20º Contingente - Crônica 5


Salim

 


    A Força de Emergência das Nações Unidas encontrava-se no Egito desde 1956, a pedido daquele país, após a fragorosa derrota na guerra contra Israel, em meados daquele ano. 

Para o sucesso nas operações militares naquela guerra, os israelenses foram apoiados por tropas inglesas e contaram com a decidida colaboração da diplomacia francesa. O auxilio desses dois países foi fundamental para Israel. A Grã-Bretanha e a França há séculos vinham tutelando os governos árabes do Oriente Médio. 

A crise do Canal de Suez de 1956, contrária aos interesses ocidentais na área, mudou tudo e, tanto a França como a Inglaterra ficaram em situação difícil naquela parte do mundo árabe. Daí porque o apoio a Israel. Este é o principal ponto de partida para compreender as causas da 2ª guerra entre o Egito e Israel. 
    Apenas para lembrar, a primeira guerra entre árabes e judeus havia acontecido em 1948. Foi a consolidação do Estado de Israel. 

O processo de perda de influência da França e da Grã-Bretanha no mundo árabe foi conseqüência do posicionamento político anti-ocidental e a orientação ideológica mais a esquerda do então presidente do Egito, General Gamal Abdel Nasser. Ele se dizia, líder dos não alinhados, termo muito em uso naquela época.
    Nasser assumiu o poder num golpe militar em 1954, substituindo o General Najib, grande herói da guerra de 1948. Imediatamente, passou a tomar atitudes nacionalistas, contrárias aos privilégios que Inglaterra e França desfrutavam no Egito.     

Esses dois países estavam jogando as últimas cartadas do colonialismo de fato, cujo fim já fora decretado com o término da 2ª guerra mundial. 
    Com a nacionalização do canal de Suez, a fundação da República Árabe Unida - RAU (Egito, Síria e Jordânia) e a compra de armas dos países do bloco comunista, o presidente egípcio definiu de vez a sua posição contrária aos interesses dos países ocidentais no Oriente Médio. Promoveu, também, a aproximação da coligação que ele liderava com a União Soviética, além de decretar total hostilidade a Israel. 

Na medida em que Nasser crescia como grande líder da causa islâmica, derrotada em 1948 pela guerra e pela diplomacia, a mobilização contra Israel tomava proporções alarmantes para os judeus, ali espremidos entre árabes de todos os lados. 
    Incursões freqüentes de grupos paramilitares palestinos e de outros países árabes no território judaico, além de atentados e atos terroristas de toda a espécie causaram um clima de intranqüilidade permanente e insuportável para os israelenses.
    Era uma luta de vida ou morte onde ambas as partes tinham e continuam, até hoje, tendo razão. Os palestinos de um lado, querendo voltar para o território que fora seu país por quase 2.000 anos. A Palestina havia sido gradualmente ocupada por judeus de todo o mundo, a partir do fim da 1ª guerra mundial, inicialmente sob o olhar complacente dos ingleses, culminando com a fundação do Estado de Israel em 1948 e a expulsão de quase 2 milhões de palestinos de seu território. Os judeus, por outro lado, após a diáspora provocada pelos romanos no início da era cristã, espalharam-se por todo o mundo, tornando-se uma nação sem pátria. O retorno à Palestina sempre foi um objetivo do povo judeu, já que aquela foi a terra prometida, escolhida por Deus, segundo a fé judaica, para a qual ele foi conduzido por Moisés, após 430 anos de cativeiro no Egito, como está contado em Êxodos, no Velho Testamento. Assim, um país para duas nações.
    Voltando à história recente, em junho de 1956 as pressões econômicas da França e Grã-Bretanha explodiram em operações militares, tendo forças israelenses e britânicas rapidamente conquistado Port Said, no Egito. Ao mesmo tempo Israel, isoladamente, atacou e avançou rapidamente por terra, no deserto do Sinai e, em 5 dias, conquistou quase toda a península, levando a guerra até 75 Km do Canal de Suez. O porto de Sharm-el-Sheik, que controla o golfo de Ácaba passou às mãos israelenses, permitindo-lhe, assim, uma saída para o Oceano Índico. 
    A conquista do Canal de Suez que seria a vitória completa, só não se concretizou pela interferência da ONU que, sob pressão da maioria de seus membros, rapidamente votou um cessar fogo. Assim, Israel foi obrigado a abandonar toda a península do Sinai, inclusive a Faixa de Gaza e Sharm-el-Sheik, voltando para trás de suas antigas fronteiras.
    Lá na Faixa de Gaza, junto a Israel, logo na primeira cidade, Rafah, residia em condições miseráveis o palestino Salim e sua família, mulher e três filhos, num acampamento da periferia. Salim era um homem bastante culto, um autodidata. Lia muito e procurava acompanhar os acontecimentos da melhor maneira possível. Só não entendia a desgraça de seu povo. Convicto do determinismo da fé islâmica, não entendia porque Alah tinha escolhido os palestinos para tantas provocações. Não era um homem violento, tanto é que não aceitou se engajar nas tropas de "fedah-hin", espécie de guerrilheiros pela causa palestina, organizados e treinados principalmente pelos egípcios nas principais áreas de concentração de refugiados. Ser "fedah-hin" naquela época era apanágio para qualquer palestino. Por não querer ser guerrilheiro da guerra santa, Salim vinha sobrevivendo a duras penas, a sua condição de refugiado.     

