O Sheik do Sinai
Em
1967, o Exército Brasileiro já estava, há dez
anos, participando com um Batalhão de Infantaria da Força de
Emergência das Nações Unidas (FENU), postada na fronteira entre o
Egito e Israel, em conseqüência da guerra de 1956, entre aqueles
dois países . Na verdade, foi a mais longa missão de paz da qual o
nosso Exército já participou. Dela, nossos soldados trouxeram muitas
experiências profissionais e de vida.
A
maior parte do nosso Batalhão estava sediado no Campo Brasil,
distante cerca de 2 km do “córner”, assim chamado pôr ser o ponto
de interseção da
fronteira internacional entre o Egito e Israel
e a fronteira entre a Faixa de Gaza e o país judeu. A
fronteira internacional corria 400
km do “corner” para o sul, até o golfo de Ácaba e a Faixa de
Gaza era um estreito quadrilátero de cerca de 80x30 km, bem ao norte,
junto ao mar Mediterrâneo, onde se abrigavam os mais de 2 milhões de
refugiados palestinos, expulsos de seu território pelos israelenses.
O
Batalhão Brasileiro vigiava uma parte da fronteira da Faixa de Gaza e
outra da fronteira internacional.
O
objetivo deste relato é contar algumas fatos passados com o 2º pelotão
da 7ª Cia brasileira que ocupava o Forte Robinson, com
responsabilidade de patrulhar os primeiros 50 km da fronteira
internacional. Como o
Forte Robinson - “A raposa do Deserto” - passara há bem pouco
tempo ao controle dos brasileiros, o apoio logístico de todas as
classes ainda era encargo dos canadenses, seus antigos ocupantes.
Assim, o comandante do pelotão era um privilegiado, já que água,
alimentação, manutenção dos geradores, rádios, viaturas,
geladeiras, cozinha, apenas para citar as mais importantes
necessidades, era providenciada pela base logística de Rafah Camp,
operada pelo Exército do Canadá. Tudo funcionava com precisão britânica,
tanto a entrega de gêneros, quanto as visitas de manutenção e
substituição de equipamentos.
Quanto
ao fornecimento de água e alimentos, as quantidades recebidas eram
generosas, muito superiores às necessidades. Tanto é, que o
comandante do pelotão passava parte do excedente aos pelotões
brasileiros vizinhos da
Faixa de Gaza que eram supridos pelo próprio batalhão brasileiro.
Mas, também, a sobra de água e até mesmo alguns alimentos eram
distribuídos aos beduínos que se movimentavam com seus camelos nas
imediações do Forte Robinson. Muitos deles se diziam “fedahin”,
guerrilheiros que faziam incursões em território israelense e, lá,
atuavam em ações de comandos.
O
intérprete entre os brasileiros do Forte Robinson e os beduínos era
Salim, também dublê de
cozinheiro do pelotão. Salim já tinha quase dez anos de convivência
com nossa tropa e dominava razoavelmente
o nosso idioma, por isso, era chamado todas as vezes em as
coisas se complicavam com os árabes.
O
2º pelotão patrulhava dia e noite a fronteira, mas não podia estar
presente junto a ela ininterruptamente,
em toda a extensão dos 50 km sob sua responsabilidade.
Era
proibida a presença dos beduínos e seus camelos junto a fronteira,
porque as patrulhas israelenses, muito atuantes na área, fuzilavam os
animais e até mesmo beduínos,
seus donos, que estivessem do outro lado dela. Os camelos não estavam
informados nem da proibição, nem da rivalidade entre os dois povos
e, por isso, não se importavam em se aproximar e atravessar a linha
demarcatória em busca de algum tufo de capim mais macio do outro
lado. Já os beduínos não queriam perder seus camelos e não
vacilavam em transpor a fronteira, a fim de trazê-los de volta. Como
os beduínos eram, sem distinção,
considerados "fedahin" pelos israelenses, os
problemas internacionais estavam criados a toda a hora, com tiroteios
e mortes. Complicações para o comandante do Forte Robinson.
Mesmo
sem a presença de israelenses, a simples aproximação de beduínos e
camelos para as proximidades da fronteira, era freqüentemente notada
pela vigilância aérea canadense, sem que as patrulhas terrestres do
3º pelotão o percebessem por terem a visão coberta, em muitas regiões,
pela grande quantidade de dunas bem elevadas, ali existentes.
Assim,
as chamadas pelo rádio, exigindo providências, feitas pelos
canadenses, eram desconfortáveis e agrediam a honra de todos no pelotão.
Depois de várias chamadas, o comandante do pelotão, cujos comandados
eram gaúchos, acostumados a andar no lombo de um cavalo, resolveu
treinar seus homens a montar, também, camelos. Para isso, obteve a
ajuda de um beduíno que freqüentava, com maior assiduidade, o pelotão.
