DEPOIMENTOS


 
   

CÂMARA DOS DEPUTADOS

 DEPARTAMENTO DE TAQUIGRAFIA, REVISÃO E REDAÇÃO

NÚCLEO DE REDAÇÃO FINAL EM COMISSÕES

TEXTO COM REDAÇÃO FINAL

  

COMISSÃO DE DIREITOS HUMANOS

 

EVENTO: Audiência Pública N°: 2148/03 DATA: 2/12/2003

INÍCIO: 14h52min TÉRMINO: 17h09min DURAÇÃO: 02h17min

TEMPO DE GRAVAÇÃO: 02h16min PÁGINAS: 42 QUARTOS: 28

 

DEPOENTE/CONVIDADO – QUALIFICAÇÃO

 

WILTON MELO GARCIA - Integrante do 20º Contingente do Batalhão de Suez.

PAULO IZAÍAS DE MACEDO FILHO – Representante da Associação dos Integrantes do 20º

Contingente do Batalhão de Suez.

MANOEL WAGNER DE ARAÚJO FREIRE – Representante da Associação dos Integrantes do

20º Contingente do Batalhão de Suez.

FABRÍCIO TOUGUINHA DE CASTRO – Representante da Associação dos Integrantes do 20º

Contingente do Batalhão de Suez.

JOÃO BATISTA BEZERRA LEONEL FILHO – Tenente-Coronel do Exército Brasileiro.

ANTONIO CARLOS - Coronel do Exército Brasileiro.

  

SUMÁRIO: Situação dos integrantes do 20º Contingente do Batalhão de Suez.

 

OBSERVAÇÕES

Houve exibição de imagens.

Há intervenções fora do microfone. Inaudíveis. 


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Número: 2148/03                                                                     Data: 2/12/2003

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O SR. PRESIDENTE (Deputado Enio Bacci) - Havendo número regimental, declaro abertos os trabalhos da presente reunião de audiência pública, que tem como finalidade debater a situação dos integrantes do 20º Contingente do Batalhão de Suez, que participaram de missão no período da Guerra dos Seis Dias. Inicialmente, convidamos as seguintes autoridades para que façam parte da Mesa: o Sr. Antonio Carlos, Coronel do Exército Brasileiro; o Sr. João Batista Bezerra Leonel Filho, Tenente-Coronel do Exército Brasileiro; o Sr. Paulo Izaías de Macedo Filho, representante da Associação dos Integrantes do 20º Contingente do Batalhão de Suez; o Sr. Manoel Wagner de Araújo Freire, representante da Associação dos Integrantes do 20º Contingente do Batalhão de Suez; o Sr. Fabrício Touguinha de Castro, representante dos Integrantes do 20º Contingente do Batalhão de Suez; e o Sr. Wilton Melo Garcia, integrante do 20º Contingente do Batalhão de Suez. Lembramos que esta audiência está sendo gravada. Com isso, será possível a sua degravação. Municiaremos os Parlamentares com o conteúdo desta audiência pública. Portanto, é essencial lembrar que, mesmo que não tenhamos em plenário uma presença maciça de Parlamentares, em função de outras atividades da Casa, todos receberão na íntegra o conteúdo desses debates. Lembramos ainda que esta audiência é uma iniciativa proposta pelo Deputado Pompeo de Mattos, 1º Vice-Presidente desta Comissão de Direitos Humanos, e que seguiremos um roteiro que obedecerá alguns princípios. O expositor terá um tempo aproximado de 15 minutos. É lógico que não vai haver um rigor muito grande nessa questão, até porque nosso objetivo é esclarecer todas as dúvidas sobre essa questão. Após as exposições, concederemos a palavra aos Deputados presentes, respeitando uma ordem de inscrição. Cada Deputado terá um prazo aproximado de 3 minutos para formular suas considerações, pedidos de esclarecimento ou até mesmo  questionamentos aos expositores. Volto a lembrar que, em função da gravação desta reunião, qualquer manifestação necessariamente deve ser feita ao microfone. Dando prosseguimento aos trabalhos, vamos ouvir, como primeiro expositor, o Sr. Paulo Izaías de Macedo Filho, representante da Associação dos Integrantes do 20º Contingente do Batalhão de Suez.

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Informo que, em função de um acordo realizado com os representantes,

ouviremos primeiramente o Sr. Wilton Melo Garcia, integrante do 20º Contingente do Batalhão de Suez.

O SR. WILTON MELO GARCIA - Exmo. Sras. e Srs. Deputados, senhores

oficiais do Exército Brasileiro, incumbe-nos neste ato a tarefa de esclarecer V.Exas. sobre os fatos ocorridos com os brasileiros do 20º Contingente do Batalhão de Suez, tropa do nosso Exército enviada ao Oriente Médio em 1967, na Faixa de Gaza, sob os auspícios da ONU, com a tarefa de guarnecer a fronteira entre Egito e Israel. Essa operação determinava a continuidade de um processo de paz que já perdurava 10 anos na região e que havia sido interposto pela ONU com o objetivo de neutralizar o constante acirramento entre árabes e judeus. Alguns desses esclarecimentos estão atrelados diretamente a boletins e tomos, instrumentos oficiais do nosso Exército; outros, emergentes de depoimentos de pessoas que viveram os referidos fatos, os quais em ambos os casos elucidam e comprovam sua veracidade. Convém informar que esses diferentes episódios são apenas parte de um vasto contexto de fatos ocorridos com todo o 20º Contingente, que efetivamente participou do teatro de operações da Guerra dos Seis Dias. Conhecendo esses fatos, V.Exas. poderão julgar com absoluta serenidade os feitos desses 317 cabos e soldados, que há 37 anos esperam pelo reconhecimento da sua Pátria. Essa constante espera ocorre devido às seguintes causas: primeiro, a conjuntura política dos anos 60, que inviabilizava qualquer discussão nesse sentido; segundo, o descaso de algumas autoridades que não se interessam em pesquisar os fatos verdadeiros ocorridos com esses brasileiros; terceiro, o despreparo de pessoas que vêm emitindo pareceres esdrúxulos e sem conhecimento dos fatos reais; quarto, a distorção dos fatos feita por algumas autoridades que teimam em não entender que essa reivindicação cabe tão-somente ao Contingente que participou da Guerra dos Seis Dias. Essas causas acabaram por jogar ao esquecimento a história desse Contingente, que é uma página não só do Exército Brasileiro, mas também da História do Brasil.

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Esta é, portanto, a primeira oportunidade que temos para contestar as abordagens apresentadas pelo Ministério da Defesa, que emitiu pareceres: um desprovido de conhecimento; e outro sem nenhuma relação com nossa verdadeira história, fazendo considerações a contingentes que nunca estiveram na Guerra dos Seis Dias. Voltamos a frisar: o que estamos tratando aqui é unicamente a participação desses brasileiros na Guerra dos Seis Dias. Esses integrantes do 20º Contingente são hoje pessoas com idade mínima de 56 anos, a maioria de origem humilde, de pouca formação, com sérios comprometimentos de saúde, sem falar dos traumas psíquicos que trouxeram da missão e que carregam consigo, num interminável sacrifício. Era o que tinha a dizer por enquanto, Sr. Presidente.

O SR. PRESIDENTE (Deputado Enio Bacci) - Dando continuidade à nossa audiência pública, vamos ouvir agora o Sr. Paulo Izaías de Macedo Filho, representante da Associação dos Integrantes do 20º Contingente do Batalhão de Suez.

O SR. PAULO IZAÍAS DE MACEDO FILHO - Sou Coronel do Exército e integrei o Batalhão Suez no último contingente, na Guerra dos Seis Dias. Sinto-me profundamente gratificado em dar conhecimento ao Brasil do que ocorreu na realidade na Faixa de Gaza, Egito. Na época, eu era Capitão- Comandante da Companhia de Comando e Serviço. Antes de prosseguir, quero agradecer ao Deputado Pompeo de Mattos a grande oportunidade que está dando a todos os integrantes do batalhão brasileiro e, em especial, ao contingente do Rio Grande do Sul. Sinto-me — repito — profundamente gratificado, porque também estou tirando do sarcófago a história real ocorrida na Faixa de Gaza. Nossos preparativos ocorreram em Porto Alegre. O soldado se preparou para o combate, em que pese ir participar de uma missão de paz — mas muito bem preparado pelo Exército Brasileiro. Vamos correr no tempo. Vamos partir para o dia 2 de abril, data que marcou a chegada de todo o contingente na Faixa de Gaza.

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O que sentimos na oportunidade? Sentimos que algo de estranho e muito difícil estava para ocorrer, porque aviões sobrevoavam, a inquietação reinava entre os soldados, a angústia, também. Havia rondas noturnas. Dei ronda noturna na fronteira internacional. Tudo podia ocorrer de repente, porque, de um lado, estava Israel e, do outro, o Egito. Como haviam minas, presenciamos jipes que passavam pela estrada serem destruídos; nada sobrava. O tempo foi passando dentro desse Campo de angústia, de inquietação, de tensão, até que, no dia 19 de maio, a força de paz das Nações Unidas foi extinta — UNEF, Força de Emergência das Nações Unidas. Portanto, ficamos num teatro de operações no Oriente Médio — Iraque, Jordânia, Síria, Egito. Enfim, a tensão era muito grande. Durante 10 anos, praticamente, ambas as partes — israelenses e árabes — tiveram oportunidade de se preparar para um desfecho que veio a ocorrer com a extinção dessa Força. Então, os dois exércitos ficaram em condições de fazer umataque recíproco. E a força de paz da ONU ficou sem comando. O tempo correu até que, no dia 2 de junho de 1967, recebi ordens do comando para me dirigir ao Cairo a fim de tratar de material classe um, ou seja, alimentação, porque a essa altura o batalhão brasileiro já estava carente de alimentos. Tudo se tornou muito difícil. O Governo brasileiro, naquela oportunidade, a partir do dia 19, poderia ter feito a evacuação da tropa. Mas isso não ocorreu. Brasil e Índia continuaram, enquanto as demais forças saíram do Oriente Médio. No dia 5 de junho houve o ataque israelense. O Campo Brasil foi alvo de bombardeios, de mísseis, de artilharias, enfim, de toda forma de combate. A situação dos brasileiros era atípica e típica. Atípica, porque ninguém tinha inimigos, mas tínhamos de nos defender; e típica, porque era a defesa pela sobrevivência. A tropa tinha que se defender, tinha que ocupar as posições adredemente preparadas. Permanecemos naquele tumulto de tiros de todos os lados. O cabo brasileiro William foi atingido quando fazia um deslocamento dentro do Campo Brasil. Outros militares também passaram por situações gravíssimas. Está ao meu lado o Coronel Wagner, que foi logistic officer do batalhão. Ele também foi vítima, foi feito prisioneiro. Outros que estavam no Campo Rafah, no Campo Brasil, em Gaza, no Cairo, enfim,

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todos os brasileiros estavam vivendo o drama da guerra. O dia 2 continuou. Ocorre que, no dia 5, a Força Aérea de Israel conseguiu destruir a Força Aérea Egípcia, e com sua superioridade aérea dominou o teatro de operações. Quem tem superioridade aérea ganha a guerra. Por que Guerra dos Seis Dias? Porque foi o tempo necessário para que as tropas de Israel fizessem a limpeza da Faixa de Gaza, enfim, todo o teatro de operação. A esse tempo, brasileiros foram feitos prisioneiros: um caiu na mão, inicialmente, de árabes; depois, na mão de israelenses; por último, o mesmo homem foi cair na mão dos indianos, que o entregaram ao Brasil. A dificuldade da logística durante esse conflito foi total. Tínhamos que nos defender de tiros por todos os lados. Uma situação, volto a repetir, atípica e típica também, porque tínhamos que nos defender. A tropa estava sem comando; a UNEF tinha sido extinta e havia a necessidade de o Batalhão viver. Pela primeira vez na história, os gaúchos se constituíram num contingente, o 20º, o último. Antes, os contingentes eram divididos. Por exemplo, uma parte de Minas, outra do Nordeste e a terceira do Rio, e se encontravam na Faixa de Gaza. Depois de 10 anos, feito um estudo, constatou-se que era melhor mandar um contingente de uma só região. Tive muita honra, como capitão, de comandar os gaúchos e prepará-los em Porto Alegre, no 1º do 18 RI. Fomos cheios de esperança. Queríamos conhecer o mundo e também defender o Brasil, da mesma forma que um atleta defende seu time de basquetebol, de voleibol e assim por diante. Infelizmente, não tivemos tempo para nada — outros contingentes tiveram tempo para gozar férias, algo normal, e passeavam por conta da ONU, por causa da tensão. O 20º não teve chance de nada, só agrura, tensão, prisão e prisioneiro. Foi algo que realmente deixou o Batalhão numa situação de vulnerabilidade. Os soldados, evidentemente, conseguiram muita coisa boa, porque o Secretário-Geral da ONU, U Thant, em expediente mandado para o Comandante do Batalhão, elogiou a força, o desembaraço, a bravura e a competência dos soldados do Brasil, que, aliás, ao longo das guerras, sempre tiveram esse conceito.  O Batalhão brasileiro passou por momentos entre 2 fogos.

