38 anos após a Guerra dos 6 Dias

By FVargas


05 Jun 2005 

Prezados amigos:

Faz hoje 38 anos que começou a Guerra dos Seis Dias e tudo mudou para um punhado de brasileiros que foram apanhados, desprevenidos, no meio do campo de batalha. A partir daí nunca mais fomos os mesmos. Ficamos adultos de um dia para o outro pois a maioria tinha 19 anos.

Era uma segunda-feira, 8 horas da manhã, quando o inferno desabou sobre nossas cabeças. Bombardeio de artilharia o dia todo, tomada de nosso forte (Fort Worthington) por uma brigada blindada israelense precedido por um muito nutrido fogo de metralhadoras. Eles não se deram o trabalho de usar o portão das armas que a esta altura já estava desguarnecido com o saudoso Sd. Barros prostrado por uma explosão de granada. Preferiram passar por cima do arame farpado em vários pontos com carros meias-lagarta. Fomos feitos prisioneiros e seguimos numa longa fila de homens aturdidos até o "Main Gate" escoltados por soldados israelenses mais aturdidos ainda. Passamos 16 horas no areal sem podermos sequer levantar para esticar as pernas. Nossas barracas foram saqueadas na nossa ausência, levando o pouco que havíamos comprado em 4 meses de Faixa.

Isso é um pequeno resumo daquele dia terrível que nunca mais vamos esquecer. Outro dia o Gen Flavio Oscar Maurer, Tenente Cmt de Pelotão na missão que dividiu conosco essas vicissitudes mandou-me um e-mail falando sobre o assunto o qual tomo a liberdade de transcrever um pequeno trecho:

"Cada um de nós, a seu modo, carrega o estigma da incapacidade de traduzir em palavras para quaisquer outros interlocutores que lá não estiveram, as experiências vividas naqueles dias abrasadores nas areias do deserto do Sinai. Foram momentos cruciais de vida ou morte, não compreendidos pelos que aqui ficaram, cuja reação, compreensível conhecendo-se as mazelas da natureza humana, foi na maioria das vezes de chacota, acusação de covardia e até desprezo.

Digo compreensível, porque você como eu conhecemos as pessoas, principalmente os soldados. Na verdade, qualquer soldado, cuja formação é a de ser capaz de suportar as tensões de uma guerra, estando metido bem no meio dela, quando descobre que chegou ao final de uma carreira, onde levou uma vida insípida, que se resumiu a lustrar os coturnos, acaba tendo uma reação de desprezo por aqueles que estiveram realmente metidos no meio de um combate real e de lá saíram vivos para contar a história. Isto eu considero natural e compreensível. Por isso, nunca dei muita atenção quando os companheiros vinham com aquela história: " ah, você foi daqueles que se esconderam debaixo da cama, de medo, naquela guerrinha lá no Egito". Sempre respondi a eles com altivez, jamais admiti que tivemos uma atitude covarde e procurei cortar a conversa no seu nascedouro, porque quem vai conseguir provar para muitos que atitudes desse tipo nada mais significavam que a expressão sórdida de uma grande inveja daqueles que não puderam viver aquela experiência, única para o soldado?"

Na volta da missão encontramos a incompreensão nos esperando de braços abertos. O fato é bem descrito pelo Gen Maurer aí em cima.

Para mim tudo está muito vívido em minha memória. Posso ouvir os gritos do Ten Wagner, grande amigo, tentando disparar uma metralhadora INA contra os israelenses. 

Pudemos convencê-lo de que era suicídio...

Todos os anos passo o dia 5 de junho torturado pelas lembranças daquele episódio que está indelevelmente marcado em nossas almas.

Hoje resolvi dividir um pouco com vocês meus amigos e irmãos na grande missão!

Grande abraço,

Fernando Vargas. 

Remetente: "Fernando Vargas" <fvargas@batalhaosuez.com.br> 
Data: Sun, 05 Jun 2005 12:01:29 GMT 


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