A visita de Napoleão ao Egito, em 1798, a descoberta da pedra de
Rosetta e a decifração dos hieróglifos, pelo inglês Thomas Young e pelo francês
Jean-François Champollion, proporcionaram material para estudos mais profundos
sobre o passado do país, como os de John Gardner Wilkinson e Samuel Birch. Karl
Richard Lepsius deu a conhecer ao mundo uma grande coleção de desenhos e cópias
de inscrições. No mundo todo, diversos museus receberam numerosas doações de
antiguidades feitas por viajantes. Entre os estudiosos que mais se destacaram em
meados do século XIX estão C. W. Goodwin, Heinrich Karl Brugsch, Emmanuel de
Rougé e Joseph Chabas. Em 1858, o governo egípcio implantou uma nova política de
conservação de suas antiguidades, e nomeou Auguste-Edouard Mariette para esse
trabalho. O governo fundou um museu em Bulaq, no Cairo, que mais tarde se
tornaria o Museu Egípcio. As escavações empreendidas por Mariette, nas décadas
de 1860 e 1870, principalmente em Gizé e Saqqara, forneceram material suficiente
para suprir o museu com esculturas e antiguidades. Após a morte de Mariette, em
1881, o governo concedeu aos museus e instituições culturais o direito de
escavações no país, com a condição de que a metade dos achados passasse a
integrar o acervo do museu de Bulaq.
Métodos revolucionários desenvolvidos por William Matthew Flinders Petrie
permitiram uma mudança de atitude em relação às novas descobertas: o antigo
sistema de somente descobrir monumentos e preservá-los foi substituído por
escavações sistemáticas, com o objetivo de examinar e registrar cada objeto,
ainda que insignificante ou fragmentado, e analisar as camadas de terra em que
se encontravam. Esse método possibilitou levantar dados sobre a história dos
lugares e de seus habitantes e também sobre a arte que desenvolviam, seus
conhecimentos e sua vida cotidiana. A descoberta do túmulo de Tutankhamen, em
1922, aumentou o interesse pela egiptologia. O esvaziamento desse túmulo
exigiu um trabalho de dez anos. Seus descobridores, Lord Carvarnon e Howard
Carter, solicitaram a ajuda de diversos especialistas para a extração e
preservação dos diversos tesouros que continha. O resultado foi que uma grande
quantidade de jóias, armas, móveis e relicários transformaram o acervo do
Museu Egípcio do Cairo em um dos mais valiosos do mundo. As primeiras décadas
do século XX registraram diversas expedições financiadas pelos governos da
França, Alemanha, Estados Unidos, Itália e Polônia, e por museus e
instituições científicas. Petrie, Henry Edouard Naville, Francis Llewellyn
Griffith, A. M. Blackman, Percy Edward Newberry e T. E. Peet são alguns
estudiosos britânicos que trabalharam no Egito; também merecem destaque as
escavações dos cientistas americanos George Reisner, em Gizé e na Núbia, e de
H. E. Winlock, em Tebas. A descoberta do túmulo de Tutankhamen levantou
inúmeras controvérsias, que levaram o governo do Egito a adotar medidas
restritivas à saída de achados arqueológicos do país. Tal medida, ao
desencorajar os museus estrangeiros, que não se dispunham a financiar projetos
de que não se beneficiassem diretamente, fez com que os estudos se
transferissem do plano da escavação para o do registro. Cabe salientar nessa
área, as reproduções publicadas pelo Museu Metropolitano de Arte, de Nova
York, e os volumes editados pelo Instituto Oriental da Universidade de
Chicago. Desenvolveram-se então preciosos estudos de gabinete, como o
dicionário de língua egípcia antiga, de Adolf Erman e H. Rank, e o trabalho de
Kurt Sethe, todos alemães. Merecem citações ainda os trabalhos dos ingleses
Sir Wallis Budge, F. L. Griffith e Alan Henderson Gardiner, e dos franceses H.
Gauthier e G. Lefebvre.