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Ninguém sabia se os tiros eram dos israelitas, dos egípcios ou dos árabes. Sabíamos que nossa vida estava em perigo. Esses jovens, ao regressarem ao Brasil, como cabos e soldados, não passaram por nenhum tipo de exame médico, para saber o seu estado, mas seqüelas foram adquiridas. Hoje, na faixa etária de 56, 58 anos, por meio de estudos médicos, verifica-se que grande número deles tem seqüelas psicológicas e vivem na mais completa penúria e aguda crise financeira. Temos que ajudar esse pessoal. Precisamos do reconhecimento da Pátria. Ao longo da história, aqueles que se envolveram em conflitos sempre tiveram o reconhecimento da Pátria. Por que, então, esses jovens gaúchos, que voltaram com tantas seqüelas, que arriscaram a vida num conflito entre duas potências, não têm, até o presente momento, o reconhecimento da Pátria? O Deputado Pompeo de Mattos, com essa bandeira, tenho certeza, fará o possível para que esses jovens gaúchos que hoje estão na miséria, com seqüelas de toda ordem, tenham uma ajuda digna. Se guerrilheiros do Araguaia têm polpudas indenizações e pensões, por que não esses jovens, que saíram daqui com todo o entusiasmo, estiveram no Oriente Médio, num teatro de operações, envolveram-se na guerra? Eles não participaram diretamente, mas indiretamente, e são, portanto, merecedores. Eu os comandei. Aqui estão presentes o Coronel Wagner e o Soldado Melo. Apelo aos Srs. Deputados desta Comissão de Direitos Humanos no sentido que façam o possível para que esses cabos e soldados — não são oficiais nem sargentos — tenham uma velhice melhor, porque se empenharam, em nome do Brasil, numa guerra em que, volto a dizer, não foram participar, mas, envolvidos, se saíram com muita bravura. Era o que tinha a dizer.

Muito obrigado pela atenção.

O SR. PRESIDENTE (Deputado Enio Bacci) - Em continuidade a esta audiência pública, vamos ouvir o Sr. Manoel Wagner de Araújo Freire, representante da Associação dos Integrantes do 20º Contingente do Batalhão de Suez.

O SR. MANOEL WAGNER DE ARAÚJO FREIRE - Em primeiro lugar, cumprimento as autoridades presentes e agradeço muitíssimo aos Deputados 

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Pompeo de Mattos e Enio Bacci a oportunidade de apresentar a verdade e não o imbróglio que tem surgido todas as vezes que as vítimas do sofrimento dessa guerra aparecem. No dia 14 de maio de 1948, o Embaixador brasileiro, Presidente da Assembléia da ONU, Osvaldo Aranha, assinou a carta de criação do Estado de Israel. Aconteceram guerras etc. Serei breve — deixei à Comissão um relato escrito sobre o que estou falando. Em 1956, houve uma guerra entre Israel e Egito. Em conseqüência, o Sr. Gamal Abdel Nasser, líder egípcio, pediu a criação de uma força de paz. Essa força se denominou Força de Emergência das Nações Unidas, inicialmente formada por 10 países, inclusive o Brasil. Aí estava o Batalhão Suez, que lá permaneceu por mais de 10 anos, sendo a mais demorada operação militar brasileira no exterior. No dia 15 de maio de 1967, Israel comemorava sua independência. Nessa mesma noite, forças egípcias começaram a ocupar a Península do Sinai. No dia 16, o Sr. Gamal Abdel Nasser pediu a retirada imediata de todas as forças da ONU, que estavam lá a pedido do Governo egípcio — nós estávamos no território do Egito; Israel não aceitava essa força. Isso foi feito unilateralmente. O Secretário-Geral das Nações Unidas, o Sr. U Thant, levou 3 dias para apresentar a solução final e determinar a extinção da Força de Emergência das Nações Unidas. Com a extinção da Força, terminou o período de força de paz. O Batalhão ficou na região do conflito, ameaçado de altíssimo perigo. Nesse momento, o Governo brasileiro deveria ter determinado a sua imediata retirada, mas não o fez. Houve até oferta de países para retirar a tropa brasileira de lá. E nós ficamos lá — temos documentos na Justiça, que provam que isso é verdade. O Batalhão, formado de apenas 432 homens, estava entre 2 gigantescos exércitos bem armados, sem ter para onde ir e imprensado na mais veloz e exemplar campanha militar, de ir para manual, em que milhares de carros de combate e canhões se concentraram intensamente, abrindo fogo sobre a região onde estavam os brasileiros, exatamente nos Campos Brasil e Rafa, para ali fazer a ruptura das forças e alcançar seus objetivos estratégicos. Nós recebemos uma massa de bombardeio que nenhuma Força brasileira já havia recebido. E ali nós já estávamos numa situação de guerra, não era mais de paz. 

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O direito de defesa era absolutamente legítimo. Depois de receber muito fogo de metralhadoras .50, eu me irritei — infelizmente, tenho sangue quente lá do Ceará —, peguei uma metralhadora e já ia me acabar ali mesmo, levando alguns comigo. Para não entrar em detalhes, porque o resto é detalhe, aqui está descrito como eu procedi. Portanto, houve uma omissão gravíssima do Governo brasileiro, que não providenciou a imediata retirada da tropa e ficamos sujeitos a intensos perigos. Passei mais de 36 anos sem falar sobre esse assunto, mas, convocado, estou aqui para dizer a verdade. Não estamos aqui absolutamente para ficar contra o Exército. Somos do Exército, da Reserva brasileira, e estamos prontos para defender o Brasil em qualquer condição e tempo. Mas estamos aqui para pedir a reparação de uma injustiça feita, e o Congresso Nacional é capaz de corrigi-la. Se o Exército quisesse essa reparação — teve muito tempo —, já a teria feito. Ele não fez porque naturalmente tem as suas razões para não fazê-la, razões com as quais eu, pessoalmente, não concordo. Finalmente, afirmo que o 20º Contingente do Batalhão Suez suportou com bravura e estoicismo a brutal violência dessa guerra — foi brutal, eu estava lá e senti isso — e, evidentemente, sofreu mortes, ferimentos e marcas psicológicas que levaram muitos dos seus integrantes à perda da capacidade laborativa. O menor número de vítimas fatais deveu-se certamente ao excelente treinamento da tropa brasileira, ao moral elevado — só havia homens lá, ninguém se acovardou —, à conduta impecável e às instalações nas quais estavam acantonados. É egoísmo e vaidade pensar que somente os soldados que participaram direta ou indiretamente da 1ª e da 2ª Guerras Mundial merecem reconhecimento da Pátria. Os militares brasileiros do 20º Continente de Suez cumpriram sem medo sua nobre missão de defesa da humanidade — foi com essa frase que nós recebemos o Prêmio Nobel da Paz, porque aquela é uma região próxima da maior reserva de petróleo do mundo, os soviéticos estavam presentes vendendo armas, estavam por trás das forças do Egito e por ali poderia ter começado a 3ª Guerra Mundial; Graças a Deus (desculpem-me os árabes, eu não sou árabe nem israelense), os israelenses

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resolveram a coisa de forma tranqüila — e passaram pelas mais arriscadas situações na Guerra dos Seis Dias. A Assembléia-Geral da ONU nos homenageou — tenho a prova aqui e a anexei ao meu relato — e reconheceu nossos honrosos e relevantes serviços, concedendo -nos a Medalha UNEF — Força de Emergência das Nações Unidas, em nome de todas as nações do mundo. A comunidade internacional concedeu-nos o mais cobiçado prêmio do mundo, o Prêmio Nobel da Paz. Somos os únicos brasileiros que até hoje receberam essa altíssima distinção. Falta ainda a manifestação da Pátria, e aqui estamos, no glorioso Congresso Nacional, pedindo que os nobres Deputados não esqueçam esses infelizes pracinhas que têm sofrido muito e repare esses danos. Ao encerrar esse relato que tive a honra de fazer por solicitação desta meritíssima instituição da Câmara dos Deputados, agradeço-lhes a elevada consideração que me deram e rendo-lhes, com orgulho, as melhores homenagens de um velho soldado brasileiro que não precisaria estar aqui, porque outros deveriam ter cuidado de sanar essa situação. 

Muito obrigado.

O SR. PRESIDENTE (Deputado Enio Bacci) - Em continuidade à nossa audiência pública, vamos ouvir o Sr. Fabrício Touguinha de Castro, representante da Associação dos Integrantes do 20º Continente do Batalhão de Suez.

O SR. FABRÍCIO TOUGUINHA DE CASTRO - Sr. Presidente, eméritos Parlamentares, autoridades militares e civis, senhoras e senhores, na condição de representante do 20º Continente do Batalhão de Suez, venho a este Parlamento não para reverenciar os feitos históricos dos 432 militares que integraram o 20º e último Contingente do Batalhão de Suez, mas com o propósito de prestar minha contribuição para ver reparada essa que considero uma das grandes injustiças, se não a maior, cometida pelo Poder Executivo Federal com esse pequeno grupo de brasileiros, filhos do Estado do Rio Grande do Sul. Convicto estou de que os primeiros passos na busca desse ideal de justiça social serão dados por V.Exas. Não estou a fazer apelo dramático. Minha missão é a de apresentar, sob outro enfoque, a magnitude desse relevante feito.

