3ª Parte:
Exceto a tempestade citada na 2ª parte, de resto a viagem foi tranqüila. Para compensar, a própria natureza trouxe a bonança, agora, enchendo nossos olhos com a beleza da luz do sol que ao amanhecer projetava uma faixa dourada sobre o oceano como se fosse uma fina lâmina de ouro cruzando toda a curvatura das águas e, ao entardecer, a cena se repetia. Era um fabuloso espetáculo. Ao anoitecer surgia a lua assemelhando-se a uma gigantesca lanterna que refletia e projetava a luz do sol sobre as águas, desta feita, de cor prateada. Gostaria de destacar também a fosforescente espuma que os hélices do navio provocavam deixando para trás um rastro semelhante ao de um cometa, além das estrelas que a tudo observavam há alguns bilhões de km de altura. Coisas da natureza! Não há como negar a existência de um ser superior! A viagem terminou na cidade de Port Said, no Canal do Suez, Egito, onde prestaríamos nossos serviços à paz mundial.
Sob o comando provisório do Major Bandeira, embarcamos num trem que nos aguardava próximo ao canal, pois este tem em sua lateral uma estrada férrea e uma rodovia. Após algumas horas o trem parou e saltamos num local belíssimo, cheio de tamareiras. Ali começamos a montar um acampamento. O trem prosseguiu sua viagem. Acho que houve um desencontro com o pelotão do 1º contingente que só nos localizou pela madrugada. Desmontamos tudo e seguimos em caminhões e Jipes para Rafah Camp onde pudemos descansar um pouco. Refeitos do cansaço e já sob o comando do Sr. Cel. Iracílio Ivo Pessoa, percebemos que quase tudo estava improvisado. Assim, com o tempo, fomos arrumando a “casa” que na verdade nunca ficou pronta efetivamente. Nós sabíamos que não seria fácil, aliás, recebêramos uma cartilha explicativa sobre o que eventualmente iríamos passar... Como a “prática é diferente da didática”, esta ficou muito aquém daquela. Então tivemos que apelar para a exceção, fugindo da regra, a fim de adaptarmo-nos mais rapidamente à situação que era crítica.
Canadá, Colômbia, Dinamarca, Finlândia, Índia, Indonésia, Noruega, Suécia e Iugoslávia também mantinham tropas naquela região.
Recebemos uniformes diferentes dos que levamos, para que todos os militares que lá se encontravam vestissem a farda da ONU. Apenas os nomes dos países, bordados nos braçais, diziam quem era de onde. Todavia, os indianos vestiam algo diferente. Era a cobertura, um turbante azul! É claro que outros traços denunciavam algumas raças... Devidamente fardados, começamos a trabalhar a fim de cumprir a missão para a qual, voluntariamente, havíamos nos apresentado. Só que muitas surpresas desagradáveis nos esperavam, tais como o calor abrasador do sol e o frio enregelante durante a noite. Quanto ao frio, o problema foi parcialmente resolvido com mais cobertores vindos do Canadá e por fim, aquecedores a querosene. E o calor? Bem, “o sol nasceu pra todos”, costumo dizer que a sombra não. Assim, cada um se “refrescava” como podia, sinto por aqueles que não encontravam sombras e por outros que não tinham aquecedores. Refiro-me aos que faziam patrulhas e outros serviços externos. Quanto a mim, como rádio operador, acho que fui privilegiado, muitos problemas passaram por mim em forma de telegramas. Confesso que alguns me abalaram. O deserto é cheio de mistérios e a alma humana também.
Os primeiros brasileiros a pisarem naquelas paragens, foram de avião da Força Aérea Americana. Eram sapadores, a quem muito agradecemos por terem feito em Rafah Camp uma varredura completa das minas, retirando-as e deixando a área própria para a ocupação dos sucessores. A área era toda cercada com arame farpado com mais ou menos um metro e meio de altura. Ali, ficava o QG brasileiro com apenas uma abertura - “guarita” - por onde saíam e entravam os soldados que trabalhavam na A.D.L. (Armistice Demarcation Line).Aos brasileiros coube a vigilância de uma determinada área para impedir que os habitantes daquela região a ultrapassassem, tanto de Israel para o Egito, quanto do Egito para Israel. Assim, numa sucessão, outras forças da ONU mantinham toda a A.D.L vigiada diuturnamente.
O 1º contingente fez o que pôde de melhor para o 2º, que fez o que pôde de melhor para o 3º e assim, o 3º para o 4º etc. Com a chegada do 3º contingente em Rafah Camp, a rede de rádios transceptores, que já existia nos pelotões que ficavam na A.D.L, foi ampliada e a comunicação em tempo real entre QG e aqueles que estavam de serviço na Faixa de Gaza. Foi um serviço de grande importância dadas as dificuldades de comunicação à época. A rede foi denominada “Afir-bala”.
Às vezes, me deslocava do QG para levar baterias carregadas aos rádios-operadores, trazendo as descarregadas para manutenção. A estação nº 1 ficava ligada permanentemente, mas a cada hora cheia fazia uma chamada a todos os pelotões para saber das notícias e também transmitir outras.
De: "Theodoro da Silva Junior" <theojr@terra.com.br>
Data: Sat, 21 Apr 2007 23:55:24 -0200
Assunto: : 3ª parte da história