Origens
Os muitos estudos de egiptologia revelaram que o povo egípcio antigo resultou
da fusão de vários grupos de origem africana e asiática, e permitiram
distinguir três tipos principais: um semítico dolicocéfalo, de estatura
mediana; outro semítico-líbio, braquicéfalo, de nariz recurvado; e um
terceiro, mediterrâneo, braquicéfalo, de nariz reto e curto. Da mistura desses
grupos resultou um povo de lavradores, no vale do Nilo, que absorveu
progressivamente os estrangeiros invasores. Até o século XIX, as únicas fontes
utilizáveis sobre as dinastias do Egito eram os relatos dos autores clássicos,
de épocas posteriores aos acontecimentos por eles descritos. Somente em 1821,
com a decifração da escrita hieroglífica, por Champollion, é que se pôde
proceder à leitura de inscrições, que iluminaram mais de três mil anos da
história da humanidade. O período histórico da civilização egípcia começou por
volta de 4000 a.C. Os primitivos clãs haviam sido transformados em províncias
ou nomos, e seus chefes elevados à dignidade real. Mais tarde foram agrupados
em dois grandes reinos: um ao norte, cujo primeiro rei-deus foi Horus, e outro
ao sul, que teve Set como primeiro rei-deus. Por volta do ano 3300 a.C.,
segundo a tradição, o reino do sul venceu o do norte. Quando as dinastias
humanas sucederam às dinastias divinas, Menés, personagem lendário e apontado
como unificador do Egito, se tornou o primeiro faraó. A capital era, segundo
alguns autores, Mênfis, e segundo outros, Tinis, nas proximidades de Abidos.
Menés é identificado como Narmeza (Narmer), representado, num relevo de
Hieracômpolis, com as duas coroas dos reinos unificados.
Dinastias
As escavações realizadas em Abidos, Saqqara e localidades próximas trouxeram
informações sobre as primeiras dinastias, denominadas tinitas por terem a
capital em Tinis. Neste período houve um aumento da prosperidade econômica do
país, incrementado pelas expedições à costa do mar Vermelho e às minas de
cobre e turquesa do Sinai. Com a III dinastia, iniciada em 2650 a.C., a
capital foi trasladada para Mênfis e os faraós iniciaram a construção das
pirâmides, grandes túmulos reais. Inicia-se então o chamado Antigo Império,
que vai até a VIII dinastia. Erguem-se as pirâmides de Quéops, Quéfren e
Miquerinos, faraós da IV dinastia, e a esfinge de Gizé. A arte egípcia já se
apresentava com todas as suas características, nessa época de maior esplendor
da civilização egípcia. O território se estendeu até a segunda catarata do
Nilo, e realizaram-se expedições à Núbia e à Líbia. Aumentou o comércio
marítimo no Mediterrâneo oriental e se iniciou a exploração das minas de cobre
do Sinai, das pedreiras de Assuã e do deserto núbio. A VI dinastia realizou
expedições à península do Sinai e sob Pepi II multiplicaram-se as imunidades
concedidas aos nobres. Os chefes dos nomos se tornaram mais independentes e
desapareceu o poder centralizador do faraó. Após longa fase de lutas internas,
que marcaram o fim do Antigo Império, o Egito entrou em decadência. No século
XXII a.C., os príncipes de Tebas afirmaram sua independência e fundaram a XI
dinastia, dos Mentuhoep, dando início ao Médio Império, que durou de 1938 a c.
1600 a.C., com capital em Tebas. Restaurou-se e consolidou-se o poder real.