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Qual é o conceito de guerra? Peço vênia a V.Exas. para responder ao final essa pergunta. Qual é o conceito de ex-combatente? Em linhas gerais, ex-combatente é toda pessoa que esteve em zona de guerra e que tenha participado de combate, ainda que de forma indireta. O conceito de ex-combatente, para fins de reconhecimento do direito a pensão especial deixada por 2º Tenente, de meros 2.400 reais, é estabelecido pelo art. 1º da Lei nº 5.315, de 1967, que considera ex-combatente, para efeito da aplicação do art. 53, inciso II, do Ato das Disposições Constitucionais Transitórias, todo aquele que tenha participado efetivamente de operações bélicas na 2ª Guerra Mundial. O Executivo Federal, sob o pretexto de que os ex-integrantes do 20º Contingente do Batalhão de Suez não se enquadram no conceito legal antes mencionado, concluiu que não poderiam pleitear a concessão da pensão especial em apreço. Sem fazer apologia, é necessário que se esclareça que o legislador infraconstitucional não demonstrou maior apego ao texto constitucional, pois estendeu o benefício a outras categorias profissionais que sequer estiveram nos campos de batalha da Itália, como é o caso dos pilotos civis, que, por solicitação de autoridade militar, durante o período da 2ª Guerra Mundial, participaram de missões de patrulhamento, busca, salvamento e vigilância do litoral brasileiro. O mesmo se aplica aos ex-integrantes da Marinha Mercante nacional que tenham participado de pelo menos duas viagens em zonas de ataques de submarinos, na forma do disposto no art. 2º da Lei 5.698, de 1971. Logo, verifica-se que o elemento nuclear preconizado pelo legislador nacional para conceder e estender o direito a pensão especial deixada por 2º Tenente, é, em última análise, a exposição ao risco de vida em prol dos interesses nacionais. Isonomicamente, será que o direito de membro integrante da Marinha Mercante brasileira que tenha realizado duas viagens em zona de ataque submarino é melhor do que aqueles dos militares integrantes do 20º Contingente do Batalhão Suez que estiveram no fronte de batalha, sob fogo cruzado, em zona de guerra declarada? Obviamente que não. Se algum risco de vida existiu para os integrantes da Marinha Mercante brasileira, o risco de vida dos integrantes do 20º Contingente do Batalhão Suez foi real, imediato e imensurável, a ponto de desencadear as neuroses de guerra em todos os seus integrantes. Este, pois, é o

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caso isolado do 20º Contingente do Batalhão Suez, que participou, efetivamente, de operações bélicas com exposição direta de todos os seus integrantes ao risco de vida, tudo em homenagem ao Brasil, visto ser este signatário de acordos e convenções internacionais. Partindo-se desse pressuposto, igualmente meritória foi a participação do 20º Contingente do Batalhão Suez em prol dos interesses nacionais e, sobretudo, da paz mundial. Ademais, em nada desmerece os integrantes desse contingente de terem inicialmente participado de uma missão de paz a serviço da ONU. Igualmente, dignificante foi o fato de esses militares terem sido voluntários. No entanto, imperioso destacar que a situação vivida por esses 432 militares foi atípica, porquanto a Força de Emergência das Nações Unidas foi extinta em 19 de maio de 1967. Em decorrência, passaram os militares brasileiros a viver em solo estrangeiro, o que se denominou de conjuntura de exceção. Por via de conseqüência, ante a iminência da eclosão da guerra entre Egito e Israel, era de se esperar que o Governo brasileiro, a exemplo do que os demais países fizeram, providenciasse a imediata evacuação do 20º Contingente daquela área de conflito. Ao contrário do que deveria, foi o Governo brasileiro incrédulo e manifestamente omisso, porquanto expôs todo o contingente brasileiro à destruição pelas tropas beligerantes, o que felizmente não aconteceu por um ato de benevolência divina. O contingente militar brasileiro, na ocasião, por inevitável, foi submetido a todo um conjunto de situações e circunstâncias típicas de quem esteve, efetivamente, em uma guerra. Era uma tropa militar armada. Foi alvejada por tiros de artilharia, de blindados, sofreu bombardeios aéreos, sofreu diversas baixas em seu efetivo, além de outras tantas situações de difícil enfrentamento, consoante já muito bem foi relatado pelos expositores anteriores. Fruto da desinformação, ousam alguns jurisconsultos de gabinete a contrariar, com pareceres incongruentes, a realidade desses fatos históricos de triste lembrança. Igualmente, tentam asseverar que a participação do 20º Contingente do Batalhão Suez na Guerra dos Seis Dias não trouxe maiores prejuízos. Tal afirmação, no entanto, não subsiste à análise, ainda que

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superficial, do conjunto probatório que ora é colocado à disposição de V.Exas. Sucede, por evidente, que a Guerra dos Seis Dias serviu como agente estressor poderosíssimo para desencadear transtorno por estresse pós-traumático em 100% do efetivo do contingente brasileiro, cuja sintomatologia positiva  cronificada se deu no âmbito dos cabos e soldados a quem este pleito ora é dirigido. Foi realizado um extenuante estudo de caso, sem precedentes, envolvendo alguns cabos e soldados egressos desse contingente, pelo Dr. Jorge Moacir Flores, psicólogo e psicanalista, doutor pela Universidade de Limoges, na França, onde se verifica de forma escorreita a existência de dano psíquico na totalidade dos integrantes do 20º Contingente do Batalhão Suez. Tamanha a importância e a amplitude desse trabalho, peço vênia a V.Exas. para trazer à baila um pequeno aparte desse trabalho, sendo que esse tema foi objeto de debate e discussão no cenário acadêmico de algumas universidades brasileiras. O douto expert, ao abordar o evento bélico em tela, após criteriosa análise dos fatos, provas e documentos, colheu os seguintes dados que integram o anexo estudo de caso acerca do 20º Contingente do Batalhão de Suez .Ele cita a questão técnica e faz uma observação extremamente importante, em que relata que, “em relação a alterações psíquicas imediatas, a totalidade dos periciados da amostra reconhece ter sofrido alterações psíquicas já nas primeiras horas do combate, resultando dos impactos e da magnitude do acontecimento. Os sintomas mais relatados foram medo intenso de morrer, descontrole emocional sentimento de impotência e de insocorridade, angústia avassaladora sensação de atordoamento, sensações corporais inespecíficas ou de terem sido feridos.” Houvepericiados que, durante o estudo, desenvolveram surtos e crises. Por razões mais do que evidentes, teve o estudo de caso a seguinte conclusão: “Os militares do 20º Contingente do Batalhão Suez participaram efetivamente de um  contecimento que pode ser considerado como traumático, especificamente como trauma de guerra, donde se conclui que o evento  

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teve magnitude, pois foi o fato uma guerra, embora com duração abreviada.Esse evento traumático desencadeou o quadro psicopatológico de transtorno por stress pós-traumático nos militares do 20º Contingente brasileiro, sendo que 3 dos periciados no presente estudo evoluíram para transtorno depressivo maior, com linha de causalidade; 8 entre os 12 periciados do 20º Contingente atualmente apresentam diagnóstico positivo de transtorno por stress pós-traumático cronificado; 3 apresentam transtorno depressivo maior. e 1 apresenta esquizofrenia cronificada, portanto, com nítida incapacidade para o trabalho. Assim, é o parecer final no sentido de que o Exército Brasileiro — ou a União Federal — ao se eximir de responder pelas condições de saúde mental e pelo necessário tratamento e processo de readaptação à vida civil, tornou-se, por omissão, responsável pelos prejuízos psicopatológicos dos militares temporários do 20º Contingente do Batalhão Suez, egressos da Guerra dos Seis Dias, pois a formação de soldados para um evento bélico consiste em treinar e preparar a ida, a permanência e o retorno do combate, bem como a volta à vida civil, com todos os aspectos de assistência e cuidados que cada etapa envolve”.Dentro deste contexto, à guisa de conclusão, o Poder Executivo Federal foi duplamente omisso, primeiramente, por não ter evacuado a tropa brasileira em tempo hábil, logo após a extinção da Força de Emergência, em 19 de maio de 1967. Em razão desse ato falho, submeteu o contingente militar brasileiro a um sacrifício inútil, deixando-o à mercê da própria sorte, numa guerra de grandes proporções. Foi igualmente omisso quando do retorno desses militares, vez que estabeleceu tratamento diferenciado para os 317 militares temporários — cabos e soldados —, os quais foram sumariamente despejados das fileiras do Exército sem ao menos

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terem sido inspecionados por uma junta médica, tampouco tiveram qualquer tipo de tratamento de saúde para minimizar as mazelas do combate. Essas chagas, no entanto, se perpetuam por longos e penosos 36 anos. Excelências, a matéria em exame transcende em muito a fronteira da lei porque o ser humano possui assegurado pelo Estado o direito à sobrevivência, à dignidade, conforme os ditames constitucionais que imperam na ordem jurídica vigente. Com isso evidencia-se que o elemento nuclear a ensejar o direito ao benefício ora perseguido é exposição efetiva e direta ao risco de vida em razão de ato de autoridade brasileira, fato esse que foi exaustivamente demonstrado desta tribuna. O processo legislativo, pois, não deve conter óbices formais intransponíveis; deve ser real, humano e socialmente útil. Dentro desse propósito, é mister de V.Exas. a difícil tarefa de analisar criteriosamente o pleito desses sofridos cidadãos brasileiros para melhor atender às aspirações da Justiça e do bem comum. Assim, para não deixar sem resposta a minha primeira pergunta, confesso a V.Exas. que, após ter convivido por esses longos anos com muitos dos militares egressos do 20º Contingente do Batalhão Suez, ouvindo impressionantes narrativas o que foi aquele holocausto, todas de triste lembrança, mais me convenço da nobreza dessa lide. Outrora como jovem, hoje formado pela escola da vida, continuo a acreditar no Poder Legislativo como sendo o último baluarte de defesa do cidadão. Portanto, a meu ver, o melhor conceito para a guerra é este: a forma mais irracional da manifestação humana. Que Deus proteja a todos nós para que nunca tenhamos que passar por um evento dessa natureza e de tamanha magnitude. Reza o art. 1º da Declaração Universal dos Direitos Humanos que todos os seres humanos nascem livres e iguais em dignidade e direitos. São dotados de razão e consciência e devem agir uns com os outros com espírito de fraternidade. Logo, serenamente, espero e confio em que o espírito de fraternidade sirva de fomento para que esta egrégia Comissão dê guarida ao presente pleito para assegurar, ainda que tardiamente, o direito a uma velhice mais digna para esses soldados sexagenários, heróis esquecidos do nosso amado Brasil.

Muito obrigado. 

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O SR. PRESIDENTE (Deputado Enio Bacci) - Em continuidade à nossa audiência pública, antes de ouvirmos o Coronel Antônio Carlos e o Tenente-Coronel João Batista Bezerra Leonel Filho, em nome do Exército, convidamos o Deputado Leonardo Mattos, titular da Comissão de Direitos Humanos, para presidir a sessão e dar continuidade aos trabalhos.

O SR. DEPUTADO LEONARDO MATTOS - Gostaríamos, então, de passar a palavra, para o fechamento, ao Sr. Wilton Melo Garcia, integrante do 20º Contingente — o Batalhão de Suez.

