O soldado Barros
Naqueles dias do início do mês de junho de 1967, pairava uma atmosfera de apreensão e de nervosismo sobre as areias do deserto do Sinai, próximo à Faixa de Gaza, no Egito.
Com o calor insuportável do verão, chegavam, também, notícias freqüentes sobre a proximidade inevitável de mais uma guerra. Isto, como é natural, intranqüilizava bastante os integrantes da Força de Emergência das Nações Unidas que ainda se encontravam, naquela época, no Oriente Médio.
Em
meados de junho, porém, os
canadenses, tradicionais responsáveis pela logística de todas as forças
de paz patrocinadas pela ONU,
já tinham se retirado de lá, tornando mais tenso, ainda, o cenário para
os que ficaram. Permaneciam lá apenas os contingentes da Suécia, Índia,
Iugoslávia e Brasil, além do Estado-Maior e do comando da Força,
sediados em Gaza.
A
retirada dos canadenses, cerca de 800 militares, deixou a base de
suprimento, Rafah Camp, completamente
abandonada. Aquela vasta área tinha mais de 8 Km de perímetro.
Para quem esteve lá e se lembra bem, o Victory Shop, conhecido de todos,
ficava junto a entrada principal da base e era o melhor ponto de referência
para situar Rafah Camp. Os canadenses empregavam mais de 1.500
funcionários civis, quase todos palestinos, para atender a todas
as forças da ONU no Egito.
O
soldado Barros pertencia à 7ª Companhia do batalhão brasileiro que
estava aquartelada no Forte Worthington, dentro de Rafah Camp.. Aquela
subunidade recebeu a pesada missão de assumir o controle da situação em
toda a base de suprimento, depois que os canadenses se retiraram.
Substituir os 800 canadenses no controle dos civis palestinos que
trabalhavam no interior daquelas instalações e conheciam tudo,
nos mínimos detalhes, era uma tarefa
quase impossível para os pouco mais de 100 militares brasileiros. E a
dificuldade da língua. Pouquíssimos dos nossos falavam inglês, sequer
arranhando. É preciso esclarecer, também, que o ambiente entre a população
civil palestina na Faixa de Gaza
era de euforia naquela época. O clima de vitória iminente sobre o
vizinho inimigo e a
expectativa de retorno à pátria era visível no rosto de
cada um. Aqueles 1.500 que trabalhavam no interior de Rafah Camp
queriam, também, freneticamente, colaborar da melhor maneira possível
para a vitória do povo palestino. Mas como? A propaganda incitava-os a
tomar tudo que os canadenses haviam deixado para trás, uma vez que
eram taxados de aliados da causa judaica e, portanto, ferozes inimigos.
A
nossa 7ª Cia recebeu mais um pelotão em reforço e, durante mais de 15
dias, dentro e na periferia do Rafah Camp, desdobrou-se para cumprir a sua
missão. Oficiais e praças, entre eles o soldado Barros, com os olhos
injetados por noites e noites sem dormir, defrontavam-se a cada momento
com o inédito.
No
setor oeste, trabalhadores lançavam com super-atiradeiras improvisadas,
centenas de carburadores de caminhões para fora da base. Incêndios
simulados faziam sair o pessoal de combate ao fogo, carregando motores e
peças no lugar de água nos carros-pipa. Viaturas apresentavam-se no portão
principal com documentação forjada, tentando entrar para carregar
suprimentos estocados nos depósitos, originariamente destinados aos
elementos desdobrados na
fronteira, mas que já se encontravam reunidos em suas bases, junto aos
seus batalhões. A 7ª Cia sofreu, no início, duros reveses no
cumprimento desta difícil missão, mas rapidamente a situação foi se
esclarecendo e as soluções surgindo.
Grandes
efetivos egípcios cerraram,
naquele dias, para junto de toda a fronteira, também
nas proximidades de Rafah-Camp, e, ali, estavam tomando um
dispositivo de defensiva, segundo diziam. Cavavam trincheiras, mas, pela
posição dos blindados e armas de apoio era fácil deduzir que a intenção
era de, rapidamente, passar à ofensiva. Na base logística, soldados egípcios
do lado de fora e civis palestinos no interior confraternizavam, em
permanente contato. O que combinavam, ninguém de nós sabia. Com
perseverança, diplomacia e severidade nas horas necessárias, os
brasileiros da 7ª Cia foram se impondo,
até tomarem pulso e controlarem a situação. Contavam, para isso, com o
apoio, pelo menos formalmente, dos oficiais egípcios que diziam não
admitir a receptação de material furtado, oriundo do interior da base.
