Zacarias, o “bom marchand”
A
aldeia global em que vivemos nos dá
a oportunidade de acompanhar tudo que acontece em qualquer parte
do mundo, quase instantaneamente. Um dos assuntos que freqüenta a mídia
com grande assiduidade é a velha questão de paz e guerra no oriente médio.
O
assunto, na verdade, já anda tão surrado que o cidadão comum só
mesmo mostra interesse por ele quando algo espetacular acontece. Um
homem-bomba palestino se explode dentro de um ônibus em Telaviv. Um fanático
judeu entra numa mesquita árabe e fuzila fiéis muçulmanos no momento
da oração.
A mídia informa esses fatos espetaculares e, somente às vezes, dá
maiores detalhes sobre todo o velho problema que envolve árabes
e israelenses. A maior parte da população, entretanto, não se
interessa em saber onde ficam estes lugares, muito menos deseja tomar
conhecimento quem são palestinos, libaneses, sírios, israelenses, egípcios
e porque lutam entre si. Quais são, afinal, os territórios ocupados,
por que foram ocupados, quando e será que serão devolvidos? A quem serão
devolvidos, por quem e qual a razão da desavença milenar entre árabes
e israelenses?
Afinal,
o cotidiano já reserva uma carga de preocupações tão grande e de
conseqüências diretas para cada um, que estas são questões
secundárias. Para o nosso leitor, entretanto, alguns comentários a
respeito deste tema, visto sob outro enfoque, talvez o interessem e o
motivem para a leitura.
O
Exército Brasileiro já esteve presente naquela parte do mundo durante
dez anos, nas décadas de
50 e 60. Esteve lá ajudando a manter a paz entre Egito e Israel, como
integrante da Força de Emergência das Nações Unidas. Foram 20
contingentes de valor Batalhão de Infantaria que, entre 1957 e 1967,
ocuparam postos sobre a fronteira daqueles dois países, especialmente
na Faixa da Gaza, onde se concentravam mais de um milhão de refugiados
palestinos. Durante dez anos nossos soldados conseguiram manter a paz
absoluta entre judeus e árabes. Milhares de militares brasileiros
viveram experiências espetaculares vivendo o dia-a-dia da missão de
paz que lhes estava confiada. Se, hoje, outros soldados do nosso Exército
fazem bonito no serviço da paz
em muitos lugares do mundo, seguramente estão na esteira
daqueles que, há mais de trinta anos atrás, os antecederam neste tipo
de missão.
Para
esclarecimento dos mais jovens, os palestinos eram, como ainda são,
considerados refugiados em Gaza e outros lugares do Oriente Médio,
porque foram gradativamente expulsos da antiga Palestina, pelos
israelenses, a partir de 1948.
Este
é, porém, um assunto que poderá ser aprofundado por quem por ele se
interessar. Nosso propósito,
neste pequeno comentário, é outro: contar fatos sobre pessoas
Ao
lado da tropa brasileira estavam contingentes iugoslavos, colombianos,
indianos, suecos, canadenses, noruegueses e alguns de outros países que
permaneceram pouco tempo a serviço da FENU.
A
FENU foi extinta com a invasão da península do Sinai, território egípcio,
pelas tropas israelenses, em 5 Jun 67, que se adiantaram aos
preparativos militares daquele país e de outros vizinhos árabes,
visando reconquistar a antiga Palestina. Mas, durante dez anos as forças
de paz da ONU conseguiram cumprir a sua missão, o que não é pouco.
Diante da superioridade militar avassaladora dos contendores, as forças
da FENU não puderam mais fazer nada. Tiveram que se retirar de cena,
como aconteceu, ainda recentemente com as forças de paz na Bósnia, das
quais participavam, também, observadores brasileiros.