Sobressaíram na XII dinastia, também tebana, Amenemés I, Sesóstris I e
Amenemés III, que colonizaram a Núbia e o Sudão, intensificaram o comércio e
as relações diplomáticas e fizeram respeitar as fronteiras egípcias. O segundo
período intermediário, que abrange da XIII à XVII dinastia, entre c. 1630 e
1540 a.C., é de história obscura. Por falta de fontes é impossível analisar o
conjunto de causas determinantes da decadência do estado tebano. Sob a XIV
dinastia ocorreu a invasão dos hicsos. Os monarcas da XVII dinastia abriram
luta contra eles e ferimentos encontrados na múmia de Seqenenre parecem
indicar sua morte em combate. Ahmés ou Ahmose I assumiu o comando, expulsou
definitivamente os hicsos e fundou a XVIII dinastia. Iniciou-se então o mais
brilhante período da história egípcia, o chamado Novo Império, entre 1539 e
1075 a.C., que abrange também a XIX, a XX e a XXI dinastias. Como grandes
conquistadores, sobressaíram Tutmés I e III, da XVIII dinastia, Ramsés II (XIX
dinastia), Ramsés III (XX dinastia) e Iknaton, Akenaton ou Amenhotep IV (XVIII
dinastia), por sua reforma religiosa. Após cerca de trinta anos de paz
interna, o Egito, rico e forte, pôde entregar-se às novas tendências
imperialistas. Tornou-se um estado essencialmente militar e por 200 anos
dominou o mundo então conhecido. Alargaram-se as fronteiras do país, da Núbia
até o Eufrates. Os príncipes da Síria, Palestina, Fenícia, Arábia e Etiópia
pagaram-lhe tributos. O tratado firmado em 1278 a.C. com Hattusilis III
terminou com a secular guerra com os hititas. O luxo e o poder econômico
refletiram-se nas grandes construções desse período. Com Ramsés XI findou o
Novo Império. Rebentaram guerras civis e o Egito entrou em decadência, perdeu
territórios e sofreu invasões. Por volta de 722-715 a.C., uma dinastia
etiópica, com capital em Napata, restaurou parcialmente a unidade nacional. Em
667 a.C., Assaradão invadiu o Egito e ocupou Mênfis. Em 664 a.C., Assurbanipal
tomou e saqueou Tebas. Os egípcios, comandados pelos chefes do delta, reagiram
e em 660 a.C., Psamético I, fundador da XXVI dinastia, expulsou os assírios. O
Egito voltou a conhecer nova fase de esplendor, chamada de renascimento
saítico, devido ao nome de sua capital, Saís. Em 605 a.C., Necau II tentou
conquistar a Síria, mas foi derrotado por Nabucodonosor. Em seu governo
concluiu-se o canal de ligação entre o Mediterrâneo e o mar Vermelho e, sob
seus auspícios, marinheiros fenícios contornaram a África. Em 525 a.C., o
último soberano nacional egípcio, Psamético III, foi derrotado e morto por
Cambises, rei dos persas, em Pelusa. O Egito foi incorporado ao império persa
como uma de suas províncias (satrapia). A partir de então, até Artaxerxes II,
reinou a XXVII dinastia persa. A organização social e religiosa foi mantida e
registrou-se certo desenvolvimento econômico. A libertação do Egito se deu em
404 a.C. Com Armiteu, único faraó da XXVIII dinastia, a aristocracia militar
do delta subiu ao poder. As instituições e a cultura revigoraram-se sob as
XXIX e XXX dinastias. Depois de saquear o país, Artaxerxes III restaurou a
soberania persa, em 343 a.C. O segundo período da dominação persa terminou em
332 a.C., quando Alexandre o Grande da Macedônia, vitorioso, entrou no Egito,
após derrotar Dario III.
Período macedônio ou ptolomaico
Nesse período, que vai até o ano 30 a.C., Alexandre foi recebido como
libertador e fez-se reconhecer como "filho de Amon", sucessor dos faraós,
prometendo respeitar as instituições e restaurar a paz, a ordem e a economia.
Lançou as fundações da cidade de Alexandria. Com sua morte em 323 a.C., o
controle do Egito passou a um de seus generais, Ptolomeu, que a partir de 305
a.C. iniciou a dinastia dos lágidas. Dentre seus herdeiros destacaram-se,
inicialmente, Ptolomeu Filadelfo, cujo reinado durou de 285 a 246 a.C. e se
notabilizou pela expansão comercial, a construção de cidades, e a criação de
um museu e da biblioteca de Alexandria; sucedeu-lhe Ptolomeu Evérgetes, que
reinou de 246 a 222 a.C. e impulsionou as letras e a arquitetura; e finalmente
Ptolomeu Epífano, coroado em 196 a.C., que foi homenageado com a redação do
decreto da pedra de Rosetta, em 204 a.C. Atacado por reinos helenísticos, o
Egito colocou-se sob proteção romana, com submissão cada vez maior.
