20º Contingente - Crônica 2

A iniciativa do Cabo Turnes


    As missões de paz e seus protagonistas estão na mídia do mundo inteiro. Em todo o planeta estão em curso, conflitos cujas origens estão em problemas étnicos, religiosos e outras causas, todas, porém, fruto do clima propício para o ressurgimento de velhas rixas e desavenças, nesta fase pós-guerra fria. Em conseqüência, há inúmeros contingentes militares em diversos países, sob os auspícios da ONU, promovendo ou mantendo a paz perdida ou fragilmente existente.

    O Exército Brasileiro está presente em diversas dessas missões, onde os nossos militares estão atuando como observadores ou onde a nossa tropa está mediando questões entre facções rivais em confronto. 

    Neste último caso, ainda recentemente tivemos o Batalhão Angola que não só realizou um trabalho admirável, ainda pouco avaliado nas suas dimensões políticas e estratégicas no relacionamento do Brasil com a antiga colônia portuguesa, mas, também, auxiliou significativamente a projetar o profissionalismo e a competência do nosso soldado no mundo inteiro. 

    As baixas havidas, sempre lamentáveis, não deslustram o sentido da missão, nem embotam o desempenho do nosso soldado. São os desígnios de sempre da vida do soldado, cuja existência é estigmatizada, ora pela glória, ora pela tragédia Mas, nosso Exército não é novato em missões de paz. Principalmente para os mais jovens, é interessante lembrar que estivemos durante mais de dez anos ininterruptos participando da Força de Emergência das Nações Unidas, no Egito, entre 1956 e 1967. 

    Foram ao todo 20 contingentes de valor Batalhão de Infantaria que patrulharam durante este tempo todo, dia e noite, as areias escaldantes do Sinai, garantindo um cessar fogo, sempre precário e incerto, entre árabes e israelenses.

    Durante aquela década de convívio com exércitos de muitos países, nossos soldados conquistaram, como agora, a admiração de todos, pela sua conduta moral e profissional exemplares. Os contingentes para aquela missão eram, também, selecionados regionalmente. Muitos de seus integrantes alcançaram os últimos postos das suas respectivas carreiras. Dos mais de 3 mil brasileiros que integraram a FENU, permanecem, hoje, apenas um ou dois na vida ativa no Exército, isso porque a missão do nosso Batalhão Suez se encerrou há mais de 30 anos.

    Vale destacar que em 1989, o prêmio Nobel da paz foi outorgado aos militares de todos os tempos e de todos os países que, até aquela data, tinham integrado Forças de Paz. Todos os brasileiros que integraram, ao longo de 10 anos, o Batalhão Suez, receberam seu diploma da Academia Sueca e que, hoje, ostentam orgulhosamente em algum lugar de suas casas ou de seu local de trabalho. Na verdade, foram os únicos brasileiros a colocar a mão no prêmio Nobel. Poucos sabem deste fato e o próprio Exército pouco ou quase nada se valeu desse laurel internacionalmente cobiçado, como matéria para divulgação da Força.

    O nosso Batalhão Suez tem muitas histórias, algumas já contadas em livros escritos por alguns de seus ex-integrantes e outras absolutamente desconhecidas, que pertencem, apenas, à memória de seus protagonistas ou testemunhas. Em geral, são relatos de episódios sobre as agruras por que passaram os brasileiros na aridez do deserto do Sinai. Esses casos, típicos da vida do soldado de todos os tempos, tem a propriedade de mostrar a peculiaridade da nossa profissão. O interesse por histórias de soldados não se restringe aos militares, mas, com muita freqüência, tem bons apreciadores entre os próprios civis. A razão está em que a missão militar está entre o limiar da brutalidade da guerra e o lado humano do soldado, condutor e artífice deste entrechoque mortal de forças.