Esse beduíno, Ahmud, em pouco tempo, ensinou uma equipe do pelotão a
dominar o manejo daquele animal desengonçado,
o rei do deserto.
Por
sorte, logo uma patrulha encontrou uma manada de mais ou menos 20
desses animais junto a fronteira. Seus donos, lá no horizonte, na
crista de uma duna observavam tudo.
Nosso pessoal não vacilou. Um grupo desceu da viatura,
aproximou-se dos camelos, fê-los ajoelhar
como manda o costume e, em seguida, montaram-nos e foram, logo,
tangendo a manada na direção do forte. A medida que iam progredindo,
observavam que os beduínos os acompanhavam, lá no horizonte, sem se
aproximar.
Quando
chegaram ao forte, já estava escurecendo. De imediato, tangeram os
camelos detidos para o seu interior. Os beduínos, lá longe, só
observando.
No
outro dia, estavam os beduínos todos na porta de entrada do forte
reclamando sua propriedade com grande alarido. O tenente, com a ajuda
de Salim, explicou a missão do pelotão, as sucessivas desobediências
das regras bem conhecidas pelos beduínos e que os camelos somente
seriam liberados mediante o pagamento de 5 piastras (algo em torno de
50 centavos) de multa por animal.
Assim
aconteceu. Com muito choro, os homens do deserto foram pagando e
levando seus animais. Mas, em pouco tempo, estava tudo como antes: os
camelos na fronteira, o comandante do pelotão sendo chamado à atenção
pela vigilância aérea. Em conseqüência, a operação chamada
“Campereada do deserto” se repetiu.
Sucedeu,
então que um emissário do Sheik, chefe das tribos de beduínos
daquela região, chegou ao pelotão trazendo um convite do próprio
para participar de uma comemoração que aconteceria dali a alguns
dias, no acampamento onde era a sede de seu poder.
O
comandante do pelotão, um pouco receoso, mas compreendendo que aquele
era o momento de resolver a questão, decidiu que iria atender ao
convite. Caso o impasse continuasse, muito provavelmente criar-se-ia
um conflito, no qual só um poderia levar a pior: o pelotão
brasileiro. Para isso, preparou uma equipe pequena, porém escolhida,
além do próprio Salim que, inicialmente, com medo, não quis
ir. Somente depois de muita insistência, Salim somou-se à comitiva.
Na
data e na hora marcada, o
comandante do Forte Robinson e sua equipe chegaram junto ao Sheik. Era
um conjunto de barracas velhas e rasgadas, muito parecidas com uma
favela brasileira. De uma delas emanava o poder. Lá era o lugar do
Sheik. No fundo da barraca uma vistosa espada curva, bem do modelo árabe,
bastante enfeitada e um belo cavalo eram o que distinguia o chefe
supremo daqueles beduínos dos demais membros da tribo.
Na
verdade, uma decepção para todos. Acostumados com as descrições da
suntuosidade dos Sheiks das histórias das mil e uma noites, aquilo
era uma caricatura. Mas uma particularidade era evidente: a autoridade
do Sheik era indiscutível
e insofismável. Sua voz era a lei naquela tribo, isto deu logo para
perceber.
Depois
dos cumprimentos de praxe, a comitiva brasileira
foi convidada pelo Sheik e seu Estado-Maior a tomar chá e
comer pão assado ali mesmo num buraco na areia, onde queimavam alguns
gravetos.
O
comandante do pelotão não se esqueceu de levar alguns presentes,
entre eles alguns quilos de café, o que agradou muito ao
Sheik.
Depois
de muitas conversas e trocas de compromissos mútuos, de nosso lado de
não mais recolher camelos e, do outro, de não permitir mais que os
beduínos tangessem seus camelos para junto à fronteira, o acordo foi
selado. Tudo acertado, a comitiva brasileira do Forte Robinson se
retirou, mas incrédula em relação ao futuro quanto aos
compromissos mutuamente assumidos, particularmente da parte dos
beduínos.
Contrariando
as expectativas, porém, tudo deu certo. Jamais os beduínos voltaram
a tanger seus camelos para junto da fronteira. Também o comandante
do pelotão não foi mais repreendido pela vigilância aérea.
A distribuição de água e alguns alimentos continuou, também,
normalmente. Enfim, a paz voltou e o tenente comandante do Forte
Robinson compreendeu que a bela história das mil e uma noites é uma
lenda. Porém compreendeu, também,
que os Sheiks existem e se não são charmosos como os da
lenda, pelo menos têm o poder
que a lenda conta.
Flávio
Oscar Maurer