Seguiram-se vários e cruéis reinados dos lágidas, até Ptolomeu Auletes que,
com apoio romano, permaneceu no poder até 51 a.C., quando foi expulso pelos
egípcios. Sua filha Cleópatra VII desfez-se, sucessivamente, de dois irmãos e
apoiou-se no imperador romano Júlio César. Com a morte deste, em 44 a.C.,
ligou-se a Marco Antônio, mas diante da derrota frente às esquadras romanas, e
do assassinato, ordenado por Otávio, do jovem Ptolomeu César, filho que tivera
com César, suicidou-se em 30 a.C. O Egito foi então transformado em província
romana. Soberanos de direito divino e culto imperial, os lágidas restauraram
os templos, honraram a classe sacerdotal e entregaram a administração aos
gregos. Alexandria, cidade grega por suas origens, comércio e cultura, foi o
centro intelectual e comercial do mundo helenístico.
Período romano-bizantino
Em 30 a.C., iniciou-se o período romano-bizantino. A minoria romana conservou
a organização da época helenística, com base nos nomos (províncias). O
camponês era esmagado por altos impostos e requisições. A indústria e o
comércio, que deixaram de ser monopólio estatal, ganharam impulso e atingiram
as mais distantes regiões. A passagem dos romanos foi marcada ainda pela
construção de estradas, templos, teatros, cisternas, obras de irrigação e
cidades. Uma destas foi Antinópolis, construída por Adriano. No final do
século II da era cristã generalizaram-se os ataques nômades às fronteiras
(Líbia, Etiópia, Palmira) e as perseguições ligadas à expansão do
cristianismo. Após Constantino, começam as disputas religiosas. Em 451 a
adesão da igreja alexandrina ao monofisismo levou à formação de uma igreja
copta, distinta da grega, e dessa forma o que era tido como heresia, por força
das perseguições imperiais, transformou-se na religião nacional egípcia. Com a
divisão do Império Romano verificou-se uma progressiva substituição de
Alexandria por Constantinopla em importância cultural e econômica. No século
VI o declínio econômico era generalizado em todos os setores. E no início do
século VII os árabes foram recebidos como autênticos libertadores.
Período medieval
Época árabe. No ano 640, com a conquista do Egito pelos árabes, começou a era
medieval, que durou até 1798. O período árabe caracterizou-se por lutas
internas e constante troca de emires. A difusão do árabe e do islamismo
transformou a invasão muçulmana na mais importante de todas as que o Egito
sofreu. De sua história restou o copta, designação apenas religiosa. A
princípio o Egito foi transformado em uma província do califado dos omíadas,
de Damasco, que transferiram a capital para al-Fustat, construída nas
imediações da fortaleza da Babilônia, erguida pelos romanos, no lugar hoje
ocupado pela cidade velha do Cairo. Os omíadas conservaram o sistema
administrativo egípcio e seus funcionários, mas o governo era exercido por um
emir, auxiliado por um amil, ou diretor de finanças. O processo de islamização
reacelerou com os abássidas, de Bagdá, cujo poder, no entanto, enfraqueceu ao
longo do século IX.
Época independente
Este período corresponde a quatro dinastias, entre 868 e 1517: os tulúnidas,
os ikhchiditas, os fatímidas e os aiúbidas. Compreende ainda um domínio por
parte dos mamelucos. A dinastia dos tulúnidas dominou de 868 a 905 e foi
fundada pelo oficial turco Ahmad ibn Tulun, que proclamou a independência do
país em relação a Bagdá. Os ikhchiditas governaram independentemente entre 939
e 968, depois de um breve retorno a Bagdá. Entretanto, um novo poder militar
agressivo, oriundo da Tunísia, se apoderou do Egito, sob a família dos
fatímidas, que se consideravam descendentes do califa Ali e de Fátima, filha
de Maomé. Adeptos da doutrina xiita, governaram entre 969 e 1171. Uma nova
capital foi fundada, al-Qahira (Cairo) em 988, e o Egito, organizado como
califado, passou a usufruir de notável desenvolvimento econômico e cultural.
Foi fundada a mesquita e a universidade de al-Azhar, em 970, e o tesouro dos
califas passou a incluir a mais valiosa biblioteca do mundo muçulmano da
época. As disputas internas possibilitaram a intervenção do sultão de Damasco,
Nur-al-Din, por intermédio do general Shirgu e de seu sobrinho Saladino (Sala
al-Din Yusuf ibn Ayyub). Este, feito vizir em 1169, proclamou-se sultão do
Egito logo após a morte do califa, dando início à dinastia dos aiúbidas, que
reinaram de 1171 a 1250, e destacaram-se como grandes administradores.