Desde 1948 em Gaza, teve que tentar a agricultura, foi sapateiro, funileiro e tudo mais que lhe trouxesse algum recurso para não permitir que a família sucumbisse à fome.
    Em conseqüência da resolução da ONU em 1956, foi constituída a Força de Emergência das Nações Unidas (FENU), com a missão de ocupar a fronteira inclusive entre Egito e Israel e aí garantir o cumprimento da decisão das Nações Unidas, bem como zelar pela manutenção da paz entre os dois países. 

A Faixa de Gaza, então criada a oeste de Israel, e a Cisjordânia, a leste, eram então, os grandes bolsões que abrigavam mais de 2 milhões de refugiados expulsos por Israel da Palestina.
    É natural que a presença da FENU naquelas circunstâncias, época e local não fosse bem vista por Israel, que vencera a guerra de 1956, mas, por pressão da ONU, tivera que recuar e devolver ao Egito os territórios conquistados no Sinai. Já o Egito que tinha praticamente perdido todo o seu exército e estava indefeso naquela época, via com muitos bons olhos a presença da força internacional na área, tendo solicitado mesmo que ela se instalasse em seu próprio território, oferecendo para isso muitas facilidades. Mas não foi só isso. Além de acolhê-la, Nasser, derrotado apenas momentaneamente, conforme dizia, determinou até que a força internacional de paz fosse, também, parcialmente paga pelo seu país. 
    Convidado, o governo brasileiro aceitou participar com um Batalhão de Infantaria na formação da FENU.
    Aí está em rápidas palavras, a razão porque, a partir de 1956 e até 1967, dez anos, um Batalhão brasileiro esteve permanentemente no Sinai, sobre a fronteira entre o Egito e Israel. Foi a missão de maior duração de tropa brasileira no exterior. 
    Não seria possível contar a história de Salim sem se reportar a esses antecedentes, já que ele foi dos primeiros a se engajar ao nosso Batalhão como trabalhador civil.
    Foram 20 contingentes brasileiros. Inicialmente, foram todos transportados para o Oriente-Médio pela nossa Marinha de Guerra. Posteriormente, a partir de 1966, pela FAB, depois da aquisição dos aviões C-130. 

O Brasil, o Canadá, a Índia e a Iugoslávia foram os países que, durante toda a existência da FENU, estiveram sempre presentes com tropa na missão. Outros compareceram esporadicamente ou por períodos limitados, como por exemplo: Suécia, Dinamarca, Colômbia, Indonésia e Finlândia.
    A missão das tropas das Nações Unidas era clara. Cabia-lhes vigiar a fronteira entre Egito e Israel em toda a sua extensão até o Golfo Ácaba, no sul, e a Faixa de Gaza, no norte. A tropa era levemente armada. Sem viaturas blindadas, não possuía também apoio de fogo de qualquer espécie, nem mesmo armas anti-carro. 

Na Faixa de Gaza, de altíssima densidade populacional, os batalhões tinham frentes menores, mas na fronteira internacional, eram atribuídos aos pelotões frentes de cerca de 50 Km para vigiar, ou ainda maiores, dependendo de sua localização. Ao norte, logo no começo, a fronteira internacional era vigiada por dois pelotões brasileiros e, em seu restante, até Eilat no Golfo Ácaba, pelo Batalhão Iugoslavo. Os canadenses também recobriam a missão das tropas terrestres por vigilância aérea.
    0 20º Contingente brasileiro viajou para o Egito em escalões, a partir de dezembro de 1966. A tropa havia sido recrutada, instruída e preparada no Rio Grande do Sul.         Estávamos comemorando com aquele Batalhão mais de 10 anos de presença ininterrupta no Egito e não sabíamos que seria com aquele contingente que, em julho de 1967, encerraríamos a própria missão de toda a FENU.
    O Batalhão Brasileiro era, nessa época, constituído de duas companhias de fuzileiros e uma companhia de comando e serviços. A sede do Batalhão ficava no Campo Brasil, junto à cidade de Rafah e nela estavam estacionados o Comando da Unidade, a companhia de comando e serviços, bem como o comando e 1º pelotão da 8ª companhia de fuzileiros. 