Dentre
as muitas histórias daquela guerra, vividas intensamente
por todos os brasileiros que dela participaram, vale a pena
contar a história de Zacarias, o “bon marchand”. Zacarias era um
comerciante palestino, instalado com uma loja de eletro-eletrônicos em
Gaza. Com ele os brasileiros mantinham excelentes relações. Material
de boa qualidade, bons preços, tratamento honesto, crédito, a língua
portuguesa que arrrevesadamente Zacarias falava eram bons atrativos para
nossa gente.
Zacarias
era, também, um palestino fanático pela causa de seu povo. Ele
prometia ser o primeiro a empunhar a sua metralhadora Kalishnikov que
guardava sob o balcão da loja, no dia em que as tropas egípcias
invadissem Israel para devolver a Palestina aos palestinos. Ele se dizia
um “fedahin”- guerrilheiro a serviço da causa palestina e da guerra
santa . Ostentava, também na parede de sua loja, uma enorme fotografia
do presidente egípcio Gamal Abdel Nasser, naquele tempo, esperança da
causa palestina para os refugiados, mas, também, uma peça do jogo de
xadrez do conflito leste-oeste.
Na
praça em frente à loja de Zacarias havia uma enorme estátua de um
soldado palestino, ostentando em uma das mãos um fuzil e com a outra
apontava para o interior do território de Israel, concitando o seu povo
a retornar para a
sua pátria perdida. Zacarias, em momentos de arroubo de patriotismo,
era tomado de um frenesi que o fazia correr, com sua metralhadora na mão,
a se postar ao lado da estátua e, em posição idêntica a ela,
gritar impropérios contra os judeus.
Passada
a guerra que, como se sabe, durou apenas 6 dias e nela os árabes foram
fragorosamente derrotados apesar da superioridade numérica e de
material. Muitos e extensos territórios de todos os países árabes da
volta foram conquistados e ocupados pelos israelenses. Alguns deles,
como a península do Sinai, já foram devolvidos, mas outros como a
Cisjordânia, as montanhas do Golan e Jerusalém são o motivo, ainda
hoje, das conversações de
paz e dos fatos violentos, geradores das manchetes, mencionados no início
deste comentário.
Mas,
passada a guerra, as tropas de FENU foram concentradas em determinados
locais, na Faixa de Gaza. Ao Batalhão Brasileiro coube ocupar as
antigas instalações do clube “Stela Maris”, junto à praia, que
era uma área de lazer das forças de paz e estava localizada nas
proximidades da cidade de Gaza.
Foi,
também atribuída a missão a um tenente brasileiro de acompanhar um
oficial israelense para reconhecer um itinerário, através dos campos
minados na própria Faixa, bem como em Israel, território por onde
deveria retrair a nossa tropa, até alcançar um porto no norte de
Israel. Assim aconteceu.
Já
no retorno da missão, quando a viatura de ambos os oficiais passava
pela praça principal de Gaza, eles notaram grande concentração de
soldados israelenses em frente a loja de Zacarias.
O tenente brasileiro, imediatamente pensou que Zacarias, àquelas
alturas deveria estar morto ou, no mínimo, preso e os soldados estavam
saqueando a loja. Uma parada e com a ajuda do oficial israelense foi fácil
abrir caminho até o prédio. Ao entrar na loja, a surpresa do tenente
brasileiro.
Lá
estava Zacarias, se entendendo muito bem com os militares israelenses,
vendendo a eles toda a
sorte de bugigangas, inclusive recebendo, sem qualquer problema, o
dinheiro israelense. Ao notar a presença do oficial brasileiro a quem
conhecia bem e que naturalmente deveria se lembrar das bravatas do bravo
“fedahin”, Zacarias
o chamou para lado e disse em seu português arrevezado
“negôcios son negócios,
porr favor non falar nada. Alah vai recompensarr pra ti coisa boa”.
Para
não deixar o leitor curioso, Zacarias lembrou-se, naturalmente, de
tirar a imensa fotografia do presidente Nasser da parede, onde apenas
restava a moldura de pó e dar fim à sua metralhadora Kalishnikov.
Esta
é a história do “bon marchand” Zacarias.