Reconstituíram um grande estado, da Tripolitânia à Mesopotâmia, dedicaram-se à
agricultura de irrigação, ao comércio, às obras militares, à construção de
escolas, hospitais e mesquitas. Lutaram contra os cruzados na Palestina, porém
lutas internas minaram o poder. A crescente influência de oficiais mamelucos
(conjunto de diferentes etnias, tais como turcos, mongóis, curdos etc.),
tornou-se preponderante. Uma milícia de mamelucos bahri, isto é, "do rio",
tomou o poder em 1250 sob o comando de Izz al-Din Ayback. Os sultões mamelucos
imperaram no Egito até 1517. Embora o período fosse de paz e prosperidade
econômica, ocorreram tremendas perseguições a judeus e cristãos. Com os
mamelucos, cessou qualquer sucessão hereditária e o sultão passou a ser eleito
pelos emires, o que caracterizou uma verdadeira oligarquia feudal-militar.
Domínio otomano
Em 1517 Selim I derrotou o último sultão mameluco, Tuman-bei, e iniciou o
período de domínio turco, caracterizado por tirania e instabilidade. No século
XVIII o paxá era figura decorativa e sucediam-se as lutas pelo poder entre os
beis. Foi nessas condições que Napoleão Bonaparte conquistou o Egito, em 1798,
na batalha das Pirâmides.
Período moderno
A ocupação francesa durou apenas três anos, até 1801, mas teve conseqüências
importantes. Seguiram-se importantes reformas públicas e empreendimentos
culturais que sacudiram o país do torpor medieval e o levaram à modernização.
Marco desse período foi a fundação do Instituto do Egito e, mais tarde, a
publicação dos trabalhos realizados por seus membros: Description de l'Egypte
(1809-1828; Descrição do Egito) espécie de enciclopédia que despertou grande
interesse na Europa. Turcos e mamelucos, divididos em facções rivais, ficaram
no Egito após a saída dos franceses. Os choques eram atenuados pela presença
britânica, até 1803. O hábil chefe albanês Mohamed Ali aproveitou-se das
oportunidades com inteligência e crueldade e massacrou os mamelucos em duas
oportunidades: 1805 e 1811. Déspota e centralizador, procurou a modernização
do país. Numa guerra que se prolongou até 1818, conquistou a Arábia e lutou
contra os uaabitas; entre 1820 e 1823 conquistou o Sudão; entre 1823 e 1827
empreendeu campanha contra a Grécia; e entre 1831 e 1841 lutou sem êxito para
conquistar a Síria, mas conseguiu ter reconhecido o direito ao governo
hereditário do Egito, logo estendido ao Sudão. Em 1849 seu neto Abbas Hilmi,
fanático e negligente, assumiu o poder, expulsou os franceses que colaboraram
com a administração e reagiu contra a obra do avô, exceto no estatismo
econômico. A situação só se modificou quando o filho mais moço de Mohamed Ali,
Said, deu continuidade à obra paterna e, entre 1854 e 1863, trouxe de volta os
colaboradores estrangeiros, suprimiu monopólios econômicos e, apesar da
oposição dos ingleses, autorizou o início da construção do canal de Suez. A
obra de modernização foi interrompida em 1875, com a derrocada financeira e a
venda de ações do canal de Suez, compradas pelo Reino Unido por quatro milhões
de libras. O país estava sob a responsabilidade de Ismail, sobrinho de Said.
Diante da situação, em 1878 o governo foi obrigado a incluir no gabinete dois
controladores-gerais de finanças, um inglês e um francês. Em 1879, por
imposição das potências estrangeiras, Ismail foi deposto e para seu lugar
indicado o sultão quediva Tawfic, que restabeleceu o domínio franco-inglês.
Pressões nacionalistas se sucederam, lideradas por militares e, em 1882, uma
demonstração naval franco-britânica diante de Alexandria precipitou a reação
popular. Os franceses se retiraram, mas os ingleses bombardearam Alexandria
sob o pretexto de "defesa dos súditos e dos bens estrangeiros e cristãos". Em
julho de 1882 as tropas desembarcaram, e foram bem recebidas pelo quediva.