O SR. WILTON MELO GARCIA - Antes de proceder ao fechamento, informo que recebi uma incumbência do General-de-Brigada Flávio Oscar Maurer, hoje na reserva, que era 1º Tenente do 20º Contingente. Passo a ler um documento: “Esclarecimentos sobre a conduta do soldado brasileiro no conflito e razões táticas e estratégicas pelo impacto direto sofrido pelo Batalhão brasileiro, em razão das ações militares do Egito e de Israel: Como Comandante do 2º Pelotão da 7ª Companhia do 20º Contingente do Batalhão Suez, vivi intensamente todos os momentos da participação da tropa brasileira na Guerra dos Seis Dias, cujo início se deu no dia 5 de junho de 1967. Todos os presentes na área, entretanto, sabiam que o conflito iria eclodir no espaço de um mês antes daquela data.Falemos, primeiramente, da conduta do soldado brasileiro. Durante todo o transcorrer dos acontecimentos naquele conflito, quero reafirmar, como já deixei claro em diversas crônicas, que o soldado brasileiro mostrou ser heróico diante da inevitabilidade do seu envolvimento nas operações militares, bem como demonstrou ser capaz de discernir claramente sobre o seu papel de não ser partícipe das forças beligerantes. Essa afirmação é oportuna e necessária para creditar aos  integrantes daquele Contingente os méritos de um desempenho que enobrece os nossos

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soldados.Ao se portar com dignidade num episódio atípico de imensa dramaticidade para o qual como força de paz não estavam preparados, eles venceram um desafio que só pode avaliar quem participou daquela guerra. A  serenidade com que os brasileiros se conduziram acabou contribuindo para que houvesse poucas baixas, diferentemente das tropas de outros países que ainda estavam ali. Mesmo sofrendo o impacto direto das operações militares, conduzidas tanto pelo Egito quanto por Israel, os soldados brasileiros não entrarem em pânico, cumprindo rigorosamente as ordens recebidas, ou, então, tomando a iniciativa adequada nos momentos em que se viram isolados no decorrer do conflito. Há inúmeros relatos que atestam e corroboram essa minha afirmação sobre a conduta do nosso soldado. Como a tropa brasileira não foi retirada do local que ocupava na Faixa de Gaza, no Egito, em tempo útil, apesar da extinção da Força de Emergência das Nações Unidas 20 dias antes do início do conflito, o envolvimento naquela guerra foi inevitável para os brasileiros que integravam o 20º Contingente. Fato que modificou profundamente, segundo palavras do General, a história da vida pessoal de grande parte deles. Em segundo lugar, quanto à magnitude do impacto sofrido pelo Contingente brasileiro. A principal razão que tornou o contingente brasileiro alvo direto dos fogos cruzados das forças dos 2 países está vinculada à localidade da cidade de Rafah, em cujas proximidades se encontravam instalações do Campo Brasil e de Rafah Camp, onde 

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nossas tropas se encontravam acantonadas. A cidade de Rafah fica junto à fronteira entre Israel e Egito, também porta de entrada da Faixa de Gaza, além de ser o ponto inicial da grande direção estratégica que abre o caminho na Península de Sinai pelo norte, na direção do Canal de Suez.Historicamente, a principal direção estratégica para o emprego das forças militares na Península de Sinai sempre foi o eixo rodoferroviário Rafah–El Arish–Suez, entre outras, por evitar a região montanhosa do Sinai, oferecendo assim excelentes condições para a progressão de tropas e para o seu suporte logístico. Tanto Israel quanto o Egito sabiam perfeitamente da existência das tropas da Organização das Nações Unidas, especialmente do nosso 20º Contingente, este posicionado sobre o referido eixo, exatamente na fronteira entre os 2 países. Ambos os países naturalmente se valeram estrategicamente do posicionamento do batalhão brasileiro, utilizando-o como escudo. Dessa forma, criaram as melhores condições para tomada de posição no terreno de suas respectivas tropas, tanto para o desembocar das ações ofensivas quanto defensivas. Eis por que afirmo ter sido o impacto sofrido por nossa tropa extremamente violento. Primeiramente, por estar posicionada sobre a direção estratégica na qual ambos esperavam decidir a guerra. Segundo, por ter sido utilizada como escudo que permitiu a reunião de mais de 20 mil combatentes naquele local por ambos os contendores. E, por último, por ter sofrido a ação direta de armas e homens dessa grande concentração de tropas no primeiro dia de combate, quando os efetivos empregados estavam ainda com o moral elevado e os níveis de suprimento  de munição completos. Essas são as observações que faço depois de

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longa experiência e estudos militares acumulados ao longo de 42 anos de vida exclusivamente dedicados ao Exército, onde por muitos anos tive a oportunidade de ser instrutor de operações militares para grandes comandos, na Escola de Comando e no Estado-Maior do Exército, no Rio de Janeiro. São Leopoldo, 19 de novembro de 2003. Assina o General-de-Brigada R1 Flávio Oscar Maurer. Tenho este documento aqui, Sr. Presidente, que depois gostaria de repassar para os senhores. Aliás, ele está com firma reconhecida. Gostaria agora de fazer o encerramento. Prezados Srs. Deputados, os relatos, os depoimentos que acabamos de ouvir fazem parte de um contexto histórico, não só de fatos ocorridos com o 20º Contingente, não só de fatos ocorridos com o nosso glorioso Exército, mas também de fatos que fazem parte da própria história universal. A importância desses fatos foi construída com sacrifício, com desprendimento e a dedicação de homens que ainda no alvorecer de sua juventude ergueram com dignidade a bandeira da paz na humanidade. Passados 36 anos, esses homens olham para aquele passado distante e vêem incrédulos apenas restos daquela obra jogados ao chão. Essa caliça esses homens enxergam envolta numa capa escura tecida de desinformação, de injustiça e de absoluto descaso. Enquanto esses homens se orgulham de terem servido a humanidade voluntariamente, o absurdo é que pessoas dotadas de estranhos princípios afirmam que o ato voluntário os desmerece e subtraem desses homens uma das maiores virtudes humanas, que é fazer o bem ao seu semelhante por sua própria iniciativa. Esses homens se orgulham porque serviram numa missão de paz, e cumpriram essa missão de paz até o fim; lograram o seu desiderato, sobreviveram porque tiveram equilíbrio, e só sofreram o sangue derramado porque houve despreparo, não deles, não de seus comandantes, não do nosso Exército o qual até hoje eles amam e se orgulham de terem pertencido. Tanto é que o Batalhão Suez, o 20º Contingente, ainda  

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continua desfilando e prestando honras à Pátria todos os 7 de setembro. Mas esse despreparo veio de quem na época regia os desígnios da Pátria, porque foi omissa. A guerra, Srs. Deputados, não queiram V.Exas. conhecer: é cruel, é sangrenta, é sórdida e absurda. E esses homens, na época quase meninos, conheceram-na muito bem porque participaram integralmente de todos os seus momentos. Mas a guerra muito mais violenta, Srs. Deputados, é essa que enfrentamos há 36 anos. Uma guerra de incompreensíveis fundamentos pátrios que atinge e desmoraliza esses soldados da paz, às vezes com pareceres hediondos e sem um mínimo de critério ou de desconhecimento. Mas sempre tivemos fé que um dia Deus mudaria os rumos desses desajustes. Sabíamos que um dia conseguiríamos, pelo menos, que nos ouvissem e que, pelo menos, tivéssemos oportunidade de ter alguém como V.Exas. que nos honrassem com sua atenção e para quem pudéssemos contar a nossa verdadeira história. Essa não é só a história do 20º Contingente, não é só a história dos soldados do Exército Brasileiro. Essa é a história de todos vós, porque sois brasileiros. Essa é a história de 317 brasileiros que ainda hoje guardam graves seqüelas da inesquecível Guerra dos 6 Dias! Sim. Somos apenas 317 e o aviltamento desse número fica por conta das desinformações mal-intencionadas que visam, unicamente, a descaracterizar a grandeza daquele feito, comparando essa missão com outras que, apesar do seu valor, nunca participaram de um evento desse porte e nunca foram abandonadas, como foi aquele Batalhão, naquela oportunidade. Por isso, sabíamos que este dia chegaria.Somos gratos a V.Exas. porque vieram aqui, porque nos ouviram e porque está nas mãos de V.Exas o reparo de um ato falho cometido no passado. Espero que Deus dê a V.Exas. luz e clarividência para julgar esse pleito. Pelo Brasil, com paz e justiça acima de tudo! Muito obrigado!

O SR. PRESIDENTE (Deputado Leonardo Mattos) - Obrigado, Sr. Wilton Melo Garcia. Concedo a palavra ao Sr. João Batista Bezerra Leonel Filho, Tenente-Coronel do Exército Brasileiro, que dispõe de 15 minutos.

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O SR. JOÃO BATISTA BEZERRA LEONEL FILHO - Exmo. Sr. Presidente da Mesa, Exmo. Srs. Parlamentares, senhoras e senhores, sou o Tenente-Coronel Leonel, integrante do Estado-Maior do Exército. Atualmente, trabalho na Seção de Operações de Paz, do Estado-Maior do Exército. Faremos uma breve apresentação, procurando ilustrar a todos os senhores quais são as características que abrangem a participação brasileira em operações de paz de modo geral. Peço à minha equipe que, por favor, inicie as projeções.(Segue-se exibição de imagens.) A participação brasileira em operações de paz, ela se estende, na história, até bem antes do desencadeamento da Segunda Guerra Mundial. Na realidade, os primeiros esforços que envolveram o Brasil no sentido de colaborar com a comunidade internacional para evitar conflitos de maior gravidade data ainda da época da Liga das Nações. Mas, realmente, a intensificação desse tipo de atividade se deu com a criação das Nações Unidas, que é a base do raciocínio brasileiro para envolvimento nesse tipo de operação. Faremos alguns comentários a partir de agora. Como ponto inicial, cabe ressaltar que o parâmetro principal para a participação brasileira em operações de paz é a nossa própria Constituição que, no seu art. 4º, estabelece uma série de preceitos, os quais ressaltamos aqui na cor vermelha, os principais, que são atinentes a operações de paz. Acredito que todos conseguem identificar, mas vou ressaltar alguns. Recentemente, a prevalência dos direitos humanos é, realmente, um aspecto de relevância; princípio de não-intervenção em assuntos internos dos Estados membros, ou seja, de toda a comunidade internacional. No caso das Nações Unidas, dos Estados membros das Nações Unidas; e, exatamente, a igualdade entre esses Estados. É claro que toda essa atuação também é principalmente balizada pela intenção de solução pacífica desses conflitos, que muitas vezes não é possível. Elaboraremos um pouco mais a esse respeito numa imagem a seguir. Além da Constituição, temos também a Lei nº 2.953, de 17 de novembro de 1956, que previu e foi elaborada com esse intento: o emprego de tropa brasileira em operações de paz, especificamente nesse caso a participação brasileira na região do Canal de Suez. O conflito ali ficou conhecido como Guerra de Suez, porque tudo começou com o assalto à região do Canal de Suez   realizada pela Inglaterra e França, com o apoio de Israel.  Isso foi o que

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desencadeou todo processo. Mais recentemente temos a Lei Complemente nº 97, de 9 de junho de 1999, que dá organização e estruturação ao Ministério da Defesa. E, pela primeira vez, temos o termo Operações de Paz aparecendo no arcabouço jurídico maior do País  Como parâmetro de referência menciono também que a Organização das Nações Unidas tem sido, ao longo desse tempo mais recente, o parâmetro principal dentro do qual o Brasil tem procurado se inserir. Dentro dessa realidade, quando falamos em Nações Unidas, temos obrigatoriamente que fazer menção à Carta das Nações Unidas, que tem nos Capítulos VI, VII e VIII aspectos diretamente relacionados com a necessidade de solução de conflitos entre as nações. Mais recentemente, inclusive, esses conflitos têm abrangido principalmente aspectos intra-estados, porque, quando da concepção da Carta, havia fatos que levavam a acreditar que esses conflitos seriam interestatais. Na realidade, hoje temos algo que na maioria dos casos tem se apresentado como conflitos intra-estatais. Cabe um pequeno esclarecimento sobre aspectos desses capítulos da Carta das Nações Unidas O Capítulo VI prevê a solução pacífica por negociação desses conflitos internacionais. Já no Capítulo VII a situação posterior que se imaginou na época da  elaboração da Carta das Nações Unidas prevê o uso de uma força militar e de sanções contra aqueles Estados que estivessem apresentando uma ameaça à paz e à segurança internacional. No Capítulo VIII temos a previsão de emprego de organismos regionais. Mais recentemente, apenas para ilustrar de forma mais prática, as ações ocorridas em Kosovo também se valeram desse artifício; ou seja, as Nações Unidas empregando a OTAN como organismo regional para realizar uma ação mais incisiva naquela parte do mundo. Outro comentário, como esclarecimento desses parâmetros, pode ser feito no sentido de que, quando se elaborou a Carta, não se anteviu a situação de emprego de força de paz; ou se solucionava tudo por negociação política e diplomática, ou se empregava força coercitiva para resolver o problema. Na realidade, o mecanismo elaborado e iniciado com a operação da Força de Emergência das Nações Unidas, no caso do problema desencadeado pelo Conflito de Suez, que mencionei anteriormente e ficou conhecido, no caso