Já em Rafah Camp, uma base de suprimentos operada pelos canadenses, situada a cerca de 2 Km a sudoeste do Campo Brasil, estava estacionado o comando e 1º pelotão da 7ª companhia de fuzileiros. 

Cada uma das companhias de fuzileiros tinha 2º pelotões postados na fronteira: a 8ª na Faixa de Gaza e a 7ª na fronteira internacional.
    Os primeiros 30 Km da fronteira internacional, a partir do 'Corner', onde ela iniciava, estavam sob a responsabilidade, do 2º pelotão da 7ª companhia. Esse pelotão estava estacionado em Forte Robinson e, orgulhosamente, se autodenominava "A Raposa do Deserto". A fronteira naquela frente era definida por uma linha de tonéis pintados, colocados a distâncias variadas um ao outro. 
    Do lado egípcio, na área onde estavam as tropas da FENU, a qualidade da estrada junto a fronteira era variável. Às vezes boa, outras uma simples trilha subindo e descendo dunas de areia. Jipes ingleses "Land Rover", adaptados para rodar no deserto, eram o meio de transporte das nossas patrulhas que percorriam toda a extensão da frente a cada duas horas.
    O Forte Robinson era um conjunto de barracas de zinco e madeira leve e uma torre de observação razoavelmente alta. Todas as instalações eram protegidas por uma cerca de arame farpado. Em dias de tempestade de areia, parte da cerca e às vezes algumas barracas ficavam totalmente cobertas. Significava, também, dias de trabalho de pá e enxada para retirar toda aquela areia novamente.
    Lá no Forte Robinson trabalhava Salim. Salim era o cozinheiro, o único árabe do pelotão. Ninguém dos brasileiros poderia imaginar, ao chegar ao Forte, que aquele baixote, um pouco gordo, já adentrado nos anos, com suas roupas sempre brancas e limpas, pudesse abrigar uma alma naquele tamanho. Quanta sabedoria se escondia naquele homem simples. Descendente de tribos beduínas da velha Palestina, sua família há muitos anos havia abandonado a vida errante no deserto e se radicado numa aldeia próxima da fronteira com o Egito.O tenente comandante do pelotão compreendia bem o seu drama. Também ele estava longe da sua terra natal e na nostalgia da distância, sentia-se solidário aos anseios de Salim e todos os palestinos de voltar à sua Palestina. 
    Do Forte Robinson podia-se ver os contornos da aldeia de Salim, lá no horizonte, no interior de Israel. Com a chegada dos judeus, a família de Salim, expulsa por não querer se submeter às leis do novo país, passou novamente à vida de beduino. Desta vez não era mais o beduíno voluntário, orgulhoso que, do alto do seu camelo, contemplava o deserto e o mundo com uma ponta de desdém. Era o beduíno- refugiado, tangido como gado, vivendo da boa vontade dos outros. Salim, porém, com sua família, acabou encontrando pouso nos arreadores de Rafah. Ali ele conheceu, também, a partir de 1956, os brasileiros. 