Ocupação britânica
A ocupação do Egito pelos ingleses deveria ser temporária, mas se prolongou
até 1914. A França era hostil à ocupação, até que em 1904, por um acordo
assinado em Marrocos, o país renunciou a seus direitos. Internamente
sucediam-se as trocas de quedivas. Os ingleses nomearam um cônsul-geral e
interferiam na vida do país como se este fosse uma autêntica colônia. O Egito
foi relegado à condição de mero fornecedor de matéria-prima, o algodão, para a
indústria inglesa. Despertado o nacionalismo egípcio, as reações tornaram-se
constantes. A primeira guerra mundial veio provocar uma mudança no regime. Em
18 de dezembro de 1914, o Reino Unido decretou o protetorado do Egito e
anunciou o fim da suserania otomana. Abbas II foi destituído, por aderir aos
turcos. Terminada a guerra, os egípcios, sob a liderança de Zaghlul, exigiram
que seu país tivesse autonomia e constituíram uma delegação (wafd) para
negociar em Londres as condições da independência. A oposição inglesa provocou
reações. Zaghlul foi detido e deportado (1919). Entretanto, em março de 1922
uma declaração do Reino Unido reconheceu a independência do Egito, com algumas
condições, como a manutenção do controle britânico sobre o canal de Suez, e a
15 de março Fuad tornou-se rei do Egito.
Egito independente
O processo de emancipação avançou lentamente, mas acelerou-se após a segunda
guerra mundial, quando uma revolução nacionalista, em 1952, depôs a monarquia.
A declaração do Reino Unido, unilateral, reconhecera o Egito como estado
soberano, mas reservara quatro pontos a serem resolvidos por acordo: o direito
de linhas de comunicação com seu império; a proteção dos estrangeiros e das
minorias do país; a defesa militar do Egito; o domínio inglês sobre o Sudão. A
partir de 1928, Fuad I desentendeu-se repetidamente com o Wafd (agora um
partido nacional), liderado por Zaghlul, e em 1930 instaurou um regime de
exceção. Em 1936 subiu ao trono Faruk I e o Wafd ganhou as eleições. O domínio
italiano na Abissínia veio acelerar o acordo entre a corte egípcia e o Wafd,
que se cindiu em dois grupos. Sob pretexto de ameaça de guerra, os britânicos
conservaram suas tropas no Egito, como "aliadas". Durante a segunda guerra, na
qual o Egito se transformou em campo de batalha entre britânicos e alemães,
aqueles ampliaram sua influência, impondo Nahhas paxá como primeiro-ministro.
O regime se enfraquecia dia a dia, situação que se agravou com os problemas
econômicos e sociais do pós-guerra. No plano interno o Egito manobrou
ativamente pela constituição da Liga Árabe, por sua participação na
Organização das Nações Unidas e pela luta contra o recém-criado Estado de
Israel (1948), que levou ao armistício imposto pela ONU em 1949. A agitação
antibritânica chegou ao máximo em janeiro de 1952, quando a agitação social
promovida pela Irmandade Muçulmana desembocou no golpe de 1952, liderado pelo
general Mohamed Naguib. O rei Faruk abdicou e em fevereiro de 1953 Naguib
tornou-se ditador.
República
A 18 de junho de 1953 foi proclamada a república, com Naguib na presidência,
apoiado pelo líder Gamal Abdel Nasser. Em 1954, Nasser liderou um conflito
contra seu ex-aliado e saiu vencedor. Naguib foi deposto e Nasser assumiu o
governo. Após a aprovação plebiscitária da constituição de 1956, Nasser foi
eleito presidente pela assembléia nacional e confirmado no cargo pelo voto
popular, com grande soma de poderes. O novo governo lançou-se a uma política
de modernização das estruturas econômicas, sociais e militares do país. Em
1956 os Estados Unidos retiraram a oferta de financiamento da represa de Assuã.