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brasileiro, como Batalhão Suez, ou a Questão de Suez, esse episódio desencadeou uma nova tendência dentro das Nações Unidas para solução dos problemas. E qual foi essa tendência? Foi o que veio a ser chamado, inclusive por um diplomata brasileiro, do “capítulo seis e meio”, ou seja, a criação de uma força militar que não estaria exatamente fazendo aquilo que estava previsto no Capítulo VII (ação coercitiva), porque, na realidade, essa força militar estaria interposta entre as partes em conflito para evitar o desencadeamento mais acentuado de uma situação de conflito armado entre Estados membros. Então esse é um parâmetro bastante importante, mencionado em vários fóruns de debate, em ambiente internacional, para essa discussão sobre os Capítulos VI e VII. A próxima imagem, por favor.Temos também, como parâmetro de atuação, a participação do Brasil na Organização dos Estados Americanos — OEA. Lembro apenas que, quando se iniciou a Segunda Guerra Mundial, em 1942, para ser mais específico, envolvendo a América, os Estados Unidos e o Brasil, inclusive, em vista do torpedeamento de navios com a nossa Bandeira, o Brasil iniciou sua participação nesse fórum americano pela Junta Interamericana de Defesa, criada, na realidade, antes até da Organização dos Estados Americanos. Atualmente, essa Junta Interamericana de Defesa, que na imagem todos podem identificar como JID, é, na realidade, um braço de assessoramento técnico-militar da Organização dos Estados Americanos e atua em diversos programas, também mencionados na exposição. Ressaltaria principalmente, e será mencionado mais adiante, o programa de remoção de minas na América Central. Devido a uma série de conflitos desencadeados naquela parte do mundo, a Organização dos Estados Americanos elaborou, entre vários programas, um voltado para remoção de minas. Seu braço de execução é justamente a Junta Interamericana de Defesa, e o Brasil participa desse esforço também. Saindo então do escopo jurídico e entrando na parte operacional, podemos identificar nesse próximo quadro que a evolução da situação de conflito passa por diversas fases; não necessariamente todas, pode começar em qualquer ponto também. Gostaria apenas de apresentar mais especificamente o que temos descrito nessa ilustração. Todos podem

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observar que mais à esquerda há o aspecto denominado diplomacia preventiva; são todos aqueles esforços que ainda não envolvem o componente militar, porém já direcionados para a solução daquele conflito. No próximo item, na próxima figura, temos o que se convencionou chamar de esforços de consolidação da paz, ou seja, a criação ou o reforço de instituições e de infra-estrutura dentro de uma área de conflito para evitar que a situação se agrave ou volte a se agravar, garantindo, dessa forma, a situação de paz existente. Com esse escopo temos uma área para a qual não é denominado especificamente nenhum tipo de operação de paz, mas que, porém, é praticamente inerente em todo esse tipo de atividade: os esforços de assistência humanitária. Acredito que todos têm oportunidade de acompanhar pela televisão, jornais e revistas, nessas situações de conflito mais recentes, que sempre há a atuação desses componentes humanitários, sejam eles organizações vinculadas às Nações Unidas, sejam organizações não-governamentais ou até mesmo organizações patrocinadas por outros governos. A próxima etapa são os esforços de estabelecimento da paz, que envolvem de forma similar o que convencionamos chamar de diplomacia preventiva. No entanto, já existe, nesse caso, uma situação de conflito configurada. Na diplomacia preventiva a diferença é que o conflito ainda não está configurado. No estabelecimento da paz há a atuação política e diplomática, que pode ser associada a um componente militar para evitar desdobramento mais grave de uma situação de conflito já desencadeada. A próxima etapa, que é a maioria dos casos e onde se desenvolve a participação brasileira, são os esforços da manutenção da paz em que uma força é interposta numa situação de conflito para evitar que esse conflito realmente se agrave. A diferença entre a manutenção de paz e o estabelecimento da paz é que nesta já há uma situação de conflito praticamente configurada. No caso da atuação brasileira no Oriente Médio, nas décadas de 1950/60, foi exatamente o caso de uma operação de manutenção da paz. Gostaria de chamar atenção, rapidamente, para as etapas que agora que iremos mencionar: manutenção de paz e imposição da paz. Na imagem podemos verificar isso, tanto no eixo das abscissas e quanto no das ordenadas aqui, 

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levando a questão para o lado cartesiano. Temos aqui o nível de violência, porque ele é crescente, ele vem crescendo ao longo dessas etapas que mencionei; e também temos o nível de consentimento. E o que caracteriza uma operação de manutenção da paz é que existe um elevado nível de consentimento das partes envolvidas, sem as quais, muitas vezes, não há participação da própria Organização das Nações Unidas. O Brasil tem por parâmetro político e estratégico, ao longo de sua história, procurado atuar apenas quando esse nível de consentimento é mais elevado, é aceitável. Não existe exatamente um parâmetro definindo em que situação se vai aceitar uma operação de participação, operação de paz ou não. Mas cabe ressaltar que o nível de consentimento que envolve essa operação é algo bastante relevante. E justamente, inversamente proporcional ao nível de consentimento, temos exatamente o nível de violência, que é a outra situação: a imposição da paz. Na situação de imposição da paz o nível de consentimento é mínimo e o nível de violência é mais elevado, o que leva a situações previstas no Capítulo VII, mencionado anteriormente, na Carta das Nações Unidas, onde se decide que independente da aquiescência das facções envolvidas haverá uma atuação da Organização. Dentro de todo esse contexto apresentado, observamos que ao longo da história — e aí recusamos ao tempo ainda da Liga das Nações — alguns aspectos que têm marcado a atuação brasileira, em que esses aspectos são reconhecidos internacionalmente. Inclusive posso reforçar isso porque, dentre as várias experiências profissionais que tive, consideravelmente recente, foi integrar uma missão permanente do Brasil junto à ONU. E, dentre as várias atividades que são desenvolvidas por aquele órgão do nosso Governo, muitas delas, no caso do segmento militar, que era o que eu integrava, estavam relacionadas operações de paz. A competência brasileira, o histórico de credibilidade e a importância que é dada ao Brasil nessas operações é realmente algo que se destaca. Mesmo já tendo nosso nível de participação decaído, por uma série de motivos, o fato é que o Brasil tem um histórico de competência, um histórico que nos pode assegurar uma situação bastante tranqüila em termos de credibilidade nesse campo de atuação. Então, isso é algo que gostaria de frisar e deixar mais detalhado com a imagem em tela. Principalmente, temos nossos preceitos, que envolvem um pragmatismo, com critérios, 

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seletividade e uma análise dos interesses nacionais, o que nos leva a pesar custos e benefícios. Digo isso por mais óbvio que possa parecer, fazendo uma menção a esse aspecto, principalmente nessa experiência recente no ambiente das Nações Unidas, porque podemos identificar que a maioria dos Estados membros das Nações Unidas não tem essa preocupação. Os interesses que regem a necessidade de participação em uma operação de paz são bem diversos, muitas vezes contra os interesses nacionais do país que esteja participando. A história brasileira, pelo contrário, afirma isso categoricamente, a cada análise, que pode ser feita sob diversas participações brasileiras, que nós nos prendemos a esse pragmatismo aí, com esses aspectos mencionados. Nossa postura é independente, equilibrada e cautelosa. Muitas vezes, menciona-se que a participação em operação de paz é um maná de onde advêm apenas benefícios. Temos exemplos recentes. O Brasil não estava envolvido em nenhuma dessas situações, mas teve atuação como Estado membro em uma situação em que não houve uma análise política e estratégica criteriosa, em que não houve uma análise dos interesses nacionais nem do que se estava enfrentando, e isso acabou redundando em um revés tremendo para esse Estado membro, no âmbito internacional e mesmo internamente, do próprio Estado mesmo. Vários casos reforçam essa nossa postura de que realmente é muito importante que haja essa cautela quando se decide participar de uma operação de paz. Um outro aspecto interessante é a busca dessa participação com auto-suficiência e segurança. A Organização das Nações Unidas é uma estrutura que tem suas deficiências. Muitas vezes espera-se muito da Organização das Nações Unidas e o que se espera não acontece, principalmente num ambiente sob estresse, muitas vezes com um grau considerável de caos; a ONU simplesmente não consegue responder à altura, e o estado-membro que está participando daquela operação de paz muitas vezes fica surpreendido com algo que já era de se esperar. Isso também tem ocorrido recentemente. O Brasil já de longa data vem aprendendo, ao longo do tempo. Isso hoje é um marco na nossa participação. Nós sempre sabemos que estamos sob a égide das Nações Unidas, ou da OEA, ou do que seja, mas procuramos sempre nos prover de um grau mínimo de auto-suficiência que nos garanta o poder de influenciar no andamento daquela  

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determinada situação, para justamente obtermos, digamos, um resultado final melhor. Um outro aspecto, que também tem bastante a ver com os itens que mencionei do art. 4º da nossa Constituição, é justamente a valorização do consentimento, da imparcialidade, e mais recentemente do caráter multidisciplinar de uma operação de paz. Então, hoje a própria preparação dos nossos militares não envolve apenas a atuação militar. Sabemos que existem diversos componentes humanitários, legais, que fazem parte da operação e a que é atribuída uma importância grande, porque o sucesso da missão muitas vezes depende mais desse componente multidisciplinar do que daquelas características puramente militares. Nossa participação pode ser resumida em 3 etapas. Até 1967 nós tivemos uma participação no Congo, na República Dominicana e na própria região do Suez, como já mencionado aqui. Depois houve um lapso, um período no qual o Brasil não teve qualquer participação. Essa participação foi novamente incentivada a partir de 1989, com diversas missões na África, no continente americano e na própria Europa.Um caso que vale a pena ser mencionado com destaque é justamente o mais recente, o de Timor Leste. Acredito que a maioria aqui ainda tem isso bem vivo na memória. Ali caracterizou-se uma nova situação, em que um determinado estado-membro, no caso a Indonésia, que tinha dentro do seu território uma área que não conseguia mais gerenciar, solicitou a atuação da Organização das Nações Unidas no sentido de procurar amenizar aquela situação catastrófica que estava sendo vivida ali nos idos de agosto a setembro de 1999, quando, após uma consulta popular sobre a situação política daquele território, houve uma série de atrocidades de toda ordem. Nesse caso de Timor Leste, houve uma resposta nacional que realmente entra como um marco da nossa participação em operações de paz, porque no espaço de 2 semanas o Brasil conseguiu dar uma pronta resposta a uma situação gravíssima que ocorria do outro lado do mundo. Essa tropa brasileira foi preparada — e era altamente qualificada — e enviada nesse espaço de praticamente 10 dias. Em 10 dias já estávamos do outro lado do mundo em condições de contribuir para o desencadeamento da operação. E cabe aqui ressaltar que na época — inclusive recordo-me bem disso — houve uma série de considerações sobre o tamanho da força que estava sendo enviada. Era um pelotão de polícia do Exército. Enfim, havia outras