Na
manhã do dia 5 de junho, logo ao clarear do dia, os postos foram rendidos
e o 2º Pelotão assumiu o controle do perímetro externo Rafh-Camp que,
como já foi dito, tinha mais
de 8 Km de extensão. A base era toda protegida por duas cercas paralelas,
pelo meio das quais corria
uma estrada. De 500 em 500 metros havia torres de observação bastante
altas. À noite todo o perímetro ficava feericamente iluminado. Dentre os
que assumiram o serviço naquele dia estava o soldado Barros, cujo posto
ficava no portão de entrada da sede da 7ª Cia- Fort Worthington.
Ás
nove horas da manhã, o comandante do pelotão fazia sua ronda,
percorrendo a estrada entre as duas cercas quando começou a
notar intenso movimento aéreo. Ao subir em uma das torres
constatou logo que operações bélicas estavam se desenvolvendo no ar e
no solo. Na realidade,
naquele momento a Força Aérea Egípcia já estava fragorosamente
derrotada em todas as frentes, mesmo que ninguém soubesse disso ainda.
Aos combates aéreos se somaram imediatamente intensos duelos de
artilharia. As granadas
israelenses não distinguiam as forças das Nações Unidas das egípcias
e elas caiam sem cerimônias dentro e fora de Rafah Camp. Pelo menos duas
vezes a viatura do tenente comandante do Pelotão ergueu-se do chão,
num de seus lados, em decorrência do deslocamento de ar provocado
pelo arrebatamento bem próximo de granadas de artilharia. O oficial
providenciou logo outras duas viaturas e conseguiu, entre um susto e
outro, recolher todo o seu pelotão.
Quando
os tiros das armas tensas já atravessavam de lado a lado as frágeis
paredes das construções de Fort Worthington, só restava aos que lá se
encontravam, inclusive o 2º pelotão, a proteção de um pequeno muro de
alvenaria de cerca de 30 cm de altura que servia de base para aquelas
improvisadas barracas.
Então
alguém chamou a atenção apontando para fora do improvisado abrigo, para
o soldado Barros que continuava em pé, cristalizado, totalmente exposto,
no seu posto de guarda, junto ao portão de entrada do forte. Ele não
fora recolhido porque seu posto era tão perto que, com uma pequena
corrida, ele ficaria junto aos demais de seu pelotão. De nada adiantaram
os gritos para que Barros procurasse abrigo. Até que o inevitável
aconteceu. Uma granada explodiu bem próximo do posto. Subiu aquela nuvem
característica de fumaça e pó e, quando ela se dissipou, cadê o
Barros? Momentaneamente, num instante da indecisão, um breve silêncio
gelado e uma onda de angústia cortou o coração de todos que viram
aquela cena. Se alguém que ler este relato tiver presenciado aquele
momento, há de lembrar muito bem dele. O tenente e seu adjunto, Sgt Ivan,
rastejando, ao abrigo dos fogos cruzados que varriam o campo de batalha,
foram se aproximando lentamente do local. Os egípcios cediam terreno ante
a avalanche israelense, mas despejavam em sua retirada todo o aço que as
suas bocas de fogo permitiam. Finalmente chegaram os
dois ao local. Lá estava o nosso Barros deitado entre os escombros
de seu posto, imóvel mas vivo, embora todo ensangüentado, quieto como um
animal ferido. Arrastado metro a metro para junto do restante do pelotão,
não havia médico, sequer enfermeiro que se pudesse avaliar a situação.
Em todo o caso, foram-lhe prestados os primeiros socorros da melhor
maneira possível para aquelas circunstâncias. Ele estava com vários
ferimentos em todo o corpo causados por estilhaços. Sangravam muito,
particularmente no seu lado direito. Para desespero de todos, Barros começou
a entrar em choque. Cobertores foram
colocados sobre ele. Massagearam-no com álcool as partes do corpo
não feridas. Em volta, o inferno continuava.
Como
por uma mágica, houve repentinamente um momento de trégua nos combates.
Surpreendentemente, por
volta das 13 horas,
cessou o fogo. Era o
primeiro escalão de ataque
israelense que, tendo rompido as resistências egípcias no chamado
‘Corner” (local onde inicia, para nordeste, a faixa de Gaza e para o
sul, a fronteira internacional), já se lançava em profundidade em busca
de outros objetivos sobre a estrada de El-Arish, abandonando, portanto, as
imediações de Rafah Camp.