    Em 1967, encontrava-se em Suez o 20º Batalhão brasileiro, um contingente recrutado no sul do País, que vinha cumprindo normalmente a sua missão de patrulhamento da fronteira na Faixa de Gaza e na fronteira internacional. 

    Para maiores esclarecimentos, a Faixa de Gaza, que ainda hoje tem espaço na mídia, é uma estreita área de 20 a 30 Km de largura por cerca de 80 Km de comprimento, bem ao norte da fronteira entre Egito e Israel. Naquela época, viviam ali mais de 2 milhões de refugiados palestinos que haviam sido expulsos de seu país pelos israelenses e viviam na área sob a proteção do ONU. Eram eles, também, utilizados como massa de manobra pelos árabes e pelo bloco soviético, já que Israel sempre foi um reconhecido aliado dos Estados Unidos.

    O presidente egípcio, Gamal Abdel Nasser, na época um famoso líder terceiro-mundista, encabeçava uma cruzada para a retomada da Palestina pela força. Ele vinha sendo, gradativamente, atraído para a área de influência do Bloco Soviético, no jogo da guerra fria. Para isso, a União Soviética estava, há bastante tempo, suprindo não só o Egito, mas, também, os demais países árabes, com sofisticados armamentos, o que os encorajava a desafiar o poder israelense. 

    As tropas de paz da ONU no Egito, naquela época integrada por contingentes de 6 países, continuavam a cumprir sua missão normalmente. Todos, entretanto, sentiam uma estranha  sensação de que em breve estariam envolvidos no conflito que se anunciava como inevitável.

    Em meados do mês de maio, o Presidente Nasser ordenou a ocupação das fronteiras em todas as frentes. A tropa brasileira, bem como as demais, viu-se subitamente rodeada por milhares de soldados e material bélico egípcio. A vanguarda dessas forças cercou as posições brasileiras, iniciando, de imediato, o preparo de posições defensivas, enquanto, mais à retaguarda, reuniam-se unidades blindadas de maior mobilidade para uma provável ação ofensiva subseqüente.

    Nossos soldados, posicionados ao longo da fronteira, viveram momentos dramáticos diante do ultimato do exército egípcio para que abandonássemos os nossos postos. Os brasileiros encontravam-se na Faixa de Gaza a pedido do governo egípcio e a longa permanência de mais de dez anos criou um sentimento de amizade e respeito mútuo entre os militares dos dois países. Assim, a nossa decisão de não abandonar os postos não encontrou reação muito forte nos comandantes egípcios que naquele momento cercavam com suas tropas os brasileiros. 

    Em que pese a negociação em todos os níveis tenha sido difícil, os egípcios concordaram em somente ocupar nossas posições quando ordens fossem recebidas pelos brasileiros para abandoná-las.

    Recebidas as ordens, os nossos pelotões da fronteira deixaram seus postos e retraíram. O Batalhão brasileiro ocupou duas áreas de reunião localizadas na altura dos aprofundamentos das brigadas egípcias de primeiro escalão. A 7ª Cia foi concentrada numa área de apoio logística canadense - Rafah Camp e o restante do Batalhão permaneceu reunido na sua própria sede, o Campo Brasil. As duas áreas distavam, uma da outra, cerca de 2,5 Km.

    No final de maio, os soldados canadenses foram intimados a abandonar o Egito em 48 horas, cujo governo interpretou as atitudes da diplomacia daquele país como favoráveis a Israel. Ficou, assim, a missão de manter a integridade da área de apoio logístico até então nas mãos dos canadenses, com a nossa 7ª Cia que já se encontrava no local. 

    No dia 5 de junho, iniciaram-se as operações militares com o ataque de surpresa do exército de Israel em todas as frentes, exatamente às 08:30h da manhã. Forças blindadas israelenses, fortemente apoiadas pela aviação e por artilharia, romperam o dispositivo egípcio, justamente na faixa de terreno que ficava entre a 7ª Cia (Rafah Camp) e o restante do Batalhão brasileiro (Campo Brasil).