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considerações. Indagava-se, por exemplo, o porquê do tamanho daquela nossa participação. Mas o aspecto crucial, e isso nós vivemos na missão permanente do Brasil na ocasião, era o apoio político da Nação. Quer dizer, uma análise criteriosa do que realmente representava aquela atuação para o Brasil foi feita, e a decisão trouxe imensos benefícios para a imagem do País, com essa participação. Na época, inclusive, o Brasil integrava o Conselho de Segurança das Nações Unidas, que na ocasião foi o órgão que deliberou sobre a criação daquela força multinacional. Não era uma operação de manutenção da paz; era uma força multinacional, sob a liderança da Austrália. E essa atuação, que foi um marco, volto a repetir, é um exemplo bem claro da atuação brasileira em operações de paz. Com ela o Brasil pôde acrescentar à sua já bastante considerável  credibilidade mais esse reforço. Vale a pena mencionar isso, motivo por que foi colocada em destaque. Próxima imagem, por favor. Vou tentar não me exceder no tempo. Nessa transparência há um resumo, em termos numéricos, da nossa participação. Houve ao longo do tempo 29 operações de paz desde a criação das Nações Unidas. Aí nós listamos essas operações desde 1956, quando ocorreu a primeira operação de manutenção da paz das Nações Unidas, que foi a da UNEF. E 24 dessas 29 operações ocorreram sob a égide da ONU, 3 sob a égide da OEA, e 2 ainda estão em andamento. Tivemos uma participação na Missão de Observadores Militares Equador-Peru — MOMEP, desencadeada de 1995 a 1999, sob a égide do Protocolo do Rio; tivemos ainda participação na força multinacional de atuação no Timor Leste, a INTERFET, sob a liderança da Austrália, mas sob mandado do Conselho de Segurança. São coisas diferentes o mandado do Conselho de Segurança e a liderança da operação militar, exercida pela Austrália. Próximo quadro, por favor. Esse quadro é apenas para detalhar um pouco mais a nossa participação. Trata-se de um mapa-múndi adaptado às oportunidades de que o Brasil participou. Destaco que as que se encontram na cor azul claro ainda estão em andamento. Temos uma operação hoje na Costa do Marfim, com oficiais do Estado-Maior trabalhando lá. Temos na América Central a remoção de minas, sob a égide da Organização dos Estados Americanos — OEA. Além disso, entre o Equador e Peru temos supervisores, também de desminagem, trabalhando ainda naquela área em que, apesar de já ter praticamente sido solucionado, ainda há resquícios do conflito, e nós temos participação lá também. Temos

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participação, com 1 oficial e 1 sargento, dentro do estado-maior do batalhão argentino no Chipre, e temos também a nossa atuação no Timor Leste, que está para ser encerrada a partir do meio do ano que vem. Um aspecto interessante a ser comentado é o fato de que todas essas atuações envolveram um contingente da ordem de 12.500 militares. Isso foi apresentado no quadro anterior; eu apenas esqueci de mencionar. Então, ao longo do tempo, tivemos os diversos contingentes etc. Nós podemos fazer essa ressalva.Ainda para aproveitar essa transparência, há um outro aspecto que eu gostaria de ilustrar. É que dentre essas várias operações tivemos duas que foram um marco, além da relativa à Timor Leste, é claro. Refiro-me à nossa atuação em Angola — durante 2 anos, mantivemos lá um contingente de 1 mil homens — e também na República Dominicana; na época em que ela foi desencadeada, em meados da década de 60, havia ali um verdadeiro banho de sangue, e nessa ocasião, especificamente, as tropas brasileiras envolveram-se em combates em algumas localidades — isto é, foram envolvidas no meio daquela situação. A próxima transparência, por favor. Essa também é bastante resumida. Trata-se de um detalhamento daquilo que eu já havia comentado antes, ou seja, as nossas missões em andamento e a participação brasileira hoje nessas operações. Cabe ressaltar também que, trabalhando no Estado-Maior do Exército especificamente com operações de paz, o Brasil tem sido requisitado ao longo do tempo em diversas situações em que praticamente se deseja com muito ardor que o País seja um dos integrantes dessas operações. Na nossa análise, esse ponto eu acho interessante, porque realmente é um diferencial da posição brasileira a capacidade de análise político-estratégica. O Brasil tem essa capacidade confirmada na prática pelos resultados obtidos no campo. Muitas vezes nós enaltecemos aqui a atuação dos nossos militares, e não nos cansaremos nunca de fazer isso; eles sempre se têm apresentado muito bem nessas operações. Mas a presença do militar lá no seu posto de sentinela, com um fuzil na mão, tomando tiro ou não, é conseqüência de todo um processo de análise ocorrido anteriormente. Nós temos que primar sempre pela excelência desse processo, porque o resultado lá no campo é conseqüência de muita coisa que já aconteceu antes, principalmente nessa parte político-estratégica. Essa é 

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 praticamente a transparência final. Dentro da nova concepção de trabalho da Organização das Nações Unidas, diversas iniciativas para agilizar a ação da OUN têm sido tomadas; uma delas é o estabelecimento de um sistema de pronto emprego, do qual o Brasil participa, e hoje tem esse efetivo mencionado aí na transparência, com o Batalhão de Infantaria, um Esquadrão de Cavalaria Mecanizada, que basicamente fornece os blindados a esse batalhão, uma Companhia de Engenharia e um pelotão de polícia do Exército, tropas que, além das atribuições constitucionais normais, são o que chamamos no Exército de vocacionadas para operação de paz. Então, elas têm toda uma parte do seu adestramento voltada  especificamente para operação de paz, frisando esse enfoque mais complexo, multidisciplinar, que recentemente tem sido não diria apenas muito cobrado, mas mais reforçado na operações mais recentes de que o Brasil tem participado e as que têm ocorrido mundo afora. Com isso, quero agradecer a atenção de todos e dizer que o Exército Brasileiro se orgulha muito dos seus efetivos que têm participado dessas operações. As situações por que passam essas Forças são as mais variadas possíveis, e envolvem diversos componentes que não só os operacionais, mas componentes políticos, econômicos e sociais, e com tudo isso o Brasil tem tido uma atuação destacada nessa área. Acreditamos que ainda temos espaço para melhorar sempre, e estamos trabalhando para isso. E, independentemente dos fatos ocorridos em determinados tipos de missão no passado, todos esses fatos serviram para que tenhamos essa imagem internacional destacada do Brasil. Acreditamos, repito, que isso permanecerá para o futuro, melhorando sempre e cada vez mais a imagem do País.

Muito obrigado, Sr. Presidente. É só.

O SR. PRESIDENTE (Deputado Leonardo Mattos) - Somos nós que agradecemos a sua contribuição, Sr. João Batista Bezerra Leonel. Para concluir, passamos a palavra ao Sr. Antonio Carlos, Coronel do Exército Brasileiro. V.Sa. também dispõe de até 15 minutos.

O SR. ANTONIO CARLOS - Sr. Presidente, Srs. Parlamentares, senhoras e senhores, sou o Coronel Antonio Carlos, Subdiretor de Inativos e Pensionistas do Exército.  

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Particularmente, a organização a que pertenço, a DIP, trata não só da concessão das pensões referentes aos militares, mas também dessas pensões especiais aos que chamamos, nos casos específicos, de ex-combatentes. A informação técnica que temos e de que podemos dispor é a de que essas pensões especiais que implantamos no Exército, referentes à 2ª Guerra Mundial, há aproximadamente 28 mil pessoas recebendo-as. Como esclarecimento, do efetivo da 2ª Guerra Mundial, entre cabos e soldados especificamente, que foram aqueles temporários que participaram do evento, tínhamos aproximadamente 15 mil militares. Hoje, como disse, pagamos aproximadamente 28 mil pensões. Então, a pensão nunca vem só. Sempre devemos considerar os dependentes que serão beneficiados por elas. Como o próprio nome diz — pensão especial —, não há uma contribuição durante a vida por parte dessas pessoas para esse benefício. O valor atual aproximado dessas pensões, pago mensalmente, gira em torno de R$ 2 milhões e 200 mil. Essas são as informações técnicas de que a Diretoria de Inativos e Pensionistas dispõe e pode fornecer aos Srs. Parlamentares para, na análise dessa questão atual, terem o conhecimento do montante que poderá advir da concessão ou não desse benefício pleiteado. Eu gostaria de acrescentar ao que o Coronel Leonel já mencionou aqui que a operação de manutenção de paz traz no próprio conceito, em seu bojo, o risco iminente. Então, quando a tropa é colocada numa situação de manutenção de paz efetivamente está correndo risco. Essas informações técnicas, como disse, temos à disposição. Àqueles que se interessarem, a DIP fornecerá com a maior presteza esses montantes, esses valores, esses dados efetivos, porque eles com certeza fundamentarão ou servirão como base de raciocínio para qualquer estudo. Esta é a participação da diretoria. Não tenho mais informações a prestar acerca desse assunto, porque a participação da DIP, como eu havia dito inicialmente, é de informação, para consolidação de idéias que possam servir para o estudo, para a análise da questão.

O SR. PRESIDENTE (Deputado Leonardo Mattos) - Muito obrigado, Coronel Antonio Carlos.  

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Parece que o Deputado Pompeo de Mattos deseja manifestar-se. V.Exa. tem a palavra.  

O SR. DEPUTADO POMPEO DE MATTOS - Quero cumprimentar o Presidente desta reunião e dizer que estou ainda com um pouco de dificuldade para falar, porque me submeti a um procedimento odontológico que exigiu anestesia, e ainda estou anestesiado. Primeiro, quero cumprimentar cada um dos que aqui se manifestaram: o Sr. Manoel, que se emocionou, o Sr. Paulo, o Dr. Fabrício e também o Coronel Antonio Carlos e o Tenente-Coronel João Batista, bem como Wilton. Na verdade, sou o autor do projeto que tenta reparar aqueles que estiveram no Suez, especialmente esse batalhão. E não por coincidência, ou — quem sabe? — por coincidência, o colega Deputado que está presidindo é o Relator, numa outra Comissão, do projeto. Vejam que coincidência! E nós 2 somos da mesma...

(Intervenção fora do microfone. Inaudível.)

O SR. DEPUTADO POMPEO DE MATTOS - Ah, e é Mattos também, não é? (Risos.) Os 2 são Mattos. Então, vejam bem, é um tema palpitante; é um tema, na Casa, recorrente; não é a primeira vez que se trata disso em termos de projeto, mas é a primeira vez que estamos colocando isso para fora. Não havíamos tido esta oportunidade antes, especialmente a oportunidade de ouvir o Exército Brasileiro, pelo qual eu tenho uma admiração muito grande. Acho que nosso Exército é modelo, especialmente nessas missões. Acho que estamos mais preparados para elas do que para a guerra. Sabemos fazer isso aí, e foi exatamente em função disso que me preocupei e me propus a defender essa tese, enfim, a ir a fundo, porque na verdade temos falado desse assunto, mas sempre de forma superficial. Eu ia passando e dizendo: “Olhe, encaminhei o projeto, fui lá, e o parecer foi contrário, o voto na Comissão foi o de remeter ao arquivo”. No outro ano apresentava-o de novo e o parecer era o mesmo; copiava-se até o “arquive-se”. E eu não quero mais isso. Acho que isso não tem fundamento. E nesse aspecto a Câmara dos Deputados e o Deputado autor prestam um desserviço, e o Relator também, porque não têm um fato novo, não aprofundam a questão, não vão à essência, não vão à raiz. Hoje deu bem para ver a diferença aqui, começando pela manifestação do Exército. Ouvi a brilhante manifestação do Tenente-Coronel João Batista.