Como resposta, o Egito nacionalizou o canal de Suez. Tal medida provocou
intervenção militar da França, Reino Unido e Israel, terminada com mediação da
ONU. Depois da efêmera união com a Síria na República Árabe Unida (1958-1961),
presidida por Nasser, este reforçou os vínculos com a União Soviética. A
constituição de 1964 adotou para o país o regime democrático e socialista, e
um plebiscito realizado em 1965 confirmou Nasser na presidência. As disputas
entre os países árabes e Israel se intensificaram e agravaram-se em 1967,
quando a aviação israelense, entre 5 e 8 de junho, destruiu grande parte da
força aérea egípcia, na chamada guerra dos seis dias, enquanto tropas de terra
ocupavam a faixa de Gaza e toda a península do Sinai, às margens do canal de
Suez. A intervenção da ONU fez cessar o conflito. Nasser assumiu a
responsabilidade pela derrota e renunciou, mas um amplo movimento popular o
manteve no poder. Com a morte de Nasser, em 28 de setembro de 1970, assumiu o
vice-presidente Anwar al-Sadat, que no ano seguinte afastou os nasseristas de
esquerda, procurou com habilidade neutralizar os árabes mais radicais, como o
coronel Kadafi, da Líbia, e o presidente da Síria, Hafez al-Assad. Tentou a
formação de uma Federação das Repúblicas Árabes, mas o projeto não se
concretizou. Em 1976, anulou o tratado de amizade e cooperação com a União
Soviética, firmado em 1971, e que deveria se prolongar por 15 anos. A
iniciativa da guerra de 1973, contra Israel, e seu desempenho à frente das
forças egípcias, deram a Sadat prestígio e autoridade para empreender uma nova
política, de paz com Israel, reaproximação com o Ocidente e desenvolvimento
nacional. A 19 de novembro de 1977, foi recebido festivamente pelos
israelenses em Jerusalém, onde cumpriu, segundo suas próprias palavras, uma
"sagrada missão de paz". Essa iniciativa teve vários desdobramentos:
conversações no Cairo; uma conferência de cúpula entre Sadat, o
primeiro-ministro israelense Menahem Begin e o presidente americano Jimmy
Carter nos Estados Unidos; e os acordos de Camp David. Denunciados pelos
demais países árabes e pela Organização para Libertação da Palestina (OLP),
mas ratificados pelos governos do Egito e de Israel, esses acordos
constituíram a base do tratado de 1979, que deu aos dirigentes egípcio e
israelense o Prêmio Nobel da paz de 1978. Em 1981, Sadat fez um extenso
expurgo nas fileiras da oposição política e religiosa. A 6 de outubro foi
assassinado por militares radicais. O vice-presidente Hosni Mubarak assumiu o
cargo e iniciou uma política de reconciliação interna. Em 1982, depois de
conseguir a devolução do Sinai -- em poder de Israel desde a guerra de 1967 --
nos termos do acordo de Camp David, Mubarak distanciou-se de Israel e voltou a
se aproximar da União Soviética e dos países árabes. Consumada a invasão do
Kuwait pelo Iraque (agosto de 1990), o Egito teve atuação destacada no
conflito pelo qual o território kuwaitiano foi libertado no começo do ano
seguinte.
Cultura
Malgrado a herança das antigas civilizações que ocuparam seu território, o
Egito faz parte do mundo cultural árabe-islâmico. O estado promove a cultura
por meio do Instituto do Egito, fundado em 1859, sobre a base de um instituto
criado por Napoleão, e da Academia de Língua Árabe, fundada em 1932. Outras
instituições, também sob administração do Ministério da Cultura, se dedicam ao
fomento das artes, letras e ciências. Diversos museus conservam o rico
patrimônio cultural legado pela antiga civilização.
Arte
A tradição árabe, com influências ocidentais e peculiaridades autóctones,
determinaram as manifestações artísticas do Egito moderno. O campo da música,
na segunda metade do século XX, recebeu incentivos governamentais com vistas a
um retorno a suas raízes tradicionais. O estilo ocidental adaptado à
personalidade egípcia marcou as composições de Yusuf Greiss e Abu Bakr Jariat.
O retorno ao folclore se manifestou também nas demais artes, com destaque para
a dança, a pintura e as atividades artesanais. Os temas melodramáticos e a
mensagem nacionalista marcaram a produção cinematográfica egípcia. Após a
nacionalização do cinema egípcio, em 1963, prevaleceu um estilo realista,
orientado para os problemas sociais da vida no campo e do trabalhador urbano