    O 3º pelotão da 7ª Cia, naquela manhã, bem cedo, tinha assumido os postos de vigilância que cercavam Rafah Camp. Eram torres de metal bem altas, porém frágeis, em cuja parte superior havia guaritas onde os nossos soldados não dispunham de proteção nenhuma. Quando o comandante do pelotão se deu conta de que os seus soldados em curto espaço de tempo seriam dizimados pelo intenso fogo cruzado que já varria toda aquela área, resolveu recolhê-los para um lugar mais seguro. Para isso, utilizou-se de uma velha Kombi, com a qual foi realizando sua tarefa, na medida do possível.

    Já tinha recolhido praticamente todos, em três viagens, até que chegou perto do portão principal de entrada do Rafah Camp. Lá havia uma construção de alvenaria junto ao corpo da guarda, na qual se abrigavam o Sgt Araújo, o Cb Turnes e mais 3 soldados, todos do 3º pelotão. Eram os últimos a serem recolhidos.

    Para surpresa, o tenente percebeu que os nossos homens estavam atirando sobre dois carros de combate Super Sherman que progrediam pelo corredor aberto no dispositivo defensivo egípcio. O comandante do pelotão viu os canos dos velhos mosquetões .30 cuspindo fogo e fumaça, o que lhe deu a certeza de que estavam realmente abrindo fogo. Subitamente, os dois blindados pararam. Simultânea e lentamente ambos giraram as torres apontando seus canhões na direção do prédio onde estavam os brasileiros. O tenente esperou o pior. Há pouco havia presenciado o estrago que dois outros Sherman fizeram num conjunto de casas que abrigava alguns livre atiradores egípcios: simplesmente as destruiu, pondo-as por terra, com dois tiros.

    Mas neste instante, mais uma vez ficou provado que Deus é brasileiro. Da mesma janela da qual armas cuspiam fogo, foi visto saindo um mosquetão na ponta do qual estava amarrada uma fronha branca que passou a ser agitada suavemente de um lado para outro. No meio do fogo e das explosões, um momento de expectativa. O que iria acontecer? Qual a reação das guarnições israelenses dentro dos blindados? Para nossa sorte, o resultado não podia ter sido melhor. Lentamente os dois carros giraram suas torres novamente na direção do deslocamento e prosseguiram na direção da estrada de El Arish.

    Os cinco brasileiros, depois de recolhidos pelo comandante do pelotão e interrogados sobre a razão pela qual estavam atirando sobre os carros israelenses, responderam que havia sido ordem do Sgt Araújo. Este concordou que a ordem fora precipitada e que o Cabo Turnes, desobedecendo a ordem, havia salvo a todos. O tenente ainda sob fogo de todos os lados e já tendo recebido a notícia que havia dois feridos no restante seu pelotão que se abrigava em outro local próximo dalí, pensou um pouco e resolveu elogiar tanto o Sgt Araújo que tomou a atitude normal do soldado: fazer uso de seu armamento para se defender, embora não avaliando o seu poder relativo de fogo e, também, o Cabo Turnes que, diante da iminência de se ver destruído, teve a iniciativa de tomar uma atitude que deu certo. Na crise, quando tudo dá certo, não há cobranças a fazer, apenas lições a aprender.Esta e outras já contadas, são histórias do nosso 20º Batalhão Suez não escritas, mas das quais todos os partícipes estão, ainda, vivos e, se tiverem a oportunidade de lê-las, certamente serão tomados pela nostalgia de quem abre um antigo baú e lá dentro encontra velhos objetos que, em alguma época, marcaram fortemente as suas vidas.

    Não custa, porém, contar estas histórias para as novas gerações, numa época em que as Forças de Paz estão em evidência, sofrendo aqui e ali, surpresas cujo desfecho nunca pode ser previsto, mas que não são inéditas. 


Flávio Oscar Maurer

mmaurer@zaz.com.br 


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