Foi
então que o tenente achou ter chegado a melhor hora para ajudar ao
Barros. Colocado na caçamba de uma velha
Kombi “pick-up”, o ferido foi levado para o local, dentro de
Rafah Camp, onde existia um posto de saúde, um pequeno hospital, de
responsabilidade de alguns médicos e enfermeiros finlandeses, distante
mais ou menos 3 Km da sede da 7ª Cia
brasileira. Na viagem para o posto de saúde, cenas inesquecíveis
passaram diante dos olhos do tenente. Prédios destruídos, incêndios e
um cheiro de pólvora e óleo diesel
no ar. No silêncio do cessar momentâneo dos combates, a explosão
das granadas, o matraquear das metralhadoras foi substituído pelos
gritos lancinantes de dor dos feridos e moribundos que jaziam, se
arrastavam e se debatiam no campo de batalha, ali, contraditoriamente,
situado bem dentro de uma área destinada às forças que lá estavam para
inibir a guerra. Uma visão tétrica que o soldado não esquece.
Chegando
ao hospital, o tenente deu sorte, uma vez que conhecia alguns dos médicos
finlandeses com quem já travara contatos anteriores. Não foi difícil
chegar a eles. Uma surpresa, porém. A guerra os tinha igualmente
apanhados no contrapé. Para compensar o natural temor, a falta de informações
e o isolamento, eles consideraram que umas boas doses de whisky lhes
resolveria o problema. O tenente constatou logo que isso era absolutamente
verdadeiro. Estavam muito animados, cantavam e dançavam. Não havia
energia elétrica no
pequeno hospital, granadas de artilharia haviam destruído a metade do prédio
e, lá dentro, um monte de escombros. E o Barros precisava ser atendido
com urgência.
Foi
então que, como sob o efeito de um raio, tudo se modificou. O senso
profissional e de
responsabilidade falou mais alto. Médicos e enfermeiros, apesar
dos vapores etílicos, foram ao trabalho. Mesas foram arrastadas,
improvisou-se água quente, instrumentos cirúrgicos foram esterilizados
e, em pouco tempo, Barros deitado sobre uma mesa e, a luz de velas, estava
sendo operado. Um dos médicos logo
trouxe a notícia de que nosso soldado fora atingido por inúmeros estilhaços,
nenhum entretanto, o havia comprometido em partes vitais do corpo. Sua
recuperação era 90% certa, para alívio de todos..
O
tenente satisfeito, retornou para junto da Kombi
e ao chegar a ela percebeu que já estava lotada de soldados e
oficiais desgarrados dos batalhões iugoslavo e indiano. Eles todos
queriam carona para o Forte Wortington.
À viagem de volta foi iniciada. No meio do caminho, intensificaram-se
novamente os combates. Os remanescentes do Exército Egípcio enfrentavam
agora a infantaria blindada israelense, tropa de acompanhamento e apoio
dos blindados de primeiro escalão que já vinha chegando. Por muita sorte
motorista e passageiros conseguiram retornar ao Forte Worthington, não
sem alguns orifícios de bala aqui e acolá na viatura, cujos impactos nem
foram notados durante a viagem.
Muito aconteceu depois disso, mas não é história para ser contada neste pequeno relato sobre o soldado Barros. Quando o Batalhão Brasileiro embarcava no Navio Transporte Soares Dutra, no porto de israelense de Ashdod, muitos dias depois da guerra, havia apreensão e tristeza entre os integrantes do 2º pelotão. O que teria acontecido ao Barros. Nenhuma notícia dele até então.
Foi
quando, da coberta do navio, todos viram uma ambulância branca israelense
se aproximar do cais. Dentro dela vinha, entre outros feridos brasileiros,
o soldado Barros. Ele fora
evacuado junto com os feridos israelenses. Com o corpo cheio de cicatrizes
ainda abertas, cobertas de curativos, mas salvo, lá esta ele novamente
conosco. Hoje, ele mora em
Porto Alegre. É funcionário aposentado da antiga Companhia Riograndense
de Telecomunicações e ainda, vez por outra, seu corpo reclama,
expulsando algum fragmento dos estilhaços que absorveu naquela manhã de
junho de 1967, sem falar do tornozelo onde um deles insiste em lhe causar
dores que lhe trazem algum
desconforto. Mas, está aí, vivo, para confirmar e contar para seus
filhos a para os amigos mais esta história da Guerra dos 6
dias, da qual participaram nossos soldados.
Flávio
Oscar Maurer