20º Contingente - Fernando Vargas Neto - A carta


" Imagino que não tenhas visto o programa Fantástico da Globo no dia 13 de junho(2003) , domingo, quando eu apareci num quadro chamado: "Cartas da Guerra"  lendo uma carta enviada para minha mãe dias depois da guerra.

Agora o Brasil ficou sabendo da Guerra dos Seis Dias e que, como brasileiros, estivemos lá. 

Na hora do programa estávamos em Caçapava - SP., num restaurante e assistimos em grupo. Outros assistiram no quartel do 6º BIL.

A Globo mostrou veteranos de várias missões de Paz incluindo Suez, Angola, Timor Leste e 2ª Guerra Mundial."

( CÓPIA DE UM TRECHO DO E-MAIL DO F.VARGAS AO THEODORO )


Carta do Cb. Vargas á sua Mãe


Bari, Itália, 16 de junho de 1967 

Querida mãe

Depois que eu saí do inferno, é com satisfação que eu te escrevo novamente. Em primeiro lugar quero que quando receberes esta, faça uma oração a Deus agradecendo por mim a felicidade de ainda estar vivo pois houve dois momentos no fatídico dia cinco de junho em que eu preparei-me para partir desta para a melhor.

A narrativa detalhada dos acontecimentos eu farei na volta pois é tudo tão grande e complicado que eu gastaria este caderno e não diria nem a terça parte. Farei apenas um brevíssimo relato a título de “trailler”.

Amanheceu o dia 5 de junho e a guerra começou. Às nove horas, nós ainda não sabíamos de nada, eu estava em um posto de observação quando os jatos Mystere e Mirage, de fabricação francesa, de Israel  iniciaram o bombardeio de posições egípcias que existem (existiam) ao lado do Fort. A artilharia funcionando a todo vapor conseguiu derrubar alguns aviões que caíram perto de onde eu estava. Mas as posições foram totalmente destruídas.

Inicialmente, achamos que era uma ação isolada só ao meio dia vimos que a historia nos reservava uma triste surpresa. Depois do amaciamento dos objetivos pela aviação, vieram as divisões blindadas Israelenses e conforme eles disseram mais tarde, as informações que tinham era que o nosso  Forte já havia sido abandonado pelos Brasileiros. Portanto deveria estar cheio de soldados  egípcios. Por esta razão iniciaram o bombardeio, por artilharia, da região ao meio dia. Durante três horas eu estive dentro de uma trincheira junto com seis homens rezando para que não chegasse a nossa hora. Parece que as nossas orações foram atendidas. Pois naquele local o único lugar onde não caiu granadas foi dentro da trincheira pois os arredores estavam cheios de crateras. Ao anoitecer chegaram as tropas israelenses

e... bem o que aconteceu depois eu conto quando chegar pois eu não quero pensar nesse assunto.

Dia 12 de junho nós saímos de ASHDOD, cidade de Israel onde estava o Navio Soares Dutra. Sobre Israel eu falo na volta pois tenho muito que dizer sobre este país. O nosso destino é Bari na Itália onde vamos pegar combustível, deveremos chegar lá, amanhã pela manhã. Depois chegaremos a Trieste, ainda na Itália mas bem próximo da fronteira com a Yugoslavia. Tudo isso no Mar Adriático.

Nesta cidade descarregaremos 45000 sacas de café que superlotam os nossos porões. A seguir iremos para a Ilha de Chipre apanhar alguns colegas que seguiram para lá em outro navio pois o nosso já estava lotado em virtude do café.

Posteriormente iremos a Beirute onde ficaremos 4 dias. Depois iremos a Marselha, Lãs Palmas, Recife, Rio, e finalmente ...

Tudo isso levara aproximadamente dois meses e chegaremos aí em meados do mês de agosto. Transmite as novidades a todos pois eu só tenho dólares para remeter uma carta. Depois de Beirute seguirão muitas.

Até a próxima e muitas saudades.

P.S. Quando eu chegar a Trieste eu mandarei contar sobre Bari. Imagina só que ironia do destino, eu ficarei em Trieste por volta de cinco a seis dias e a cidade de Veneza está a uma hora de ônibus. E eu estou “pelado”, só receberei em Beirute... Talvez eu vá a pé assim também contarei na próxima.

Cb.Fernando.
3º pelotão da 7ª Companhia de Fuzileiros do 20º Contingente  do Batalhão Suez.

(...) 


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