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Excelente! Fiquei todo faceiro ao ouvir o representante do nosso Exército contar as missões que ele cumpriu, as tarefas que desempenhou, enfim, os atos de que participou, as operações —  especialmente essa do Timor, de que participaram muitos gaúchos; então, lá no Rio Grande essa missão tocou muito as pessoas. A mim me tocou muito. Eu não servi o Exército. Lamentavelmente não servi o Exército, porque acho que não tinha o tamanho certo. Na verdade, no meu Município éramos dispensados na época. Mas eu queria muito servir o Exército, era meu desejo servir o Exército, e eu dizia ao meu pai que era o que eu queria. Não tive oportunidade, mas, se eu pudesse ter tido, eu ia querer servir numa operação dessas. Melhor ainda! Acho que isso orgulha a Pátria. Quem pode servir a Nação nessas condições pode contar para o mundo; se não para todo o mundo, pelo menos para o mundo dele, onde ele se envolve. Isso é muito bonito. Ouvi a manifestação e fiz algumas anotações. Por exemplo, o Brasil participa — é o primeiro item, que me parece o mais importante — com um alto nível de consentimento. Quer dizer, vamos não porque queremos, mas porque nos convidam, porque precisam de alguém, e dentre os de que precisam já estão preferindo os brasileiros, porque temos mais jeito. Acho que é isso. Queixamo-nos do jeitinho brasileiro, mas é o melhor jeito do mundo. O brasileiro sabe adaptar-se muito facilmente às situações adversas, tem a capacidade fundamental de improvisar, uma característica nossa muito demonstrada no futebol. Às vezes a jogada sai por onde menos se espera, como aquela jogada do Pelé, a do gol que ele não fez, depois de driblar Mazurkiewsk, o goleiro do Uruguai, um drible em que passou o pé por cima da bola, e ela, caprichosamente, não entrou; se entrasse talvez não tivesse sido tão eloqüente aquela jogada. O bonito foi tudo aquilo. Enfim, temos essa capacidade. E tendo ouvido a manifestação do Exército, de tudo que foi dito não tenho um reparo a fazer. Nada! Aliás, só tenho a elogiar. E em tudo que o Exército disse não há um reparo ao meu projeto. Então, o que vai daqui para lá é o que vem de lá para cá. O Exército não fez uma vírgula de reparo. Que bom que o Relator está aqui! Somos colegas aqui. O Deputado Leonardo Mattos está no primeiro mandato. É um excelente Deputado. Eu já estou um pouco escolado na Casa. Mas o Exército não fez um reparo ao meu projeto, e aquilo que mencionou reforçou a minha convicção. Vim a esta audiência pública até nem tão desanimado, nem tão convicto,mas muito curioso de saber para que lado pendiam  os

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argumentos, e saio daqui convicto. Se antes apresentei o projeto e não fazia tanta defesa dele, agora vou pegar em armas para defendê-lo, armas de argumentos. Vou esmerar-me para fazer a defesa desse projeto, até porque, no caso específico, o Brasil, com o Batalhão do Suez, foi para lá por consentimento de ambas as partes, a convite. Não sozinho, mas com outros países, todos juntos, sob a bandeira da ONU, tudo como manda o figurino, exatamente como requerem as regras; só que num determinado momento isso desapareceu. No caso desse batalhão, isso desapareceu. Na medida em que a ONU disse: “Olhem aqui, eu estou fora”, a primeira coisa que eu teria feito, como dirigente, seria dizer: “Saiamos também, e ligeiro”. A primeira coisa teria sido pedir que saíssemos junto com a ONU. Não havia como ficar. Mas não, o Brasil ficou, seguindo o mesmo raciocínio: são forças de paz. Vão as força de paz. Vamos dizer desta forma: a ONU retirou-se. É um fato relevante. Mas imaginemos que não houve a guerra. A ONU retirou-se, mas não houve a guerra. Bem, não se completa, parece-me que não se completa aquilo que pretendo que seja contemplado pelo meu projeto. Não houve a guerra. Mas no caso específico, houve. A ONU se retirou, então, já não era mais uma força de paz da ONU. O Brasil foi para uma missão de paz, mas tomou outro caminho. E esse outro caminho se desencadeou com a operação de guerra no DEA. Isto é, se consumou todo um processo. Quero ficar longe dessa situação. Está claro que é um caso excepcional. Não há como comparar o que esse batalhão passou com o que se vislumbrou no Timor Leste, com Xana Gusmão. Não há o que se comparar, é diferente. Pode-se dizer que os dois são líquidos, mas um é água, o outro, azeite. Não confundamos. Na mesma linha de raciocínio, o grau de perigo. A água ferve quando atinge 100 graus. O perigo é a fervura, não tinha mais o que acontecer de perigoso. Mais perigoso do que isso é a morte, se é que a morte é perigosa, porque depois dela não há perigo. Está morto. A tropa do nosso batalhão foi sob orientação da ONU, que se retirou. A tropa ficou, os dois se pegaram. A tropa não tinha para onde ir, ficou à deriva. Ouvia-se tiro de lá e tiro de cá. E entre o mar e o rochedo, quem apanha é o ma isco, porque era Israel  batendo, e batendo forte. O mais engraçado é que eu me lembro, gurizote, no interior. Escutava isso no rádio. Meu pai era muito ligado, até vendia 

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rádio, aquelas caixas de abelhas bem grandes. Colocava na ponta da taquara um fio para pegar as rádios mais longe ainda. Eu me lembro disso, mas nunca imaginei que poderia estar aqui para ser um pouco protagonista desse fato. A verdade é que é algo relevante. O Coronel Antonio Carlos fez outra afirmação que considero mais relevante ainda para aumentar minha convicção no projeto que apresentei, que não é meu. Esse projeto não é meu, já era de outro, só examinei o código, porque uma hora temos que decidir, mas decidir mesmo, não passar a mão por cima, deixar para o lado, não acantonar — essa expressão bem singular foi usada —, mas que seja aprofundado e, de uma vez por todas, tirado o manto da dúvida que possa haver sob qualquer aspecto. De um e de outro lado. Se eu me convencesse de que esse batalhão é mais um nesse processo, diria para clarearmos isso. É mais um, não adianta querermos tapar o sol com a peneira, queremos fazer o jogo da verdade. E eu, ao observar o jogo da verdade, vejo que ela está com o batalhão de Suez. Posso parecer suspeito, porque sou autor do projeto, mas digo isso com muita convicção. Eu dou um boi para não entrar na briga, depois abro a porteira para não sair dela; dou uma tropa para enfrentar. Acabei de abrir a porteira, agora vou brigar por isso. O Coronel Antonio Carlos disse que a Força Expedicionária Brasileira tem 28 mil pessoas, um contingente muito grande. Inicialmente, eram 15 mil, veio mais um, veio outro. Sei, por exemplo, que foram contemplados nessa lei que deu a aposentadoria especial à Força Expedicionária Brasileira os nossos pracinhas, os integrantes da Marinha Mercante. Eles estavam negociando, como diz o meu pai, era um bolicheiro de alto mar — lá no Rio Grande usamos essa palavra. Bolicheiro é quem tem uma casa de comércio no interior que vende querosene; naquele tempo, vendia-se até gasolina, óleo diesel, vendia-se remédio, vendia-se fazenda, tecido em metro, cachaça em metro, só não embrulhava. Mas eram aqueles bolicheiros de campanha. Eram comerciantes que comercializavam no seu negócio e foram contemplados. Alguns nem foram para o teatro de operações e ficaram aqui na retaguarda, na expectativa de ir e se beneficiar. Se nem ouviram um tiro, imaginem se viram. Na minha cidade, Santo Augusto, fui Prefeito e criamos um

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monumento aos expedicionários. Havia dois vizinhos nossos que foram expedicionários, e o presidente dos expedicionários, no Rio Grande do Sul, amigo do Deputado João Luís, e eu fizemos uma homenagem na Assembléia Legislativa. Os expedicionários brasileiros e os expedicionários gaúchos estão no meu coração. Não estou contra eles. Estou fazendo uma leitura, um diagnóstico, para ver se aqueles merecem, e merecem, tanto quanto merecem os daqui, nesse caso específico. Não se trata, Deputado Mattos, de contemplar os boinas-azuis, não. Não se trata disso. É que se passa essa impressão. No começo, até eu pensava assim. Depois, cheguei à conclusão de que não era isso. Vou comprar essa briga, meio sem convicção, mas vou pagar para ver. Hoje, eu coloco os trocos na parada para apostar nessa visão que tenho de que é possível. São 28 mil da Força Expedicionária Brasileira. Inicialmente, eram 15 mil. Nesse aspecto, vai um reconhecimento a uma das poucas coisas com as quais eu concordei na reforma da Previdência. Briguei muito porque havia filhas de expedicionários, gente da Guerra do Paraguai ainda recebendo. Existem pracinhas que recebem, não sei quem, que passou para não sei quem, não sei quanto. Fiquei sabendo de um caso específico de um coronel que faleceu moço. A sua viúva, muito jovem, tinha vinte e poucos anos, viveu até os 70 anos. Quando ela morreu, ficou para as filhas, que não tinham casado, eram solteiras, e não casavam para ficar recebendo. Foi uma fortuna o que a Nação pagou por causa desse coronel. Não estou culpando o coronel, que morreu — que Deus o tenha —, muito menos a viúva, que se foi, ou as filhas, que recebem, mas o encaminhamento errôneo que a legislação deu. Isso requer que tenhamos o cuidado de, antes de aprovarmos um projeto, fazer uma audiência pública, para clarear o Deputado Mattos, Relator, para que veja como as coisas funcionam, e para que eu mesmo, como autor do projeto, me convença. Se antes eu estava com vontade, agora, então, saio peleando.No caso específico da proposta do Presidente Lula, corrigiram-se todas essas distorções. Isso não mais acontecerá — ficar acumulando, arrumando emprestado, ajeitando, acertando, montando esquemas, não se casando. Há netas de alguns coronéis ou de tenentes, de praças até, pessoas que se casaram com o Exército. No Rio Grande do Sul, há também da Brigada Militar e do Poder 

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Judiciário, do Instituto de Previdência do Estado. Se se casava, perdia-se a pensão, se não se casava, não se perdia. Agora isso vai mudar. Trata-se de distorções que não são culpa do Exército. A culpa é nossa, minha, Deputado Mattos, da Câmara dos Deputados, do Senado Federal, do Congresso Nacional. É nossa a culpa. O Exército não tem culpa. Aliás, eu sei que o Exército até se empenhou para corrigir as distorções, que foram corrigidas agora, nesse projeto que, para mim, é exagerado. Votei contra o projeto da Previdência, mas havia alguns pontos positivos, e esse era um. Apresentei um projeto dessa natureza, que não foi aprovado, mas foi incorporada a minha idéia, que era a idéia de tantos, porque as idéias são plúrimas, de muitas pessoas. Essas instruções não vão para esses praças do Batalhão de Suez. É bom repetir aqui — merece atenção especial — que são só 317, não 318, 319, 3.170, ou 31 mil. Com esta audiência pública, conseguimos desnudar o fato. O rei está nu. Para mim, está muito claro. Não quero aqui, absolutamente, fazer qualquer comparação ao ponto de dizer que o pessoal de Suez é igual ao da FEB. Não é, porque há alguns na FEB que passaram por situações muito menos importantes do que os de Suez e estão recebendo. Acredito que a grande maioria dos praças da Força Expedicionária Brasileira passou por agruras, por situações de guerra. Mataram, viram morrer de um lado. Eu diria que Suez está nesse interregno, está nesse ínterim, está nesse intermédio. Como tal, a Nação brasileira, que já errou com eles, não podia tê-los abandonado lá. Errou e errou feio. Errou e errou de novo. Quando eles voltaram, não podia ter mandado para casa esses guris. Tenho certeza de que o Exército Brasileiro não faria isso hoje, Tenente-Coronel João Batista. Eu duvido que V.Sa. fizesse isso hoje com seus soldados. Nenhum sargento, nenhum tenente, nenhum capitão, nenhum tenente-coronel, que é formado, é graduado, é capacitado, é preparado, largaria esses piás, essa gurizada na rua e diria: “Agora se virem.” O Exército Brasileiro, hoje, não faria isso. Foi orientação que veio de cima. Já falaram mal do Exército. Sou funcionário do Banco do Brasil, já falaram mal do Banco do Brasil e falam mal de instituições. Quando tenho oportunidade, sempre digo que as instituições são instrumentos de Governo, como é o Banco do Brasil, como é o Exército. O Governo dá orientação, dá diretriz, dá o rumo, dá o norte,  

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dá a direção. Se o Governo é militar, a direção é uma; se o Governo é civil, a direção é outra; se o Governo é democrático, a direção é essa. Nós sabemos, os exemplos estão aí. Por isso que eu digo que as instituições são instrumentos do Governo, das políticas de Governo, que se ajustam. Para melhor compreender as instituições, não sendo mal entendido, eu as comparo como uma faca. Para que serve a faca? Para um monte de coisa, depende de quem a segura. A mesma faca na mão de um trabalhador é ferramenta; na mão da dona de casa, é usada para preparar o alimento; na mão de um colono, para falquejar, por exemplo, um galho de guamirim, a fim de fazer um canzil para os bois; na mão de um bandido, para matar. A faca é a mesma. Qual é a diferença? A mão que manipula a faca.

