedo.

Nos dias que se seguiram foram de angustia e sacrifício, não tínhamos informações sobre nossa situação, nos amontoávamos procurando carregar o que restou de nossos pertences, a alimentação era escassa, e água praticamente não existia.

Após alguns dias, com o fim da guerra fomos deslocados em comboio  ate o porto de Ashdod em Israel, onde embarcamos no navio Soares Dutra que vinha do Brasil com destina à Itália onde descarregaria  a carga de café que trazia.

A partir daí começou nossa longa viagem de volta, foi outro suplicio, pois estávamos sem alojamentos no navio, os soldados dormiam sobre os sacos de café e muitos ao relento no convés, que foi o meu caso. Ainda fragilizado pela gripe pela comida ruim e pelos enjôos causados pelo balanço do navio, perdi vários quilos.

Em fim quando chegamos a Porto Alegre tivemos uma recepção calorosa por parte de nossos familiares que estavam ansiosos por nos ver. Dali fomos conduzidos ao 18º Regimento de Infantaria, onde entregamos o que restou de nossos pertences militares e sem explicações fomos dispensados.

Não tivemos possibilidade de engajamento, nosso contrato que era de 14 meses foi esquecido, bem como  a indenização pelo saque ocorrido durante a   guerra.   

De reconhecimento só ficou a medalha pelos bons serviços prestados a paz mundial  e mais recentemente a distinção do Premio Nobel da Paz aos integrantes das tropas da ONU.


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