Como empregado do Batalhão fez tudo. Aprendeu a língua, melhorou um pouco de vida, pode ajudar a mulher e os filhos. Salim gostou imensamente de um Brasil que tantos integrantes do Batalhão lhe contaram e descreveram. Embora voltar para sua aldeia, cuja perspectiva era tão longínqua, continuasse sendo um objetivo de vida, ele considerava seriamente a hipótese de começar tudo de novo no Brasil, se lhe fosse dada esta oportunidade. Entusiasticamente estava economizando o que podia para emigrar para o nosso país, tão logo fosse possível.
    Salim, quando não estava na cozinha do pelotão podia ser encontrado em algum lugar junto à cerca ou mesmo fora da área do forte, rodeado por um grupo de soldados a quem contava estórias do deserto. Falava dos perigos, das lendas, descrevia as peripécias de beduínos, contava das riquezas que o deserto esconde. Salim tinha participação ativa na vida do pelotão. Sobre a facilidade com que 2º pelotão se adaptou à vida do deserto grande parte deve ser creditada a Salim. Assim como a tropa daquele derradeiro contigente, já havia acontecido com muitos outros que a antecederam. Também eles ouviram a voz do deserto, através daquele palestino.
Na manhã do dia 5 de julho de 1967, quando as tropas israelenses avançavam pelo deserto do Sinai, infringindo aos egípcios derrota ainda mais humilhante que a de 1956, também em Rafah Camp, para onde haviam retraído o 2º pelotão da 7ª Companhia, vivia-se momentos difíceis, Exatamente ali, onde ficava a cidade de Rafah e o Rafah Camp, era uma das três frentes onde as forças de Israel romperam o dispositivo defensivo egípcio.
    Por volta do meio dia, os blindados das forças atacantes, vitoriosas, já tinham conseguido retomar o eixo da estrada para El Arish, grande base aérea mais a oeste, no Sinai. Apesar dos duros combates da manhã daquele dia, grandes efetivos egípcios tinham ficado para trás praticamente intactos, presos que estavam às suas posições defensivas. Nos pontos de ruptura, passaram muitas unidades blindadas israelenses, acompanhadas de suas tropas de apoio que seguiram para oeste, na direção do canal. Os egípcios ultrapassados se reagruparam rapidamente, aguardando o 2º escalão israelense. 
    Nesta hora, houve uma pausa momentânea nos combates, também dentro de Rafah Camp. O Comando e os pelotões da 7ª Companhia brasileira aproveitaram-se dessa oportunidade para reestruturar o dispositivo em que se encontravam, bem como para cuidar de seus feridos.
    No 2º pelotão havia um soldado bastante ferido que necessitava de urgente atendimento médico. Avaliada a situação, só havia possibilidade de ajudar ao nosso soldado se ele fosse evacuado para um modesto posto de saúde, onde havia alguns poucos médicos finlandeses. O comandante do 2º pelotão tratou logo de transportar o soldado para o pequeno hospital. No caminho, o tenente observou, entre muitos corpos de civis espalhados às margens da estrada, um que lhe pareceu bastante conhecido. Chamou-lhe atenção a roupa branca, calça e camisa, com que estava vestido e um chapéu de tecido também branco que estava jogado ao lado do corpo.
    Após ter deixado soldado ferido aos cuidados dos médicos, o tenente enfrentou combates bem mais intensos em seu regresso. Eram os primeiros elementos do 2º escalão israelenses, a infantaria blindada, que já se aproximava de Rafah Camp e dos remanescentes egípcios. Mesmo assim, ao chegar ao local que lhe chamara a atenção na ida, o tenente parou a viatura que dirigia, uma velha kombi pick-up, ao lado de um pequeno edifício do corpo de bombeiros de Rafah Camp e foi se certificar do que suspeitava.
Ao chegar junto ao corpo, imediatamente identificou Salim. Estava morto. Vários tiros tinham-no atingido no tórax e no abdomem. Havia perdido muito sangue, já seco absorvido pela areia do deserto. O tenente que nunca fora muito apegado à religião não deixou o local sem fazer uma breve oração por Salim e por todos aqueles que, sem ter nada a ver com aquela guerra, foram os primeiros a morrer. De regresso ao local onde se encontrava o seu pelotão, o tenente contou o que vira aos seus comandados.         Rapidamente chegou-se a conclusão de que, quando começaram os combates, Salim tentara ir a pé até as cercanias da cidade de Rafah, onde ficava a sua casa, para juntar-se à família. No caminho, o destino ceifou-lhe vida.
    Assim foi e assim será sempre. Comentar a guerra depois que ela passou é até gratificante por quem por ela passou e sobreviveu. Mas é preciso lembrar, também, diante de fatos como a história de Salim, que a humanidade, em momentos de lucidez, ao longo de sua história já tentou quase tudo para frear a violência que o homem carrega dentro de si. 

    Inventou religiões, prometeu paz eterna para os bons de espírito, disse que cada um deve amar ao seu próximo como a si mesmo. Isso tudo funciona quando não há crise. Quando interesses pessoais ou nacionais são contrariados além de um limite, desestabiliza-se a sensatez, rompe-se o equilíbrio numa explosão de violência sem limites que nada poupa. Homens, mulheres, crianças, indistintamente, são as vítimas desta histeria coletiva, numa fúria tão grande, que a própria sociedade, depois de passado o furacão, exausta e prostrada, se surpreende e se pergunta abismada: como foi possível tudo isso acontecer?



 Flávio Oscar Maurer  

mmaurer@zaz.com.br

 

 


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