(Intervenção fora do microfone. Inaudível.)

O SR. DEPUTADO POMPEO DE MATTOS - Exatamente. Isso vale para as instituições. As instituições sobre uma diretriz adotam uma postura; as instituições sobre outra diretriz adotam outra postura. Estamos agora em uma postura de uma diretriz democrática, de um Presidente democrático, eleito legítima e  reconhecidamente, com o meu voto inclusive. Temos algumas divergências na forma de fazer, mas chegamos junto. O Governo reconhece — e eu entendo que precisa reconhecer — a questão do Araguaia. E vou mais longe, não só do lado dos guerrilheiros, mas também do lado do Exército, que, eventualmente, tenha sofrido algumas ações. Penso nos dois lados. Sou filho de um agricultor que ficou preso, em 1964, por 40 dias. Eu tinha 5 anos e vi quando ele foi preso. Meu pai era do grupo dos 11. Ele era líder dos semterra. Na verdade, era um colono que queria colonização agrária, não era nem reforma agrária, porque era tudo mato. Eles tinham de desbravar e entrar mato adentro. E meu pai liderava. E muito brizolista, por conta daquilo, enfim. Mas eu vou culpar o soldado que foi lá? Não. Como vou culpar, se o soldado foi cumprir ordem? Então, cumpria a diretriz. É hora de recuperarmos e resgatarmos. Se estamos revolvendo os ossos do Araguaia, se vamos reconhecer e respeitar o trabalho do Exército naquilo que foi atingido eventualmente, se vamos acertar contas com o nosso passado no País, como não vamos acertar conta com o passado do Batalhão de Suez? E no meu caso, ainda, gaúchos. Até passou a minha anestesia.

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Já estou começando a falar. Aqueci. Tomara que me faça bem. Como é que vamos esquecer isso? Quero, então, pedir ao Deputado Leonardo Mattos para que possamos discutir esse assunto e fazer dele um tema da nossa Comissão. Há pessoas passando fome e miséria, loucas da cabeça, tontas das idéias. Esse é o meu jeito de falar, não tenho as palavras da psicologia utilizadas para diagnosticar as angústias dessas pessoas. Há quem durma com a luz acesa, porque ficou com traumas. Se temos de acertar a conta com o nosso passado, não nos esqueçamos dessa continha que é bem pequena. O Brasil não precisa pagar esse mico com 317 pais de família. Não precisa. E não é grande coisa. Podemos fazer um bom entendimento e um bom encaminhamento. Era o que eu tinha a dizer. Quem sabe exagerei, mas falou o coração de alguém que assimilou essa idéia, compreendeu, entendeu e se inseriu no contexto.Agora estou junto e vou pelear.

Muito obrigado.

O SR. PRESIDENTE (Deputado Leonardo Mattos) - Nós é que agradecemos.

Deputado Promotor Afonso Gil, V.Exa. deseja se manifestar? V.Exa. solicitou anteriormente.

O SR. DEPUTADO PROMOTOR AFONSO GIL - Vou fugir um pouco do assunto. Acho que o Deputado do PDT, camarada nosso, deveria ir para o Exército, embora um pouco velho. Para entrar é preciso ter 18 anos, ele está com 50 e não pode mais entrar. Já se fecharam as portas. Se fosse entrar, seria como cabo ou soldado, e ele não vai querer, porque é Deputado Federal. Eu gostaria de fazer um registro perante V.Exas. Todos aqui merecem ser chamados de Excelência, seja o coronel, seja o capitão, seja o Presidente da Mesa. Em 1964, quebraram a ordem democrática, houve um golpe, assumiu o poder o General Castelo Branco, que é primo legítimo de meu pai. Jogávamos baralho com ele lá em casa. Sua esposa, D. Argentina, gostava de mim e me carregou nos braços em Belém do Pará, quando ele foi comandante da 8ª ou 4ª Região Militar. Digo aos senhores o seguinte: torturaram, perseguiram, mataram nossos amigos. Foi uma guerra entre a democracia e a ditadura. Quero deixar registrado aqui que não me refiro àquela turma do CENIMAR, da Marinha, à turma do Exército que torturava e matava. Refiro-me ao Exército, que sempre foi democrático, às Forças Armadas, que sempre foram democráticas. As Forças Armadas de um Carlos

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Marighella, daquele rapaz que morreu na fronteira da Bahia, Capitão Carlos Lamarca. Essas são as Forças Armadas deste País, e não a força reacionária, retrógrada que entregou este País ao Fundo Monetário Internacional. Depois, vieram dizer que fizeram obras faraônicas. Fizeram, sim: a Transamazônica, a Ponte Rio-Niterói, grandes obras, mas endividaram este País até a medula. Ainda hoje nós, civis, militares, trabalhadores da construção civil, donas de casa, funcionários públicos, trabalhamos para quê? Para pagar uma dívida interminável. Este Governo que apóio não tem coragem de chamar o Fundo Monetário Internacional para sentar à mesa e discutir essa dívida, como teve a coragem o Governo argentino. A Argentina perto do Brasil é porcaria, porque somos uma grande nação, rica, riquíssima. Precisamos das Forças Armadas agora para resolver essa situação, porque não podemos trabalhar de manhã, de tarde e de noite, os agricultores, os trabalhadores rurais sem terra; todos os brasileiros não podem trabalhar para pagar uma dívida que já foi paga e que não existe. Precisamos das Forças Armadas para isso, com essa missão ímpar de enfrentar o imperialismo internacional que nos sufoca. O que os militares ganham hoje? Mal dá para sustentarem a família, capitão. V.Sa. e o coronel sabem disso. O que é um salário de 3 mil, 4 mil, 5mil ou 6 mil reais para sustentar uma família? A mensalidade de uma faculdade particular — porque acabaram com o ensino público — custa 600 reais, 700 reais, 800 reais. E como vamos sobreviver? Precisamos das Forças Armadas para isso; com a pistola na cintura, para dizer para esses gringos, esses agiotas internacionais que somos homens dignos de viver uma vida digna junto com nossas mulheres e nossos filhos, com a nossa família. Capitão, V.Sa., que é jovem — não sei se é capitão ou coronel, não entendo de patente militar —, tem de nos ajudar nessa tarefa. Estamos aqui neste Parlamento, enfrentei uma batalha dura contra o crime organizado no Piauí, sofri atentados à bala, nunca me demovi do meu intento, que é a justiça. Nunca fui Parlamentar. Saí de uma Promotoria de Justiça diretamente para esta Casa porque o povo quis assim, e recebi uma votação expressiva. E a Justiça nunca tomou providência em relação a isso. Tenho dois filhos que vivem escondidos, sob proteção policial. Isso tem de acabar neste País. Vamos lutar para isso. Quero as Forças Armadas democráticas que defendam

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CÂMARA DOS DEPUTADOS - DETAQ                                 COM REDAÇÃO FINAL
Nome: Comissão de Direitos Humanos
Número: 2148/03                                                                     Data: 2/12/2003  

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a democracia, e não mais os golpes, os que ceifaram a vida do grande Presidente Salvador Allende, no Chile, do nosso grande Presidente João Goulart, no Brasil, e do nosso grande Presidente Juscelino Kubitschek. Isso é o que a história registra. Nós queremos mudar a face dessa história, vamos esquecer o passado. Quem perseguiu, quem matou, quem torturou já está acabado. O Presidente Geisel disse em entrevista à revista Veja: “Eu sou contra a matança, mas era necessária.” Então, meus amigos, um homem que foi Presidente da República, cuja memória louvo, dizer isso de público, para toda a Nação brasileira ouvir, ver e ler, tenha paciência. Não é assim. A democracia não é só a do voto, não, meu coronel, é também a da escola, da educação para todos, da vida livre e feliz para todos os brasileiros. É essa a mensagem que tenho para as Forças Armadas.

Muito obrigado.

O SR. PRESIDENTE (Deputado Leonardo Mattos) - Obrigado, Deputado.

Com a palavra a Deputada Dra. Clair.

A SRA. DEPUTADA DRA. CLAIR - Sr. Presidente, senhores convidados, demais presentes, Deputados, não poderia deixar de me fazer presente nesta audiência pública, já que também tenho compromisso com os integrantes do Batalhão de Suez. Sou do Paraná, onde há muitos ex-pracinhas que participaram desse batalhão. Não, talvez, do 20º, mas dos subseqüentes. Tive a oportunidade de participar de muitas reuniões com eles. Inclusive tive acesso a diversos processos judiciais, e pude analisar os acórdãos do Tribunal Regional de Porto Alegre que deferiu direito de isonomia com os pracinhas da Segunda Guerra aos integrantes do 20º Batalhão de Suez. Não sei como está aquele processo. Na oportunidade, o acórdão era favorável, concedia isonomia. Como advogada, tive oportunidade de ingressar com inúmeras outras ações pedindo que aquela decisão fosse estendida aos demais. Considero que os integrantes do Batalhão de Suez têm direito a essa isonomia, mesmo porque não só participaram do teatro de operações, como o Brasil tem por objetivo, até na nossa Constituição, no nosso ordenamento jurídico, ao longo da sua história, dar compensações financeiras e de benefícios àquelas  

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pessoas que defendem o País no exterior, ou participam de forças de paz. O Brasil tem essa tradição. Não conheço o projeto do Deputado Pompeo de Mattos. Quero conhecê-lo, mas, apesar de ter chegado tarde, porque temos uma agenda muito séria a cumprir, com várias Comissões reunidas ao mesmo tempo, quero pôr-me à disposição para ajudar na aprovação desse projeto, respeitando meu compromisso com os integrantes do Batalhão de Suez. Hoje mesmo se realizará um jantar em Curitiba, pelo Batalhão de Suez, para o qual fui convidada, mas infelizmente estou aqui e não vou poder participar. De qualquer forma, trago minha solidariedade e meu compromisso também de lutar pela aprovação desse projeto. Quero inteirar-me do seu teor, verificar se está de acordo com o pensamento dos integrantes do Batalhão de Suez. Por último, parabenizo-o pela realização deste evento, e com certeza, vou pedir a cópia das notas taquigráficas desta audiência pública, para exame e apreciação a posteriori.

Muito obrigada.

O SR. PRESIDENTE (Deputado Leonardo Mattos) - Obrigado, Deputada Dra.

Clair. Seguramente, V.Exa. poderá pedir a degravação das fitas, e a Secretaria da Comissão fará o repasse.

Alguém deseja ainda se manifestar? (Pausa.)

Não havendo quem queira usar a palavra, declaro encerrada esta audiência pública. Agradeço profundamente a todos que vieram contribuir para a elucidação desse importante projeto de lei de autoria do Deputado Pompeo de Mattos.

Muito obrigado.  

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Theodoro da Silva Junior <theojr@terra.com.br>
23/02/2006 (01:26:58)
BTL.SUEZ - DEPOIMENTOS

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